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Fernando Pacheco - Agosto 2015

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  • Artista Plástico Fernando Pacheco - Maria Lucia Dornas
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  • Obra de Fernando Pacheco - Maria Lucia Dornas
  • Obra de Fernando Pacheco - Maria Lucia Dornas
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  • Memorial - Maria Lucia Dornas
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  • Roberta, Fernando Pacheco e M. Lucia - Maria Lucia Dornas

Em agosto, o Descubraminas traz a você um divertido bate-papo com Fernando Pacheco. Descubra o mundo encantado desse peculiar artista mineiro.



"A pedra que tem no chão de Minas é o sangue que corre nas minhas veias."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Você é natural de São João del-Rei e vive, hoje, em Belo Horizonte. De que maneira Minas Gerais interfere no seu trabalho?

Fernando Pacheco -
Minas Gerais não interfere no meu trabalho porque eu sou Minas Gerais. O meu trabalho é fruto de eu ser mineiro. Então não é uma coisa que vem de fora e interfere no que eu faço. A pedra que tem no chão de Minas é o sangue que corre nas minhas veias.

Para mim, a formação da linguagem artística vem dessas características culturais e existenciais que cada povo possui. Essa influência que Minas Gerais tem sobre mim acontece no seguinte momento: minha pintura tem uma distorção das figuras, uma forma de expressionismo, mas essa minha exacerbação da expressão não é importada da Alemanha.

É nesse momento que Minas influencia diretamente no meu trabalho. É um expressionismo eminentemente mineiro. As cores do barroco, as figuras do Aleijadinho, as igrejas, o Carnaval e a Semana Santa de São João del-Rei são muito expressionistas e isso pode ser encontrado na minha obra.


DM
- Em 2012, você foi agraciado com a Medalha da Inconfidência. De que forma seu trabalho contribui para a projeção e valorização da cultura mineira?

FP -
Pois é, a Medalha da Inconfidência quem me concedeu foi o ex-governador Anastasia, que foi muito gentil em prestar essas e outras homenagens a mim. Inclusive, nos convites que me enviava ele já explicava o motivo de tal reconhecimento, e colocava lá: "Por divulgar Minas Gerais pelo Brasil e pelo mundo...".

Mas essas iniciativas do governo de prestar homenagens são muito valorizadas por mim. Por isso, a Nina, que faz essas relações institucionais e também é minha esposa, emoldura e guarda tudo aqui no Memorial (local onde ficam livros, condecorações, pequenas instalações, peças próprias e de outros artistas) com muito cuidado. De certa forma, passamos a ter uma responsabilidade muito grande como representantes de uma cultura.


DM - Muito além das Minas Gerais, sua obra já foi exposta na França, nos Estados Unidos, na Nova Zelândia, em Taiwan, na China e no Japão. Inclusive, inspirado no Oriente, você apresentou ao público, esse ano, seu "Atelier em Movimento". Em que exatamente as experiências com diferentes culturas agregam ao seu trabalho?

FP -
Essas experiências permitem a troca de vida, de caminhada, de linguagem. Então quando você vai para o Oriente, passa por países como China e Japão, por exemplo, que tem um idioma completamente diferente do nosso, a melhor maneira de dialogar é através do sentimento, do olhar, da sensibilidade, do carinho, do amor e da arte, pois essas são as coisas comuns entre nós.

Então toda arte tem esses valores éticos e estéticos, de olhar, de sensibilizar, de interagir e, antes de tudo, é um diálogo. Então o que eu trouxe de lá foi toda a sensibilidade que eles passaram para mim através de minha arte e eu senti a mesma coisa através da arte deles.

Acredito que essa seja a globalização saudável, cheia de compaixão, um sentimento de que todos somos irmãos. Quando vou a um país desses, sinto que devo consolidar a ideia de que o único caminho que temos para seguir é o do amor. O que eu faço lá fora é levar minhas características, que tem Minas Gerais como pano de fundo de minhas experiências.


DM - Embora as artes dos séculos 20 e 21 reflitam a complexidade da vida contemporânea, como você consegue traduzir e expressar essa reflexão internalizada e sutil em sua obra, visto que você está inserido neste contexto?

FP -
O que acontece é o seguinte: eu sou antenado de uma maneira intuitiva com o mundo que estou. Contemporâneo para mim é você estar intuitivamente afinado com as coisas ao seu redor. Então, a finalidade da minha arte não é para ser melhor, sobrepor ou vender. Acredito que o objeto arte não deve ser visto como um produto, simplesmente, mas sim como uma expressão.

