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Dona Jandira - Junho 2013

  • Maceió / Ouro Branco - Dona Jandira - Matheus Ventura

Em junho, o Descubraminas conversa com a artesã e cantora alagoana, mineira por opção, Dona Jandira. Num descontraído bate-papo, a artista de 74 anos nos prova que Minas tem samba, e dos bons. Intérprete de grandes nomes da música brasileira, como Ataulfo Alves, Vinicius de Moraes, Paulo César Pinheiro, Noel Rosa e Cartola, Dona Jandira mostra que tem estilo próprio e dá uma palhinha de sua elevada erudição.


"Hoje, Minas representa minha vida, foi o lugar que escolhi para viver e não tenho a menor vontade de sair. Foi aqui que mudei a minha vida e fui muito bem-sucedida e acolhida por todos."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - A senhora é alagoana, mas logo que teve a oportunidade mudou-se para Minas Gerais. Por que a escolha de Minas como lar?

Dona Jandira -
Eu costumo dizer que para contar minha história, principalmente a parte vivida aqui em Minas Gerais, é preciso muito tempo, mas vamos lá. Há 22 anos, vivo em uma cidadezinha mineira, Ouro Branco. Na verdade, vim de Maceió para cá por causa do artesanato, quando me aposentei como pedagoga, investi nessa área e participei de várias feiras pelo Brasil, inclusive em Minas, que também tem uma ligação forte com esta prática. Como vinha muito para cá a convite de comerciantes, aproveitava para conhecer os locais de onde vinha a matéria-prima que chegava ao Nordeste para mim, fiquei muito satisfeita com minhas descobertas e resolvi optar por Minas Gerais.

Em Ouro Branco, eu integrava um clube da terceira idade, onde participava de várias atividades, inclusive cantando, só não gostava muito de dançar. Um dia, uma senhora que também era do grupo e morava em Itatiaia, Distrito de Ouro Branco, viu que eu já estava me queixando do ritmo de trabalho, a idade estava chegando, e me chamou para morar em Itatiaia, lugar que eu nem sonhava que existia. Quando fui conhecer o povoado fiquei com o pé atrás, desconfiada, curiosa, com medo de bichinho do mato, eu nunca tinha vivido em um lugar assim antes, mas fui me entrosando, conhecendo as pessoas. Então escolhi Minas pelo acolhimento que tive aqui. Costumo falar que a receptividade da turma daqui foi muito importante para minha decisão, também acredito que tudo é direcionado por Deus, eu tinha muitos outros lugares para ir, mas vim parar em Minas e sou muito satisfeita com essa escolha.


DM - Em 2004, a senhora se lançou oficialmente na carreira musical, mas desde a infância esteve neste meio. Como foi se redescobrir como cantora aos 65 anos?

DJ - Tudo começou em Itatiaia, quando eu conheci o Wilton Guimarães, um menino que na época tinha 15 anos, já era um empreendedor e não sabia. Ele disse que me viu em Ouro Branco cantando o hino da cidade, me reconheceu um tempo depois e perguntou se eu não podia fazer um coral com os meninos da comunidade. E isso rendeu! Fiz uma parceria com esse menino e nós viramos aquela Itatiaia, fazendo trabalhos sociais com a criançada, com a comunidade e com a igreja.

Um dia, para dar continuidade aos trabalhos em Itatiaia, fui me credenciar na Ordem dos Músicos para montar o coral que o Wilton tinha sugerido, chegando lá, o José Dias Guimarães, que é meu empresário hoje, me convidou para fazer um teste. De mais velha, só tinha a moça aqui, o restante do pessoal era todo jovem. Na hora do teste, fiquei muito nervosa, mas precisava me controlar e deu tudo certo, tanto que ele acabou me convidando para fazer um trabalho aqui em Minas Gerais e eu nem sonhava em investir na carreira como cantora.

Olha o que aconteceu! Fui fazer o teste para me credenciar apenas para conduzir o trabalho com as crianças lá em Itatiaia e o feitiço virou contra o feiticeiro, acabei sendo descoberta, fiquei muito assustada, mas, hoje, não tenho palavras para agradecer o carinho que as pessoas, os fãs têm comigo. Sempre que faço uma entrevista aproveito para agradecer a todos pelo carinho. Digo que tudo isso é culpa do José Dias Guimarães, mas é uma culpa boa, que serve e faz bem para mim e para muita gente, eu me emociono fácil e fico muito comovida ao ver que as pessoas saem de casa para me ver.


DM -
Com o coral "Os Bem-Te-Vis", fundado e regido pela senhora no Distrito de Itatiaia, a vida de muitas crianças foi transformada e a Música Popular Brasileira resgatada. Como a senhora caracteriza esse projeto?

