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Adalgisa Arantes Campos - Maio 2015

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Tire suas dúvidas sobre arte colonial mineira em entrevista com a historiadora, especialista em Cultura e Arte Barroca, mestre em Filosofia e doutora em História Social, Adalgisa Arantes Campos, que explica as diferenças entre os estilos barroco e rococó, uso dos termos "maneiristas" e "renascentistas", preservação do patrimônio, e muito mais...


"Nem tudo que é trágico é barroco, e nem todo santo de madeira é obra de arte!"

 


Por Roberta Almeida


Descubraminas - É muito comum vermos, principalmente na mídia, a classificação de que "tudo" em Minas é barroco. No entanto, no século 18 tivemos dois estilos: o barroco e o rococó. Apesar de ser assunto para um livro, seria possível explicar, resumidamente, para nossos internautas a diferença entre esses estilos?

Adalgisa Arantes Campos -
O Descobrimento do Brasil ocorre em 1500, quando a Europa se encontrava no auge do Renascimento que não ficou restrito à Itália. Por sua vez, a vontade deliberada de povoar veio com a instituição das Capitanias Hereditárias, já na década de 1530, período marcado na Europa pela arte maneirista, concepção em que se expressaram, por exemplo, Tiziano Vecellio (1477+1576), Tintoretto (1519+1594), Paolo Veronese (1519+1588) e até Michelangelo Buonarotti (1475+1564).

Certamente se Rafaello Sanzio (1483+1520) não tivesse tido uma morte precoce, desenvolveria a linguagem maneirista, da qual encontramos indícios em suas obras finais. O público em geral os encerra, no entanto, na rubrica ‘artistas renascentistas', quando o correto é artistas maneiristas, concepção muito refinada, marcada por expressões bastante individualizadas cujas obras atendiam um mecenato privado em ascensão.

Voltando ao nosso contexto americano, pode-se observar que o Maneirismo chegou principalmente por meio da atuação dos jesuítas, de artífices lusitanos proveniente dos grandes centros e através dos acervos artísticos trazidos pelos adventícios. Ao lado daquele fazer maneirista, muito afeito às regras da grande arte, têm-se ainda aquela produção feita no território brasílico com mão de obra portuguesa ou mesmo de nativos que ensaiavam suas primeiras obras e até com o emprego de materiais locais. Veja que a tendência é no sentido da diversidade das formas, mas por uma questão de simplificação acabamos erroneamente denominando de barroco uma produção muito variada que vai do XVI ao XVIII o que resulta em grande confusão.

Resumindo, em nossos monumentos, museus e coleções provenientes do período colonial temos obras que vão das formas clássicas (harmonia, sobriedade, ritmo, simetria, cores claras, perspectiva linear) passando por obras do Maneirismo (que valorizam o artificial, o sensual, o adocicado), às formas do barroco (com curvas e contracurvas e contrastes de claro-escuro) até se chegar ao Rococó de procedência francesa, com sua elegância, suavidade, galanteria (cores claras, uso do elemento rocaille, douramento apenas nos relevos).

Acrescenta-se que no litoral houve uma modernização precoce, e assim sua cronologia não serve para enquadrar as manifestações artísticas coevas interiorizadas no vasto território em ocupação. Enquanto no litoral já se praticava o ‘neoclássico de ouvido' (expressão de Carlos Lemos), nas Minas Gerais dominava a concepção rococó. Enfim, os ritmos são diferenciados e não há uma uniformidade artística! Nossa época tem sido muito avessa aos conceitos e nomes. Há uma busca desenfreada por concepções individuais, estudos locais e de caso.


DM - Devido ao Bicentenário de morte de Aleijadinho, 2014 ganhou o título de "Ano do Barroco". Quais foram as contribuições desse mestre da escultura para a arte colonial mineira, visto que 200 anos após sua morte ainda temos esse tipo de celebração?

