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Paulinho Pedra Azul - Novembro de 2012

  • Belo Horizonte  - Cantor Paulinho Pedra Azul - Laís Andrade

Conhecido pela voz suave e por compor belíssimas canções, Paulinho encanta por sua simplicidade e demonstração de que, mesmo distante da terra natal, nunca perdeu as origens. Pedra Azul, além de fazer parte do seu nome artístico, é a cidade do Vale do Jequitinhonha em que nasceu, cresceu e iniciou sua carreira. Confira entrevista com esse genuíno artista mineiro.


"Acho que a forma de pensar, de se comportar, de agir, de buscar as coisas do povo do Vale do Jequitinhonha é um pouquinho diferente. Eu não estou aqui pesando se é melhor ou pior, mas é diferente, pois lá se divide tudo."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Como legítimo mineiro, você carrega pelo mundo o nome da sua cidade natal, Pedra Azul. Como é divulgar, de certa forma, esse belo atrativo?
Paulinho Pedra Azul - É divulgar sua própria história. Como nasci em Pedra Azul, acho que todo artista deveria usar pelo menos alguma coisa que lembrasse a raiz, de uma forma ou de outra, então achei o nome interessante e sugestivo. 'Azul' é uma cor bonita e 'pedra' significa algo forte, denso. E o Paulinho é um nome muito comum, você pode perceber que todos os "Paulinhos" têm um nome sugestivo depois, como Paulinho da Viola, Paulinho Astronauta, Paulinho Boca de Cantor, Paulinho Batera, Paulinho Mosca, enfim, como o nome é muito comum, usamos os apelidos.


Também assumi esse nome porque na época em que assinei meu primeiro contrato com a gravadora RCA, eles me localizavam como Paulinho Pedra Azul, pois tinha outros Paulinhos lá. Antes eu usava Paulinho Morais, mas acabei mudando, visto que também existiam outros com o mesmo nome.


As pessoas sempre me perguntam por que Paulinho Pedra Azul, aí explico que nasci em Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, uma cidade muito musical, muito bonita, e encho a bola de Pedra Azul para divulgar o lugar de onde eu saí, de onde saiu Dani Morais (cantora), de onde saiu Saulo Laranjeira, de onde saiu Murilo Antunes (compositor), uma série de pessoas envolvidas com política, poetas, então é interessante você falar de suas raízes.


DM - Conte-nos como foi sua infância e adolescência no interior de Minas Gerais. Tem alguma história interessante envolvendo nossas tradicionais manifestações culturais?
PPA - Com certeza. Quem nasceu no interior viveu melhor a infância, a juventude, um pedaço da maturidade. Eu morei em Pedra Azul até os 20 anos, fui bancário lá por dois anos, me formei no curso técnico em contabilidade no Colégio Estadual Cassiano Mendes e toda minha estrutura de formação como pessoa foi feita lá, em Pedra Azul. A infância é aquela infância de ir para a rua descalço, sujar a roupa toda, jogar bola, voltar na hora do café ou do almoço e, dependendo do horário que voltava para casa, já ia direto para a escola. Depois veio a adolescência, 13 para 14 anos, e a moçada tomava banho nos rios, ia para as fazendas, cachoeiras, subia nas pedras, pois tem muita pedra em Pedra Azul, e toda essa vivência com a natureza fortalece demais a alma da gente. Já na parte mais madura, entre 18 e 20 anos, foi a época em que me situei mais como profissional, que eu compunha mais, participava de festivais na redondeza em homenagem ao Jequitinhonha com o pessoal de cidades próximas, como Araçuaí, Itaobim e Salinas. Enfim, foi quando comecei a mostrar o trabalho produzido nesse tempo dos 15 aos 18 anos.


Foi nessa época também que comecei a produzir músicas que um dia se tornariam uma produção profissional.  Escrevi minhas primeiras poesias e fiz meu primeiro livro, lançado em 1978, que se chama "Pedaço de Gente", e ainda com nome de Paulinho Morais. Por volta dos 17 anos, compus "Ave Cantadeira", "Jardim da Fantasia", "Vagando", "Voarás", "Precisamos de Amores", "Cortinas de Ferro", entre outras. Aos 20 anos, me mudei para São Paulo, tendo ainda uma passagem por Vitória, no Espírito Santo. Fiquei um ano lá, a convite de um tio, irmão do meu pai, para poder estudar, concluir o ensino médio. Depois voltei para Pedra Azul e em seguida fui para São Paulo novamente, onde vivi por 12 anos.


