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Wilson Baptista - Dezembro 2013

  • Belo Horizonte - Fotógrafo por paixão, Sr. Wilson registrou o desenvolvimento de BH - Roberta Almeida

Nascido em Belo Horizonte, em 1913, o fotógrafo Wilson Baptista acompanhou e registrou momentos que marcaram a história da capital. Ao Descubraminas, apresentou uma de suas primeiras câmeras fotográficas, uma Contax toda em metal, que funciona até hoje. Com um precioso acervo que começou a construir despretensiosamente aos 13 anos, Sr. Wilson fala sobre o tempo em que pelas ruas da cidade passavam bondes e carros de boi, além de nos revelar seu segredo para a longevidade.

"Minas Gerais é um coração de ouro em um peito de ferro".


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Quais são as lembranças da Belo Horizonte de sua infância?

Wilson Baptista -
Belo Horizonte era uma cidade muito pacata, em todos os sentidos, com pouco movimento, e eu vivi grande parte da infância no bairro Floresta, depois de um tempo me mudei para a Rua Caetés, no Centro da cidade. Onde é hoje a praça da rodoviária havia um mercado, uma construção de ferro que veio da Bélgica, era muito bonito, a praça era de terra e muito arborizada.

Sou filho único e como sempre de estilo frágil, minha ligação com os meninos da rua não era muito forte, então eu ficava jogando bola no pátio de casa e lia muito, meu pai sempre comprava um exemplar de uma revista chamada "O Tico Tico", que eu tenho até hoje. Nesta época, meu pai trabalhava como escrevente, ele levava serviço para casa e acontecia de sobrar papel, daí eu sempre aproveitava para desenhar, fazer dobraduras e recortar figuras.

Minha primeira infância foi em
Santa Luzia, na casa dos meus avós maternos, lá eu era solto, a casa tinha um quintal enorme, mas tive que voltar para BH porque tinha que entrar para a escola. Um tempo depois, fiz um curso de dois anos de contabilidade na área de comércio, aí cansei e fui para o Ginásio Mineiro, que funcionava onde é hoje o prédio do Corpo de Bombeiros, na Avenida Afonso Pena, fiz três anos de curso lá. A cidade era aquela serenidade, com avenidas arborizadas, o mínimo de trânsito e o comércio era bem aprimorado.


DM - Nos anos 20, mais precisamente em 1926, o senhor começou a dedicar-se à fotografia. O que mais despertou seu interesse por esta arte?

WB -
A fotografia para mim foi um hobby. Digo que sou fotógrafo bissexto, quer dizer, gosto muito de fotografia, sou do tempo da fotografia de laboratório, mas essa não foi a atividade principal na minha vida, o que sustentou minha família mesmo foi meu trabalho como oficial de registro civil, de 1939 a 1983. Mas, quando eu tinha 13 anos, um amigo do meu pai apareceu lá em casa com uma maquininha e bateu algumas fotografias, foi a primeira vez que vi uma máquina fora de estúdio, achei engraçado aquele negócio e ele me emprestou a câmera. Comecei a bater fotografia da família, dos lugares onde ia, como lá em Santa Luzia, a gente ia de trem e eu já aproveitava para registrar a estrada, aí aproveitava o ângulo de movimento do trem e fui gostando daquilo.

Aos 16 anos, comprei minha primeira Box, depois fui melhorando os modelos, até que em 1938, por circunstâncias até um pouco estranhas, fui obrigado a adquirir uma Contax, que também tenho até hoje. Não sei se você chegou a conhecer o Foto Elias, que ficava ali na Rua Tupinambás. Um dia, o Elias precisou vender três máquinas em uma semana, as máquinas eram um absurdo, eu ganhava 420 mil réis por mês e a máquina custava quatro contos e quinhentos, dez vezes meu salário, mas ele insistia que eu ia ter que comprar aquela máquina para melhorar meu equipamento, e para ajudá-lo. Aí comprei! Fucei tudo, apanhei para aprender a mexer e fui testá-la em
Ouro Preto, quando voltei para cá mostrei para meu chefe de gabinete na Prefeitura Municipal, onde eu trabalhava como taquígrafo - outra de minhas atividades-, e ele gostou das fotos, acabei participando do primeiro Salão de Belas Artes aqui de Belo Horizonte, no qual fiquei com o primeiro prêmio.

Nessa época, também houve aqui um Congresso de Municípios, onde cada prefeitura apresentava um álbum, não sei porque esse material foi parar lá no gabinete, mas o trabalho era horrível, aí Dr. Lisboa, chefe do gabinete, propôs que eu fizesse o álbum de Belo Horizonte, expliquei que não era profissional, mas ele insistiu que eu apresentasse o orçamento. Deu certo! Foi a primeira vez que fiz fotos panorâmicas, eles pediram 12 fotografias, eu apresentei 30 fotos em um álbum bem preparado e escolheram 24, foi bom que ganhei o dobro do combinado, suficiente para pagar a câmera.


DM - Então o senhor aprendeu a fotografar sozinho?