AAC -
No ano passado elaboramos a cartilha "Aleijadinho Antônio Francisco Lisboa" trabalho que foi feito por mim, por Leandro Gonçalves de Rezende (mestrando da História-UFMG) e por equipe do IEPHA-MG, cujo propósito era divulgá-la nas escolas da rede pública. A tiragem foi grande, 50 mil exemplares. Lamentavelmente por injunções políticas a obrinha encontra-se empacotada, sem qualquer uso. Os custos com a edição foram assumidos pelo Ministério Publico; os autores realizaram a obra por gosto e não por interesse venal.

O conteúdo da cartilha assim é distribuído: o capítulo um versa sobre os dados pessoais e familiares de
Antônio Francisco Lisboa (1738 + 1814); o capítulo dois sobre o contexto histórico com ênfase na atuação das irmandades leigas e ordens terceiras que eram as grandes comitentes das obras arquitetônicas, de decoração interna e de objetos devocionais; o capítulo três especifica o Rococó, sua difusão e características e, por último, a caracterização das obras, bem como localidades e instituições que conservam obras do mulato genial e de sua oficina.

Incorporamos a bibliografia recente e levamos em consideração o trabalho de campo. Ano passado ocorreram inúmeros colóquios com foco no Aleijadinho, em
BH, Ouro Preto, Tiradentes etc. Mas não me consta que pelo menos uma das célebres portadas de Aleijadinho tenha sido restaurada; estão em estado gravíssimos as portadas de Capela do Bom Jesus (no bairro das Cabeças) e a de São Francisco, ambas em Ouro Preto; a portada de São Francisco de São João também está a merecer atenção. Ao lado dessas obras muito expostas ao tempo se encontram também o conjunto dos profetas de Congonhas. Enfim, é medalha aqui, medalha ali, congraçamentos, mas pouco respeito e proteção às obras!


DM - A senhora possui um livro e diversos artigos sobre o culto a São Miguel e às almas do purgatório, que é uma das expressões no mundo barroco. Por que a predileção por esse tema?

AAC -
Comecei a trabalhar com essa temática no doutorado que foi concluído em 1994, mas eu não deixei de fotografar um altar de alma, uma imagem de São Miguel com suas balanças e nelas as almas no momento do juízo particular. Diante de determinados assuntos eu me sinto uma estudiosa. Em minhas viagens cuidava de engrossar meu acervo visual e assim quando publiquei a tese, muitos anos depois, em 2013, eu pude dar um balanço geral e colocar na versão impressa o que considerava substancial.

Foquei a representação das Almas do Purgatório (deixei aquelas do Inferno, as quais não tinham possiblidade alguma de salvação), sua variação no tempo, a doutrina sobre esse lugar escatológico destinado à expiação das faltas até a plena santificação. Boa parte das obras com iconografia das almas padecentes foi parar em coleções privadas como os cofrinhos (caixinhas de esmolas), bandeiras processionais e até mesmo as imagens de São Miguel Arcanjo, o patrono das Irmandades das Almas Santas.

Determinadas devoções entram em declínio, enquanto outras ascendem. São Miguel foi uma daquelas que entraram em retirada, em favor de invocações mais voltadas para o aqui e o agora. Com isso seu altar foi sendo ocupado por outras devoções. Eu digo que ele foi se transformando em inquilino do próprio altar, já no século XIX. Pior ainda é quando é furtado e cai no esquecimento coletivo.


DM - Minas Gerais detém o mais valioso acervo de arte e arquitetura colonial do Brasil e é o segundo Estado que mais possui bens inscritos no Patrimônio Federal. Quais são os desafios enfrentados pelos defensores da preservação desse rico patrimônio cultural?

AAC -
Como historiadora eu me sinto muito impotente, e acredito que meus colegas também se sintam assim. Eu levanto a documentação para melhor conhecer o monumento e, inclusive, para argumentar sobre sua importância no tocante ao valor artístico, histórico ou mesmo antropológico. Eu tenho gosto em pesquisar, mas vivo torcendo para que isso redunde em favor do monumento, que resulte em estímulo à preservação.

