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Andreia Garavello - Janeiro 2017

  • Atriz e diretora teatral Andreia Garavello - Matheus Ventura
  • Andreia Garavello bate um papo com o descubraminas.com - Matheus Ventura
  • Andreia dá vida à Parca no espetáculo "A Paixão Segundo Shakespeare" - Guto Muniz
  • Andreia Garavello em cena - Guto Muniz


Em janeiro, o Descubraminas conversa com a atriz Andreia Garavello, que fala sobre seu envolvimento com artes cênicas, o teatro mineiro nos dias atuais, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de BH, e muito mais...


“Minas Gerais é um seio de mãe a transbordar carinho."


Assista aqui aos melhores momentos da entrevista!


Por Roberta Almeida

Descubraminas - Como e quando você decidiu se dedicar às artes cênicas?

Andreia Garavello -
Quando eu comecei a fazer o curso de teatro livre existia aqui em Belo Horizonte o Teatro Universitário, ligado à UFMG, e a Oficina de Teatro, uma escola que Pedro Paulo Cava abriu junto com atores e diretores, e ele dava esse curso livre de um ano. Quando terminei esse curso, eu e mais nove pessoas da turma montamos o grupo de teatro “Experimentando o Palco”.

Foi aí que eu estreei nos palcos, em maio de 1984, e no ano seguinte fizemos a “Cantora Careca”. Depois fui convidada a trabalhar com Pedro Paulo Cava e fiz o espetáculo “Lua de Cetim”. A partir daí, quando virei produtora, já usava o grupo de teatro como uma entidade fiscal para fazer as produções. Então eu fiz o curso em 1983 e comecei a atuar no ano seguinte.

Quando eu era mais jovem, fiz algumas coisas de teatro no colégio, era do grêmio estudantil, mas nunca havia passado pela minha cabeça ser atriz. Quando entrei na Escola Técnica da UFMG, fiz parte do coral e aprendi com o Afrânio Lacerda tudo que sei sobre voz. Então eu gostava muito de cantar, mas quando entrei para a Oficina de Teatro tive que escolher a música ou o teatro.


DM - Você já atuou em peças muito bem conceituadas em Minas Gerais, como “Lua de cetim”, “O casal aberto” e “Fulaninha e Dona Coisa”. O que significa para você a arte de atuar nos palcos?

AG -
Para mim, significa um estado de espírito. Como faço um trabalho pelo qual eu sou extremamente apaixonada, acho que significa estar tranquilo, esperançoso e consciente. Acredito que há vários trabalhos difíceis, mas a pessoa que trabalha com o teatro tem que ser naturalmente generosa, pois ela tem que trabalhar o "não ser" para ser outra pessoa.

Então é preciso praticar esse estado de humildade porque senão você não consegue dar o seu corpo, suas falas e emoções emprestadas para um personagem. Isso mexe muito com o seu ser, com tudo que você acredita e isso naturalmente reflete nesse seu estar no mundo. Para mim, é essencial estar trabalhando com o teatro, pois eu consigo lidar com minhas angústias com muito mais facilidade.


DM - Você fez a direção artística e também compôs o elenco de "Medeia", chegando a se apresentar junto ao grupo Trupersa em Atenas, na Grécia. Como é levar uma versão mineira da tragédia de Eurípedes aos palcos internacionais?

AG -
Eu fiquei sem subir aos palcos de Minas de 2005 até 2012, quando estreou a “Medeia” aqui em Belo Horizonte. Essa peça começou com um projeto dentro do centro de Línguas Clássicas, no caso o grego antigo, da UFMG, como um projeto da área de tradução. Então esse espetáculo foi traduzido e depois montado.

Esse projeto, orientado pela professora Tereza Virgínia Barbosa, defendia que os textos gregos de teatro, de tragédia e comédia, deveriam ter um sistema de tradução que saísse do meio acadêmico e fosse entendido por qualquer cidadão.

Sempre se teve a ideia de que os textos clássicos eram para poucas pessoas, enquanto que as peças de Shakespeare, por exemplo, eram apresentadas ao populacho, eram apresentadas para a rainha Elizabeth I também, mas o grande público era o povão. Então, nós propusemos uma tradução que não diminuísse o texto original e que qualquer pessoa entendesse, ainda que fosse via criação de uma nova palavra, como fazia muito bem Guimarães Rosa.

Depois da tradução, na montagem da peça, experimentamos essa teoria. Aqui em BH, fizemos seis apresentações no Parque das Mangabeiras, abertas ao público, e pudemos perceber que as pessoas, inclusive famílias com crianças, ficaram duas horas assistindo ao espetáculo. Quer dizer, ficou completamente compreensível.

Em Atenas, nós fizemos isso também. A história lá já é bastante conhecida, então apresentamos em português e eles ficaram completamente encantados com nosso ritmo, com um samba-enredo que colocamos no final, maxixe e baião e lá fomos apresentados como “Medeia em ritmo brasileiro”. Foi muito legal e pudemos comprovar que, independente da língua, onde você o fizer, ele é entendível, pois o que importa é a poética que você utiliza.