Sobre as manifestações culturais, já participei de muitos movimentos interessantes no Vale do Jequitinhonha. Em Almenara, por exemplo, levei minhas pinturas, levei as poesias e penduramos em um varal na praça. Também participei do festival de música e escultura na areia, que foi na "praia" lá em Almenara, às margens do Rio Jequitinhonha. A escultura era uma coisa que eu morria de medo de fazer e não dar certo, então foi uma tentativa que se não desse certo, só batia o pé ali, derrubava a areia e ia embora. Acabou dando certo, fui premiado, mas nunca mais mexi com barro, argila, nem nada do tipo, que na verdade é uma coisa nossa. Na nossa região todo mundo mexia com barro, nas escolas, todo mundo aprendia a fazer artesanato nas aulas de arte.


Eu participei do 1º Festivale, em 1980, em Itaobim, e tive a sorte de ganhar com a música "Ave Cantadeira". No ano seguinte, a 2ª edição foi em Pedra Azul e acabei sendo classificado também. Outra situação interessante foi nos Festivales que participei como atração, com meus shows, pois senti que começavam a me valorizar como profissional. Desde então o Festivale cresceu muito. É uma semana de festa, onde tem teatro, circo, poesia, música, culinária. Sem contar os bares, a noite, as saídas, as serestas, as bebidas, os encontros das pessoas. O mais emocionante foi o de Minas Novas, em 1983. Foi uma coisa tão mágica que as pessoas caminhavam na rua flutuando, a comunidade toda participou. Eles faziam, por exemplo, um caldeirão de comida, de macarrão, arroz, de qualquer coisa, uma galinhada ou um frango e levavam para acampar na beira do Rio Fanado com direito até a café da manhã, com broa, pão de queijo, café com leite, tudo na cesta com paninho branco e bordado por cima. Então chegava umas 10, 15 pessoas levando as refeições. Eu achei uma troca de carinho muito grande, o festival era a maior paz, a cidade muito linda, todo mundo curtindo e tocando violão.


DM - Conforme comentado, você começou sua carreira participando de festivais em Minas e foi bastante premiado. De que maneira a cultura do Vale do Jequitinhonha influenciou no seu trabalho?
PPA - Influenciou totalmente, principalmente pelas músicas que eu escutava. Meu pai sempre comprava todos os discos daqueles vendedores ambulantes que vinham de fusca - geralmente de fusca porque era estrada de terra, onde o carro atolava em dia de chuva. Então eu escutava música francesa, italiana, americana, música de Viena, as grandes valsas, escutava música clássica e muita música brasileira da Jovem Guarda para trás, como Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Gonzagão, Altamiro Carrilho. Depois veio essa coisa da Jovem Guarda, o Beto Guedes, o pessoal do Rap e do Rock progressivo. Tudo isso foi uma formação para mim.


Teve o Eron Chasquento que tocava violão. Ele chegava, passava o violão para mim, eu todo inibido, todo tímido, novinho, e ele falava: "Toca aí, toca aí que você tem talento". E eu começava a tocar, ele me aplaudia. Nessa época eu trabalhava em um banco e lembro que o Eron falava que eu tinha que sair de lá. "Você não é bancário nada, você é músico" - eu estava com uns 18 anos - "você é músico!", me incentivava muito e é um grande amigo até hoje, foi uma das minhas grandes influências. E como cantor foi um outro amigo dele, amigo nosso, do meu pai, que se chama "Zé Goguenta" - é só nome engraçado-, ele cantava sem microfone, sem nada, e a cidade toda ouvia. Talvez eu tenha puxado um pouco desse meu timbre um pouco mais alto para falar e para cantar de tanto escutar o Zé Goguenta. Quer dizer, como eram muito amigos do meu pai, eu devia ter uns 15 anos e meu pai sabia que eu gostava de sair para as serestas com as namoradas, ele me deixava ficar com o Eron e o Zé. Eu chegava em casa 1 hora, 2 horas da manhã e estava tudo tranquilo. Meu pai sempre influenciou a gente, cada um com seu caminho, com a sua inspiração. Lá em casa é tudo diversificado, tem design, decoradora, músico, comerciante, empresário, então cada um seguiu o caminho que quis e meu pai sempre deu a maior força, minha mãe também, é claro.

