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Ronaldo Fraga - junho 2012

  • Belo Horizonte - Ronaldo Fraga em palestra no 4º Salão Mineiro do Turismo - Priscilla Ázara

O talentoso estilista Ronaldo Fraga revelou ao Descubraminas um pouquinho da sua história. Autor de belíssimas obras, Fraga leva às passarelas a cultura mineira e decora o mundo fashion com suas coleções singulares.


Eu cresci com meu pai falando: "O lugar mais bonito do Brasil é qualquer lugar, contanto que seja às margens do Rio São Francisco".


Por Roberta Almeida


Descubraminas
- Como foi a sua infância em Belo Horizonte?
Ronaldo Fraga - Bom, é até muito engraçado, já há muito tempo eu falo assim: 'A infância do meu tempo'. Aí uma vez alguém falou: "Mas você é tão velho assim?" Não. As coisas que mudaram rápido demais em Belo Horizonte.

Primeiro eu acho importante entender o que era a Belo Horizonte dos anos 1970, que era uma cidade que estava se industrializando, deixando os resquícios de província para tomar ares de metrópole, então foi uma infância ainda de brincar na rua, uma infância que, quando eu falo distante da de hoje é porque as crianças ficavam até tarde na rua e a vizinhança tomava conta e olhava sobre todos e para todos, era quase que uma infância de uma criança hoje no interior de Minas.

Eu morava em um bairro muito próximo do centro da cidade e quando eu penso o que era e em pouquíssimo tempo, de 30 anos para cá, o quanto que mudou...


DM - Em algumas coleções você homenageou ícones da literatura, como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, além da belíssima inspiração obtida com as bonecas de barro produzidas no Vale do Jequitinhonha. De que maneira Minas Gerais interfere em seu trabalho?
RF - Primeiro, eu costumo dizer que todo mundo que tem uma pretensão em autoralidade - e isso não é só na moda, tem na moda, na culinária, no cinema, qualquer coisa que demande criação, além de ser autobiográfico ou ter algo de autobiografia, ele tem que trazer a referência cultural de quem está criando, a referência cultural de quem fez. Então eu acho que isso é fundamental.


Quando eu olho o trabalho de um artista, de um criador, antes de ser bonito ou feio, me emocionar ou não, eu tento ver se ali traz a referência cultural dessa figura. Eu falo que no Brasil nós temos dois ou três estados com a cultura mão pesada, aquela assim que mesmo você querendo negar essa cultura nunca vai sair de você, que é o Estado de Minas, Bahia, Pernambuco e o Pará. E eu acho isso o máximo, visto que por mais que você negue até o último momento, você vai sacudir e vai cair um pouco do minério de Minas onde quer que você vá.


DM - Além do caráter cultural, sua obra também é repleta de humor, ousadia e crítica social. Como você define as suas coleções?
RF - Quando eu olho um profissional de qualquer área que seja, arquitetura, culinária - que eu adoro citar, além da referência cultural, tem uma coisa de entender a visão de mundo de quem está fazendo. Eu não acredito muito na criação separada da criatura, mais do que nunca a criação e a criatura meio que se fundem num só. As pessoas hoje, por mais simples que elas sejam, vão chegar numa cidade mais simples ainda, encontrar um restaurante pequenininho, se ela gostar da comida, ela vai querer saber quem é que fez, quem foi o chef. A mesma coisa quando se entra em uma loja e se pergunta quem é o estilista.


Então isto daí está ligado à visão de mundo de quem cria com o produto que ele cria. Posso transitar pela literatura, por cidades e lugares, posso transitar pela minha referência cultural de memória, mas em todas elas tem a minha visão de mundo. A visão de mundo como eu vejo hoje, como eu concebi ontem, como eu imagino amanhã. Então eu não consigo desassociar o fazer moda de uma postura política e como também não consigo desassociar a postura política da alimentação ou da arquitetura.