DM - Após alguns anos longe da cena teatral, você retornou aos tablados com o espetáculo “A Paixão segundo Shakespeare”, escrito por Jota Dangelo e dirigido por Pedro Paulo Cava. Quais foram os resultados dessa apaixonante experiência?

AG -
Você falou uma palavra certíssima: "apaixonante". Esse espetáculo reúne atores de três gerações, então tem atores de uma geração antes da minha, contemporâneos e mais jovens. Somos 10 atores, juntos nessa ousadia que é montar vários espetáculos de Shakespeare.

Para mim, especificamente, a palavra que mais define é "celebração", pois foi uma celebração do reencontro com Pedro Paulo Cava, com os colegas de profissão, alguns até foram meus professores, e com os colegas novos, com toda aquela esperança e vigor que a gente começou.

Então eu estou muito feliz por estar fazendo o espetáculo, apesar de ser a única que não está fazendo Shakespeare, pois o texto da parca, apesar de aparecer em Macbeth, é todo do Jota Dangelo. A parca é incisiva, engraçada, sarcástica e conecta os espetáculos. É um grande desafio interpretá-la, mas estou adorando fazer parte dessa história.


DM - Como você avaliaria o teatro mineiro hoje?

AG - Eu acho que os grupos de teatro, hoje, estão mais fortes. Temos grupos bastante coesos e com uma pesquisa fundamental para as artes cênicas. No caso dos produtores independentes, eu acho que a gente perdeu muito por termos ficado reféns das leis de incentivo à cultura. Hoje, para um produtor montar um espetáculo sem essas leis, ele tem que ter muita coragem porque podemos não ter a resposta de público que antigamente tínhamos.

As pessoas estão saindo cada vez menos de casa, estamos perdendo a capacidade de estar uns com os outros, nem brigas mais estamos tendo na nossa categoria, pois não nos encontramos nem para brigar. Isso eu acho um perigo na cena teatral, não só de Minas Gerais, mas do Brasil, e é um perigo para qualquer relação que nós possamos ter, justamente porque estamos perdendo essa capacidade de estarmos juntos.


DM - Esse mês acontece a 43ª edição da Campanha de Popularização do Teatro e Dança de Belo Horizonte. Você acredita que os artistas mineiros já perderam, definitivamente, a timidez para encarar os palcos?

AG -
Eu acho, sim. Acho que o artista mineiro, já há muitos anos vem exercitando essa prática de estar em cena e fazendo um espetáculo, qualquer que seja ele. Hoje, temos na campanha mais de cem espetáculos dividindo um público muito minguado. Então é preciso inovar o que é apresentado. Inclusive, “A Paixão segundo Shakespeare” está na programação da campanha deste ano, uma das poucas peças novas em cartaz.

Agora uma coisa que eu acho muito importante para dar sustentação aos artistas que estão aqui hoje é a preservação da memória. Belo Horizonte, por exemplo, foi o primeiro lugar do Brasil onde foi montada uma peça de Edward Albee. O Jota Dangelo fez essa montagem e pouca gente sabe. Então precisamos o mais rápido possível perder a timidez e reerguer essa memória, para que haja propostas de releituras e inovações nas peças apresentadas.


DM - Existe alguma peça que você deseja muito fazer? Qual é a missão de um ator?

AG - Têm várias! Mas a que me lembro agora chama-se “O Homem de La Mancha”. É um musical francês sobre o Dom Quixote e é um grande sonho. Tanto, que fiz o espetáculo infantil “Dom Chicote Mula Manca”, em 2000, mas eu tenho vontade de fazer esse para adultos. Como os direitos autorais são muito caros, eu tenho vontade também de fazer uma adaptação da história do Dom Quixote visto pelo olhar da Dulcinéia.

Eu acho que a missão de um ator é levar para o público um hiato dentro da sua própria vida. Momentos em que ele possa esquecer-se de si mesmo e prestar atenção numa outra coisa que está acontecendo e o que isso vai acarretar vai de cada um que estiver assistindo. O ator seria um catalisador, seria aquela água salgada onde você coloca os fios e se dá a eletricidade. Acho que o ator é essa água salgada, o meio para que isso aconteça.



Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
AG -
Guimarães Rosa.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
AG -
“O trenzinho do caipira”.

DM - Adoro um bom prato de...
AG -
Frango ao molho pardo.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
AG -
As nossas cachoeiras.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
AG -
Um queijo, é claro!

DM - Qual espetáculo melhor representa o teatro mineiro?
AG -
"Oh!, Oh!, Oh! Minas Gerais, do Jota Dangelo.

DM - A paisagem que te inspira...
AG -
Mar de montanhas.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
AG -
Atlético.

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
AG -
Quando possível, na roça.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
AG -
Feijão.

DM - Minas Gerais é...
AG -
Minas Gerais é um seio de mãe a transbordar carinho.

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