 

DM - "Bem te vi, bem te vi / Andar por um jardim em flor / Chamando os bichos de amor / Tua boca pingava mel". Na década de 80, você gravou "Jardim da Fantasia" e, desde então, embala romances e desperta nas pessoas a lembrança de momentos especiais, além, é claro, de ser uma música apreciada por jovens e adultos. A que se deve o sucesso dessa canção?
PPA - Eu acho que ela é atemporal mesmo. Essa música não define o tempo. Inclusive, acho que o amor não define o tempo. O amor é eterno. Pode dar certo ou dar errado, mas ele é eterno. Principalmente quando dá errado! (Risos). Aí que ele é eterno mesmo. O tema de Jardim da Fantasia, como também o tema das outras músicas que componho, canto como se estivesse falando por mais pessoas, não só por mim, apesar de estar sentindo aquilo ali. Tento de certa forma me colocar no lugar das pessoas e fazer aquela música para que elas cantem, para descobrir alguma coisa ali dentro. A música surge, ela sai, não estou falando de hora, de momento, de quem, da pessoa, do que é, do nome, não dou nome, só o tema. Então no tema da música, como toda relação humana tem muito a ver com o eterno, sempre propus algo relacionado com a eternidade para tudo, pela felicidade, para os amigos, para a família, aos filhos. Sempre tento de uma certa forma cantar a eternidade. E eu acho que por isso a música não tem compromisso com o tempo, tem compromisso com tudo, menos com o tempo. A minha forma de compor é natural e acho que essa naturalidade a eterniza. É sem pretensão. Uma música simples, uma música fácil, onde o recado que você dá ali serve para todo mundo.


Essa música fez 30 anos agora, assim como o disco "Jardim da Fantasia", e, logicamente, ela sempre é cantada nos shows, independente de onde você chegue. Nunca esqueci essa música e as pessoas também já sabem que você vai cantar, dentre outras que os fãs pedem muito, como "Cantar" do Godofredo Guedes - que as pessoas acham que é minha, mas é que quando gravo música de outras pessoas é porque gostaria de tê-las feito, são músicas que falam o que eu gostaria de falar.


DM - Além de "Jardim da Fantasia", sua obra fonográfica ainda conta com outros grandes sucessos, como "Ave Cantadeira", "Sonho de Menino", "Valsa do Desencanto" e "Recado Para um Amigo Solitário". Qual dessas canções tem especial valor para você?
PPA - Engraçado, essa é uma pergunta que não me aperta. Costumo responder que é uma música que eu não fiz ainda. É engraçado isso! Música é igual filho. Você tem oito, dez filhos, de qual você gosta mais? É difícil... Cada um tem uma coisa para oferecer a você, para retornar a você. Quando componho escrevo coisas ali que eu gostaria que acontecessem comigo ou que já aconteceram. Então é muita verdade o que eu escrevo. A música "Recado para um amigo solitário", por exemplo, fiz para o amigo Rogério lá de Pedra Azul, meu compadre. Ele estava triste porque tinha terminado um noivado, eu ia até ser padrinho do casamento. Ele estava mal, baixo-astral, aí fomos para a rua, para a farra, ficamos uma semana em Brasília, saímos, bebemos, tocamos violão e ele ficou legal, deu uma relaxada. Aí ele foi me deixar na rodoviária para pegar o ônibus para São Paulo e me disse assim: "Estava tão bom com você aqui, como é que vou fazer agora, vou ficar só de novo?" E eu também tinha terminado com uma namoradinha em São Paulo na mesma época e falei para ele: "Bicho, estou indo para São Paulo e você sabe que também me separei e vou ficar sozinho. Então se lembre de mim, você vai ficar só e eu também". Fiquei com aquilo na cabeça, matutando na viagem, cheguei a São Paulo e acabei fazendo a música que diz assim: "Quando chegar na tua casa e encontrar solidão, lembra de mim que também vivo só". Então as inspirações vão acontecendo de acordo com sua vivência, com as pessoas.


Recentemente fiz uma parceria com Guilherme Rondon, que é paulista, mas foi criado em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, lá no Pantanal dos Paiaguás. Um dia, falei brincando com ele: "Ô, Gui, manda uma melodia aí para eu colocar uma letra, que vou te mandar uma letra para você colocar melodia". E ele falou assim: "Nossa, você me pegou, eu consigo colocar letra em música, mas não música em letra. Nunca fiz isso, mas vou tentar". Quando a melodia dele chegou e botei para tocar, peguei papel e caneta e comecei a escrever, clicando pause e fazendo a frase. Terminei a letra e mandei para ele, que disse: "Que isso? Você está doido? Eu te mandei a melodia agora!", e eu respondi: "Pois é, já saiu a primeira parceria". Isso é bacana porque como eu componho muito sozinho, música e letra desde o início da carreira, de uns anos para cá tenho tido uns 60, 70 parceiros. O Paulo César Pinheiro fala que ele é o mais promíscuo compositor brasileiro porque tem mais de 150 parceiros. Estou chegando lá, estou ficando meio promíscuo, mas por enquanto só tenho uns 60.