Tenho o costume de levar meus alunos para conhecer pessoalmente os núcleos de origem setecentista e não raro realizamos atividades didáticas dentro de museus e igrejas. Lamentavelmente o resultado é pífio. A legislação é boa, mas exige que os municípios tenham pessoas especializadas para ler editais e preencher projetos, providenciar orçamentos etc.; enfim houve uma especialização na burocratização e eu me sinto cada vez mais atônita! Os órgãos de preservação não possuem mão de obra especializada (História, Restauração, Arquitetura, Museologia) que dê conta de atender a demanda desse estado tão rico do ponto de vista artístico, histórico e cultural, recorrendo à terceirização com uma frequência desmedida.


DM - A senhora participou do processo de tombamento do Presépio do Pipiripau e do registro do Toque dos Sinos em Minas Gerais. De que maneira esse tipo de trabalho contribui para a perpetuação da arte?

AAC - Eu conheci Raimundo Machado Azeredo quando então era historiadora do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Entrevistei-o em 1984 para documentar o processo que subsidiou o tombamento federal do dito Presépio que já se encontrava no Museu de História Natural da UFMG. Foi muito gratificante conhecê-lo, pois só uma pessoa tão criativa, cheia de vida e empenhada como o senhor Raimundo poderia ter idealizado e confeccionado todas aquelas pecinhas que compõem o Presépio do Pipiripau. Foi uma criança e um adulto de uma fé doce e espontânea. Servi-me também de uma longa entrevista feita pela colega Vera Alice Cardoso, que, feita em etapas, abordou aspectos para os quais não tinha atinado.

Para o projeto ‘Toque dos Sinos em Minas Gerais', atendendo a uma encomenda do Jason Barroso, do Santa Rosa Bureau Cultural, realizei um levantamento histórico daquela documentação que mencionava a presença dos sinos, sua aquisição, confecção e reparo pelas associações leigas, mais do que propriamente sobre a linguagem. Isso me foi possível em um prazo surpreendentemente curto porque eu tenho a mania de guardar minhas pesquisas sobre as associações religiosas da época do ouro. Com isso, eu retornei às transcrições que tinha, voltando eventualmente aos arquivos para complementação de dados. Foi assim que colaborei com a preservação dessa importante e bela linguagem relacionada ao culto e à vida cotidiana de nossos antepassados, a dos sinos.


DM - Em diversas manifestações artísticas, principalmente na moda, ouvimos dizer que o barroco foi fonte de inspiração para determinado trabalho. A senhora acha que o termo é utilizado indevidamente, chegando até mesmo a um degaste?

AAC - Wolfflin (1864 +1945) em sua obra Conceitos Fundamentais da História da Arte defendeu que a história da arte universal era marcada por um momento clássico, seguido de um momento barroco. Foi muito criticado por converter a trajetória artística em uma ‘gangorra", ora barroca, ora clássica e por não ter valorizado os aspectos culturais. Até hoje encontramos gente que se afeiçoa a tal trajetória. Há também uma tendência a encarar os valores emocionais, as ênfases formais como linguagem barroca. Nesse sentido, os fauvistas e os expressionistas poderiam ser considerados barrocos porque exaltaram o aspecto emocional.

Eu prefiro a análise histórica, que reduz o Barroco ao contexto dos séculos XVII e XVIII, como faz António Maravall. Se estendemos por demais o uso, a tendência é banalizar, como por exemplo considerar que o uso das curvas, das treliças de madeira e até azulejos decorados por Oscar Niemeyer seja uma inspiração do barroco. Houve uma retomada daqueles materiais e até uma valorização do patrimônio, em um contexto diverso voltados para outros valores. Nem tudo que é trágico é barroco, e nem todo santo de madeira é obra de arte!


Estagiária: Júlia Savassi

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