DJ -
Pelo fato de nunca ter tido um planejamento, ou seja, tudo foi acontecendo depois da ideia do Wilton, um membro da comunidade que conhecia tudo, conhecia as pessoas e me ajudou a juntar as crianças, a arrumar uma blusinha branca para os meninos se apresentarem e aos poucos nós fomos conquistando tudo. Então foi um projeto que realmente mexeu com a comunidade e favoreceu a todos, mexeu até com quem não estava diretamente envolvido.

Na época, fizemos apresentações em Congonhas, aqui em Belo Horizonte, principalmente lá na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e com isso o povoado se tornou conhecido, tanto que os governos municipal e estadual passaram a nos apoiar, convidando para participar de eventos, como abertura de jogos e festas locais, assim, a comunidade melhorou bastante, fui entusiasmando e acabamos por fundar uma associação, a Associação Sócio Cultural "Os Bem-Te-Vis", e foi aí que a comunidade melhorou de vez, pois conseguimos fazer com que todos os nossos projetos fossem ligados ao Ministério da Cultura. Hoje, o Wilton fica responsável pela administração e eu fico com a ação, com o operacional, o que dá muito certo.


DM - Então além do coral infantil, outros projetos da Associação "Os Bem-Te-Vis" também trouxeram benefícios para toda a comunidade. O que lhe motivou a fazer esse trabalho, a investir nessas pessoas?

DJ - O mais interessante dessa história toda foi mesmo o fato de que tudo foi acontecendo, uma coisa foi puxando a outra, a receptividade das pessoas, minha retribuição. E esse processo todo em Itatiaia partiu da ideia de um menino que conhecia a realidade local e foi empreendedor mesmo sem saber, só precisava de uma pessoa que conseguisse enxergar isso nele e no potencial daquele lugar.

Uma coisa muito importante para a comunidade foi a reforma da igreja, que muita gente ajudou a concretizar, então hoje nós temos uma igreja em um povoado dos anos 1700 altamente moderna. A comunidade ficou maravilhada com o patrimônio e eu fiquei muito feliz por ter vindo de fora, conseguido promover tantas coisas boas, mas bem melhor foi ter sido aceita pelas pessoas, eu é que tenho que agradecer a essas pessoas.


DM - Em agosto de 2008, a senhora lançou o primeiro CD e fez até uma turnê por várias cidades do interior de Minas, além do DVD lançado em 2011. De que forma Minas Gerais interfere no seu trabalho como cantora?

DJ -
Bem ativamente. A prova disso são os shows que faço aqui, as entrevistas que concedo, como esta, os convites para participar de eventos de outras áreas. Eu tenho 74 anos e fico satisfeitíssima quando me convidam para palestras em áreas que nunca pensei que participaria, como na área da saúde ou da educação. Sempre digo que a minha vida antes de Minas não tinha nada a ver com o que acontece hoje. Eu até iniciei meus estudos musicais na infância, com minha mãe, que era professora de piano e acordeom, mas nunca investi nessa área devido aos preconceitos da época, então eu fico muito feliz porque isso tudo que vem acontecendo comigo começou aqui.

Hoje, Minas representa minha vida, foi o lugar que escolhi para viver e não tenho a menor vontade de sair. Foi aqui que mudei a minha vida e fui muito bem-sucedida e acolhida por todos. Hoje vivo integrada a Minas Gerais, em todos os sentidos, e pretendo investir em muitos outros projetos por aqui.


DM -
Ao interpretar as canções, a senhora parece misturar samba, bossa nova, MPB, jazz e até coloca uma pitada blues nos arranjos. É isso mesmo? Como a senhora consegue juntar todos esses ritmos musicais sem perder a essência do gênero popular?

DJ -
Ouviu bem, hein! Bom, como sou de família musical, desde pequena convivia com o meio, sempre apresentei uma sonoridade, sabia da minha musicalidade, então esse gênero foi uma coisa minha, uma espécie de intuição, pois eu nunca estudei canto ou artes cênicas, nem exercício vocal costumava fazer, minha mãe me ensinou apenas a parte dos instrumentos, me ensinou a tocar violão, não me considero violonista, mas sei tocar. Toda vez que passo pelo médico ele diz que minhas cordas vocais estão em perfeitas condições e olha que minha idade é avançada, mas meu timbre é forte e por aí vou aproveitando o que foi reservado a mim.


DM - Com essa voz abençoada, a senhora consegue requintar até cantiga de roda. Acredita que este seja um dos motivos para atrair tantas pessoas às suas apresentações, principalmente o público jovem? Qual é o diferencial da Dona Jandira?

