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Maurinho Nastácia - Março 2015

  • Belo Horizonte - Júlia Savassi

Esse mês, o Descubraminas conversa com o carismático Maurinho Nastácia, um dos vocalistas da banda mineira Tianastácia. O músico fala sobre grandes sucessos, relação com Minas Gerais, projetos paralelos e planos para a comemoração oficial dos 18 anos de estrada do "Tia". Confira!


"Tocar para o público mineiro é jogar em casa, é jogo no Mineirão, porque não tem cidade mineira que não nos abrace..."


Por Roberta Almeida


Descubraminas
- De onde surgiu o nome da banda Tianastácia? Quem inventou essa história?

Maurinho Nastácia - O lance é o seguinte: a banda surgiu em 1995, naquele Festival da Pastilha Valda, onde ganhou o primeiro lugar de música inédita e tinha como premiação a gravação de um CD pelo selo da Cogumelo (já passaram por ela Sepultura, Pato Fu...). Aí, em 1996, foi gravado o primeiro CD. Já o nome da banda, os irmãos Beto e Antônio, baixista e guitarrista, já tinham tido bandas com outros nomes e BH estava em uma época em que a maioria dos grupos era de cover em inglês, não existia aquela ideia de música brasileira e autoral.

Bom, a galera estava procurando um nome que mostrasse essa brasilidade do som e da ideia da banda que era fazer música brasileira e que fosse um nome forte, que chamasse atenção. Então parece uma cozinheira e tem também a ver com o Monteiro Lobato que a galera quis dar uma homenageada, devido à "Tia Anastácia" do "Sítio do Pica-pau Amarelo", que, inclusive, nós assistimos.

Outra coisa muito legal que o Beto fala também que não é qualquer gringo que consegue falar esse nome sem embolar a língua, porque se fala tudo junto, não é "Tia Anastácia", é "Tianastácia", tem uma entonação e isso é bem mineiro. Então é isso. Foi essa onda da brasilidade. Tem um pouco dessa coisa também de nomes esquisitos que acabam pegando, tipo "Paralamas do Sucesso".


DM - O Tianastácia ainda é uma banda independente? Como vocês administram uma carreira assim, sozinhos, sem uma gravadora por trás dos trabalhos? Quais são os prós e contras da independência?

MN - Os três últimos discos são independentes. O quarto e quinto para trás são pela EMI. A gente já trabalhou de várias formas no cenário independente. Já tivemos uma pessoa que cuidava da gente, escritório que cuidava da gente e a gente cuidando da gente. Dessas três formas, a que mais identificamos e conseguimos trabalhar somos nós mesmos cuidando da gente. Então o Beto, que é o baixista, vende; o Podé, vocalista, cuida da internet, por exemplo. É tipo uma coisa em equipe com funções divididas e essa é a forma mais positiva e produtiva que encontramos.

Dentro de uma gravadora tudo depende do que ela vai deixar a gente fazer e isso é uma desvantagem porque tem toda uma burocracia e hierarquia, mas, ao mesmo tempo, é ela que também coloca seu CD tocando em qualquer lugar. Tudo tem o pró e o contra. Sendo independentes, por exemplo, temos que administrar tudo (venda, distribuição, turnê), mas também temos controle de tudo. Somos independentes. Porém, se alguma gravadora quiser assinar com a gente, e não nos deixar na gaveta, for realmente nos trabalhar, então é claro que queremos ir.


DM - Em 1995, vocês lançaram o primeiro grande sucesso do "Tia", a música "Cabrobó", que integrou o disco "Acebolado". Em que exatamente a banda mudou desde esse primeiro disco até hoje?

MN - Nós estamos fazendo 18 anos agora e 18 anos é uma vida, né? Então nós mudamos muito musicalmente, pela experiência de vida de cada um. O "Tia" escreve sobre o que acontece com a gente e contamos isso de uma maneira musical na qual o público se identifica. O que eu posso te falar que mudaram foram as experiências de quando eu tinha 18 anos para agora. A forma de falar muda, por exemplo, mas a essência e o nosso objetivo de ter uma banda e viver de arte é o mesmo.

