Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Dudude Herrmann - Outubro 2015

  • Bailarina Dudude Herrmann - Arquivo Pessoal
  • Dudude em seu espetáculo-manifesto "A Projetista" - Guto Muniz
  • Performance na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte - Guto Muniz
  • Dudude Herrmann contempla a natureza - Francisco Herrmann


Bailarina, improvisadora, coreógrafa, diretora de espetáculos e professora de dança. Descubra a história de Dudude, dinâmica artista de dança mineira!


“Minas Gerais! Poderia ser mais Minas Gerais, pode ser mais Minas Gerais, pode ser minha querida Gerais (...)”

 

 

Por Roberta Almeida


Descubraminas -
Você trabalha e estuda desde os anos 1970, estudou dança, no TransForma-Centro de Dança Contemporânea, e com a prática de ministrar aulas foi adquirindo uma pedagogia particular para com o ensino da dança contemporânea. Como é passar adiante, em suas oficinas, esse conceito que pode mudar de acordo com a concepção de cada indivíduo?

DH -
Certamente, cada indivíduo é um universo amplo e potente, e uma de minhas estratégias é iniciar pelo que temos em comum: nosso corpo.

Somos da mesma espécie humana, devemos reconhecer e ativar os sentidos percebendo que podemos mover, e movendo geramos poesia, trazemos a percepção do corpo no espaço, do entorno deste corpo, acordamos possibilidades múltiplas.

E cada indivíduo sente que é possível dançar em qualquer idade, é possível gerar alegrias, descobrir o corpo encapado pela vida ordinária, com paciência, com gentileza, com generosidade vamos nos deixando mover, até talvez sentirmos estados de dança.


DM - Em suas performances, você agrega áreas como a música, o teatro e as artes plásticas nessa construção. Qual é o resultado desse encontro com grupos diversos de arte?

DH -
Na ação da criação me coloco em campo aberto, isto quer dizer que, para um artista criador, é bom que não coloque fronteiras, cercas limitando sua criação. ARTE é um espaço amplo, cheio de possibilidades de expressão, das mais variadas, e para mim o artista persegue "algo" que "ele" necessita publicar no espaço do acontecimento.

Sendo assim, "ele" necessita experimentar, e dessa forma "ele" poderá fazer uso de mídias que estarão de acordo com sua necessidade de expressão, seja música, corpo, fala, canto, texto, etc. Esta somatória pode vir a ser uma imagem potente que toca o espaço do espectador e altera talvez sua forma de sentir e perceber o mundo.

É fato que minha habilidade primeira é o movimento, aprendi a ler o mundo via movimento e fatalmente esta habilidade será a base e influenciará todo um modo de criação.


DM - Como você utiliza a linguagem da improvisação, o inusitado, o efêmero e o acontecimento ganham um papel especial em cena. Com esta atitude livre, de que maneira você consegue atingir o público?

DH -
A linguagem da improvisação em dança requer treino, atenção, vocabulário, percepção e um monte de outras coisas que estarão na pauta de um improvisador. Sua fonte é a vida interconectada à arte. A maneira que vivo e entendo o mundo é a maneira que danço e escrevo no mundo. Uma linguagem potente e infinita, e acredito também que é econômica, em se tratando que cada improvisador contem em si o conhecimento de uma vida e seu aprendizado não para nunca.

Uma das condições desta linguagem é que seja curioso, inquieto, que tenha desejos, desapegado de si, íntegro, ético para com o corpo que cria no espaço, que compartilhe o seu vir a ser com o outro. Nesse caso da audiência, que a palavra de ordem seja a flexibilidade, para alterar, mudar a qualquer momento, e que o presente tenha a sensação de "eternidade". Muito, não?

Como você mesma me pergunta sobre a atitude livre, talvez pareça livre, possa dar esta impressão, o que não deixa de ser maravilhoso. Mas acredito que o improvisador nem se preocupe com a palavra livre, pois na ação do acontecimento "ele" está a serviço da imagem e assim escutará as demandas advindas do espaço compositório, o qual está inserido, tornando-se mais um naquela possível composição e fazendo uso de todo seu conhecimento, na sensação que a vida vale todo o tempo.