DM - Você sempre foi do romântico à MPB, mas independente disso, sempre inova em seus trabalhos, seja enfatizando a suave poesia nas composições ou firmando parcerias com músicos mais jovens. Como é a troca de aprendizado entre vocês?
PPA - É muito legal, pois me coloco como jovem e deixo-os pensar que são velhos (risos). Quando o Marcelo (Jiran) estava com uns 17 anos, liguei para ele e falei: "Marcelinho, o Marcelo Drummond não vai poder fazer show comigo, será que você conseguiria pegar algumas músicas?" E ele falou para mandar as músicas. Mandei 18. Em dois dias ele tirou todas as músicas e não errou nenhuma nota no show. Impressionante! Era aquele molequinho pequeno, magrinho, fechado, não conversava nada. Depois eu descobri que ele estava tocando flauta, piano, sax, pandeiro, tocava tudo! Hoje o Marcelinho tem 27 anos, ou seja, tem 10 anos que a gente se conhece e trabalha junto, foi ele quem fez a produção musical do DVD que vamos lançar ano que vem, gravado no Palácio das Artes em 2011. Foi ele quem escreveu a cifra para todos os instrumentos, então é um menino especial, multi-instrumentista de muito bom gosto, adora Bossa Nova, Tom Jobim, Chico (Buarque), Beatles. Quando falei com ele sobre Beatles ele disse que nunca tinha escutado, aí passou um tempo e lá estava o Marcelinho tocando tudo dos Beatles no sax, na flauta, no piano, fiquei impressionado com esse talento. Como ele é músico e me fornece a melodia, vem uma melodia mais moderna, que é o jeito dele compor desde os 17 anos de idade. Ele me manda as músicas e vou colocando as letras, e, de repente, tínhamos 60 músicas.


Acontece isso também com o Paulo Henrique, que é um pouco mais velho do que ele. É um músico que conheci em São Paulo, violoncelista da Orquestra Jovem de Mogi das Cruzes. Fui fazer um show lá certa vez e a namorada dele veio atrás de mim para entregar uma fita, fita cassete ainda, com as músicas que o Paulo estava morrendo de vergonha de mostrar. Cheguei em casa, escutei a fita e de cara já fiz 5 letras em cima de 5 melodias. Na manhã seguinte fiz outras 5, mandei as 10 músicas prontas para ele, que me mandou mais melodias e assim continuamos. Então tem algumas pessoas que musicalmente também batem com a minha musicalidade. Percebo que ali tem coisas interessantes porque saio um pouco da balada, da coisa mais romântica e encontro o xote, baião, samba, choro, ou seja, meu trabalho diversificou muito quando comecei a fazer parcerias com essas pessoas, até porque adoro todos os ritmos brasileiros.  


DM - Você ainda desenvolve trabalhos com o conterrâneo Saulo Laranjeira? Como começou essa parceria?
PPA - O Saulo é um grande amigo e irmão. Foi a pessoa que mais me incentivou a continuar na música e ir para São Paulo. Ele já morava lá, mas antes morou muito tempo no Rio de Janeiro, onde trabalhou com o Heitor, também de Pedra Azul. Eles faziam trabalhos de teatro infantil com músicas compostas por eles ou adaptadas. Os dois buscavam valorizar o folclore da nossa região. O Saulo sempre foi muito preocupado desde jovem em conservar essa coisa do folclore, que é uma coisa que ninguém falava na época. Existia o folclore, mas não existia essa coisa de conservar e ele brigava muito por isso junto com o Heitor.


Hoje, o Heitor mora na França, desenvolve lá um trabalho musical e o Saulo continua aqui com os shows dele, com o humor que todo mundo sabe que é demais! Na época em que morei em São Paulo com o Saulo nós viajamos muito pelo interior com um projeto do governo da época que era cantar em presídios, creches e escolas. Foi uma experiência fantástica para mim, pois eu era muito tímido e o Saulo me deu essa oportunidade de viajar com ele, tocar violão, fazer vocal, até chegar ao ponto de me oferecer para tocar na Flor da Laranjeira, que era uma casa de cultura muito interessante que ele mantinha em São Paulo, onde tinha artesanato, comidas típicas, exposição de culturas e shows, toda noite era uma atração diferente. Então comecei a ficar mais desinibido a partir daí e foi também quando convivi com o pessoal que mudou a cara da música paulista.  


