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Tadeu Franco - Setembro 2014

  • Belo Horizonte - Tadeu Franco bate um papo com o Descubramiinas.com  - Júlia Savassi

Em setembro, o Descubraminas conversa com o cantor mineiro Tadeu Franco. Dono de uma voz inconfundível, o artista natural de Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, nos contou sobre sua trajetória em Minas Gerais, aprendizado com os integrantes do Clube da Esquina e sucessos que embalaram sua carreira.


"Para mim, Minas Gerais é montanha. Eu não vi o mar, eu vi a montanha."



Por Roberta Almeida

Descubraminas - Natural de Itaobim, ainda criança você foi morar em Teófilo Otoni. Como é ser um representante da cultura dos Vales Jequitinhonha e Mucuri?

Tadeu Franco -
Meu pai era comerciante em Itaobim, mas como os negócios não iam bem saímos de lá em 1962. Em Teófilo Otoni, meu pai passou a trabalhar nos Correios juntamente com minha mãe e de certa forma participavam da vida política da cidade.

Quando nos mudamos notei que, embora próximos, os Vales do Jequitinhonha e Mucuri apresentavam uma grande diferença, quer dizer, em Itaobim tinha mais aquela cultura de beira de rio, a tecelagem, o caboclo tirando da terra seu sustento, e, em Teófilo Otoni, não era assim. Mas só fui entender mesmo essa diferença quando vim para Belo Horizonte porque a gente chega aqui muito aculturado, sem rumo e não sabe distinguir direito essas coisas.

Assim, algumas pessoas do Jequitinhonha que já estavam aqui em BH começaram a fazer essa relação de meu nome com os Vales para criar um movimento e ajudar a divulgar a cultura, mas eu só nasci lá, então até gostaria de ser mesmo representante dos dois costumes, mas acredito que não tenho tanta informação a respeito para assumir essa responsabilidade.


DM - Você costuma dizer que faz música brasileira de um jeito mineiro. De que maneira as tradições mineiras influenciam seu trabalho?

TF -
Quando cheguei a Belo Horizonte percebi que eu tinha essa influência da música do sertão, mas vi que os caminhos da música estavam voltados para um sentimento mais urbano, tudo era mais poético; Tinha ainda a ideia do Clube da Esquina, que também possuía essa característica. Aí eu vi que talvez tivesse que mudar meu rumo, para me adequar mais ao que estava acontecendo e também definir meus caminhos, sabia que precisava fazer esse exercício de mineiridade.

Acredito que as tradições mineiras são importantes no momento em que você tenta fazer de uma forma diferenciada seu trabalho, adaptando e aprimorando o que já existe. Por exemplo, um Jesus feito por Aleijadinho tem aquela característica própria, aquela cara de inconfidente, uma coisa que é só dele, e isso é bem mineiro, é no que eu acredito, você junta um conhecimento daqui e dali e elabora seu material.


DM - Em 1978, você veio morar em Belo Horizonte e nos trabalhos que fazia como cantor conheceu Milton Nascimento, inclusive, foi convidado por ele para gravar a música "Comunhão". O que representou esse momento em sua vida?

TF -
No começo dos anos 1980, ouvíamos dizer que o Milton estava morando aqui e pretendia montar um escritório, tínhamos aquela expectativa de que uma gravadora iria vir para cá lançar os mineiros e ele era de uma grande gravadora, a Ariola, que produzia Bob Marley, Chico Buarque, Alceu Valença, entre outros. No entanto, a parte ruim foi que isso não aconteceu efetivamente.

O Milton realmente sempre andava por aqui e um dia descobriu que eu sabia cantar a música "Itamarandiba". Como eu cantava de um jeito mais simplório, ele pediu o Tavinho Bretas para me ensinar direitinho e já fiquei com aquela história pra contar ali daquele momento. No caso da gravação de "Comunhão" foi uma coisa muito grandiosa e ao mesmo tempo assustadora porque como todo bom mineiro, eu nunca soube dissimular, a gente é sincero demais e eu precisava de ajuda para aprender com esse pessoal que já seguia a linha do Milton, mas ninguém queria passar a bola, ficava aquela desconfiança.

