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Baques Sanna - Fevereiro 2012

  • Belo Horizonte - Baques Sanna - Arquivo / IER
  • Baques Sanna - Arquivo / IER

O diretor-geral do Instituto Estrada Real, Baques Sanna, é o entrevistado do descubraminas.com deste mês. Baques citou as expectativas do turismo em Minas para o Mundial de 2014, falou sobre o potencial mineiro para receber bem as visitas e sobre os projetos do Instituto para conservar a mineiridade, que só Minas oferece.


"A Estrada Real é cheia de “causos”, muito rica em histórias e estórias”.


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Em 2013 e 2014, devido a grandes eventos, Minas Gerais receberá muitos visitantes. Qual é a expectativa de aumento no fluxo de turistas na Estrada Real?
Baques Sanna
- A expectativa é muito grande, por uma série de razões. Primeiro, nós estamos, juntamente com outras entidades parceiras, principalmente as do Sistema S, que são Sesc, Senac - da Fecomércio -, Sebrae e Sesi e Senai, que são do Sistema Fiemg, preparando uma série de adequações ao setor turístico para receber bem o turista. Estamos preocupados desde com a infraestrutura, como, por exemplo, Belo Horizonte, que vai ter até a Copa de 2014 70 novos hotéis.


No interior, eu diria que já temos perto de uma centena de hotéis em construção. Evidentemente que não só de olho no turista que virá para o Mundial, Copa das Confederações ou Jogos Olímpicos, mas em busca de um turista internacional que está descobrindo cada vez mais o Brasil.


Dentro de nossos planos está incluída a divulgação maciça de Minas Gerais no exterior, e, por vias de consequência, a Estrada Real (ER). Temos a intenção de fazer viagens à Europa, para difundir mais as características e as possibilidades de recebermos o turista torcedor, que visa a multiplicar esta experiência aqui para outros tipos de turistas e também aos Estados Unidos (EUA), pois, na última Copa do Mundo, o país que mais comprou ingressos foram os EUA.


A Fiemg, em parceria com o Governo do Estado e o Sebrae, mantém um escritório em Nova York e nós vamos fazer deste escritório um polarizador e distribuidor de informações sobre Minas Gerais, para atrair turistas para Minas e também novos negócios.


DM - Você acredita que a Estrada Real já oferece um diferencial em relação à prestação dos serviços de qualidade necessários para atender ao turismo na Copa do Mundo de 2014?
BS -
Sim e não é uma resposta muito ambígua, mas, justificando meu sim e não, acredito sim que a Estrada Real tem condições de oferecer ao turista uma gama completamente diferenciada de opções.


Normalmente, o turista que vem ao Brasil vem atrás de sol e praia, mas a ER se propõe a oferecer ao turista que já conhece o Brasil litorâneo, que venha conhecer o Brasil mediterrâneo, que tem uma cultura riquíssima, uma gastronomia absolutamente diferenciada, que tem a possibilidade de um contato maior com a natureza e que mostra um Brasil muito diferente do Brasil litorâneo, com casarões históricos, da época da Colônia, um país riquíssimo em diversidade cultural.


Nós temos na nossa cultura um traço muito forte da cultura europeia, da cultura africana, que são um diferencial. Quanto à parte de infraestrutura propriamente dita, evidentemente que as estradas e os aeroportos são responsabilidade dos governos Estadual e Federal, e precisam de uma atenção maior.


Em nível de aeroportos, eu queria abrir parênteses e dizer que Minas Gerais têm mais de 90 aeroportos regionais, ou seja, muito mais do que a própria Infraero administra no Brasil como um todo, e que o ex-governador e atual senador Aécio Neves, em um dos últimos atos da administração como governador, liberou uma verba para aeroportos e declarou que nenhuma cidade de Minas ficará há mais de 100 quilômetros de um aeroporto até a Copa do Mundo, quer dizer, isso é um facilitador muito grande para que o turista venha, fique em Minas Gerais e possa acompanhar os jogos do Mundial.


DM - Qual será a tática do Instituto Estrada Real para garantir a permanência desse turista no Estado?
BS -
Nós temos varias táticas. Uma delas é a seguinte: se você colocar um compasso com a ponta em Belo Horizonte e abrir um raio de 1000 quilômetros, que corresponde a mais ou menos uma hora de vôo de um avião a jato, você passa a ter cinco sedes de jogos da Copa do Mundo, a própria Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Todas essas outras quatro cidades têm vôo direto de Belo Horizonte e nessas cinco cidades serão realizados 32 dos 64 jogos da Copa, ou seja, o turista que ficar em BH vai ficar a menos de uma hora de vôo direto de metade dos jogos.


Uma segunda coisa que a gente está reforçando na divulgação é a hospitalidade mineira, que já é conhecida fora do País. Outro atrativo seria o clima de Minas Gerais, que se aproxima muito mais do clima europeu e norte-americano que o clima do litoral, deixando claro que não tenho nada contra o turismo de sol e praia, mas nós estamos competindo com outras 11 sedes quem vai atrair mais turistas para a Copa do Mundo.


