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Maria de Lourdes Caldas Gouveia - Abril 2016

  • Professora Maria de Loudes Gouveia - Maria Lucia Dornas
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Em abril, o Descubraminas desvenda a simbologia da capital mineira com a ajuda da filósofa Maria de Lourdes Caldas Gouveia. Professora, mestre em Educação e doutora em Estudos Avançados em Filosofia, Maria de Lourdes é autora da série "Matéria da Memória – A cidade e seus símbolos". Vale a pena conferir!


“Em Belo Horizonte, descobri que as capelas, igrejas, praças, escolas, mercados, cemitérios e outros ícones têm sua simbologia para a cidade, preservando essa memória que o tempo não consegue destruir.”


Por Roberta Almeida


Descubraminas
- Você dedicou a série de livros "Matéria da Memória – A cidade e seus símbolos" à capital mineira, analisando a simbologia de vários ícones de Belo Horizonte. O que significa trabalhar com a representação sensorial de um determinado lugar?

Maria de Lourdes Gouveia -
Essa é uma pesquisa muito antiga. Há mais de 20 anos, trabalho com essa questão da memória. Como professora de Filosofia, trabalhei com Filosofia da Educação e foi isso especificamente que me levou às cidades. Eu me pergunto: essas pessoas que trabalham com educação, vão trabalhar onde? Nas cidades. Há uma tendência, principalmente na Filosofia, de você sair para a abstração, para a prática.

Então, eu comecei a insistir nessa direção e pensar em um trabalho da memória, que se contrapõe ao tempo. Tempo é um elemento destruidor e só uma instância se contrapõe a essa constituição: a memória. Enquanto o tempo destrói, a memória preserva. Não posso dizer constrói, pois a memória não é proativa, mas ela preserva, estabelece vínculos, atividades simbólicas que podem tornar permanentes essa coisa efêmera do tempo.

Assim, ao estudar determinado lugar, eu encontro essa representação, que significa o mundo representado na instância da consciência. Houve uma mudança muito drástica a partir da compreensão dessa representatividade e nós fomos cortados em dois mundos: o mundo das realidades objetivas, esse material, e o mundo das representações, que é o analisado nesses livros. Cada um de nós tem desse mundo objetivo uma representação, devido à questão do olhar. O olhar faz com que você veja o mundo das realidades objetivas entranhado na matéria da memória, que é o mundo da representação.


DM - Em “O Palácio como Símbolo da Cidade”, por exemplo, você analisa seus símbolos e alegorias. Como foi desvendar a representação do Palácio da Liberdade, situando e registrando seu significado para Belo Horizonte?

MLG -
Se você olhar de uma forma mais subjetiva, você pensa: o palácio é o poder, o cemitério é a memória, o mercado é a troca e a praça é o encontro. As palavras poder, memória, troca e encontro indicam essa matéria. Então, quando vou ao Palácio, busco o significado do poder na cidade. No geral, estou analisando os palácios. Aqui em Belo Horizonte eu foco no Palácio da Liberdade. Como BH foi pensada antes, é uma cidade planejada, você pensa na cidade que demanda um poder e esse poder deve ser representado de forma soberba. O palácio, no geral, é sempre mais alto e está sempre em um lugar predominante. É um núcleo do poder.

O Palácio da Liberdade nega Ouro Preto. Por ser republicano, ele quer negar o império e a colônia. Além dessa negação ideológica e teórica, ele nega pela prática do poder, por não ter um arquétipo dominante. Então vai ser construído um palácio republicano para manifestar, simbolizar e afirmar a República e a República só se faz no contato entre o governador e o governado. Assim, esse registro do significado do Palácio para Belo Horizonte tem a ver com o fato de ele ser o novo em substituição ao antigo, dialogando com o governado. É o lugar onde o governante recebe o governado e o governado afirma e aceita o governante. Esse é o seu significado para a cidade.


DM - No caso da Praça da Liberdade, por abrigar esse palácio, também há essa relação de poder?