DM - Em seus trabalhos fica claro seu envolvimento com a música, artes plásticas e literatura. Na exposição do Rio São Francisco, por exemplo, você extrapolou a fronteira da moda e mergulhou na cultura e história do Velho Chico. Como funciona esse seu processo de criação?
RF - Quando eu escolho um tema para a coleção, eu tento me basear, me sustentar pela memória, memória afetiva, principalmente, e, dessa memória afetiva, desse baú de memória afetiva, definir qual o ponto me leva se não diretamente ao tema, mas que me dê sustentação para eu poder transformar o tema em uma narrativa. No caso do São Francisco, eu nem tive dificuldade porque minha relação com o rio é uma relação antes de tudo puramente afetiva, eu falo que é um rio que eu ganhei de presente do meu pai porque ele era fascinado pelo Rio São Francisco, não era ribeirinho, mas todas as vezes que ele tinha um momento de respiro, ia para as margens do São Francisco, qualquer cidade às margens do São Francisco, e eu cresci com meu pai falando: "O lugar mais bonito do Brasil é qualquer lugar, contanto que seja às margens do Rio São Francisco".


Então ele transferiu para a gente esse afeto por esse lugar, só que eu cresci, passei toda a minha infância e nunca tinha ido ao São Francisco, vou te falar a verdade, era que eu morria de medo de ir e aquilo não corresponder com o que meu pai tinha me dado, com a imagem que eu tinha construído do rio, e eu queria manter aquilo, só que no auge da discussão em torno da transposição, eu falei: É o momento de ir porque eu quero me posicionar em relação a todas as pessoas ligadas ao São Francisco, aí eu fui. Num primeiro momento, não era com a ideia de fazer uma coleção, mas de conhecer mesmo, mas quando eu cheguei, o rio era exatamente aquilo tudo que o meu pai falava, toda essa mágica. Eu viajo muito pelo Brasil, agora eu estou fazendo um trabalho na Amazônia, inclusive, mas não existe um rio que desperte tanto afeto nos brasileiros quanto o Rio São Francisco. Então daí para fazer uma coleção foi um passo.


Agora, como todo tema de coleção, eles não saem de mim, continuam em mim para sempre, e eu continuava falando do Rio São Francisco, aí chegou um momento que eu disse: quero fazer outra coisa, mas não vou fazer outra coleção, quero outra história ou um livro, aí nasceu a história da exposição. Então tem aquilo desse universo imagético, como ele me pegou, tanto que muito do que tem ali é o olhar do Ronaldo quando criança porque eu pensava não estar fazendo uma exposição para o povo da moda, para designers ou para críticos de arte contemporânea, eu estou fazendo uma exposição para seduzir crianças de todas as idades, uma criança da capital ou de qualquer ponto do País que entre e fale assim: "Eu quero conhecer esse lugar". Ou quando essa criança for imaginar o Rio São Francisco que ela imagine alguma coisa que estava ali na exposição.


Então ela foi feita com muito carinho nesse sentido, tanto que você pode ver que ela é muito interativa, muito lúdica e aqui em Belo Horizonte, por exemplo, bateu recorde de visitação no Palácio das Artes, estendemos o prazo, e, mesmo assim, 110 escolas da rede pública ficaram como excedentes na visitação. E eu queria que a moda ali fosse mais uma manifestação em relação ao rio, não fosse o ponto central, ali não é o Ronaldo estilista como ponto central, é o Ronaldo diretor de arte, curador, não sei, também nunca me preocupei em dar nomes a isso, mas tem uma outra coisa que eu costumo dizer é que o fundão da humanidade é sempre o mesmo, independente da classe social, independente da formação, têm coisas que vão te pegar de algum jeito. Se me pegam, tenho certeza que vão pegar aos outros também e vice-versa, e eu acho que o São Francisco é isso. Hoje, pessoas dos lugares mais absurdos e improváveis desse país chegam para me falar, pessoas de todas as idades, ambos os sexos, diferentes classes sociais chegam e falam: "Aquela exposição do Rio São Francisco para sempre ficou em mim".