Foi a primeira vez que entrei em um estúdio, eu era muito amador e ficava emocionado com aquele momento porque eu não imaginava nunca que um dia dividiria meu primeiro momento com Milton Nascimento e Simone, e tive que fingir que estava tudo certo. Essa experiência meio que definiu um pouco minha ideia de artista, como eu devia me comportar a partir dali, o direcionamento como cantor e como profissional. Depois disso, ele ainda me deu várias dicas nesse sentido, para que meu trabalho mantivesse uma linha bem traçada, melhorando a pronúncia, entonação, essas coisas.


DM - Você considera o Milton Nascimento um professor?

TF -
Considero sim, e não só meu, porque o Milton é um cara que fez escola, então a minha ideia era observar como ele conduzia uma gravação no estúdio, por exemplo, para que eu pudesse aprender o máximo possível. Aí quando entrei junto com ele para cantar "Comunhão", ele errou e eu senti que foi de propósito, para me deixar mais à vontade, quer dizer, até nesses pequenos atos eu vi que ele estava me ensinando alguma coisa.


DM - Em 1984, você lançou o LP "Cativante", que contou com a música "Nós dois", composta por Celso Adolfo. Como foi dar vida a esse sucesso?

TF - Naquela época o Celso já estava na estrada, já tinha muito material catalogado, mais malícia com o meio e também mais visibilidade. Quando ele me mostrou a música "Nós dois", achou que eu não estava prestando atenção, mas na verdade eu já estava pensando na melhor maneira de cantá-la.

Aí propus dessa forma que todo mundo conhece, com esse desfecho mais grave e essa variação de tom. No começo demorou cair a ficha, eu não conseguia perceber o sucesso que a música estava fazendo, talvez até tenha perdido o oportunidade de aproveitá-la quando estava mais badalada.


DM - Da Câmara Municipal de Belo Horizonte você recebeu o título de cidadão honorário e a comenda Rômulo Paes de Mérito Artístico. Você acredita que esses prêmios comprovam que seu trabalho é reconhecido em Minas Gerais?

TF -
Sinceramente, a gente não sabe se essas pessoas realmente estão inteiradas sobre o que você faz ou se é uma coisa rotineira. O título de cidadão honorário foi o Gonçalo Abreu, vereador à época, que me deu e ele realmente conhecia meu trabalho. Talvez até quisesse me alegrar um pouco porque eu tinha inventado de mudar para São Paulo, não queria ir, mas já tinha dado a palavra, então não podia voltar atrás.

Aí minha solenidade foi junto com a do Rubinho do Vale. As pessoas me associam muito ao Jequitinhonha, apesar de ter conhecido todas elas aqui, ter ido em apenas um Festival lá e somente 28 anos depois ter sido chamado para fazer um show em Padre Paraíso. Então quando recebo esse tipo de homenagem percebo que as pessoas por trás desses títulos admiram meu trabalho, mas temos que tomar cuidado com esses interesses políticos.


DM - Você afirmou em uma entrevista que começou a exercer a mineiridade quando passou a conhecer o trabalho dos integrantes do Clube da Esquina. É isso mesmo?

TF -
É sim. Quando você tem essa convivência com pessoas que desenvolvem um trabalho bacana, acaba que a gente compartilha o conhecimento e trocamos informações que agregam ainda mais ao trabalho. Aí você descobre Drummond, Guimarães Rosa, por exemplo, e vai aprimorando o conhecimento. Então o Clube da Esquina tinha uma diversidade muito grande, eram pessoas de personalidade diferente com o mesmo espírito para fazer música.