MLG
Sim. Originalmente, a praça era integrada ao palácio. Era uma grande corrente que começava onde hoje é o portão do Parque Municipal. Aarão Reis fez um desenho lindo para o portão, mas nunca foi feito. Ali onde existe o parque, no Automóvel Clube, seria uma praça de igual porte à Praça da Liberdade. Então seriam duas praças no eixo da Liberdade, de modo que de todos os pontos da cidade, o governado veria o Palácio. Assim, a grande afirmação da República é a cidade, estruturada a partir desse conceito de poder e de seus ícones.


DM - Conhecido por reproduzir aspectos da BH do fim do século 19, o Bonfim foi o primeiro cemitério definitivo construído na capital. Considerando-se a publicação “O Cemitério do Bonfim como símbolo da cidade”, de que maneira essa necrópole se destaca como um símbolo?

MLG -
Essa perplexidade da morte é a grande perplexidade do homem. Platão explica que se você quiser entender a filosofia você vai entender que está aprendendo a morrer. Segundo Lewis Munford, autor querido que me acompanha há muitos anos, a necrópole antecede a polis. Antes de existir a ideia da cidade, existe o cemitério.

Munford vai explicar que nós, primitivos, ainda não sedentários, vagávamos em busca da sobrevivência, caçando e pescando. Quando morria alguém, o clã tinha um senso de grupo, pois procurava um lugar mórbido para deixar aquela pessoa e depois voltava, visto que você tende a voltar a lugares onde teve uma grande experiência, principalmente se ela for perplexa, de perda. Assim, essa reverência a quem ficou é muito antiga.

Nesse caso da morte, você sabe que vai acontecer, embora não saiba o que vem depois, sabe que tudo aquilo que construiu acabou e só a memória vai resgatar. A necrópole guarda essa memória do que passou e os que ficaram vivos voltam a esses lugares para reverenciar os que já foram, criando, assim, a primeira ideia de polis. Ou seja, em torno dos mortos, eles vão acampar, vão se aglomerando e vão se nucleando, formando as cidades.

Em relação ao Cemitério do Bonfim, ele quer representar a cidade de Belo Horizonte, é intencional. Na época de sua implantação, foi escolhido um lugar amplo, onde se descortinava uma bela paisagem verde, para fazer bem ao vivo que vai visitar o morto. A cidade não pode ser inaugurada sem um cemitério, pois ele é o espelho da cidade.

Então o Bonfim representa, simboliza a BH erguida no fim do século 19. O livro traz essas observações e analisa túmulos, como dos governadores Olegário Maciel, Silviano Brandão e Raul Soares, além de jazigos que são verdadeiras obras de arte.


DM - A senhora também é autora da tese: “O Mercado como símbolo da cidade”. Quais foram os principais fatores que levaram o Mercado Central a se tornar a referência do símbolo urbano de hoje em dia?

MLG -
Olha, o que você mais faz no mercado não é comprar, é trocar, especialmente trocar ideias. A sustância, o substantivo, o vínculo do mercado é com o mundo das ideias, pois o mundo da matéria gira com o mundo das ideias. Então, não existe cidade sem mercado, pois a troca é um elemento humano fundamental.

Como a cidade precisava ser entregue em quatro anos e fazer o dever de casa, figuras humanas centrais na história da sua construção foram esquecidas: os operários. Então eles ficaram de fora e acabaram criando o bairro Lagoinha, que é absolutamente icônico e ficava ao lado de um mercado. Esse mercado, que nunca existiu dentro do projeto inicial, tem que existir como necessidade.

Desta forma, em Belo Horizonte, as trocas ficavam no eixo da Afonso Pena e o primeiro mercado constante do planejamento ficava onde hoje é a rodoviária. Claro, ele não foi pensado para essa modernidade. Assim, nos anos 20, foi negociado com o Clube América o espaço onde hoje é o Mercado Central.

