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Lô Borges - Março 2012

  • Belo Horizonte - Lô Borges - Pedro David

Salomão Borges Filho, mais conhecido como Lô Borges, é o entrevistado do Descubraminas.com deste mês. O cantor mineiro falou sobre sua infância no bairro Santa Tereza, juventude no Centro da capital e dedicação pela arte de compor músicas.


"Tenho um verdadeiro fascínio pelo desconhecido, então eu mesmo fico curioso para saber para onde minha cabeça vai, seguindo minha intuição. Sou uma pessoa esforçada, determinada e que ama a composição".


Por Roberta Almeida


Descubraminas -
 O boêmio bairro de Santa Tereza é considerado uma cidade de interior dentro de Belo Horizonte. Como foi sua infância e adolescência na capital mineira?
Lô Borges - Eu nasci em Santa Tereza, próximo à casa do meu pai, na rua Dores do Indaiá, e aqui vivi até os 10 anos de idade. Cresci numa família numerosa, juntamente com meus irmãos, mas quando fui para o Centro de Belo Horizonte foi que minha vida começou a se transformar. Eu tinha 10 anos, época da puberdade, quando você vai descobrindo as coisas, essa foi a época que eu comecei a descobrir música, descobrir Beatles, e isso tudo foi sendo desenvolvido no Centro da capital.


Já no finalzinho da minha adolescência, com 16 anos, eu voltei a morar em Santa Tereza e foi o reencontro com a minha infância, onde eu brincava como toda criança, aquela coisa bem rural que BH era. Eu sei é que ter mudado para o Centro da cidade foi uma parte crucial na minha vida, tanto profissional quanto pessoal, pois muita coisa aconteceu nesse período. No entanto, voltar para Santa Tereza também foi muito importante, pois foi nesse período que aconteceram os encontros na esquina das ruas Paraisópolis com Divinópolis, que a gente chamava de lugar do clube da esquina, onde ficávamos tocando violão.


DM - Ainda em Santa Tereza, berço de toda uma geração de músicos, também nasceu o Clube da Esquina, movimento musical liderado por você e Milton Nascimento. Conte-nos um pouco sobre os encontros que aconteciam na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis.
LB - Na verdade, existiram dois tipos de clube, tem o clube da esquina físico, que ficava na Paraisópolis com Divinópolis e era uma realidade da minha vida pessoal, onde encontrávamos, eu e meus amigos do bairro - não os meus amigos músicos -, para cantar e tocar violão, e eu era o único que tocava, mas tinham os encontros paralelos, que aconteciam em outros pontos de Belo Horizonte.


Eu já conhecia o Beto (Guedes), de quando morei no Centro, o Toninho Horta, o Flávio (Venturini), mas essas pessoas não vinham aqui nessa esquina. Então temos dois clubes distintos, o que ficou famoso e o que realmente acontecia na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, com os meus vizinhos de bairro.


DM - Você tem algum acontecimento marcante da época das "reuniões" do clube dos músicos?
LB - Eu me lembro do Festival da Canção, que aconteceu onde é hoje o Minascentro, com os seguintes participantes: eu e Beto Guedes, com a música "Equatorial", com letra de Márcio Borges, entrei também com a música "Clube da Esquina I", o Tavinho Moura entrou com "Como vai minha aldeia", o Toninho Horta entrou com a música "Yarabela" e "Canto de Desalento".


Foi um festival interessante, pois todo mundo que se encontrava nos bares, no Centro da cidade ou nas casas para cantar, teve a oportunidade de em uma noite dividir um evento tão marcante. Era a nossa estreia.


Quando acabou o festival, minha família numerosa e sempre muito animada convocou todo mundo que participou da festa, para "tomar umas" aqui na minha casa, veio todo mundo para Santa Tereza, o festival inteiro, todo o Clube da Esquina. Eu lembro que veio a Beth Carvalho, a Joyce, Naná Vasconcelos, entre outros. A casa ficou cheia de gente. Quando acabou o evento, parece que ele continuou aqui. Esse foi um fato muito marcante dessa época.


