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Angelo Machado - Outubro 2012

  • Belo Horizonte - Professor Angelo Machado em seu escritório - Matheus Ventura
  • Coleção de libélulas do professor Angelo Machado - Matheus Ventura
  • Professor Angelo Machado em sua floresta particular - Matheus Ventura
  • Livros  - Matheus Ventura
  • Em meio às publicações infantis, um exemplar do conceituado "Neuroanatomia Funcional" - Matheus Ventura

Doutor em Medicina, Ph.D em Microscopia Eletrônica, cientista das áreas morfológica, zoológica, ecológica e de conservação e manejo da vida silvestre, taxonomista, dramaturgo, escritor, autor de 35 obras infanto-juvenis, dois livros para adultos, ambos adaptados para o teatro. Com esta vasta bagagem, no auge dos seus 78 anos, recém-eleito como o mais novo imortal da Academia Mineira de Letras, o professor Angelo Machado ainda encontra tempo para se dedicar aos filhos, netos e sobrinhos dos outros...


"A criança e o cientista têm o mesmo problema: descobrir como é o mundo e como as coisas funcionam. Eu ajudo o menino a manter a curiosidade porque um menino curioso pode ser cientista ou qualquer outra coisa, desde que tenha uma mente indagadora, que muitos chamam de subversiva."


Por Roberta Almeida


Descubraminas: O senhor formou-se em medicina e especializou-se em neuroanatomia, mas afirma que sua verdadeira paixão é estudar a vida dos insetos. Quando surgiu esse interesse?
Angelo Machado: Quando o Jô (Soares) me perguntou isso, eu disse a ele que foi minha mãe quem descobriu meu gosto por inseto. Com apenas um ano e meio, ela me achou debaixo da cama comendo uma barata. Já gostava! Hoje eu não como mais baratas, elas não são como as de antigamente. O Jô entrou na brincadeira e disse que eu tinha razão, pois as baratas de hoje estão todas poluídas, cheias de agrotóxico. Mas uma formiga, conforme o tempero, eu mando brasa! (Risos)


Bom, falando sério agora, eu comecei a gostar de inseto na fazenda do meu pai, no Vale do Rio Doce, que tinha muito inseto, borboleta, tinha de tudo. Ele colecionava besouro e eu era sacristão da Igreja de Lourdes. Um dia, um outro sacristão me falou para levar os besouros do meu pai para um padre da igreja que entendia tudo desses bichos. Eu levei uns 10 besouros e o padre falou o nome de alguns e o dos outros falaria no dia seguinte. Eu pensei: "Que padre ignorante, gente! Estuda besouro, mas não sabe o nome deles". O detalhe é que até então eu não sabia que existiam 300 mil espécies de besouros e que o padre Pereira era capaz de identificar 20 mil do mundo inteiro. Fui ficando amigo dele, a gente saía sempre do entorno da igreja para pegar inseto. Aprendi entomologia com ele, no mato. Pegava o bicho e indentificava. Aí a gente começou a fazer grandes viagens, inclusive para a Amazônia, me tornei um maluco também.


Quando eu tinha 16 anos fui visitar minha tia Lúcia Machado de Almeida, que era escritora, lá no Rio de Janeiro, e ela me disse assim: "Você que vive pegando essas libélulas aí, leva lá no Instituto de Educação e fala com o professor Milton Santos, que estuda libélula. Ele vai dar nome para esses bichos". Eu cheguei meio assustado. Quando achei o Milton Santos lhe disse: "A Tia Lúcia falou que você pode dar nome para essas libélulas aqui"; e ele: "Não vou dar nome nenhum não! Você que vai achar o nome". "Mas como, professor?", perguntei. Ele pegou a tese dele sobre libélulas da região e me mandou ir para casa estudar. Três meses depois, eu estava no Museu Nacional estudando libélula com o Milton. Olha que bacana! Ele sabia o nome daqueles bichos, mas se simplesmente tivesse me falado eu não estaria mexendo com isso até hoje. Foi assim que ele me entusiasmou. Eu ficava na casa do meu tio Aníbal Machado, sendo influenciado pelo pessoal de cultura que falava assim: "O sobrinho do Aníbal vem para o Rio e em vez de ir para a praia vai estudar bichinho no Museu Nacional!"


