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Milton Nogueira - Fevereiro 2015

  • Belo Horizonte - Especialista em mudanças climáticas fala ao Descubraminas - Júlia Savassi

Em meio à preocupação com a seca que assola o país, o Descubraminas conversa com o consultor internacional para mudanças climáticas, energia e negociações multilaterais e ex-funcionário da ONU em Viena, Milton Nogueira. Professor Milton, um "intrometido entre pássaros", como gosta de se definir, fala sobre mudanças climáticas e medidas a serem tomadas para melhor aproveitamento da água.



                               "A água é a fotografia da mudança do clima."



Por Roberta Almeida


Descubraminas
- Nos últimos anos, observamos que as condições climáticas mudaram consideravelmente. Em determinadas localidades mineiras, por exemplo, a estiagem dá lugar às chuvas, e vice-versa. A que se deve esse fator?

Milton Nogueira -
A principal força descomunal no comportamento da Terra é o aquecimento global. Desde a Revolução Industrial, há quase 200 anos, a temperatura média do planeta cresceu quase 1 grau. Parece pouco, mas é como uma febre que está aumentando e acelerando, pois é uma força que está na atmosfera, nos oceanos e em todos os biomas (florestas e solos).

Além disso, esses fenômenos, que interferem nas estações, ainda são agravados pela atividade humana na Terra. À medida que se desmata, por exemplo, você tira uma esponja que está em cima dos solos. Essa esponja tem a função de absorver a água da chuva e leva alguns dias até que essa água caia nos rios ou fique no subsolo, nos lençóis freáticos. Então, se tira a floresta, tira a esponja, a água escorre direto, isso acelera a formação de enchentes e a água que ficaria na região desaparece, vai para os oceanos, provocando uma seca artificial.

Portanto, o principal fator é o aquecimento global, adicionado à atividade humana descontrolada, como a pesca predatória, agricultura ambiciosa e mineração destruidora. Todos os fatores que lidam diretamente com as coisas da natureza, somado ao aquecimento global, colocaram todo o planeta, ricos e pobres, em um acelerado caminho para comportamentos extremos. Quando vem a enchente, ela vem mais caudalosa. Se é uma onda de calor, ela é mais longa, e assim por diante.


DM - Podemos afirmar que o homem é o principal culpado pelo aquecimento global?

MN -
Sim, com quase 100% de certeza. O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que saiu há alguns meses, mostra isso inquestionavelmente. Há uma comprovação de que se a humanidade não tivesse usado os combustíveis fósseis, a atmosfera não teria acumulado tanto gás carbônico e não estaria aquecida.

Até existem outros fatores cíclicos da natureza, como raios cósmicos, manchas solares, os próprios ciclos do sol e da atmosfera. Porém, os cientistas conseguiram distinguir o ciclo natural do planeta daqueles que são causados pelo homem. Por exemplo, a temperatura da Terra aumenta e diminui um pouquinho a cada 20 ou 30 anos, no entanto, nos últimos 10 anos, está aumentando drasticamente. Se não fosse o aquecimento global, os invernos estariam mais rigorosos e não menos.


DM - Com o aumento da temperatura terrestre, há indícios de que a vegetação da Amazônia possa se assemelhar ao Cerrado mineiro. Explique-nos melhor esse fenômeno. O que pode acontecer com nossos parques estaduais, grandes unidades de conservação, caso isso ocorra?

MN -
Já existem medições de cientistas estrangeiros e brasileiros que comprovam vários sinais de savanização da Amazônia. Este é o nome que se dá para quando uma floresta de quatro extratos passa a ter apenas dois, quer dizer, o Cerrado e as Savanas têm dois extratos (árvores de 5 a 10 metros mais arbustos e grama) e a Amazônia tem quatro (árvores de 40m, 20m, 10m, arbustos e grama).

Quando esses extratos vão desaparecendo, a floresta transforma de tropical úmida em savana, havendo, assim, uma diferença física na estrutura da floresta. Com isso, espécies que precisam de muita sombra não sobrevivem, como as orquídeas.