DJ -
Eu fico até emocionada com isso porque é muito estranho chamar a atenção desse público. Hoje de manhã mesmo, vindo para esta entrevista, escutei alguns jovens me gritando pelo caminho, então eu acho super interessante isso. Acredito que o diferencial deve mesmo estar no meu jeito de conduzir as apresentações musicais, pois os shows começam naturalmente mais tarde, lá pelas 23 horas, e as casas ficam repletas de gente de 30, 35 e 40 anos, aí eu pergunto para eles porque estão ali uma hora daquelas, um deles um dia me respondeu assim: "Engraçado a senhora me perguntar porque estou aqui a essa hora para lhe ver. Não tem jeito de não vir, Dona Jandira, com essa voz, essa leveza, alegria, como é que a gente não vem?" Um detalhe que aconteceu em um dos meus shows foi demais! Um casal de jovens que estava na plateia ligou para os pais no meio do show, naquela altura da noite, eles já estavam debaixo do cobertor, como vocês costumam falar aqui, levantaram e vieram assistir o restante da apresentação.

Sou a mesma pessoa em qualquer lugar, se for aqui dando entrevista, no show, numa conversa informal, então eu acho que essa naturalidade para lidar com as coisas deve ser um diferencial. Em festivais, por exemplo, fico muito impressionada com o carinho das pessoas, acho incrível e fico sem palavras para agradecer, e ainda tem a banda que me acompanha, músicos maravilhosos, o pessoal da produção e direção, o José Dias Guimarães, como eu citei, todo mundo muito atencioso, então Dona Jandira é um conjunto de tudo isso. Acho que no fim das contas as pessoas vêm pela voz, pela banda, pela apresentação que fazemos e pela pessoa que eu sou, costumo falar que, fisicamente, eu não sou jovem, não sou bonita, não sou loira, não tenho os olhos azuis, não tenho o corpo de top model, e também não estou preocupada com isso, mas as pessoas gostam de mim e vem me assistir.


DM -
Após sua descoberta, temos a impressão de que o samba ficou mais mineiro. Qual o sentimento da senhora perante tudo isso que vem acontecendo na sua vida aqui em Minas Gerais?

DJ -
Realmente Minas Gerais mudou o itinerário da minha vida, modificando todo quadro da minha existência. Eu estudei, me formei em Pedagogia, trabalhei na área, me aposentei, voltei a trabalhar, mexi com artesanato, criei filhos e netos, aí quando pensei que já estava bom vem mais essa novidade na minha vida, que foi a oportunidade de me dedicar à música. Então eu não tenho outro sentimento na vida hoje se não o de realização, pois sou uma pessoa feliz com essa minha nova vida.

Não quero que me achem carola, mas acho mesmo é que isso é coisa de Deus. Quando eu era garota, muito jovem, tive um professor religioso que me disse: "Querida aluna, quando você for para a vida adulta e tentar resolver algum problema à luz da razão e não conseguir, saiba que isso é mistério, e mistério só pertence a Deus". Como se fosse hoje, eu ouço essas palavras e paro para refletir sobre tudo que está acontecendo, que é uma coisa inédita, uma cantora que se descobre numa idade mais avançada não é uma coisa comum, não é a ordem normal das coisas, então esse é o meu mistério e para mim isso é coisa de Deus, não me cabe julgar nada, apenas agradecer por ter me guiado para Minas Gerais e me dado esse presente.


DM - A senhora vive em um pequeno povoado, repleto de tranquilidade e sossego. É neste cantinho, no meio das montanhas de Minas, que busca forças para se dedicar a tantos projetos, inclusive à música?

DJ -
Hoje me divido entre Belo Horizonte e Ouro Branco, mas sempre que tenho a oportunidade passo uma temporada no meu cantinho lá em Itatiaia para recarregar as energias. Agora nesse meu novo mundo de apresentações musicais, até para fazer passagem de som antes de subir no palco preciso de calma, pois nunca tinha visto isso na vida, quando chegava a hora do show, a casa lotada, tudo para mim foi sendo difícil, por mais que já tivesse um contato com o meio, nunca tinha me exposto ou me dedicado a essas questões, nunca tinha entrado em um estúdio.

Então depois disso tudo, me resta o sítio lá em Itatiaia, o espaço cultural que mantenho lá para a comunidade porque foi lá que tudo começou, e agora estamos com uma estrutura muito boa, já temos até uma grade cultural, e eu nem sabia o que era isso. Não sei se é defeito ou virtude, mas costumo dizer que não faço as coisas só para mim, faço para as pessoas, pois isso me deixa numa felicidade que você nem imagina, sem contar no retorno caloroso que a gente tem. O meu Facebook é a coisa mais linda do mundo, em poucos dias tinha mais de 5 mil amigos, tive que fazer outro. Uma moça me escreveu esses dias dizendo que eu estava moderníssima. Ainda estou em treinamento, por isso meu neto me ajuda, mas sempre que posso vou lá e respondo o pessoal, retribuindo o carinho de todos.

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