Hoje eu trabalho identificando as libélulas que peguei nas inúmeras viagens que fiz, já que nunca tive muito tempo para isso. É muito divertido porque quando estudo uma libélula lembro do lugar em que estive. Nesse trabalho de taxonomia já tenho 82 espécies descritas.


DM: Dos insetos, é notório que o senhor nutre especial afeto pelas libélulas, transformando um simples hobby em profissão, já que, ao se aposentar da neuroanatomia, prestou concurso em zoologia e virou um renomado entomólogo. Explique-nos melhor qual é a importância do estudo da libélula para o equilíbrio ambiental.
AM: A libélula é boa para monitorar a qualidade ambiental e têm certas espécies que são muito sensíveis. Já teve caso de assoreamento causado por uma mineradora perto de uma reserva ambiental que extinguiu uma espécie de libélula que vivia no local. Há 56 anos, achei uma espécie de libélula em um córrego dentro do Parque das Mangabeiras, mas só agora identifiquei. Então tem um bicho novo dentro do Parque das Mangabeiras e agora eu vou voltar lá para ver se essa libélula ainda existe. Se existir, ela vai ser testemunha que o parque está bem conservado. Quando começar a época de coleta de bicho, agora em novembro, eu vou lá, quer dizer, vou devagarinho, de bengala, mas meus filhos estão treinados também e podem me ajudar.


A libélula é predadora. Uma adulta pega mosquito adulto. Na água, a larva de libélula pega larva de mosquito, ou seja, ela é um controlador na natureza. Por exemplo, se acabassem as libélulas, iria aumentar a dengue, mas eu não comecei a estudar por isso. Era ciência pura. Até que um dia me ligaram de uma concessionária. Eu disse que não queria comprar carro e a pessoa respondeu: "Não, professor! Sabemos que o senhor entende de libélulas, então vem aqui porque temos um problema sério". A libélula estava botando ovo no capô dos automóveis e a gelatina dela estava corroendo o capô. Cinco meses antes, alguém me perguntou qual era a composição química do ovo da libélula. Pelo amor de Deus, gente, eu faço ciência pura, mas essa é pura demais! Não é que o rapaz da concessionária Varella me perguntou a mesma coisa? Eles queriam colocar algo na pintura do carro para inibir essa substância, eu expliquei que a libélula estava sendo atraída pelo brilho do capô, confundindo-o com uma superfície d'água, então aconselhei a tampar o carro com algum plástico. O cara queria colocar inseticida no capô do automóvel. Pensa!


Depois encontrei um cientista químico amigo meu, Etelvino José Henriques Bechara, que havia sido contratado pela General Motors (GM) para estudar a composição química da gelatina do ovo da libélula. Eu falei para ele que quando descobrisse a composição e a publicasse, poderia me passar que eu ajudaria a divulgar. Ele respondeu: "Não, é segredo da General Motors." Meu Deus! Ele estudou ciência pura, descobriu a composição para virar segredo industrial da GM? Um exemplo assim mostra que tem mesmo que ter um doido para estudar cada coisa no planeta. O sistema funciona assim, agora o concorrente da GM tem que contratar outro químico para estudar o mesmo problema porque está dando prejuízo.


Tem outro caso também de uma plantação de cacau na Bahia. Descobriram que a libélula comia um besourinho que é a praga do cacau. Então a primeira ideia era criar libélula para diminuir os besouros, mas não era viável economicamente. Só que eles estavam pensando em drenar um brejo que tinha ao lado. Eu disse para não drenar, pois a larva da libélula criava-se ali. Se eles drenassem, a praga iria aumentar. É um raciocínio ecológico imediato. Se não tem jeito de criar libélula, pelo menos tem jeito de não acabar com aquelas que já tinham no local.


Então a gente estuda porque há um problema grande na biologia que é saber quais são as espécies que existem no mundo hoje. Há um esforço mundial, pois as espécies estão sendo extintas sem que a gente as conheça. Tem uma meta quase filosófica do homem em saber quem conviveu com ele no planeta, então isso me estimulou muito porque a velocidade de destruição de algumas espécies está sendo maior do que a capacidade do homem de conhecê-las. Acredito que esse seja o objetivo principal.


