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Sérgio Pererê - Dezembro 2015

  • Belo Horizonte - Músico Sérgio Pererê - Arquivo Pessoal / Sérgio Pererê
  • Maria Lucia Dornas
  • Arquivo Pessoal / Sérgio Pererê
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"Voa menino, voa pra sua estrela natal / Voa menino, voa por cima do temporal." Descubra esse grande sucesso* de Sérgio Pererê, a peculiaridade de sua arte, e muito mais no Descubraminas.


                 "Minas Gerais é onde eu descanso, é meu porto seguro."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Você é cantor, compositor, multi-instrumentista e ator. Vemos que em seus trabalhos há muitas referências à cultura africana e ao congado. Como acontece essa união entre as tradições e a contemporaneidade?

Sérgio Pererê -
Na verdade, essa relação com as raízes afro-brasileiras e africanas se deu muito naturalmente na minha vida. Muito em função de coisas que eu vi, que eu vivi em família, porque eu cresci vendo de tudo ao mesmo tempo. Então, ao mesmo tempo em que eu assistia a essas tradições familiares, também ouvia rádio e conhecia as coisas que vinham de fora.

Meu pai, por exemplo, que cantava seresta, nos nutria com tudo relacionado à música que ele conhecia. Durante minha infância e adolescência aqui em Belo Horizonte eu escutei de tudo. Tinha Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Tim Maia, Milton Nascimento, Michael Jackson, Stevie Wonder, Bienvenido Granda... Assim, na música que eu faço, a música autoral, tem essa mescla.

É claro que esse DNA africano fica muito presente por causa dessa coisa genética, mesmo. Você pode ver meu timbre de voz. Mas a minha música é uma mistura de tudo que eu já ouvi.


DM - Inclusive, na música "Sonho de Prata", você apresenta um conceito multiétnico, com referências sonoras da África, da América Latina e toques leves da música celta, além de uma poesia singela com referências xamânicas. Podemos dizer que esta música traduz a singularidade de seu trabalho?

SP
-
É justamente isso. Desde muito novo eu tenho uma paixão pela coisa étnica, não só a coisa afro, visto que eu tenho uma paixão pela música de raiz de vários povos. Quando se trata da música andina da América Latina, por exemplo, isso me toca muito. O instrumento que eu uso com frequência é o charango, que é andino, mas ao mesmo tempo estou pesquisando sobre esse universo, como a música do Oriente.

Estive na China e trouxe muita coisa bacana sobre essa questão étnica. É claro que a música negra fica sendo o carro-chefe, mas a cultura indígena também me toca muito e volta e meia eu dou uma pincelada de alguma coisa que vai ser xamânico, quer dizer, um detalhe, uma letra, uma coisa mais sutil voltada para esse lado.


DM - Ao lado de Marcus Viana e do senegalês Zal Sissokho, você lançou o álbum "Famalé". Qual foi a contribuição de cada artista na elaboração desse trabalho? De onde vem essa sintonia entre os artistas no palco, visto que cada um contribui de maneira diferente?

SP -
O "Famalé" foi um disco que surgiu sem muita pretensão. Eu e Zal já vínhamos fazendo algumas coisas, nas vezes que ele visitava o Brasil, e eu e Marcos já fazíamos trabalhos juntos, ele participando comigo de alguns projetos e eu participando como vocalista no "Sagrado Coração da Terra", que é o grupo dele. Um dia, estávamos no Rio de Janeiro e tivemos a ideia de gravar alguma coisa, registrar nosso encontro. Zal tocou no assunto "violino" e logo falei que iria apresentá-lo ao Marcos, que topou o convite de se juntar a nós.

Em três dias de estúdio, a gente montou todas as bases. Marcos veio colocando violinos e teclados e só depois a gente viu que tinha um disco nas mãos. Recheamos mais um pouco e virou o "Famalé". Esse trabalho conta com as características de cada um: o Marcos, que é campeão na produção de trilhas, trouxe isso para o disco; o Zal é um mestre griô. Os griôs são artistas que carregam uma cultura milenar, é um sábio da tradição oral.