Quanto ao público que assiste a uma improvisação, ele faz parte, e sendo assim, modula as escolhas do improvisador, pois a escuta sensível deste improvisador é para com todo o espaço do acontecimento e assim ele vai regendo e desenhando de acordo com o desejo do espaço.


DM - No livro "Caderno de Notações: A poética do movimento no espaço de fora", escrito nas praças de Belo Horizonte, você observou a temática urbana do movimento. Qual é o objetivo dessa publicação?

DH -
Boa pergunta! Primeiramente, eu trabalhei com a palavra Objetivo, trabalhei com a sensação de "devir", tive a oportunidade na época de ser contemplada com a Bolsa Vitae de Artes, que me possibilitou liberdade de ação, de entrar em uma pesquisa, de ter o tempo necessário para fazer o que precisaria fazer via experiência. Nos tempos de agora, isto é precioso para o artista em si, se deixar fazer.

Meu desejo era ficar à deriva em uma praça e ali notar o movimento natural da vida com um filtro, um sentir específico do movimento. Transcrevendo para a palavra como percebia a dança das coisas. O que sem sombra de dúvida alterou todo um modo de fazer dança para minha pessoa e eu também estava desejosa de escrever e aprender com esta escrita.


DM - A propósito, você nasceu em Muriaé ou Belo Horizonte? Você acredita que essa essência cultural mineira influencia seus trabalhos?

DH
-
Nasci em Muriaé, na Zona da Mata minera, que nomeio atualmente de "zona do pasto" devido ao desmatamento continuado assistido por todos. Mas isso não vem ao caso, apesar de ser um assunto que uso cada vez mais em meus trabalhos, com um tom de urgência à necessidade de chamar para esta geografia brasileira, esta riqueza natural que, desde que me reconheço por gente, assisto ao descaso para com rios, animais, florestas, uso da água consciente, o cuidado com o lixo, são coisas que sempre em meus trabalhos estão e estarão na pauta.

Com certeza os modos de viver de cada lugar influenciam os modos de sentir, perceber e trabalhar com arte e de estar na vida. No meu perceber, a origem é uma pérola que se leva pela vida toda, mesmo que nunca mais voltemos em nosso lugar de origem, mas é o ponto que aparecemos no mundo, nossa referência que no caminhar da vida vai se diluindo, mas também vai se revelando.

Sempre falo para as pessoas que fazem aulas comigo, se nascêssemos na Índia, no Norte do Brasil, ou qualquer outro lugar, seríamos diferentes. Tudo interfere e constrói uma pessoa, cidadã do mundo, o social, o econômico, o biológico, o natural, os hábitos, a maneira de falar, as relações familiares, e daí vamos... Além disso, também há a informação dada dentro do seio familiar, os alimentos de afeto, de obras de arte, a maneira como nos relacionamos com as pessoas, como as coisas nos revelam e nos ensinam modos de habitar.

Quando olho casas pelo mundo afora, penso: será que todas as casas tem livros, pinturas, instrumentos musicais? Isso é riqueza, é alimento para o espírito, na casa de meus pais tinha, além da educação, aprendi com zelo, com certeza um privilégio.


DM - Quando você veio morar em Belo Horizonte?

DH
-
Minha família mudou-se para Belo Horizonte, quando eu tinha quatro anos e foi aqui nesta cidade que me fiz. Comecei meus estudos em Dança em 1969, tinha então 10 anos de idade, entrei por acaso, para brincar, e nunca mais parei. Aprendi a ler a vida via movimento, não consigo sentir de outra maneira.

Estudei por 14 anos no TransForma - Centro de Dança Contemporânea, dirigida por Marilene Martins. Aprendi muito com ela, primeiro a coragem, depois a liberdade de inventar. Lá fui me tornando bailarina, coreógrafa, professora.

Fiquei neste lugar até o ano de 1984 e essa escola fechou suas portas em 1985, mas tenho para minha pessoa que para as Escolas Livres os tempos são finitos. Aconteceu com "Nena" de fechar sua escola, que teve importância fundamental para o desenvolvimento da dança no Brasil e aconteceu comigo também. Tive um Estúdio de Dança, o EDH, e fechei em 2009, durante 16 anos - importante enquanto durou - e foi nesse estúdio que desenvolvi toda uma pedagogia para com o ensino da dança que faço.