DM: Phanaeus machadoi (besouro), Minasmiris angeloi (percevejo) e Neocordulia machadoi (libélula). Pelo trabalho como entomologista, o seu nome foi incorporado a vários seres vivos, entre libélulas, borboletas, besouros, aranhas e até um fungo. Como o senhor lida com as homenagens de outros pesquisadores?
AM: Eu agradeço. Com meu nome deve ter umas dez libélulas, uns cinco besouros, umas três borboletas, também tem um pernilongo! É uma coisa embaraçosa porque quando tem um pernilongo me picando tenho medo de dar um tapa nele e o bicho ter meu nome. Tem percevejo, fungo, formiga, bastante bicho.


DM: - Tem até uma perereca?
AM:
Tem também! Da Serra do Cipó, a Hyla machadoi. Ao todo são 32 bichos com meu nome. Como é que você descobriu isso? Pesquisou no Google, não é? Tá sabida! Mas essa homenagem é muito comum. Também pegava libélula para outros colegas e os homenageava.


DM: Após deixar a docência na UFMG, o senhor dedicou boa parte do tempo a um novo hobby: a criação literária, apresentando a ciência de forma lúdica a crianças. De onde surgiu a ideia de fazer esta mistura?
AM:
Eu era neuroanatomista, dei 30 anos de aula de neuroanatomia para alunos da Medicina da UFMG. Nesse período, libélula era hobby. Aí eu aposentei e fiz concurso de novo para a universidade, entrei para a zoologia e passei a dar aula de entomologia, de inseto. O hobby virou profissão, aí eu fiquei sem hobby, mas como o homem não pode viver sem um hobby comecei a escrever livro para criança e a fazer peça de teatro.


Essa mistura veio naturalmente porque eu fui cientista primeiro, mas nunca deixei de gostar de inseto, desde esse caso que eu contei de colocar a barata na boca. Tive uma dúvida muito grande na escolha da profissão, pensei em fazer agronomia porque um dos maiores entomólogos do mundo, Ângelo Moreira da Costa Lima, dava aula na Escola de Agronomia, mas depois eu vi que não valia a pena porque era só uma disciplina. Acabei entrando na medicina porque naquela época o curso tinha mais atividade prática. Uma vez eu estava no Amapá subindo um rio, era estudante de medicina, veio alguém atrás de mim dizendo que tinha uma mulher em trabalho de parto e a parteira não estava dando conta, que eu tinha que ir lá ajudar. Falei: "Eu não! Se ela que vê todo dia não está conseguindo, e eu que nunca vi?" Morreu o bebê e a mulher. Decidi então que se eu quisesse ser médico, teria que estudar de tudo um pouco. Depois disso, fiz quase 100 partos, um tanto de cesárias, estava pronto para ser obstreta, mas graças a Deus não fui porque é muito chato.


Nos 5º e 6º ano do curso de medicina fiz estágio no pronto-socorro. Tem casos muito engraçados! Um dia, à noite, estava sozinho e pensando: "Poxa, eu gosto é de bicho porque vou estudar para ser médico?" Aí chegou uma enfermeira gritando: "Ô, doutor, tem uma mulher com um problema alí!". Pensei: "Que saco esse negócio!". A mulher disse que estava com um problema no ouvido. Tinha um besouro no ouvido da mulher. Aí eu tirei o besouro com uma alegria enorme. Ela perguntou o que era e eu falei o nome científico do bicho. "É grave, doutor?" "É raríssimo, minha senhora. É raríssimo." Aí eu deixei a mulher lá e fui cuidar do besouro. Simbolicamente eu estava deixando a medicina para cuidar de entomologia. Depois de uns 15 minutos, a enfermeira veio avisar que a mulher ainda estava me esperando.