DM - Depois de 10 anos no SPFW e 17 anos promovendo desfiles, você optou por não participar da última edição do evento para se dedicar ao livro "Caderno de Roupas, Memórias e Croquis". Em que implicou essa decisão?
RF - É o seguinte, primeiro eu não pensei que fosse causar aquele reboliço todo porque eu não fui o primeiro estilista a pular uma edição. Segundo, quando eu fiz aquela carta, provocando se a moda acabou, eu já estou falando isso há anos e acho que, como a gente conhecia, ela acabou mesmo. Então quando o negócio caiu como uma bomba, a Semana de Moda só se falou nisso. Agora eu vou desfilar dia 12 de junho e já virou outro reboliço porque é a "grande volta do Ronaldo Fraga". No twitter, quando eles publicaram lá, ficou no trend topics de novo. Então eu acho, explicando mais uma vez, que hoje no meu negócio o desfile de moda é só mais uma coisa, só de livros eu estou envolvido em três, dois livros infantis, um até pela Companhia das Letras, inclusive têm os projetos de geração de emprego e renda, que eu amo, tem figurino para teatro, tem exposição fora do país, então o desfile virou mais uma coisa.


A minha estrutura é muito pequena, aí eu fico segurando para não crescer, mas na hora que eu olho já cresceu demais. Para fazer esse livro e para iniciar esse projeto que eu tinha muita vontade de fazer há muito tempo, que é ir para a Amazônia - hoje eu passo dez dias do meu mês na Amazônia paraense, tive que abrir mão de alguma coisa. Então quer saber, eu já estou cansado de fazer desfile. Aí as pessoas me perguntam: "Você está cansado, mas está voltando?" Aí eu falo: 'Ossos do ofício'. Nesta edição, por exemplo, dez marcas estão deixando de desfilar e isso nunca aconteceu. Aí teve alguém que perguntou se eu não havia ficado vaidoso, se isso não me envaideceu. É claro! Por mais que eu tenha ficado assustado com a repercussão disso, você fala assim: é uma longa história que está sendo contada, aí às vezes você pensa que só os mais chegados estão prestando atenção e, no entanto, as pessoas falam: "Nós queremos história, nós queremos história na moda, na comida, queremos história em tudo".


A imprensa internacional publicou isso, que o maior estilista brasileiro tinha deixado de desfilar. Agora tem outra coisa também que eu acho que constata uma face do nosso tempo e que me incomoda muito, que é um tempo que lê manchete, não se lê o texto. Então, assim, a "Folha", na coluna da Mônica Bergamo, quando ela coloca: "Ronaldo Fraga deixa o SPFW e decreta que a moda acabou", ela explicava no texto, mas foi a manchete que ficou e foi repetida, a manchete é que foi replicada. Mesmo que interesse às pessoas, ninguém lê.


DM - Você se preocupa muito com a humanização e democratização da moda. Existe diferença entre a moda da passarela e a moda que vai para as ruas?
RF - Eu acho que depende de quem e depende de qual marca, têm marcas, por exemplo, que investem numa imagem de passarela que na verdade não tem nada a ver com o produto que vai para a loja. Na loja ela vai continuar colocando o mesmo produto, coleção após coleção, mudando só a cor porque ela já tem um público fiel para aquilo e vai atender a esse público, só que ao mesmo tempo ela precisa de mídia e uma mídia espontânea de moda que precisa fazer barulho. Então ela vai trazer uma top de fora, vai fazer uma roupa absurda que ninguém vai usar.


Eu acho que esse tempo está ficando para trás porque hoje quando eu faço um desfile, ele entra de forma avassaladora na casa das pessoas. Normalmente o meu desfile entra ao vivo na televisão e aí as pessoas querem aquilo, por mais absurda que seja aquela roupa. Então eu te falo que tudo que eu produzo vai para a loja. Agora, se na edição do desfile acaba entrando uma coleção de verão, por exemplo, entrando ali umas 70 peças em 30 looks, a coleção tem 150 peças, então o que vai para a loja é o desfile e muito mais, mas se você fala: "Tudo que você coloca na passarela é produzido para a loja?" É. Numa escala maior, numa escala menor, mas tudo vai para a loja sim. Eu acho que hoje a maioria dos estilistas está fazendo isso, mas eu sempre fiz e era um dos poucos, mas tem peça absurda que quando eu faço já penso no acervo, aí ela vai parar na loja e é vendida.


O desfile é útil no momento em que a coleção pertence ao estilista, então naquele momento ele pode levar tudo até as últimas consequências e eu tenho um desafio que eu preciso fazer com que você viaje em 8 minutos de desfile, então tenho que usar a luz, a cenografia, a música, o style, para que os seus olhos viagem naquele tempo, preciso fazer com que você não perca a atenção conversando com a pessoa ao lado, e, com isso, na maioria das vezes, a última coisa que a pessoa acaba prestando atenção é na roupa.