Esse mercado possui um modo ideal de grupamento, quer dizer, a feira é tipicamente um lugar de encontro e nós temos essa coisa afetiva com a feira. Vamos lá ver, conhecer, estabelecer algum tipo de troca. As pessoas que trabalham no mercado têm grande identidade. O Sr. Marteleto, por exemplo, foi um dos responsáveis pela sua estruturação e desenvolvimento e foi a alma desse negócio.

Depois de muitas lutas do Sr. Marteleto, houve a criação de um estatuto, que garantia que nada seria vendido ou comprado, apenas herdado. Tinha todo esse arcabouço jurídico para manter o mercado na mão dos feirantes. Assim, foi feito aquele estacionamento, que hoje o mantêm. Então o mercado vai além da materialidade, ele é esse espaço de troca e de construção da memória. Ele é um símbolo urbano porque o espaço de troca simboliza a memória, visto que as trocas são memoráveis. É um simulador de notícias, de ideias.


DM - Em 2015, o “Filosofia e Cinema” completou 14 anos. Qual é o objetivo desse projeto? Nesses 10 anos, qual balanço pode ser feito sobre a iniciativa? Os interessados podem participar de que maneira?

MLG -
Esse era um projeto acadêmico, que eu trabalhava em sala de aula com meus alunos. É um projeto de leitura, onde são usados filmes e análises de filmes. As sessões começam às 15h e os comentários acontecem às 17h. Não são análises cinematográficas, são análises de texto. O grande objetivo desse projeto é o prazer de pensar, além de ser uma opção alternativa de entretenimento, de cultura.

No último encontro, tivemos 220 pessoas em busca desse prazer de pensar, de compartilhar ideias. Nesses 14 anos, sempre temos novos adeptos e participantes que se lembram de alguma cena ou comentário marcante. Ao fazer um trabalho para a Telemig, conheci a Rosângela, que me convenceu a fazer nesse formato que temos hoje, que é: reúne, assiste ao filme e comenta.

Para participar, basta comparecer ao Auditório do Crea-MG (Av. Álvares Cabral, 1600 - Santo Agostinho). O encontro acontece uma vez por mês e os interessados podem entrar em contato com a Rosângela Alves pelo telefone 99982-2081 ou pelo e-mail:
rosangela2440@gmail.com. Não há exigências. Você pode ir, ver o filme, não ficar para o comentário, ir apenas para o comentário, não ir e adquirir o CD com os comentários, desde que de alguma maneira você exerça o prazer de pensar.


DM - A senhora é pernambucana, mas tem todo esse trabalho desenvolvido em Minas Gerais. De onde vem a curiosidade de entender a capital mineira?

MLG -
Quando me formei no Magistério, por exigência da minha mãe, eu trabalhei com alfabetização, tocava piano, cantava, declamava, mas estava muito insatisfeita com meu trabalho. Aí eu resolvi fazer Faculdade de Filosofia, em Recife, um grande desgosto para minha mãe. Eu tinha 11 irmãos, três fazendo medicina e eu mexendo com educação. Logo comecei a trabalhar e a fazer Filosofia da Educação. Então meu professor de História da Educação tinha um módulo que era trabalhar a cidade e aí casou com o que eu queria.

Ele falava: “Não adianta pensar a cidade, tem que ir lá para conhecer”. A partir dos desafios que ele fazia, acabei descobrindo BH, me casei, me mudei para cá e meus filhos nasceram aqui. Assim, iniciou meu desejo de conhecer a cidade. Comecei a trabalhar com Filosofia da Educação na PUC-MG e depois no UNI-BH, onde esse trabalho "Matéria da Memória - A cidade e seus símbolos" começou a ser desenvolvido junto com os meus alunos, no final dos anos 1990.

Não foi algo específico que me trouxe para Belo Horizonte, eu vim fazer um curso para voltar para Recife, mas como meu professor foi preso e mudou de país, tudo foi desmantelado, mudei meus planos, acabei optando por ficar por aqui. Em Belo Horizonte, descobri que as capelas, igrejas, praças, escolas, mercados, cemitérios e outros ícones têm sua simbologia para a cidade, preservando essa memória que o tempo não consegue destruir.

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