Essa história teve até um desdobramento. Fui no programa do Jô e contei esse caso. Quando eu voltei para Belo Horizonte, uma mulher lá de São Paulo me ligou e falou: "Doutor, você tem que me ajudar! Estou com um besouro no ouvido. Já procurei quatro otorrinos e ninguém fala que eu estou com um besouro no ouvido, mas eu sinto ele mexer, o senhor tem que me ajudar, eu vi o senhor contando no programa do Jô que tirou um besouro do ouvido de uma mulher, porque não pode tirar do meu? Estou indo aí!" Eu pensei: "Meu Deus, o que eu faço?" Aí perguntei para ela há quanto tempo o besouro estava no ouvido: "Há dois anos". "De ouvido eu não entendo, mas de besouro sim, dois anos é demais para besouro. Tchau!" E desliguei.


DM: Mesmo estudando a fundo as libélulas, este inseto nunca foi protagonista de um livro seu. Por que?
AM:
Nunca fiz um livro sobre libélula porque nunca bolei uma história boa. Ela entra de coadjuvante nos livros, nunca como personagem principal, mas um dia vou arrumar uma história em que ela seja protagonista.


A libélula aparece na coleção "Que bicho Será", a coisa mais importante que fiz na vida. É para criança a partir de três anos. Nas histórias tem sempre um mistério a ser desvendado pela criança. Ela abre e vê uma cobra barriguda, a libélula vê a cobra e vai chamar os bichos - ela é a mensageira. "Que bicho será que a cobra comeu?" Aí está o mistério, e cada animal fala uma coisa. As ilustrações de Roger Mello são ótimas, inclusive ganharam o prêmio Jabuti.


O conceito da coleção é o seguinte: a criança e o cientista têm o mesmo problema: descobrir como é o mundo e como as coisas funcionam. Só que o cientista quando vê algo que não é conhecido, trabalha para conhecer, já a criança, não conhece quase nada ainda, então ela está descobrindo o mundo. Por isso que ela pergunta por que isso, por que aquilo, ela pega, mexe, abre e os pais falam assim: "Que menino curioso! Não faz bagunça, hein!". É uma censura à curiosidade. Eu ajudo o menino a manter a curiosidade porque um menino curioso pode ser cientista ou qualquer outra coisa, desde que tenha uma mente indagadora, que muitos chamam de subversiva.


DM: Devido à formação cietífica, o senhor utiliza em suas histórias fatos que um escritor comum não conhece. Acredita que essa seja uma vantagem sobre os outros escritores?
AM:
No começo foi uma desvantagem enorme porque, por definição, cientista é chato. Meu primeiro livro, "O Menino do Rio", foi recusado pela editora Ática. Disseram que não era boa entomologia porque bicho não fala e não era literatura porque ensina até nome de libélula. Só tem um nome de libélula no livro, a Eterina, porque é sonoro. A crítica caiu em cima de mim, mas a gente foi melhorando. A Editora Lê acreditou no livro e deu certo. Passaram-se 22 anos e ele ainda é o carro-chefe da editora. Depois eu até adaptei para teatro, ou seja, a Ática boiou.


Tem vantagens também. Um amigo meu descobriu que lobo-guará comia mais fruta do que carne, que foi o gancho para a história do livro "Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-guará." A Chapeuzinho pergunta: "Lobo-guará, para quê esses olhos tão grandes? Para te olhar... Lobo-guará, para que esse nariz tão grande? Para te cheirar." Aí o lobo: "Chapeuzinho vermelho, para que essa melancia? É para você comer!" Então o lobo em vez de comer a menina, comeu a melancia! Como ele gosta de fruta, também comeu banana, fizeram toda uma bagunça e quando o caçador chegou ainda jogaram fruta nele. Ou seja, só alguém que está no ramo da zoologia usaria esse gancho.


Uma geóloga me mostrou uma vez um ovo do macuco (espécie de ave). O ovo é azul e lindo. Se eu fosse uma macuca, não chocaria o ovo só para não quebrá-lo! Daí nasceu a história do livro "O Ovo Azul". A macuca dava entrevista para toda a imprensa sobre o ovo azul, e o macuco perguntando: "Você não vai chocar não?" Como ela demorou, o próprio macuco chocou os ovos e a macuca disse para ele cuidar dos filhotes. O desfecho da história é o seguinte: até hoje, na família dos macucos, são os machos que chocam e cuidam dos filhotes, assim como acontece na realidade. E aí a realidade é tão espantosa que a pessoa pode achar que eu estou inventando, mas é verdade, descobri isso porque sou zoólogo.