WB
-
Sim. Aprendi praticando, e, claro, passei a pesquisar muito sobre o tema, a ler, importar revistas americanas, inglesas e francesas. No final dos anos 40, ganhei do Marques Rebelo vários livros em italiano, alguns em alemão, revistas, equipamentos de fotografia, amostras de papel que pertenciam ao seu pai, que era fotógrafo. Aí minha família começou a me presentear com livros de fotografia, minha primeira esposa os comprava numa livraria que ficava na Rua da Bahia, aí eu tive que levar a fotografia a sério.


DM - O senhor dedicou boa parte da vida ao registro de imagens de Belo Horizonte, como as fotos da construção do Conjunto JK, do Colégio Estadual Central e da inauguração das avenidas Antônio Carlos e Amazonas. O que o senhor considera mais importante de se captar na paisagem urbana?

WB -
Bom, eu nunca olhei as coisas pelo aspecto do que elas realmente eram, mas observava se aquela determinada composição visual me agradava. Tenho algumas fotografias que gosto muito, como as da torre da Prefeitura de Belo Horizonte, que tirei na época do álbum do encontro de municípios, da construção do Colégio Marconi, do Hospital Felício Rocho, mas o que eu mais gostava de fotografar em Belo Horizonte era a Serra do Curral.


DM - Por apreciar as composições geométricas, o senhor pode aproveitar a BH modernista que se ergueu a partir dos anos 50. Em sua opinião, qual imagem define a capital mineira?

WB -
Hoje, eu acho que Belo Horizonte está um verdadeiro caos, há construções subindo por lugares impossíveis, mas uma coisa que eu fotografei por muitas vezes e que hoje ainda me agrada é o Parque Municipal. Também quando começou a construção da Pampulha, eu fiz muitas fotografias, inclusive tenho uma aérea, de 1939, muito boa, então acho que a Pampulha ainda é uma imagem que define a cidade.


DM - Por que o senhor gostava de fotografar a cidade? O que achava interessante?

WB
-
Agora você me fez uma pergunta difícil. Bom, eu ficava passeando com a câmera, se via uma coisa que me agradava, fotografava. Por exemplo, quando os Estados Unidos lançaram seu primeiro satélite, veio uma réplica dele para ser exposta aqui, aí eu tive interesse de fotografar as pessoas que o observavam e depois fotografei o objeto.

Mas eu gostava mesmo era de fotografar o movimento das pessoas. Da Afonso Pena, por exemplo, eu tenho uma foto tirada do alto da Feira de Amostras, também tenho da Praça Milton Campos, da Avenida Brasil quando as palmeiras eram pequenas ainda, fotografei também a construção dos edifícios Niemeyer e JK, quando eles ainda estavam no concreto, inclusive, uma dessas fotos foi exposta na Alemanha.


DM - Dos bondes aos carros de boi que circulavam pela cidade, o senhor conseguiu eternizar a vida bucólica da época. Como é preservar a lembrança do que não existe mais?

WB -
Eu costumo dizer que a fotografia é uma máquina do tempo, porque eu pego meus negativos, começo a olhar e isso me leva lá para trás. Tenho pena, por exemplo, de não ter fotografado este mercado que era de ferro. Quando eu via uma construção que a linha dava uma boa composição de tom, luz e geometria, eu fotografava, e isso acho que deve ser preservado. Também gostava de fotografar a Avenida Amazonas, e assim fui vendo a cidade crescer.


DM - Recentemente, o senhor digitalizou em seu iMac cerca de 7 000 imagens dos 87 anos de cliques que contam a história da capital. É isso mesmo?

WB
-
É, uai! Inclusive, comecei a digitalizar com um scanner que eu mesmo fiz.


DM - O senhor fez um scanner? Como assim?

WB
-
Minha filha me deu uma câmera de vídeo que não estava gravando a imagem e minha neta me deu uma televisão em preto e branco que não estava dando som, o Paulo, meu filho, importou um aparelhinho norte-americano que pegava a imagem da televisão e passava para o computador. Eu peguei uma lata, coloquei uma tomada no fundo e uma lâmpada de pressão, fiz uma estrutura de madeira para correr, coloquei a câmera montada, fiz um chassi de papelão para suportar os filmes e um mecanismo que permitia aproximar a lente e passar essa fonte de luz ao negativo da câmera de vídeo; aí eu colocava o negativo, a imagem aparecia na televisão, o que me permitia ver se a imagem estava boa ou não, aí depois eu passava para o computador.

Ou seja, era só uma maneira de encontrar o que era negativo e positivo porque a gente enxergar sempre no negativo é meio difícil. Era uma gambiarra que no final das contas deu certo, até que outro neto me deu um programa de catalogar que tinha como fazer um índice, aí comecei a preparar os negativos já por código. Mais tarde comprei um scanner de boa qualidade e passei a reescanear aqueles arquivos que me interessavam mais.


DM - E dentro desse acervo que o senhor catalogou, qual seria sua foto favorita?