O gás, a vontade e o amor são os mesmos. Se não tiver amor não é possível se manter. Então o que muda é a maneira de contar. Talvez seja até a mesma história, mas a gente a instrumentaliza diferente. Por exemplo, tem gente que fala que nosso álbum "Orange 7" não ficou legal porque tem muito violão, ficou "molenga", "mulherzinha", mas é a forma de contar o que estava acontecendo com a gente naquele momento. A gente queria contar daquele jeito. Tanto que mudamos a abordagem no "Tinastácia no País das Maravilhas". Tudo dependendo do momento, mesmo.


DM - Vocês fazem muitos shows no interior de Minas Gerais. Como é tocar para o público mineiro? Como você vê a atual cena do público pop rock na capital e interior de Minas?

MN - A gente toca muito no Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e principalmente em Minas Gerais, que tem o interior mais forte, e são mais de 850 lugares para tocar. Mas o pop rock é um ciclo, está no alto depois vem para baixo de novo. Estamos percebendo, depois desse grande domínio do sertanejo e do axé, no interior principalmente, uma vontade meio louca da galera de querer o rock. A gente está vendo a falta que eles estão sentindo quando chegamos às cidades e vemos a grande procura.

Com isso, já fomos para cidades de todos os jeitos. Algumas tão pequenas que temos que hospedar em cidades próximas, mas mesmo assim tem procura pelo rock. Tocar para o púbico mineiro é jogar em casa, é jogo no Mineirão, porque não tem cidade mineira que não nos abrace, que a gente chega e o povo não enlouquece e a gente sente orgulho de falar isso. Não é bairrismo, é que somos daqui. É valorizar o Estado e a cidade que nascemos, uai. E essa postura nossa passa para o nosso público.


DM - O Tianastácia já gravou uma versão rock n' roll do hino do Atlético-MG. Quem na banda é Galo e quem é Cruzeiro?

MN - Eu e o Glauco somos cruzeirenses. Podé, Antônio e Beto são atleticanos. Mas eu não vejo problema nesse negócio de tocar nas festas do time, por exemplo, porque vou profissionalmente.

Claro que tem algumas coisas que procuramos evitar também. Por exemplo: o Galo ganhou o campeonato mineiro de 2013 e vai ter o desfile do time no carro de bombeiros, na Praça Sete, com distribuição de cerveja de graça. O que eu vou fazer lá? Melhor não ir, né? Algumas pessoas até questionam, mas não tem como.

Os meninos até gravaram o hino do Atlético, mas eu não participei. Eu gravei uma música do cruzeiro com o Bauxita, "Guerreiro dos Gramados", e outra com o Henrique Papatella, vocalista do "Scarcéus". Ele é um cruzeirense lá de Conselheiro Lafaiete.


DM - Em 2013 vocês lançaram o álbum "Love Love", que contou com a direção musical do ex-Mutante Liminha e foi lançado em 2014 no Parque das Mangabeiras, aqui em BH. Como os fãs receberam esse trabalho?

MN - Nós sempre tivemos o sonho de gravar naquele "Studio Nas Nuvens" com o Liminha, que é uma verdadeira lenda da música pop rock. Com 16 anos, ele já tocava baixo com Caetano Veloso, depois foi para "Os Mutantes". Aí o Beto deu a ideia de procurarmos o Liminha. Tudo é ideia do Beto, ele é super criativo. Aí logo no primeiro telefonema já conseguiu falar com ele e marcamos nossa reunião no Rio de Janeiro, para apresentar o projeto.

Fomos super bem recebidos, ele já conhecia essa história nossa com a independência, percebeu a força que o "Tia" tem e aí ele topou fazer. Muito massa! Sobre o público, como já tinha um tempo que a gente não gravava, tudo foi recebido de forma positiva. No show no Parque das Mangabeiras, nós fizemos um CD para ser distribuído, como um cartão de visitas. Também liberamos para download, no intuito de atingir ainda mais fãs.