Isso entra numa temática que é atual. Podemos divulgar ciência através da literatura? Tem gente que acha que não pode. Eu fui criticado por divulgar ciência por meio da literatura. Saiu uma tese de mestrado aqui em Minas onde avaliaram que crianças de Codisburgo estavam aprendendo sobre o Cerrado lendo um livro meu. Depois saiu uma tese de doutorado de estudantes da USP sobre ciência e literatura. Eles analisaram quatro livros e um deles é de minha autoria, "O Dilema do Bicho Pau". A tese é enorme, o livro deve ter umas 15 páginas e escreveram mais de 20 sobre ele. Inclusive, esse doutorando descobriu que o livro estava premiado pela Fundação do Livro Infantil e eu não sabia! Saiu uma tese na PUC também sobre a imagem da natureza nos meus livros. Eu fico satisfeito de ver que minha obra está sendo usada pela Academia, na discussão e na controvérsia entre ciência e literatura.


O primeiro objetivo da literatura infantil não é ensinar, é fazer o menino gostar de ler. Nesse sentido, eu sempre comento que a gente é mais importante do que escritor que faz livro para adulto porque se o menino não aprende a ler agora, com a gente, eles não vão ler depois, então a responsabilidade aumenta. Eu não posso fazer livro chato porque se eu chatear a criança, ela não vai ler e nem aprender.


DM: Em 1993, o senhor ganhou o Prêmio Jabuti com o livro "O velho da montanha, uma aventura amazônica", da Editora Melhoramentos. Conte-nos qual foi a sensação de receber tão importante condecoração.
AM:
Esse prêmio foi muito importante porque eu não estava muito seguro de que era escritor infantil. Como cientista a gente tem uma autocrítica muito grande. Quando eu ganhei o Prêmio Jabuti pensei: "Bom, eu devo ser, né?!" Mas esse livro é um exemplo de como a minha vida de zoólogo ajuda na literatura. É uma ficção, mas os personagens são reais. Passei um mês numa tribo no Norte do Pará, perto da fronteira. O livro é dedicado às crianças indígenas do Brasil porque todo mundo lembra só de criança da cidade ou da favela. Foi Darcy Ribeiro que me entregou esse prêmio e eu aproveitei para fazer um protesto contra os garimpeiros que estavam matando índios na região.


DM: Seis anos depois, em 1999, o senhor lançou "Os Fugitivos da Esquadra de Cabral", que entrou para lista publicada na Revista Veja dos cinco livros mais vendidos no Brasil naquele ano. Qual é a história desse livro?
AM:
A editora Nova Fronteira me encomendou um livro para adoslescente sobre o descobrimento do Brasil. Assinei um contrato sem saber ao certo o que iria fazer, até que um dia, lendo a carta de Pero Vaz de Caminha, li a seguinte frase: "Ficaram também dois grumetes, que fugiram do navio essa noite..." No descobrimento do Brasil, dois adolescentes estavam na história. Grumetes era sinônimo de adolescente. Aí estava o gancho do livro "Os Fugitivos da Esquadra de Cabral".


Eu imaginei os meninos sendo pegos pelos índios, fugindo, apaixonando-se pelas índias, aprendendo tupi, quase sendo mortos pelos Tupinambás. É um livro de aventura que entrou nessa lista da Revista Veja por engano porque não tem lista de livros infato-juvenis mais vendidos, só para livro de adulto. Mas como estava vendendo muito e tinha a espada de Cabral na capa, eles acharam que era não-ficção. Na realidade é ficção inserida no contexto histórico. Eu estudei muito história, sabia tudo. Aprendi um pouco de Tupi também. Como o personagem do livro, o menino Leonardo, tinha que aprender a língua depressa, eu também estava estudando o dicionário Tupi para fazer umas frases, mas estava difícil.