Sobre nossos parques, se deixar pelo processo da natureza, a floresta vai savanizar. Porém, por ser um parque estadual, espera-se que as autoridades façam investimentos para proteção. Aí ele deixa de ser uma área de preservação e passa a ser um jardim botânico, que mantêm espécies exóticas, não somente as locais.


DM - Com uma natureza privilegiada, Minas Gerais investe nos turismos cultural, religioso e ecológico. No entanto, o risco de alterações em nosso ecossistema ameaça essa oferta turística. As mudanças climáticas podem influenciar o tipo de turismo que oferecemos atualmente em Minas?

MN
-
Acredito que em curto prazo, não, pois essas mudanças são mais lentas. Mas se pensarmos em um cenário daqui a 30 anos, o turismo ecológico realmente sofrerá um impacto, pois ele vai sair desse turismo de floresta e vai passar para outra coisa, embora ainda esteja ligado à montanha, à cachoeira, visto que a maioria desses passeios é para contemplar a magnitude da natureza, não necessariamente a floresta.

No entanto, esses turismos que você mencionou são intuitivamente protetores do meio onde se encontram. O caso do turismo religioso, por exemplo, mostra que o peregrino já tem essa noção de preservação. A pousada, às vezes, não pensa nisso, mas o participante intuitivamente respeita a natureza. Essa atitude favorece a manutenção desses tipos de turismo, pois o peregrino entende que um papelzinho de bala que tiver nas mãos, precisa ser depositado em local apropriado.


DM - O que a comunidade das cidades consideradas destinos turísticos em potencial podem fazer para diminuir o impacto do aquecimento global no ecoturismo mineiro?

MN -
A cidade mesmo, quase nada, pois o impacto do aquecimento global está fora dela, está na viagem que a pessoa faz. Por exemplo, o turista sai daqui e vai para o Norte da Espanha fazer o caminho de Santiago. Aí ele viaja 10 mil quilômetros de avião até o destino, ou seja, durante o voo já houve a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa. Fora isso, o turista deve se preocupar com coisas básicas, como limpeza de rua, cuidado com o lixo, mas o efeito estufa, mesmo, é causado antes de ele chegar ao destino.


DM - Pesquisadores afirmam que já é possível observar alguns pássaros silvestres na Praça da Liberdade. Quais são os riscos do êxodo de animais para o meio urbano? Como isso afeta o turismo em grandes áreas urbanas, como Belo Horizonte?

MN -
Bom, esse é um sistema complexo. O animal sai de seu habitat natural para procurar comida e onde tem comida, tem gente. Fica aquela ideia da adaptação, tanto dos animais com a cidade, quanto das pessoas com os animais. Em muitos países, o animal silvestre no ambiente urbano é muito comum, mas aqui não temos o mesmo costume de lidar com grandes mamíferos.

Com serpentes, ratazanas, morcegos, pássaros de rapina, por exemplo, a população vive em conflito, mas esses animais já estão aí há mais tempo. Há a necessidade de administrar isso e, infelizmente, a parte perdedora são os animais, pois é a cidade que está invadindo o espaço deles.

Sobre o turismo urbano, o ideal seria aproveitar esses locais como praças de observação, para que seja apresentado ao turista o tipo de fauna encontrada em determinados centros urbanos e como proceder com ela.


DM - Nota-se hoje que a cidade passou a ser um lugar de consumo. Quais são os desafios dos ambientalistas para que o desperdício acarretado pelo excesso de consumo seja evitado? Nessas condições, como ensinar a sociedade a lidar com o meio ambiente?

MN -
Em primeiro lugar, o desafio não é para o ambientalista, mas sim para que ele explique isso. A questão é mais geral no sentido de que a origem política da ideia de consumo é uma falsa busca da felicidade. A pessoa compra porque alguém disse para ele que ali está a felicidade. Em Minas Gerais, isso vem acontecendo de umas duas gerações para cá, que é a civilização do consumo. Inclusive, alguns estudos já comprovam que este tipo de felicidade dura apenas alguns segundos: você adquire um produto e logo já enjoa dele.