Olha o caso do Milton mesmo, ele virou exageradamente mineiro. Assim, esse caso da mineiridade vem muito dessa experiência mesmo com o pessoal do Clube, e você tem que ser mineiro mesmo no sentido de ficar na sua, mas entender que às vezes não pode ser muito simplório, se não você toma cacetada o tempo inteiro. E eu aprendi também que para virar profissional tem que investir mesmo, tem que estudar, comprar o disco, se inteirar sobre o assunto porque precisamos de bagagem para sobreviver.

Mas depois dessa oportunidade que tive de estar próximo aos integrantes do Clube eu lancei o disco "Cativante", produzido pelo Milton; no "Alma Animal", tem música do Nelson Ângelo, Nivaldo Ornelas, Fernando e Robertinho Brant e Sérgio Santos, que compunham com muita influência do Clube e eu achava importante seguir o rumo que eles propunham, além do mais isso me exigia muito como cantor, o que era ótima para meu crescimento.

Em seguida, lancei "Orlando", que são músicas mais antigas, mas o Tavinho Moura toca comigo, e o "Em nome do amor", onde o Beto Guedes toca uma música também. Já no "Pop Roça", meu último CD, fiz um trabalho mais autoral, mas quem fecha é o Nelsinho Ângelo. Quer dizer, sempre segui essa linha proposta pelo Clube, aliás, meus trabalhos sempre têm uma referência ou alguém do Clube da Esquina.


DM - Simples e intensas, suas músicas agradam fãs de todas as idades. Durante um show, quais são as canções mais pedidas?

TF -
As pessoas sempre pedem "Nós Dois", "Nenhum Mistério", "Gente que vem de Lisboa", essas mais conhecidas do disco "Cativante", que até já canto normalmente. Eles pedem algumas do "Alma Animal" e pedem também músicas do Geraldo Azevedo, e eu não sei porque. Sempre pedem algumas do Paulinho Pedra Azul, que eu até entendo (risos).

Agora estou divulgando o "Pop Roça", que é muito minha cara, é bem simples e tem até arranjos de boca, fiz umas letras muito legais e o pop roça representa bem o que sinto. Sou um pouco avesso à modernidades demais, sou muito matuto e brejeiro, tem uma balada romântica com um ingrediente a mais, como uma viola de raiz. 

Há também um poema do Fernando Pessoa que eu musiquei e virou a "Quando é que eu como" e tem a "Janeiro", que é uma folia de Reis, apresentando uma temática mais matuta, quer dizer, é um repente mais à moda mineira, então acho que assim que os fãs conhecerem as músicas desse trabalho também entrarão na lista das mais pedidas.




Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
TF -
Carlos Drummond de Andrade.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
TF -
As músicas do Clube da Esquina.

DM - Adoro um bom prato de...
TF -
O mais simples possível, não sou de muita sofisticação. Arroz, feijão e bife está ótimo.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
TF -
Ir a Ouro Preto.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
TF -
Eu levo meu CD.

DM - Qual cantor melhor representa Minas Gerais?
TF -
Milton Nascimento

DM - A paisagem que te inspira...
TF -
Eu tenho uma música com Sérgio Santos que se chama "Meu Tamanho", que diz:

"Não vi o azul marinho, nenhum mar ao meu redor
Vi serras de ver caminhos, que me fazem ver melhor
O verde azul das montanhas
O ermo dessas gerais
E das alturas tamanhas vi o que é longe demais
Cordilheiras e penhascos são as muralhas que tenho
Por isso assumo e desarmo lá do fundo de onde venho
Não sei medir meu tamanho pelo que vejo
E é com o olhar que ganho as distâncias que desejo".

Ou seja, é ver montanhas.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
TF -
Cruzeiro.

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
TF -
Na roça.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
TF -
Da Laura e da Solange, minha filha e minha esposa.

DM - Minas Gerais é...
TF -
Para mim, Minas Gerais é montanha. Eu não vi o mar, eu vi a montanha.

Estagiária: Júlia Savassi 

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