Se o que eu tenho para traduzir em arte é uma coisa que vem de dentro de mim, acho que essa seja uma expressão muito autêntica e afinada com meu tempo. Eu não vou buscar minha arte lá fora. A matéria-prima do meu trabalho é única e exclusivamente minha experiência de vida como ser humano. Me deixo perpassar pelas energias que vem de todo lugar e materializo esse sentimento através de uma pintura ou de uma instalação...

Uma vez, o Bartolomeu Queirós disse que minha arte era assim: "Você pede colo e o Fernando Pacheco não dá". Quer dizer, a matéria não está ali mastigada, só para enfeitar uma parede. É uma arte que dá voz ao fruidor, você tem opções para interpretá-la e se sentir também um artista, pois eu não encerro um quadro ou uma pintura: eu apresento e passo a voz ao receptor.

Agora esta arte contemporânea, que às vezes você pensa que frustra, seja talvez por ela estar muito subserviente aos fatos que estão acontecendo no mundo, na política, na guerra, na economia, que acaba saindo um pouco do campo da arte e virando quase que uma coisa do dia a dia. Então o artista é que deve colocar o mundo subserviente a ele e não o contrário. Quando Picasso e Mondrian, por exemplo, criaram seus trabalhos, eles não estavam subservientes ao mundo. Eles estavam apresentando um trabalho à frente do que estava sendo feito e o resto do mundo vinha se adaptando. Não é acontecer alguma coisa ali no Japão e eu ir lá fazer uma instalação.


DM - Qual a finalidade do Instituto Cultural (ICFP) e do Centro de Arte Fernando Pacheco (CAFP)?

FP -
Nós, eu e a Nina, tivemos o desejo de criar o Instituto Cultural Fernando Pacheco porque acreditamos que minha carreira e obra justificavam esse trabalho. A Nina que teve essa consciência de querer ver toda essa obra canalizada em um centro de arte, onde a comunidade, de um modo geral, pudesse ter acesso à pesquisa, ao universo do artista, sendo mesmo uma coisa mais popular e acessível.

Eu fico aqui no Centro de Arte, onde deixo as peças que já participaram de exposições, onde fica meu ateliê e esse acervo grande de intervenções que você está vendo. Aqui é onde crio. Se tenho encomenda, não saio enquanto não termino. Então, a partir do momento que o Instituto Cultural foi criado, há dois anos, ele apoia os projetos que temos, como este Centro de Arte.

Esse apoio surge da necessidade de dar a credibilidade de um instituto aos projetos, para que a gente possa fazer uma ação social mais efetiva. Um caso recente foi o Artepam, onde propusemos um espaço de convivência e diálogo entre as diversas artes e pessoas. Em outra oportunidade, escolas estaduais da periferia também vieram conhecer o trabalho feito aqui.

Enfim, o objetivo das instituições é a preservação dessa minha história, é uma obra pop, ativa, que permite a interação com o público de todas as idades. Eu não sou um artista de ateliê fechado. No futuro, a ideia é de viabilizar a criação de um museu, para que quando eu e a Nina não estivermos mais aqui, esse trabalho de uma vida toda esteja preservado.


DM - As instituições possuem algum projeto voltado para o turismo cultural aqui na capital?

FP -
Como diretora de relações institucionais, a Nina coordena esses projetos e estamos até querendo dar um cunho mais institucional a eles, juntamente com o Lucas Guimarães, que também nos dá um apoio. A Pampulha está para virar Patrimônio da Humanidade porque já tem belos atrativos, como o painel de Portinari, o paisagismo de Burle Marx e projeto arquitetônico de Niemeyer. Quer dizer, ela já tem um potencial para atrair o turismo cultural.

Então, como a Nina falou, meu ateliê está aqui esses anos todos, inserido nesse contexto. Cabe ao poder público tornar a Pampulha e seu entorno um local que suporta a visita dos turistas, colocando essas iniciativas privadas voltadas para o turismo cultural no roteiro. Imagina se tivesse um trenzinho ou uma mini van que fizesse esse percurso? Seria ótimo!


DM - É possível observar a interferência de outras artes na sua pintura, como a música e a poesia. Quer dizer, você faz uma arte que vai além da visão, ela pode ser principalmente sentida. Como funciona seu processo criativo? Qual é sua inspiração para criar?

FP -
A arte não é como especialidades médicas, por exemplo, onde um pode ser pediatra, outro oftalmologista. A raiz da arte é a criatividade. Desde criança eu tenho essa curiosidade pela arte, alguma coisa deve ter me sensibilizado ainda na infância, para começar a desenvolver essa sensibilidade, a fantasia.