DM -
A capa desse disco mostra a banda ao lado de instrumentos musicais, carro e moto e no fundo uma montanha... Quais são os roteiros preferidos em Minas Gerais quando vocês não estão em turnê?

MN - Aquela foto foi tirada no Parque das Mangabeiras, aqui em Belo Horizonte, pertinho de onde foi montado o palco para lançamento do "Love Love", até mesmo para se passar a mesma ideia do encarte. O carro não é nosso, é de um amigo, mas a gente gosta muito de viajar de carro. Já tem mais de 10 anos que viajamos só de carro. São duas caminhonetes. Uma delas vai puxando uma carretinha com os instrumentos, e quando é mais perto, eu e o Beto, que temos moto, vamos de moto.

Sobre os roteiros em Minas, a gente gosta muito de cachoeira, acender uma fogueirinha, tocar um violãozinho de madrugada ao ar livre, no meio da natureza, cercado por água, uma coisa mais de mineirinho mesmo. Isso eu posso falar mais pelos cinco. Têm os que gostam de andar de bicicleta no mato. Eu, não! Eu gosto mais de ficar sentando (risos). Como mais velho de todos, prefiro ficar mais quietinho. Mas essa onda do interior de Minas é muito bacana: a tranquilidade, a hospitalidade do povo, isso a gente gosta.


DM -
Paul McCartney fez uma música para a cadelinha Martha, "Os Mutantes" também fizeram "Vida de Cachorro" e "Love Love" é uma música sobre cães. Qual a relação da banda com os animais? Como foi a ideia de compor a música que dá título ao disco e que compõe a trilha do filme "Mato sem cachorro"?

MN - Bom, essa música é do Beto. Ele fez para a Clarinha, filha dele. Não era uma ideia a música ser do "Tia" e entrar em um disco. Em um ensaio, ele tocou ela para a gente. Ficamos surpresos e perguntamos: Como assim, Beto? "Au, au, au, meu cachorro é tão legal". É isso mesmo? Ele respondeu que queria só nos mostrar mesmo a música que tinha feito para a Clara. Aí a gente começou a tocá-la nas rodinhas que fazíamos com os amigos. Em uma madrugada de roda na fogueira, começamos a achá-la legal, ela foi tomando corpo.

Quando mostramos ao Liminha, ele gostou. Aliás, ele estava com um cachorrinho no estúdio e lá também havia mais dois cães que tomavam conta do local. Também tinha o Bambu, que era dele, um magrelo de corridas que por pouco não virou a capa do disco. Depois a gente observou que a letra tem umas sacadas legais, não eram tão superficiais como pareciam. Aí a galera já começou a curtir a música, que virou logo o nome do disco. Quer dizer, uma música que nem ia ser do "Tia" já foi logo conduzindo o trabalho. Nem tem muita explicação. Durante o processo de uns dois anos tudo foi acontecendo.

Como estávamos no Rio e tudo lá ocorre meio que em sintonia, apareceu o convite para que a música compusesse a trilha do filme "Mato sem Cachorro". Tudo através do Liminha. A trilha já estava fechada, tanto é que a música toca no final. E isso foi até uma coisa boa, porque durante o filme nenhuma música é tocada inteira, mas no final, enquanto vai passando os erros de gravação e o letreiro, "Love Love" vai sendo tocada inteira.


DM -
O Tianastácia lançou uma cerveja com o nome da banda. Como surgiu a ideia? Vocês pretendem lançar mais produtos com a marca Tianastácia?