No caso, Zal utiliza a kora, um instrumento que traz essa bagagem do Oeste da África, que a gente não tem muito acesso. Eu entro com minha bagagem de letrista e de cantor, trazendo essa minha coisa mais brasileira. Quer dizer, eu sou Minas. Não uma Minas tão barroca como o Marcos Viana representa, mas ofereço a ideia da Minas negra.

Essa sintonia ocorreu justamente por causa da diferença entre nós. Nós estamos em uma época em que os artistas precisam fundir essas diferenças. Eu e o Zal temos essa coisa do envolvimento com a cultura africana em comum, mas é impressionante como nós somos diferentes e o Marcos é mais distinto ainda. Então essa fusão das diferenças é o que vai gerar uma coisa nova.


DM - Você nasceu em Belo Horizonte, mas sua ancestralidade africana foi, inclusive, comprovada por meio de um exame feito para a série "Brasil: DNA África", pela qual você foi escolhido para visitar seu povo na África. O que significou esse reencontro?

SP -
Essa série vai virar um documentário. O pessoal veio aqui, filmou meu dia a dia, minha relação com BH, com o Reinado, que é uma manifestação cultural religiosa, e com o interior de Minas Gerias, gravou com minha família, meus ensaios. Eles também filmaram lá em Angola meu encontro com algumas pessoas, alguns lugares representativos e eu tive a chance de ir ao Reino do Bailundo, que é o reino do meu povo, os Umbundu. Eu conheci o rei e a rainha e participei de um momento cotidiano deles.

Agora o mais interessante de tudo nessa viagem, o que eu mais senti observando o cotidiano das aldeias e o comportamento das pessoas, foi uma grande semelhança com minha família aqui. Isso me deu a entender que, por alguma razão, essas distâncias, geográfica e de tempo, não causaram uma ruptura tão grande da minha família com a África. Parece mesmo que carrego isso no DNA e é um fenômeno que eu não consigo explicar.

No documentário, eu falo que não foi o encantamento de algo que eu não conhecia que me surpreendeu, foi essa semelhança do que acontece lá com o que eu já vivo aqui. Isso até tem a ver com o que você me perguntou lá no começo sobre a relação da minha arte com essa africanidade e a contemporaneidade, quer dizer, é algo que passou através do gene. A minha arte é totalmente contemporânea, mas naturalmente carrego essa tradição.


DM - Na música ''Mestre Antônio de Sebastião'', você faz uma homenagem a Antônio Luiz de Matos, tamborzeiro de Minas Novas/ Vale do Jequitinhonha. O que você acredita ter aprendido com esse sábio mestre popular mineiro?

SP -
Eu me alimento muito da sabedoria popular e acredito que a terra, de tempos em tempos, produz um mestre que vem com conhecimentos que não cabem na academia. As pessoas imaginam que Mestre Antônio é um mestre porque ele faz tambores, mas ele é genuinamente um mestre, ele age, fala e tem trejeitos e cacoetes de um mestre. O professor é entendedor de algum assunto, mas nem sempre é um mestre.

Mestre Antônio sempre me tocou muito devido a essa relação dele não só com a arte, mas com a vida, com essa coisa mística de ele entender a terra, a natureza. Essa música, inclusive, até fala: "Mestre Antônio de Sebastião sabe dos tesouros dessa terra escura, não recebe os louros, mas concede a cura a quem procurar". Quer dizer, esses mestres não recebem a valorização pelo o que são. Minas, infelizmente, ainda não dá o retorno devido aos mestres populares que a gente tem.

Então já que a nossa música chega mais facilmente até alguns lugares, essa é uma forma de falar dessas pessoas, dessas situações. Então eu aprendi com Mestre Antônio que existem outras filosofias, um jeito diferente de observar e ver o mundo. Ele é uma pessoa que vale a pena a gente ouvir. O mestre que é mestre não diz que é, ele simplesmente é, e isso a gente aprende com Mestre Antônio.


DM - No grupo "Tambolelê", você teve a oportunidade de mostrar seu trabalho internacionalmente. Qual foi o retorno dessa experiência?