No Brasil, temos há algum tempo esta falsa ideia de consumo. Seria, na verdade, a busca da felicidade como uma coisa psicológica. Então, mostrar isso ao cidadão é uma dificuldade não só para o ecologista, mas também para aqueles que tentam explicar à sociedade que a própria sociedade está com o vício da compra. A vida frugal, ideia do slow food, por exemplo, que é comer menos e sentir os diversos benefícios para seu corpo e sua saúde, virou tema de diversas conferências climáticas.

Ou seja, a vida frugal é a percepção de que devemos buscar uma boa relação com tudo que está em volta, não só seres humanos, como também as coisas da natureza. Assim, quando uma pessoa percebe que ao comprar um objeto está destruindo alguma coisa do outro lado, ele enxerga que é preciso apertar o freio na hora do comprar.

Um exemplo prático: uma família tem quatro moças e quatro secadores de cabelo, quer dizer, cada produto desses tem cobre, alumínio, borracha e plástico. Cada pedacinho desse veio de algum lugar da natureza. Se apenas um resolve o problema, os outros três são desperdício. Esse seria um jeito de ensinar a sociedade a lidar com as questões ambientais a partir da busca da felicidade diante da sua relação com a natureza.


DM - No livro "Água e Mudanças Climáticas - Tecnologias Sociais e Ação Comunitária", o senhor sugere caminhos de como adotar as tecnologias sociais para promover a melhoria nas comunidades. Qual o objetivo dessa publicação? A quem é direcionado?

MN -
Este livro é direcionado às lideranças municipais ou de comunidades, presidentes de sindicatos ou cooperativas, produtores rurais, prefeituras de pequenas de cidades, lideranças religiosas ou escolares. Quando escrevi esse material, pensei em uma moça de 15 anos do interior que precisa colocar certas técnicas em prática para evitar determinados impactos. Para facilitar, tirei todos os termos técnicos, embora tudo que está lá seja cientificamente correto. No decorrer dos séculos, a população brasileira aprendeu a lidar com chuvas e enchentes, com a seca - quando ela é mais longa que o esperado - e com o lixo. Quer dizer, se as comunidades já sabiam lidar com determinadas condições da natureza, então elas já sabiam engenhosidades, tecnologias, para tomar essas providências.

Assim, o livro é uma coleção dessas tecnologias, um catálogo de tecnologias sociais, pois é baseado em um trabalho cooperativo daquela pequena sociedade. Alguns exemplos que estão lá são a coleta de água de chuva. Devido à seca que está em voga, percebeu-se que a água de chuva pode ser reaproveitada de uma melhor forma, como ser jogada em jardins, lavar as calçadas ou o quintal. Lá, é citado um mecanismo que separa a primeira chuva que cai no telhado, para lavar o chão, da segunda em diante, que já pode ser colocada na cisterna por estar mais limpa.

Outra ideia que era utilizada com frequência antigamente, mas voltou agora, é plantar árvores e, em volta delas, plantar milho. Assim que você colher o milho, solta o gado para comer a palhada. Então você tem três coisas sendo produzidas no mesmo território: é a integração da lavoura, da pecuária e da floresta. Todo o livro têm exemplos de sustentabilidade. Não são exemplos experimentais: a população já faz isso normalmente. Agora estão devidamente organizados para que outras pessoas possam consultar essas técnicas e colocar em prática.

Vamos procurar onde está a água e pensar na funcionalidade dela, caso dos lajedos de pedra para dar água aos animais ou das pequenas barragens subterrâneas, que é um jeito de guardar água nas regiões semiáridas, por exemplo. O livro é um relato da experiência brasileira, de como tem sido a prática da população ao lidar com a água e, fazendo isso, como ela diminui o impacto da mudança climática, visto que a água é a fotografia da mudança do clima.



Estagiária: Júlia Savassi

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