MN - Primeiramente, a gente lançou uma pimenta. Um dia apareceu do nada um cara de uma distribuidora da Suíça, chamada Alpepper, que nos fez essa proposta. Seria um produto voltado para essa questão da mineiridade. Também associamos o som "apimentado" com as características de uma banda de rock in roll e rolou de fazer essa pimentinha. Ela é defumada, forte, meio aquele molho barbecue. Aí esse mesmo cara disse que tinha o contato com a Krug Bier e nos propôs fazer uma cerveja também. Nós topamos. Fizemos uma Golden Ale. Ela não é de trigo, mas é mais ruivinha. A gente experimentou e ficou muito legal, colocamos nosso rótulo.

Nesta linha, de lançar coisas com a marca Tianastácia, pretendemos criar produtos oficiais, como chaveiro, boné, camiseta, coisas que a gente já teve e tivemos que tirar devido a algum corte de despesas. Temos a ideia (coisa do Beto também) de montar uma loja virtual. Até montamos uma vez, mas deu um trabalho danado. Agora estamos pensando em retomar e lançar esse selo oficial aí para nossos produtos.


DM -
Em paralelo à Tianastácia, você e alguns amigos apresentaram ano passado no CCBB o projeto "Maurinho e os Mauditos". Em que consiste esse trabalho? Vocês vão gravar algum álbum?

MN - Foi o seguinte: eu sempre escutei esses "malditos" da música brasileira, como Sérgio Sampaio, Belchior, Walter Franco, Arrigo Barnabé, Jacques Macalé. Esse pessoal mais da marginália da música, que fazia as músicas que queriam fazer só pela arte. Não estavam preocupados com o que a rádio estava tocando, com o que podiam falar, o que não podiam. Eles nem gostavam desse título, mas não faziam questão mesmo de participar do politicamente correto. Aí veio esse conceito de "malditos".

Há seis anos, o Luciano Alckmin, que era diretor de programação da Rede Minas, me convidou para um especial de final de ano que iria apresentar alguém de uma banda que também participasse de outros trabalhos. Na lista já estavam o Henrique Portugal, tecladista do Skank; o Ricardo Koktus, baixista do Pato Fu, e eu. Quando ele me perguntou como eu estava de projeto, não hesitei, disse que tinha um prontinho, bala! Mas eu não tinha (risos). Só tinha na ideia. Como eu tinha quatro meses para arrumar a galera, chamei meu irmão mais novo, que toca bateria, o guitarrista era o Marcelinho Guerra e ele chamou o Cavalo Doido. Tinha o João também, que tocava violão e piano.

Aí gravamos Tom Zé, Tutti Frutti, Walter Franco, Belchior, Secos e Molhados e chamei um tanto de gente para tocar comigo, como Marina Machado, Andreia Furtini, que é vocalista do Odilara, o Leandro Ferrari, que toca gaita super bem e deu certo. Mas aí o João morreu, ele teve câncer aos 33 anos, e o Marcelinho saiu porque estava envolvido em outros projetos. Hoje a banda é composta por mim, Lucas França, Fernando Morcego e Vinícius Cavalo Doido.

Ano passado, entramos com projeto na Lei de Incentivo à Cultura Municipal e em abril a gente vai lançar o disco. Agora só tem música minha, são músicas "malditas" dentro do "Tia" que vieram parar nesse trabalho. O nome da banda é "mauditos", com u, uma brincadeirinha com as iniciais do meu nome. Outra curiosidade sobre esse trabalho é que nosso primeiro clipe foi patrocinado pelo Cris e pela Olga, da Casa de Quadrinhos. Um dia nos assistiram e nos deram de presente. Então mês que vem vai ser lançado tudo junto, disco, clipe, vai ter vinil também, e liberaremos para download.


DM - Esse ano, o "Tia" completa oficialmente 18 anos de estrada. Há alguma surpresa para os fãs em 2015?

MN - Sim. Vai ter o CD e o DVD de comemoração dos 18 anos. A gente deve passar por todos os discos, pegando uma ou duas músicas de cada disco, fazendo uma coletaneazinha até para justificar esses 18. Deve ter uma coisa ou outra de música inédita, mas com certeza vai sair esse presente de aniversário aí para a galera.


Estagiária:
Júlia Savassi


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