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Márcio Borges - Junho 2016

  • Compositor Márcio Borges - Cláudia Brandão


Mais um representante da "Família Borges" bate um papo com o descubraminas.com. Considerado um dos letristas mais importantes do Clube da Esquina, o compositor e escritor Márcio Borges fala sobre suas experiências, principais lembranças da carreira e da vida em Minas Gerais.


“O Clube da Esquina, apesar de quase cinquentenário, ainda é a ponta de lança e principal referência da música popular produzida em Minas Gerais.”


Por Roberta Almeida

Descubraminas - Como foi sua infância e adolescência na Belo Horizonte dos anos 1950 e 1960?

Márcio Borges -
Foi uma infância meio dramática. Me lembro de doenças, exames no IPASE, eletrocardiogramas, xistose, giárdia, suspeita de doença de Chagas... Eu era muito moleque e fugia de casa, roubava bicicleta, nadava em água suja, sem juízo, peguei um monte de doenças nos tempos em que Santa Tereza ficava no fim da cidade.

Ir aos domingos na matinê do cine Santa Tereza, fazer coleção de gibis e álbuns de figurinhas, jogar pião, bolinha de gude, bente-altas, soltar papagaio, footing na praça, briga de turma, fiz isso tudo. Eu era muito brigão, o Bituca (Milton Nascimento) muito depois, eu já com meus 18 anos, me chamava de baixinho invocado. Era mesmo.

Mas eu tinha um grande senso de justiça, quer dizer, achava que aquilo era justiça, né? Proteger o mundo inteiro das maldades e das zombarias dos outros. Já era um sentimento poético do mundo, embora eu ainda não escrevesse nada. Só comecei a colocar minhas palavras no papel por volta dos 12 para 13 anos de idade. Antes era só uma revolta física, uma opção meio infantil pelo charme da marginalidade.


DM - Com praticamente toda família envolvida com a música, em qual momento vocês perceberam que seus passos seguiriam por esse caminho?

MB -
Cada um percebeu por si próprio e a seu tempo. Marilton abriu caminho levando a música popular para dentro de casa; ele levava discos do Miltinho, do Ivon Curi, depois João Gilberto, Tito Madi, Tom Jobim, Ed Lincoln e foi aplicando os irmãos daqueles sons maneiros.

Os meninos Lô, Yé, Telo e Nico aderiram à música antes e mais fortemente do que eu. Meu negócio era cinema, eu era apaixonado por cinema e queria fazer filmes, escrever roteiros e contos. E eles lá, fuçando instrumentos maiores do que eles mesmos, porque lá em casa rolavam os ensaios dos músicos, Wagner Tiso, Bituca, Marcelo Ferrari...

Eu ia para o Centro de Estudos Cinematográficos ver filmes em preto e branco, pensando em movimento estudantil e revolução. Mas a vida quis diferente e meus amigos e irmãos músicos praticamente me empurraram pra cena. Principalmente meu irmão de fé Milton Bituca Nascimento da Silva Campos. Com ele eu resolvi topar tudo e tentar mudar o mundo não pelas armas, mas pela arte. Assim começou nossa parceria que, se não mudou o mundo, mudou a vida de muita gente.


DM - “Clube da Esquina I” foi sua primeira composição em parceria com seu irmão, Lô Borges, e pontapé inicial para a popularização do movimento cultural de mesmo nome. Em que você estava pensando ao escrever essa canção? Achou que faria tanto sucesso?

MB -
Completando a ficha técnica, esta eu compus com meu irmão Lô Borges e meu irmão Bituca Milton Nascimento. Para escrever a letra, eu estava pensando no rito de passagem que é a transformação de um menino adolescente que de repente se vê e é visto como homem - e lhe são dadas responsabilidades de homem: trabalhar pelo sustento, servir exército, deixar seu próprio legado, mudar de órbita nesse universo complicado.

Eu lembrava que outro dia mesmo o Lô era um menino emburrado de calças curtas e poucas palavras e agora ali estava na minha frente, um belo jovem, tocando um belo violão, compondo uma bela canção com meu inestimável parceiro. E já tinha trilhado um longo caminho em termos de acordes e ideias musicais.

"Puxa, o Lôzinho já é um homem, já ficou maior do que eu." Sentei-me ao lado dos dois. Mamãe Maricota, sentindo a solenidade do momento, chegou junto, ficou por perto, iluminando. A letra saiu como todos a conhecem, de um só fôlego, de um só rompante. Eu, Bituca, mamãe e Lô, na mesma hora, tivemos a certeza absoluta de que aquela experiência seria um inevitável sucesso e nos levaria muito longe, como de fato levou.


DM - Em parceria com Milton Nascimento, Lô Borges e Fernando Brant, você fez várias composições célebres, como “Clube da Esquina I e II”, “Para Lennon e McCartney” e “Um girassol da cor de seu cabelo”. Quais eram suas inspirações para compor? Elas mudaram com o decorrer do tempo?