No turismo, a propaganda boca a boca é muito forte e positiva, uma das provas disso é Santiago de Compostela. Nunca vimos uma propaganda de Santiago, apenas ouvimos alguém falar, então, querendo enfatizar essas atrações de Minas seguindo os passos de Santiago, fazendo com que o turista venha, conheça, seja bem tratado, goste e recomende.


DM - De que forma a efetivação de parcerias com outras instituições pode ajudar no aperfeiçoamento das ações promovidas pelo Instituto Estrada Real?
BS
-Todos nós temos suas expertises, por exemplo, o Sebrae, que é uma autoridade mundial em micro e pequenas empresas, e nós sabemos que na Estrada Real 90% dos empreendimentos são micro e pequenas empresas.


Nós sabemos também que a Fecomércio tem turismo no nome, Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais, sendo assim, a Fecomércio tem uma expertise muito grande em turismo. Por isso, nós estamos agregando o Sistema Fecomércio, principalmente quanto à capacitação e sensibilização, e todos os envolvidos vão contar com o pessoal do Senac e Sebrae.


A Setur (Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais) também é nossa parceira, juntamente com a Secopa (Secretaria de Estado Extraordinária da Copa do Mundo) e a Secretaria de Cultura, pois é absolutamente inviável falar de turismo sem falar em cultura e vice-versa.


Juntos, estamos tentando divulgar as potencialidades, preparar o pessoal que vai ter contato direto com o turismo, o setor de serviços, e sensibilizar a população, para bem receber esse turista numa parceria "ganha/ganha", ou seja, ganham as entidades do Sistema S, ganham as secretarias, as cidades, que passam a ter uma economia mais diferenciada, e ganha a população, que passa a ter mais chances de desenvolvimento.


No fundo, isso criará mais empregos, mais renda para cidade, vai contribuir para a redução de desigualdade social, sem esquecer os critérios de sustentabilidade e proteção ao meio ambiente, garantia de um futuro melhor para os nossos descendentes.


DM - Quais as ações o Instituto e os empresários da Rede de Empresários da Estrada Real desenvolvem para a prática do turismo sustentável?
BS
- O Instituto Estrada Real é uma ONG do Sistema Fiemg, que tem um programa chamado Minas Sustentável, então, nós estamos trabalhando absolutamente em consonância com esse programa.


Minas Gerais, eu posso praticamente garantir, vai dar um show em sustentabilidade, em boas práticas de turismo sustentável, a começar pelo Mineirão, que terá um painel que vai gerar energia elétrica, esta mesma cobertura irá captar água da chuva para irrigação e limpeza do estádio, todas as árvores que foram retiradas do estádio para esta reforma foram encaminhadas para artesãos que estão transformando a madeira em objetos úteis, todo entulho - cimento, concreto e asfalto - retirado do local foi reaproveitado.


No Norte de Minas e Jequitinhonha, plantações de eucalipto substituíram o carvão mineral, então, a simples troca desse carvão mineral pelo vegetal, que é renovável, reduz poluição e custo de produção. Sem falar em combustível, o biodiesel e o etanol são realidades que estão sendo copiadas pelo mundo inteiro.


Sendo assim, a Copa Verde do Brasil vai ser uma realidade e Minas Gerais está absolutamente preparada para isso, uma vez que os empresários mineiros estão imbuídos neste espírito.


DM - Sobre o carnaval, que acontece este mês, há uma programação especial desenvolvida para os turistas que visitarão as cidades que fazem parte da Estrada Real, principalmente Diamantina, Tiradentes e Ouro Preto?
BS
- O carnaval de Minas Gerais é muito famoso nas cidades históricas e há uma programação especial que está sendo desenvolvida em parceria com as prefeituras e com as secretarias de Estado de Turismo e Cultura. Esta é uma época em que as cidades, principalmente as históricas, ficam lotadas devido a um carnaval que já virou tradição em Minas Gerais, então precisamos deixar tudo preparado para a chegada do turista.


DM - Este ano, o Brasil terá a mais extensa rota de peregrinação da América Latina, o Caminho Religioso da Estrada Real (Crer), que ligará o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Minas Gerais. De que forma a Estrada Real contribuirá para o turismo religioso?
BS -
Este projeto, Crer, que é o Caminho Religioso da Estrada Real e tem o subtítulo "De padroeira a padroeira", tem uma ligação muito grande com a Estrada Real, pois os pescadores resgataram a estátua de Nossa Senhora Aparecida mais ou menos na época da construção da ER. Logo, este caminho religioso está sendo construído e desenvolvido pela Secretaria de Estado de Turismo e nós estamos dando todo apoio, fornecendo nosso banco de dados e informações georreferenciadas.