DM - Atualmente, você tem levado a dança para a rua, utilizando os espaços urbanos para suas apresentações. O que representa essa composição do momento, que fazem do humano o motivo da cena?

DH - O Teatro é a casa primeira de todo artista da cena. Com o passar do tempo, o artista que experimentar, quer tentar, quer inventar outros modos, quer se provocar. Isso é bom, faz parte do artista inquieto, sou também desassossegada, preciso realizar, colocar a expressão no espaço, comunicar.

Quando retornei da França, precisava dar continuidade em algo que urgia em mim, precisava me experimentar como mais um no mundo, e o espaço da rua parecia ideal, nomeio isso de "Prática de Sensibilidades". Amaciar o espaço da vida, ter com outro, sejam humanos ou coisas...

E foi isso que fiz e faço, mas outra questão me fez mover para a rua: a economia. Na rua, com certeza prezo pela simplicidade, pois quase tudo já está lá, ela (a rua) me traz notícias, me informa, e corremos sempre o risco da surpresa, do inusitado, o que sem dúvida é um treinamento maravilhoso, tanto para o performer quanto para o improvisador.

Meu senso para com o humano é inverso, minha palavra de ordem é coisificar, virar coisa, dar menos importância ao humano, é tratar de colocar esse humano nas coisas, nas árvores, no céu, nas nuvens, na formiga. Somos todos contemporâneos a este tempo agora, quando faço algo, seja na rua, em espaços não teatros ou nos teatros, faço para o espaço e neste estamos todos.


DM - Você faz parte da primeira geração da dança contemporânea em Minas e no Brasil. Com mais de 40 anos de carreira, o que exatamente essa maturidade agrega ao seu trabalho?

DH -
Liberdade! Agora consigo entender o que Nelson Rodrigues falou em uma entrevista para os jovens: "Envelheçam". Estou me colocando mais no olho do furacão, me experimentando mais, falando mais, com certeza bem mais atrevida que antes (risos).

Quando começo uma nova obra, meus sentidos apontam para o DESCONHECIDO. Então sigo, me coloco a serviço daquilo que via processo de criação vai se apresentando. Farejo, não quero ser mais nem menos, quero viver a justa medida que o trabalho me faz recomendar.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
DH -
As vaquinhas de Minas.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
DH -
As toadas dos bois.


DM - Adoro um bom prato de...
DH -
Comida de fogão a lenha.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
DH -
Observar, admirar os ipês nos meses de agosto e setembro. Ir a alguma montanha, ouvir a conversa da gente.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
DH -
Talvez um queijo, uma goiabada, uma cachaça, um pó de café, um saquinho de canudinho, um pano de prato (adoro). Coisas singelas daqui.

DM - Qual artista melhor representa Minas?
DH -
São tantos que gosto e admiro, que fico meio sem jeito de falar de um e não falar de outro. Me atrevendo: Guignard!

DM - A paisagem que te inspira...
DH -
Montanhas ao longe, ipês, sapucaias, magnólias das ruas de Belo Horizonte

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
DH -
Meu pai era América. Eu deixo o futebol para os outros todos mineiros, (risos).

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
DH -
Às vezes na cidade e quase sempre perto da natureza.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
DH -
Coisas que reconheço, chego em Belo Horizonte e sinto: "estou em casa" porque sei ler os códigos desta cidade, seu tempo, seu ritmo.

DM - Minas Gerais é...
DH -
Minas Gerais! Poderia ser mais Minas Gerais, pode ser mais Minas Gerais, pode ser minha querida Gerais, cheia de mistérios, causos, contos, poetas, pontes, viadutos onde quero crer que passa boi passa boiada, onde perto daqui tem um rio lindo com uma cachoeira para se banhar, onde ali como um pão de queijo com café quentinho e depois vou trabalhar projetando para além dos montes e montanhas, querendo saber do outro. Curiosa essa menina!



Descubra aqui mais Coisas de Dudude!

 

Enviar link

Outras entrevistas