DM - Uma característica intrínseca do mineiro do Vale do Jequitinhonha é a mania de fazer as coisas em conjunto. Você acredita que os vários parceiros de trabalho que tem e já teve ao longo da carreira comprovam essa peculiaridade?
PPA - Sem dúvida. Acho que a forma de pensar, de se comportar, de agir, de buscar as coisas do povo do Vale do Jequitinhonha é um pouquinho diferente. Eu não estou aqui pesando se é melhor ou pior, mas é diferente, pois lá se divide tudo. Por exemplo, na minha família somos oito irmãos e desde pequeno a gente aprende a dividir as coisas, não exagerar, não ficar com inveja do presente do outro e até hoje mantemos essa cultura da divisão. Todo janeiro e julho vou para lá, para a rocinha da minha família, um lugar simples, mas gostoso de descansar, curtir, caminhar, pescar, andar a cavalo, tomar um golo, cozinhar no fogão a lenha, na panela de barro, um feijão, arroz, farofa de urucum com manteiga de garrafa, carne de sol, cachaça e queijo cabacinha, o que você quer mais?!


DM - A música "Belo caso de amor" foi feita para homenagear Belo Horizonte. Explique-nos melhor sobre essa relação de amor com a capital mineira.
PPA - Começou quando eu ganhei o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte pelas mãos do meu querido amigo Eduardo Lima, então vereador. Foi emocionante a entrega porque foi o primeiro prêmio na Câmara Municipal que teve uma festa. Bebida, comida, violão. No final eu falei: "Ô gente, vamos tomar uma ali no salão, vai ter uma cervejinha ali" E o pessoal não acreditou. Detonamos a cerveja, o tira-gosto, foi bom demais! Todo mundo adorou, os vereadores tomaram cerveja e cantaram, isso tem uns 10 anos já. O Rubinho do Vale cantou, Tadeu Franco e Arlindo. Todos os amigos cantaram e foi uma festa maravilhosa.


De certa forma eu fui me sentindo filho de Belo Horizonte oficialmente por causa do título. Pensando nisso, um dia fui falar com o Geraldinho Alvarenga, meu parceiro, que fez várias músicas comigo também, que eu estava devendo alguma coisa a Belo Horizonte para poder devolver esse carinho que eles me deram de ser cidadão honorário. Então pedi a ele para fazer um choro canção para mim. Todas as homenagens de Belo Horizonte falavam da cidade de uma forma que não era a que eu queria falar. Aí Geraldinho fez a música, mandou para mim e eu fiz a letra de "Um belo caso de amor", falando exatamente desse amor de Belo Horizonte comigo e eu com Belo Horizonte. "Hoje acordei com a folia, o povo cantava e Belo Horizonte marcou um novo dia, a nossa cidade é de se apaixonar. Entre avenidas e ruas ou qualquer esquina (que é o Clube da Esquina) eu sempre estarei, pois admiro a cidade, canto a liberdade que sempre sonhei". Falo dos locais sem precisar falar de praça ou diretamente do Clube da Esquina, mas colocando esquina, liberdade e ficou legal, tem tocado por aí!


DM - O Descubraminas entrevistou recentemente os professores Cástor Cartelle e Angelo Machado, cientistas que escrevem livros para crianças. Você também possui publicações voltadas para esse público, inclusive já recebeu o prêmio "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Infantojuvenil. Por que você acha que cientistas e artistas desenvolvem trabalhos voltados para esse público?
PPA - Eu acho que é ousadia porque antes de escrever meu primeiro livro infantil, eu tinha mandado 40 poesias para a editora e eles me ligaram dizendo que tinham gostado, que das 40, 14 eram infantis e, com isso, me convidaram para escrever um livro para esse público. Falei que era um sonho meu fazer um trabalho infantil e pedi um tempo para escrevê-lo, com base na minha infância em Pedra Azul. De repente, aquela criança do interior estava falando lá dentro por mim, empurrando as palavras e descobri que 14 poesias que eu achava que eram de adulto eram infantis. E assim publicaram o livro "Uma fada nos meus olhos". A partir daí, o Gabriel meu filho nasceu, e eu ficava com ele o tempo todo porque o músico está sempre viajando, mas quando está em casa tem o dia inteiro, às vezes compondo, resolvendo algumas coisas na rua, mas estava sempre presente.