WB
-
A minha favorita é uma que bati quase que por acidente na eleição depois do Getúlio Vargas, em 1945, quando o Brigadeiro Eduardo Gomes veio a Belo Horizonte e foi visitar um amigo meu, eu fui bater umas fotos dele, quando estava voltando para casa, olhei para o céu no alto do Barroca, o sol já tinha caído e estava preto com uma borda de nuvens cor de chumbo e o céu muito azul com uma nuvem cor-de-rosa fazendo uma espécie de pluma, eu bati uma fotografia na hora! Quando a coloquei no ampliador, pensei: "Gente, essa nuvem está representando uma esperança para nós, que é sair dessa ditadura pesada do Getúlio, quem sabe a gente pode subir para um azul mais claro?" E botei o nome de ‘Esperança' nessa fotografia. Ela tem tido certo sucesso.


DM - Suas fotos já participaram de inúmeras exposições. Como é levar e divulgar Minas Gerais pelo Brasil e pelo mundo?

WB
-
Até agora estou assustado com o movimento dessa coisa porque não consigo entender que minha fotografia, meu brinquedo, tenha essa importância toda. Bom, sobre representar Minas, pode até ser que as fotos mostrem mesmo um pedaço de Minas Gerais, pois meus retratos são mais da paisagem urbana mineira mesmo, como as fotos que tenho de Ouro Preto, São João del-Rei, Santa Luzia, Sabará e Belo Horizonte. Isso mexe com a vaidade da gente, não é mesmo?

Algumas fotografias minhas foram expostas fora do País sim. De momento, eu posso até citar essa do Conjunto JK em construção, em concreto bruto ainda, que foi apresentada na Alemanha, outra que bati no Mercado Central, eram três chapéus de palha pendurados em um cordãozinho, essa foi para a Espanha, também teve uma que foi para a Argentina e outra que tirei no convento que minha cunhada morava - à qual dei o nome de "Lá fora há sol"-, e essa foi para os Estados Unidos, teve uma que fiz lá no Fotoclube de uma menina chamada Tereza, que foi para São Paulo e Luanda...


DM - Em tempos de tanta inovação tecnológica, como a invasão dos celulares e câmeras digitais, qual recado o senhor mandaria para quem começa a vida profissional?

WB -
Outro dia eu vi a opinião de um fotógrafo que dizia que hoje se fotografa muito, mas se faz pouca fotografia. Então o recado que eu deixaria é o seguinte: quantidade não é qualidade, a fotografia precisa ser pensada, tem que saber o que se quer fazer. Claro que às vezes a oportunidade aparece e a gente faz a fotografia praticamente no chute, mas quando queremos fazer fotografia de verdade a gente tem que pensar no que quer, para realmente mostrar a essência do que fotografamos. Pode-se até tirar várias chapas do objeto e escolher a melhor delas. E o mais importante, nunca se considerar o bom, você vai começar a ter algum status quando fizer uma série consistente, mas nunca se julgue o bom, e, principalmente, nunca se julgue o melhor!


DM - Com 100 anos recém-completados, o senhor teria alguma fórmula para a longevidade?

WB
-
Outro dia eu fui parar no Hospital Madre Tereza e a enfermeira lá me perguntou a mesma coisa. Eu respondi que havia duas coisas. Primeiro, ter sangue de índio caiapó, segundo, não comer folha, eu não como verdura de jeito nenhum. Mas tem uma coisa que talvez também tenha ajudado na longevidade, que foram os anos que pratiquei de esgrima e depois fui praticar tiro olímpico, comecei quando os atiradores já estavam pendurando a chuteira, tinha quase 50 anos, mas apesar disso conquistei sete dos nove campeonatos que participei.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
WB -
Milton Campos

DM - Adoro um bom prato de...
WB
- Tutu de feijão com costelinha assada ou um peixe pescado no Rio das Velhas, como meu avô pescava, levava para casa e preparava, comíamos no mesmo dia, uma posta de dourado frita tem seu lugar. Comentário do filho José Augusto, que acompanhou a entrevista: "Tudo que ele não pode!" (Risos).

DM - Para quem visita Minas, o que o senhor diz ser imperdível?
WB -
Não sou muito de viajar, mas gosto muito de Ouro Preto.

DM - O que a fotografia representa para o senhor?
WB -
Uma máquina do tempo.

DM - A paisagem que te inspira...
WB -
Um curso d água com algumas árvores em volta e um céu azul fitando entre as folhas .

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
WB -
América, desde 1926.

DM - Atualmente, o que o senhor mais gosta de fotografar?
WB -
Atualmente estou minimalista, fotografo detalhes que não chamam a atenção de ninguém, como uma folha de grama com um raio de sol batendo em cima, uma folha que caiu do galho em cima de um piso de cimento e fica ali solitária, uma abelha que caiu na piscina e fica ali se debatendo, procurando sair da água, coisas desse tipo...

DM - Minas Gerais é...
WB -
Um coração de ouro em um peito de ferro


Estagiária: Júlia Savassi

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