Li o diário de Vasco da Gama inteiro para saber se o menino morreu na Índia ou virou fidalgo em Portugal. Estava lá: morreu na Índia. Deu uma linha no livro! Mas eu me diverti a bessa com isso também.


DM: Já a obra "O Tesouro do Quilombo", recebeu o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Por que essa história mereceu tanto destaque?
AM:
Depois de "Os Fugitivos da Esquadra de Cabral" eu percebi que trabalhar com história era bom. "O Tesouro do Quilombo" é história de Minas, é a história do escravo Ambrósio, de um quilombo enorme que foi destruído. O pessoal só lembra do Zumbi, mas teve um Zumbi aqui em Minas, o Ambrósio, que morreu em batalha. Eu estudei muito isso, reabilitei o Ambrósio.


Eu gosto de trabalhar em literatura com diferenças, ou seja, o filho do dono da fazenda era milionário e o outro menino era filho do vaqueiro, e eles ficam muito amigos, inclusive de um outra menina que era negra. Eles montam um grupo de crianças que vão atrás do tesouro do Ambrósio e aí tem um colosso de aventura, de perigo e tudo. Tem um índio que detesta paulista por causa dos bandeirantes que entraram na mata, estudei tudo de bandeiras também. Esse livro é bem sofisticado porque tem a linguagem do ricasso, a linguagem do menino do interior, a linguagem do índio. É outro exemplo de mistura entre realidade e ficção que as crianças gostaram muito.


DM: "Como sobreviver em recepções e coquetéis com bufê escasso" é uma adaptação de um dos seus livros. Como é levar o seu trabalho para o teatro?
AM:
O livro é baseado no manual de sobrevivência na selva das Forças Armadas porque quando você está na selva, o problema é achar comida e quando você está numa festa de buffet escasso, o problema é achar comida também. Então eu inventei a brincadeira da dupla pinça, que consiste em pegar dois salgados de uma vez, fiz uma crônica, fui aumentando, aumentando e saiu o livro.


Depois que o Carlos Nunes leu o livro ele veio aqui em casa e me pediu para adaptar para teatro. Eu vi a maneira dele de trabalhar, a sua potencialidade para trabalhar com o público e fiz a peça, que é um enorme sucesso até hoje. O Carlos acha que mais de 300 mil pessoas já viram. Eu nunca imaginei ganhar dinheiro com teatro, mas deu muito dinheiro.


Hoje acho que sou mais conhecido em BH como dramaturgo do que como escritor. Na Campanha de Popularização do Teatro eu tinha 5 peças em cartaz, inclusive "A Comédia dos Defuntos sem Cova", peça nova que não é adaptada de nenhum livro e que deu certo também. Essa eu bolei assim: estava no Rio de Janeiro, passei perto do Cemitério São João Batista, que tem uns mausoléus enormes e uma favela do outro lado. Eu imaginei um favelado morando dentro do jazigo, esse foi o gancho. Tem toda uma crítica social de moradia, tem história também, música. Termina com "Thriller", do Michael Jackson, com os defuntos dançando. Funcionou. E também tinha três peças infantis: Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará, O Casamento da Ararinha Azul e o Rei Careca. 52 pessoas trabalharam nessas peças, incluindo atores, coreógrafos, músicos, diretor, produtor, entre outros. 


DM: O envolvimento com a causa ecológica sempre esteve em pauta na sua vida. Qual o objetivo da Fundação Biodiversitas, da qual o senhor é presidente?
AM:
O objetivo da fundação é a conservação da biodiversidade em Minas e no Brasil. A gente trabalha com algumas áreas de proteção, tem uma na Bahia, que protege a Arara-azul-de-lear, e tem uma área em Sossêgo, na Paraíba, que protege o macaco muriqui.


Adquirimos recentemente uma área no sul da Bahia para proteger uma espécie de passarinho, um bicho bem pequeno, que deve ter no máximo oito exemplares na natureza e uma fundação internacional que protege aves ameaçadas que está financiando. Só que a gente descobriu que tem mais dez espécies ameaçadas lá dentro, ou seja, por causa desse bichinho vamos proteger um mundão de outros.