Teve um dia que eu fiquei olhando ele dormindo, se espantava de vez em quando, mexendo com o olhinho e eu ficava pensando no que passava na cabeça de uma criança numa hora dessas. Ele devia ter um ou dois aninhos. Será que são os carneirinhos pulando? Eu me perguntava. Comecei a imaginar que deveriam ser bichinhos passando pelo sonho dele, fui para o escritório e comecei a escrever o livro "Saltando os Bichos". Imaginei que ele estava pensando em tatu, urubu, peguei esses bichinhos que quase ninguém fala e comecei a escrever. Quando Gabriel acordou, meu livro estava pronto. 


DM - Depois de 30 anos emocionando os fãs de todas as idades, o público jovem ainda tem sido muito cativado pelas suas canções. Você acredita que sua música ajuda na formação humana e intelectual dos jovens músicos?
PPA -
Eu acho que sim, pelo menos no que diz respeito à amizade, ao amor, à procura, aos sonhos, já que intelectualizar não é só estudar. Tem a sensibilidade da vida, o natural da vida que é o que minha música fala, da relação humana. Então acredito que quando falo de amizade é uma prova de amizade mesmo, igual eu falei naquela música do "Recado para um amigo solitário", e outras músicas que fiz para outros amigos e amigas, ex-namoradas ou pessoas com quem eu vivi coisas bonitas que me fizeram compor. Acho que minha música tem essa coisa da relação humana, da sensibilidade, do respeito. Eu sempre tento falar de uma forma mais humana sobre os problemas da vida, tentar resolvê-los de uma forma mais humana, mais doce até fazendo música para que tudo volte ao normal. Por exemplo, quando se tem um relacionamento bacana com a pessoa, mas depois passa, acaba, você fica triste. Passa um tempo e você pensa: "Poxa vida, mas por que essa pessoa não volta para mim?" "Por que não tentar de novo?". E, de repetente, aparece outra pessoa que corta você desse pensamento e já vêm outros problemas também, outras virtudes, outras atenções, outras discussões. Somos pessoas que viemos de raízes diferentes, embora às vezes com os mesmos valores.


Minha criação foi uma criação cristã, da fidelidade, do amor, de devoção, de dedicação à família. E ficamos muito ligados a tudo isso. Então se você chega para relacionar com uma pessoa que é o oposto, onde a família é degradada e não tem valor e não tem nada, essa pessoa não vai te respeitar, e, por outro lado, não tem espaço para você respeitá-la. Eu parei de sofrer por causa disso também. Lógico que todo mundo quer estar preparado para não sofrer, mas eu encaro minhas coisas assim, me relaciono bem com minha ex-mulher, com amigos que são mais complicados, relaciono de uma forma bem tranquila, procuro sempre sorrir para eles, às vezes a pessoa não gosta de mim por algum motivo e às vezes também não perguntou sobre minha vida, não conversou comigo para saber quem eu sou direito, só porque 'ouviu falar' às vezes perde uma amizade legal porque outro que não gostava falou de mim alguma coisa. Então temos que estar atentos e sempre com o coração aberto. Não é deixar a pessoa entrar na sua vida e fazer o que ela quiser não, mas acho que você tem que estar com coração aberto para escutar as pessoas, até secar.  Quando secar não tem jeito mais, secou, tchau para você, eu cuido da minha vida, felicidades para você, te respeito e você me respeita. Vamos embora para a vida que tem gente aí pela frente para conhecermos.

 

Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
PPA - Tancredo Neves


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
PPA - "Oh Minas Gerais"


DM - Adoro um bom prato de...
PPA - Feijão na panela de barro com carne cozida


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
PPA - Voltar a Minas


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
PPA - Meu disco


DM - Qual melhor escritor representa Minas?
PPA - Carlos Drummond de Andrade


DM - A paisagem que te inspira...
PPA - A paisagem da nossa rocinha lá em Pedra Azul


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
PPA - Cruzeiro


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
PPA - Na Roça


DM - Quando estou fora morro de saudades de...
PPA - Meu filho Gabriel


DM - Minas Gerais é...
PPA - Canto que nos protege.


*Estagiários:
Laís Andrade
Matheus Ventura

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