MB - Quando a gente é jovem e quer mudar o mundo, e quando o mundo está um turbilhão à sua volta, clamando por transformação, tudo inspira, tudo pede renovação e originalidade. O que eu queria mesmo era não fazer nada parecido com o que eu ouvia. O pior é que eu ouvia de tudo - e isso me obrigava a ser diferente de tudo que eu ouvia. Achava o universo da música popular bem pobre, com algumas exceções que me encantavam.

As primeiras canções do Caetano, "Boa Palavra", "Avarandado", os discos cheios de imagens e rimas novas de Jorge Ben, o radicalismo maravilhoso daquele disco, lapidar da Tropicália, com Nara, Rogério Duprat, Mutantes, Tom Zé e Torquato, trabalho do Caetano e do Gil. O pop inglês e americano, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan.  Eu queria seguir por ali, já que agora meu lance era música. Mas o cinema permanecia um sonho sempre presente. E as inspirações foram mudando como nuvens. Cada hora uma, de um jeito único, cada hora por um motivo diferente ou mesmo igual, separados só no tempo.


DM - Em homenagem aos mais de 40 anos de trajetória do Clube da Esquina, surgiram o museu virtual e o Bar Museu Clube da Esquina, localizado ao lado da famosa esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, em BH. Qual a importância de oferecer à cidade um atrativo turístico com tais características?

MB - O Clube da Esquina, apesar de quase cinquentenário, ainda é a ponta de lança e principal referência da música popular produzida em Minas Gerais. É referência da música popular brasileira no mundo. O potencial turístico é enorme. O Clube da Esquina tem fã-clubes no Japão, nos Estados Unidos, na Dinamarca, na França...

O Bar do Museu é um lugar especial, que traz a nossa atmosfera e nosso som. A cidade poderia aproveitar melhor este potencial, mas aí já chegamos noutra esfera: a pública - que é também política. E aí, só Deus sabe, ou talvez nem Ele.


DM - Como você se sente ao ver que o sonho de inaugurar a sede física do Museu Clube da Esquina está cada vez mais próximo de se realizar?

MB -
Não me sinto excepcionalmente entusiasmado. Por falar nisso, quero anunciar que existe nova diretoria da Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina, empossada desde o dia 19 de abril, cujo diretor, o músico e maestro Túlio Mourão, agora está à frente dos trabalhos e encaminhamentos em direção ao nosso objetivo que é ter uma sede.

Tenho certeza de que com a eficiência executiva dele a coisa vai andar muito mais rápido do que vinha andando comigo e talvez possamos comemorar essa inauguração mais rápido do que esse meu realismo exacerbado possa imaginar.


DM - No livro “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, você reconstrói a história do país nos últimos 30 anos, a partir das lembranças dos meninos que um dia se encantaram com a música. Qual é sua melhor lembrança desse período? Há histórias que ainda não foram abordadas nessa publicação e que você ainda pretende divulgar?

MB -
Há, sim, novas abordagens e estou preparando um livro com as memórias que não foram contempladas no livro que você citou. Quanto às melhores lembranças, volto a citar o escritor francês Paul Nizan: "Os piores tempos já passaram. Foram os melhores anos de nossas vidas”.


DM - De onde surgiu essa maneira genuinamente mineira de fazer uma música popular moderna e inovadora que até hoje é ovacionada pelas novas gerações? Como você se sente por fazer parte desse movimento que mudou a cena cultural mineira?

MB -
Minha música surgiu do meu sentimento do mundo, de meu amor pela vida, pela justiça e pela igualdade. Ela passou de geração a geração porque fala de coisas que não tem idade, fala de sonhos, de amores, de frustrações, de vontades de mudar o mundo e transformar o universo inteiro. Fala de coisas simples, evitando o simplório e o piegas. Ao buscar minha própria personalidade original, isso me fez sentir bem e ficar em paz comigo mesmo. Hoje me sinto vivo e confirmo: ainda estou respirando.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
MB -
Juscelino Kubitschek.

DM
- Aquela música que tem a alma de Minas?
MB -
Para Lennon e McCartney.

DM
- Adoro um bom prato de...
MB
Feijoada.

DM
- Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
MB -
Ver um jogo do Galo no Independência.

DM
- Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
MB -
Três queijos.

DM
- Qual artista melhor representa Minas Gerais?
MB -
Milton Nascimento.

DM
- A paisagem que te inspira...
MB -
As montanhas da Mantiqueira.

DM
- Atlético, Cruzeiro ou América?
MB -
Clube Atlético Mineiro, uma vez até morrer.

DM
- Fim de semana na cidade grande ou na roça?
MB -
Na roça. Como todos os dias da semana, aliás.

DM
- Quando estou fora morro de saudades...
MB -
Da roça.

DM
- Minas Gerais é...
MB -
Minha roça.

DM
- Clube da Esquina é...
MB -
Minha filha querida.


Vale a pena ouvir de novo!

Clube da Esquina

Clube da Esquina 2

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