Igual ao Mico Leão, que está praticamente salvo de extinção, mas na verdade a mata em que ele vive é que está salva. Então, mantendo as nossas áreas, a gente protege a biodiversidade. Como não tem recurso para proteger toda a flora e a fauna, a prioridade é para aquelas que estão ameaçadas. Nós fazemos a lista vermelha das espécies que estão em extinção dividida em categorias. "Criticamente em perigo" significa que está quase acabando, "em perigo" significa que está vulnerável, e por aí vai. Assim fizemos o "Livro Vermelho - da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção" com 1.400 páginas. Eu e mais duas pessoas que editamos. Além dos detalhes das espécies ameaçadas, no livro também tem um atlas com as áreas prioritárias para conservar.


Então a Fundação Biodiversitas é uma organização não governamental (ONG) técnica que está fazendo 24 anos agora, mas não é uma ONG ativista. Eu ainda sou de uma ONG ativista, o Centro para a Conservação da Natureza, há 35 anos. Há 35 anos, a briga era de foice mesmo, era empresa acusando ambientalista de ser contra o progresso, nós acusando os empresários de poluírem e estragarem a natureza e os dois acusando o governo de não fazer nada. Num determinado momento, percebemos que a luta ecológica deveria ter base científica, por isso criamos a Biodiversitas, que faz esse trabalho técnico, inclusive ajudando empresas. Ou seja, é o trabalho técnico apoiando a luta ativista.


DM: Ainda sobre a militância ambiental, o senhor acredita que a Estação Ecológica seja um diferencial da UFMG na área ambiental?
AM: É sim. A Estação Ecológica foi feita por várias pessoas sérias e houve um momento, já tem muito tempo, uns 15 anos atrás, em que a universidade queria construir os prédios da escola de odontologia e farmácia no local e nós, do Centro para a Conservação da Natureza, criado pelo Hugo Werneck, entramos na briga.


Impedimos o loteamento de parte do Parque das Mangabeiras, fomos à imprensa, procuramos o governo e não deixamos construir no Parque das Mangabeiras. Como é que deixaríamos construir aqui na Estação Ecológica da Pampulha? Foi um dilema muito grande para mim porque eu era cria da universidade, mas onde tem muita cabeça pensando, dificilmente se faz um erro grave. Um dia alguém deu a ideia de construir do outro lado e pronto!


Hoje é um primor essa estação ecológica. Os meninos de várias escolas têm aula lá dentro. Eu dava aula lá também. O argumento é que a estação funciona para o biólogo como o Hospital das Clínicas funciona para o estudante de medicina. A vantagem é que é aqui pertinho, só que antes eu levava os alunos a pé e hoje não aguento mais. Foi uma das razões que me fizeram aposentar. Dar aula teórica eu gostava, mas não podia dar a aula prática mais. Agora eu já acostumei.


DM: O senhor já ministrou várias palestras em todo o Brasil sobre conservação da biodiversidade e educação. Qual é a diferença entre ecologia e conservação?
AM:
Olha, a Ecologia estuda a relação dos seres vivos com o meio ambiente. Ela pode não ter nada a ver com conservação. Um ecólogo pode trabalhar a relação da presa com o predador com matemática, fazer uma equação. Agora a disciplina que dá liga é a Biologia da Conservação. A pessoa pode ser ecólogo sem necessariamente trabalhar com conservação. Por que eu nunca fui ecólogo? Uma vez fui ler um livro que tinha tanta matemática que eu era incapaz de entender aquilo. Para ser bom ecólogo, tinha que entrar nessa coisa de modelagem matemática que não entendo. Aí criaram a Biologia da Conservação que é um grupo ligado, mas com enfoque específico. A Gláucia Moreira Drummond, que é diretora-geral da Fundação Biodiversitas, esteve em um congresso na Coreia do Sul e aprendeu métodos para trazer a tecnologia de verificação da diversidade e tudo mais para cá.


Para o povo na rua, ecologia é bicho, planta, verde. Certa vez, uma dona de casa estava plantando um vaso de flor na casa dela e me disse assim: "Professor, estou plantando uma ecologia". Eu desejo que a ecologia dela cresça! Mas olha aí, se o povo acha que ecologia é tudo, qualquer bicho ou planta, quem ensina isso tem que ensinar direito porque se não o menino pode ficar com raiva de bicho e planta. Eu chamo muita atenção para isso.