Eu falo que roupa você presta atenção é na loja e no showroom, o desfile tem que te provocar outra coisa. Por exemplo, eu lembro daquele desfile do "Giz", com o Giramundo, que era com os velhinhos, tem um depoimento de uma jornalista dizendo que ela pensou assim quando viu a primeira senhora entrar na passarela: "Ah, agora foi apelação. O que essa ‘doninha' está fazendo aí?" Na quarta, ela estava ao prantos, chorando, e ela falava: "Ai, meu Deus, eu só pensava em que velho eu ia ser, como eu estava tratando os meus velhos e porque aquilo estava me provocando essas duas coisas". Então quer dizer, essa pessoa saiu da sala falando que havia sido o melhor desfile de todos os tempos que já tinha visto e ela não tinha prestado atenção na roupa. Aí você me pergunta: "E era para prestar?" Sim e não porque o que eu estou vendendo ali no desfile é outra coisa, seria muito mais barato eu pendurar tudo ali no showroom, tudo na minha loja, simplesmente fazer um coquetel de lançamento e pronto.


DM - Como você avalia o posicionamento de BH como capital da moda?
RF - Belo Horizonte, ou melhor, o Estado de Minas historicamente é um Estado com uma relação sempre estreita com a moda, isso desde o período da colonização. A primeira indústria que a Coroa Portuguesa permitiu que fosse aberta no Brasil foi a indústria têxtil no Estado de Minas Gerais, para vestir o alto contingente de escravos. Depois, com a transferência de Ouro Preto como capital para Belo Horizonte foi outra surpresa porque, na época, um colunista social do jornal de Ouro Preto, todos descrentes que BH fosse pegar como capital, escreveu uma nota dizendo que a partir daquela semana ele tinha passado a acreditar que Ouro Preto tinha definitivamente deixado de ser a capital porque todos os modistas e alfaiates importantes já tinham se mudado para Belo Horizonte.


Então Minas, por uma posição geográfica e uma informação cultural, sempre teve o desejo de moda. Agora, nós tivemos grandes momentos da moda, nos anos 80, por exemplo, e que acabaram com a crise do período Collor e liquidaram as maiores marcas, as maiores confecções. Hoje, eu não ouso dizer que Belo Horizonte seja a capital da moda. Eu acho que existe no DNA de quem faz moda aqui algo diferente e acredito também que com força e investimento político, Belo Horizonte, Minas, poderiam mais uma vez ocupar um lugar que já ocupou e que perdeu para outros centros.



É hora do Papo de Mineiro!


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
RF -
Carlos Drummond e Guimarães Rosa. Quando falo desses dois, eu esqueço que são mineiros, para mim são os maiores escritores que o Brasil já produziu.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
RF -
"Dia dos Pais", de Zé Coco do Riachão. Uma figura como Zé Coco, que fazia as rabecas para depois compor, nos deu o resultado na sua obra que é muito uma espinha dorsal do que é ser mineiro, que é: "Ser mineiro não é ser nem erudito, nem popular, são as duas coisas". E essa música é erudita e popular.


DM - Adoro um bom prato de...
RF -
Ora-pro-nóbis.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
RF -
Comer no Xapuri.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
RF -
A sugestão de um livro.


DM - Qual cantor melhor representa Minas?
RF
- Temos muitos nomes, mas eu acho que a grande joia da Coroa da música mineira ainda é Milton Nascimento.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
RF -
Cruzeiro, claro!


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
RF
- Estando em Belo Horizonte, eu acho que você tem um pouco do ar da roça, sobretudo em um feriado prolongado e a cidade está vazia. Eu adoro BH quando a cidade está vazia.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
RF -
De quando o avião pousa em Confins. Eu acho que é a vista mais linda de todos os aeroportos do Brasil.


DM - O que nunca sai da moda em Minas?
RF -
A cordialidade e a mesa farta.


DM - Minas Gerais é...
RF -
O céu azul mais lindo do Brasil e o céu de uma noite estrelada mais lindo também.



*Estagiário de produção: Matheus Ventura 

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