SP -
Da época do "Tambolelê" até hoje, eu sinto, sim, infelizmente, que o reconhecimento fora do País é maior. Eu faço shows mais esporádicos, mas se eu quiser entrar em algum show aqui em BH, por exemplo, tenho que participar de editais, gerando uma burocracia que considero desnecessária. Aí sou convidado a participar de festivais no Canadá, na África do Sul, em Moçambique ou na Áustria, por exemplo, onde não preciso entrar em um edital.

No entanto, ao mesmo tempo que isso acontece, eu tenho uma grande paixão pelo público de Belo Horizonte, é um público mais afinado, mais musical, sincero: se ele tá gostando, fica, se não está, nem vai. Eu realmente tenho prazer de tocar aqui e, devido a essa relação com o público, eu nem comparo BH com outro lugar.


DM - No último mês, você foi um dos destaques do Canjerê - 1º Festival de Cultura Quilombola de Minas Gerais. De que maneira esses encontros resgatam a cultura afrodescendente e reforçam a cultura afro-brasileira em nosso Estado?

SP -
O Canjerê foi um festival maravilhoso. Eu fiquei muito honrado em ser a atração principal na abertura. É como eu falei: de tempos em tempos a terra produz esses mestres populares e, nesses quilombos, rurais ou urbanos, estão esses mestres.

Estamos em uma época em que as pessoas mais atentas estão voltadas para a questão da cultura sustentável e se você parar para pensar os quilombos já fazem isso. Olha o exemplo das eco-vilas: uma tendência de hoje que existe nos quilombos desde sempre. Temos também as aldeias indígenas, que têm esse perfil, povos que também foram representados nesse encontro.

Além de ser um encontro que resgata e reforça a cultura afro-brasileira e afro-mineira, esse tipo de evento lança o olhar para o grau de sabedoria e evolução que essas pessoas têm, para os hábitos sustentáveis que elas já possuem, por exemplo. A consciência que eles têm nós precisamos aprender, para que esta cultura seja passada adiante.


DM - Outro ponto importante de suas atividades enquanto artista é a dedicação a projetos socioculturais na periferia de Belo Horizonte. O que você considera essencial nesse tipo de trabalho?

SP -
Desde muitos anos, até mesmo antes de estar mais atuante no palco, tive essa relação com o social. Até por ter nascido em um bairro de periferia, no Glória, não era possível ficar alheio a isso. Então eu vi muita coisa de perto e desde minha adolescência já trabalhava com o sociocultural. Não era apenas o assistencialismo, era levar a arte a essas pessoas e trazê-las para a arte.

Já trabalhei com crianças com realidade de rua, ensinando música, e acabamos criando a Oficina Tambolelê, que era uma janela para os jovens que tivessem interesse pela arte. Desse projeto surgiram muitos artistas, que estão atuando hoje aqui, que tocam com outras bandas, inclusive na minha, e já tem até planos de ir para fora do País.

Então o essencial, quando a gente leva a arte à periferia, às pessoas de baixa renda, é entender que a arte é a única forma de você conseguir ganhar consciência. Eu acredito que ninguém pode te ensinar a ganhar consciência. A consciência, de qualquer natureza, precisa brotar em você.

Alguém pode te ajudar a despertar para isso, mas ninguém vai te dar consciência. Assim, a arte dá sensibilidade para isso. A arte é sempre utilizada como forma de entretenimento, mas ela está vinculada a tudo, principalmente ao "educar". Isso é o essencial nesses trabalhos.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
SP -
Meu pai, Santos Abel.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
SP -
As do Milton Nascimento de um modo geral.

DM - Adoro um bom prato de...
SP -
Ora-pro-nóbis com qualquer coisa.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
SP -
As festas do Reinado.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
SP -
Eu levo música.

DM - Qual artista melhor representa Minas?
SP -
Maurício Tizumba e Milton Nascimento.

DM - A paisagem que te inspira...
SP -
O pôr-do-sol no bairro Glória.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
SP -
Cruzeiro.

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
SP -
Pode variar entre os dois.

DM - Quando estou fora morro de saudades dos...
SP -
Meus filhos.

DM - Minas Gerais é...
SP -
Minas Gerais é onde eu descanso, é meu porto seguro.



Descubra os sucessos de Sérgio Pererê, citados nesta entrevista:

*Estrela Natal

Sonho de Prata

Mestre Antônio de Sebastião


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