DM: Há cinco anos, o senhor afirmou em uma entrevista que alguns críticos ainda defendiam a ideia de que cientista não sabia escrever literatura. No mês de agosto, o senhor se tornou o mais novo imortal da Academia Mineira de Letras. O senhor acredita que esta é a comprovação definitiva de que o casamento de literatura e ciência é possível?
AM:
Isso aí já foi bastante discutido, já saíram algumas teses, como disse anteriormente, mas acho que minha produção científica não influenciou na minha entrada na Academia. O que influenciou diretamente foram duas coisas: primeiro minha produção literária infantil e depois a minha posição hoje como dramaturgo. Eu não queria aceitar entrar para a Academia antigamente, mas agora aceitei porque fiquei com a vaga do Bartolomeu Campos de Queirós, que foi um grande escritor infantil e muito meu amigo, então eu fiquei muito feliz de disputar a cadeira que era do Bartolomeu.


Eu acredito que o fato de não ter escritor infantil e nem dramaturgo atualmente na Academia também me ajudou. Agora todo mundo fala que eu sou imortal, mas é propaganda enganosa. Tem um artigo lá que garante a imortalidade até os 100 anos, depois o prazo de validade está vencido e você morre! Mas mesmo assim valeu a pena.


Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
AM -
Meu pai, Paulo Monteiro Machado. Eu aprendi muitas coisas com ele, principalmente tratar bem todo mundo, que é uma marca da minha família e do meu pai. Depois dele, o JK. Juscelino foi um super mineiro, o homem mais importante que o Brasil já teve, junto com o Pedro II.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
AM -
"Oh Minas Gerais".


DM - Adoro um bom prato de...
AM -
Doce de Ambrosia, tradicional do interior de Minas, e costelinha com canjiquinha, que também é prato mineiro.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
AM -
Acho que a pessoa tem que visitar a Pampulha e depois ir para alguma cidade satélite histórica. Tem também o Circuito Cultural da Praça da Liberdade que é muito bacana e o Museu das Minas e do Metal que tem lá é o melhor do mundo.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
AM -
Eu não levo quase nada não. Mesmo a passeio ou para visitar alguém, não costumo levar. Só quando é aniversário, porque é usual, mas eu gosto de dar e receber presente fora da data. Entre zoólogos, é comum a gente trocar bichos.


DM - Qual melhor escritor representa Minas?
AM -
Guimarães Rosa. Eu o considero o maior escritor de língua portuguesa.


DM - A paisagem que te inspira...
AM -
A Mata Atlântica.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
AM -
América, porque é amigo de todo mundo. É muito importante para o futebol de Minas que tenha um terceiro time. O problema do América é que ele não tem dinheiro, então ele forma jogador e vende. Olha o Fred, por exemplo, grande jogador, cria do América.


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
AM -
Quando meus meninos eram adolescentes, fim de semana era sempre fora. A gente ia para a Serra do Cipó acampar. Minha senhora foi uma grande cientista, trabalhamos juntos por muito tempo. A gente vivia com os meninos intensamente no campo, na praia. Toda família curte acampar. Hoje não, eu fico mais em casa, escrevendo, trabalhando. Domingo eu saio, vou almoçar fora, sábado de manhã vou muito à Savassi, lá tem várias livrarias que fazem muito lançamento de livro, como a Quixote, Ouvidor Savassi e Mineiriana.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
AM -
Conforme o tamanho da viagem, eu tinha saudade da minha mulher. Ela veio trabalhar no meu laboratório para estudar a glândula pineal, que é uma glândula até hoje pouco conhecida, aí a gente descobriu que estava mais interessado um no outro do que na glândula pineal. Fizemos um trabalho de namoro, foi apresentado no exterior, fizemos trabalho de noivado e o trabalho de casamento foi os filhos!


DM - Minas Gerais é...
AM -
Uma curtição! Eu gosto muito daqui, gosto de morro.


Estagiário: Matheus Ventura

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