Este é um projeto muito interessante porque em Minas Gerais já existe uma série de peregrinações, e o conceito do Crer é juntar todas essas mini-peregrinações numa romaria grande que não precisa e não deve ser feita de uma vez só, a exemplo de Santiago de Compostela. Você pode fazer parceladamente e terá, ainda, um passaporte para ir carimbando os trechinhos que for fazendo.


É um projeto super importante, que conta com o apoio imprescindível de Dom Valmor e das Arquidioceses de Belo Horizonte e de Aparecida.


DM - Conte-nos sobre algum acontecimento marcante nesses quase cinco anos de trabalho no Instituto.
BS -
São muitas coisas que chegam a nos emocionar, às vezes pela simplicidade, às vezes pela característica. Vou citar um caso que eu gosto muito e que mostra como a improvisação e a criatividade às vezes resolvem um problema.


Em Catas Altas da Noruega, há uma grande igreja em homenagem a São Tiago, padroeiro da cidade. Há algum tempo, o padre da comunidade, ao notar que os fiéis estavam frequentando pouco a missa, resolveu fazer no Dia de São Tiago, 25 de julho, uma caminhada que passava em vários trechos da cidade até chegar à igreja, e dar início à missa. Foi um sucesso! No ano seguinte, quando ele foi repetir o evento, recebeu a visita de um morador pedindo autorização para colocar uma barraca no largo da igreja, para vender água e tira-gosto. O padre concordou e combinou que o comércio só poderia ser feito após o término da missa. Quando a celebração acabou, o padre foi conferir os quitutes da barraca ao lado da igreja e viu que o único alimento vendido pelo morador era costela frita. Ao perguntar para o pequeno comerciante sobre os outros produtos, obteve a seguinte resposta: - É que a partir de hoje, padre, vou apelidar esta caminhada de "Caminhada de São Tiago com costela".


Para você ter uma ideia, ano passado participaram da caminhada aproximadamente 500 pessoas e, segundo informações que eu tive, oito ou doze eram estrangeiros que vieram conhecer o evento. Então, a Estrada Real é cheia de "causos", muito rica em histórias e estórias. Acredito que esses acontecimentos da ER acabam virando um atrativo a mais para o turista.


DM - A Estrada Real abrange 169 municípios apenas em Minas Gerais. Como é feita a administração nessas diferentes regiões?
BS -
Nós hoje temos cinco escritórios regionais, que ficam instalados em uma determinada cidade, mas atendem todo o entorno. Temos escritórios em Diamantina, Serra do Cipó, Ouro Preto, Tiradentes e no Caraça.


Nós estamos com planos para o segundo semestre de abrir escritórios em Juiz de Fora, no Circuito das Águas, provavelmente em São Lourenço, um em Carrancas, um no Rio de Janeiro, em Paraty ou Petrópolis, e um em São Paulo, talvez em Lorena. Com isso, a gente mantém em cada escritório um turismólogo e um estagiário e eles são os nossos interlocutores com as cidades da região.


DM - Atualmente, está prevista a promoção da ER em outros estados brasileiros. Como será feita esta divulgação?
BS -
Vamos levar a Estrada Real através da mídia, por meio de publicações e apresentações desse projeto, mostrando o que está sendo feito para atrair turistas e abrindo esta nossa ação para qualquer Estado que queira seguir os mesmos caminhos.


Ano passado, nós já fizemos apresentações no Nordeste e no Sul do País e, este ano, devemos intensificar ainda mais a divulgação. No exterior, nós vamos explorar muito as grandes feiras de turismo, apresentando Minas Gerais ao mundo e mostrando que é uma alternativa válida para que o turista tenha uma estadia mais prazerosa no Brasil.


Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
BS -
Tenho uma admiração muito grande pelo Dr. Tancredo Neves e pelo Dr. Juscelino Kubistchek.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
BS -
Tradicionalmente, eu diria que Oh! Minas Gerais é a música que espelha os mineiros.


DM - Adoro um bom prato de...
BS -
Comida mineira. Um feijão tropeiro é absolutamente imprescindível.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
BS -
As cidades históricas oferecem muita riqueza de detalhes, de informações e de cultura.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
BS -
Eu levo sempre lembranças de Minas Gerais e procuro levar também muito artesanato mineiro.


DM - Qual cantor melhor representa Minas?
BS
- Acho que tem muitos cantores que representam muito bem Minas. Para mim, o Toninho Horta cumpre esse papel, assim como Milton Nascimento.


DM - A paisagem que te inspira...
BS -
Muitas em Minas, mas a Cachoeira do Tabuleiro é uma belíssima paisagem.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
BS -
América


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
BS
- Na roça.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
BS -
Da mineiridade, da mineirice que não existe em lugar nenhum do mundo.


DM - Minas Gerais é...
BS -
Um Estado que tem crescido em todos os aspectos, social, econômico e esportivo. É um Estado que tem muito a dizer e deve ser ainda mais divulgado.


*Estagiária de produção: Caroline Melo

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