DM - Já em 1972, foi lançado o LP "Clube da Esquina". Qual foi a responsabilidade em dividir o disco com Milton Nascimento e, de certa forma, garantir a projeção da carreira individual de muitos dos músicos participantes desse trabalho?
LB - Eu costumo dizer que a responsabilidade de ser convidado, aos 17 anos, pelo Milton Nascimento, que já era famoso e eu era um desconhecido, para fazer um disco e mudar de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro foi fundamental para minha vida. Eu era menor de idade, tinha que ter autorização da minha mãe, era época da Ditadura Militar, então eu tive que convencer minha família.


Quando fui comunicar ao Milton que havia conseguido permissão, aproveitei para falar que só iria se pudesse levar o Beto Guedes, que era da minha geração e que gostava de tocar as mesmas coisas que eu, que era Beatles. Fomos eu e Milton pedir permissão aos pais do Beto, para que ele nos acompanhasse na aventura. Não tivemos problemas, os pais dele foram até mais liberais que os meus, o Beto foi autorizado.


Já no Rio, comecei a compor, cheguei lá com 17 anos e o disco só saiu quando eu tinha 20, mas precisávamos desse tempo para fazer as músicas. Sobre estas gravações com orquestra - eu nunca tinha tocado com orquestra e nem com nada, totalmente leigo -, eu costumo dizer que precisava me revestir de uma "saudável irresponsabilidade", pois não podia ficar estressado, já que a pulsação do maestro estava na minha mão. Como eu não sabia teoria musical e estava tocando com músicos famosos, ou eu tinha que ficar relaxado e acreditar que todo mundo ali era meu amigo, visto que se ficasse nervoso ia travar e não ia conseguir tocar. Aí eu falei: "Lô Borges, seja irresponsável, sai tocando aí e o pessoal que venha atrás de você".


Então achei muito legal esse meu despertar com a gravação, já que eu nunca tinha entrado em um estúdio, e quando entrei já fui gravando "Tudo que você podia ser", "Um girassol da cor do seu cabelo" e "Trem Azul". As músicas eram muito novas, eu era muito novo e tocar com músicos tão importantes também era um desafio, mas percebi que se ficasse "estressado" não ia render bem, aí fiquei tranquilo e mostrei para mim mesmo que dava conta.


DM - Ainda em 1972, você lançou o disco "Lô Borges" ou "o disco do tênis". Como foi lançar, em um mesmo ano, dois trabalhos inovadores para a época e muito bem conceituados?
LB - Foi um desafio quase que absurdo porque a minha vida mudou muito rapidamente, ou seja, eu saí de Belo Horizonte, fiz o disco "Clube da Esquina" e recebi um contrato da gravadora para fazer um disco logo em seguida, além do mais, eu era um cantor incipiente, começando a fazer as minhas próprias composições, eu não tinha um material para fazer o "disco do tênis", que foi feito de uma forma quase caótica, quase que eu não assino aquele contrato, que já estava prevendo para eu gravar em três meses.


Então eu o considero um disco muito bom, mas era um desafio, pois eu fazia a música de manhã, meu irmão fazia a letra à tarde e à noite a gente ia para o Estúdio Odeon, na avenida Rio Branco, fazer os arranjos e gravar. Aí juntava todo mundo, Tenório Júnior, Novelli, Nelson Ângelo, Vermelho, do 14 Bis, Flávio Venturini, Beto Guedes e Toninho Horta, para me ajudar a fazer o "disco do tênis". Ficavam todos na expectativa de qual música eu levaria para o encontro, já que eu levava uma música por dia, para tentar fechar o disco, que foi feito todo assim, uma música atrás da outra, eu compunha e já gravava.


DM - Na década de 80, suas canções tiveram vários intérpretes, como Milton Nascimento, Nana Caymmi, Simone, Gal Costa, Elis Regina e até Tom Jobim. O que representa, para você, a disseminação do seu trabalho por outros artistas?
LB - É sempre enriquecedor para a carreira do compositor ter suas canções gravadas por intérpretes tão importantes. Para mim foi fundamental, pois eu me enchi de alegria e entusiasmo para continuar minha carreira. Eu pensava: "Se esse pessoal gosta das minhas músicas, eu tenho mais é que seguir em frente".