Aí você começa a criar um mundo paralelo, a conectar seu mundo com outras plataformas, a falar sozinho, a enxergar outras pessoas que não existem... Então quando você começa a ficar doido é uma boa matéria para começar a ser artista. Depois vem a intuição, que permite a conexão com outras sinergias, com coisas que ainda vão acontecer, ou seja, você passa a ter uma percepção maior do que está ao seu redor.

Minha inspiração vem de tudo isso. Ao invés de eu considerar apenas o barro que está embaixo do meu sapato, eu já encho o sapato de terra, quer dizer, é um jeito de falar que aquele país é que anda no meu sapato e não que meu sapato anda naquele país. Quando você começa a fazer essa ligação, tudo vai sendo misturado e se chega nessa sensação que você falou.

Eu acho que tudo, do lúdico às coisas tidas como "sérias", pode ser motivo de inspiração. Depende de qual maneira isso será trabalhado. Têm vários jeitos de estimular a criatividade. Aqui, por exemplo, eu tenho um regador em cima de um tripé e um banquinho onde a pessoa se senta e sua criatividade é regada. Depois, eu pego uma trena e meço o quanto a criatividade cresceu (risos). Mas as pessoas ficam emocionadas quando percebem o real objetivo da instalação.


DM - Na publicação "O Papel do Artista", parte de sua obra é retratada com muito bom humor. Em poucas palavras, como você definiria seu papel como artista?

FP -
Então, nesse livro tem essa coisa de duplo sentido: "Teria o artista algum papel a desempenhar?" Eu digo socialmente ou politicamente. Além disso, esse livro levanta a reflexão sobre o papel do artista no sentido literal da palavra, ou seja, o papel que eu uso de suporte para a arte.

Eu acho o seguinte: o próprio desenvolvimento da linguagem artística já é uma postura intrinsecamente política. Você não tem que desviar da sua linguagem para ficar fazendo trabalhos tecnicamente afinados com os fatos políticos e sociais. Para mim, então, o papel do artista é desenvolver bem a linguagem dele enquanto arte, pois quando ele faz isso já está tendo uma atitude política, visto que usa sua expressão pessoal com total liberdade.

A liberdade é a ação mais política que existe. É você ter liberdade para ser você mesmo. Quando o artista fica mais interessado em ser o empresário/artista, essa relação fica mais complicada. A pessoa tem o rótulo, mas não é artista. Logo, não cumpre esse papel.


DM - Hoje em dia, tudo é considerado arte. Com 40 anos de experiência nas artes plásticas, o que é arte para você?

FP -
Como diria Ferreira Goulart, "arte não serve para nada, mas sem a arte a vida seria só isso?" Quer dizer, não serve, mas é o tchan da vida porque é o que te faz buscar o exercício da sensibilidade, além daquelas previstas e palpáveis. A arte vai além do palpável, pois faz movimentar coisas invisíveis. Ela acontece quando é criado esse mundo paralelo que pode ser visto apenas por meio da arte.

Sobre esse negócio de tudo ser arte, entendo que é porque tudo foi meio que levado para o campo folclórico, como o futebol-arte, a culinária, a moda. Tudo bem, não deixa de ser arte, mas, na verdade, arte é outra coisa, pois necessita que você vá além daquilo que já é.

É aquilo que eu te falei, claro que no campo das artes plásticas existem pessoas que todo mundo chama de "artista", mas talvez ele seja apenas um grande pintor. Assim como tem pessoas que podem não fazer nada de pinturas e serem grandes artistas.



Papo de Mineiro!

DM- Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
FP -
Fernando Brant


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
FP -
"Canção da América" e a música barroca executada pelas orquestras de São João del-Rei.


DM- Adoro um bom prato de...
FP -
Adoro um bom prato de louça fundo.


DM- Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
FP -
Assistir a final de um campeonato entre Atlético e Cruzeiro ou sentar em um botequim em uma cidade do interior, comendo um queijinho e tomando uma cachacinha.


DM - Em uma viagem, o que você leva na bagagem para presentear?
FP -
Eu levo coisas criativas que compro no Mercado Central e Nina gosta de levar meus livros e panos de prato com temas de Belo Horizonte.


DM - Qual artista melhor representa Minas Gerais?
FP -
Não existe arte melhor ou pior. Quando os Grupos Galpão ou Corpo se apresentam, eles representam Minas Gerais divinamente. Então, todos que estão bem com sua própria linguagem vão representar Minas perfeitamente.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
FP -
Galooooo!


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
FP -
Eu preferiria morar na roça, com o dia a dia correndo lento, e passar o fim de semana na cidade.


DM - Minas Gerais é...
FP -
Minas Gerais é a capital do mundo.

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