Sempre foi estimulante e alguns até emocionantes, como Elis Regina, Nana Caymmi e Tom Jobim, mas todas as pessoas que gravaram minhas músicas me encheram de orgulho e de muito estímulo, para que eu pudesse continuar sendo um compositor.


DM - "Da janela lateral do quarto de dormir / Vejo uma igreja, um sinal de glória (...)". Com a música "Paisagem da Janela", feita em parceria com Fernando Brant, a história de muitos fãs, principalmente mineiros, foi marcada. Você acredita que esta composição tem uma ligação com os cenários e valores de Minas Gerais?
LB - Eu acho que tem sim. Na verdade, a letra que o Fernando Brant fez é muito emblemática, fala muito das coisas mineiras, várias citações se referem a conceitos bem arraigadas no pensamento e na cultura mineira. Quando fiz a música, fiz pensando em Beatles, que era o que eu pensava o tempo todo, mas aí o Fernando fez uma letra que tornou a canção emblemática.


DM - Sobre seu último CD, Horizonte Vertical, qual a expectativa para a divulgação desse trabalho agora em 2012?
LB - Temos que fazer a trilha que todos os artistas fazem quando estão lançando os discos, que é ir a programas de televisão, sites, fazer os shows de lançamento nas capitais, visitar o interior, que nem sempre é possível ir com a banda toda, pois a estrutura do Horizonte Vertical é muito grande, mas o caminho que vou seguir é o natural, com divulgação e show.


DM - Este ano, você completou 60 anos de idade. Como resumiria a sua carreira?
LB - Eu sou um cara que começou jovem, sou esforçado, comecei com um grande desafio, que foi quando o Milton me convidou para fazer o "Clube da Esquina". Tudo começou com esse desafio porque eu não tinha as músicas para desenvolver esse trabalho, e, logo em seguida, veio o "disco do tênis", então minha carreira sempre foi feita de desafios como compositor e sempre apontando para o lado de que a composição é que sustenta a carreira da gente.


Eu me defino como um cara esforçado que dedica muito à composição e acredita nela como a principal expressão do artista, talvez mais do que o palco, embora eu goste muito de palco, mas acredito que a composição seja o que move minha arte. Tenho um verdadeiro fascínio pelo desconhecido, então eu mesmo fico curioso para saber para onde minha cabeça vai, seguindo minha intuição. Sou uma pessoa esforçada, determinada e que ama a composição.


Como é um costume do Descubraminas.com, é hora de um bate bola com um legítimo filho de Minas.


Papo de Mineiro


DM
-
Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
LB -
Juscelino Kubitscheck foi um mineiro de raiz, mas eu tenho que citar outro, o Carlos Drummond de Andrade, que é o nosso poeta maior.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
LB -
Vou citar uma música que fiz com Fernando Brant e Márcio Borges, que é "Para Lennon & McCartney", que define muito essa coisa de ser mineiro.


DM - Adoro um bom prato de...
LB -
Macarrão.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
LB -
As cidades históricas e também Belo Horizonte, que é uma cidade muito agradável e atrativa.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
LB -
Eu levo um violão porque eu presenteio as pessoas com música.


DM - Qual cantor melhor representa Minas?
LB -
Milton Nascimento.


DM - A paisagem que te inspira...
LB -
Como sou muito voltado para a concentração da composição, minha paisagem é virtual, ela passa na minha cabeça. Eu tenho uma paisagem imaginária, que eu acho que o compositor tem que ter, pois as canções são paisagens.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
LB -
Cruzeiro.


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
LB -
Os dois. Eu vou revezando entre cidade e campo.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
LB -
Da minha casa, do meu aconchego, dos meus instrumentos, das coisas da minha vida, das pessoas que são muito queridas.


DM - Minas Gerais é...
LB - Um Estado maravilhoso, que fica no centro do Brasil. Minas não tem mar, mas tem parceiros, pois faz limite com muitos outros Estados brasileiros.


*Estagiária de produção: Caroline Melo

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