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Pedro Nava

Pedro da Silva Nava


Cronologia
Nasceu: 5 de junho de 1903
Faleceu: 13 de maio de 1984
Filiação: José Nava e Diva Mariana Jaguaribe
Natural de Juiz de Fora/MG


Formação
Curso Primário no Ginásio Anlgo-Mineiro - Belo Horizonte/MG - 1913
Curso secundário no Colégio Pedro II - Rio de Janeiro/RJ - 1916 -1920
Bacharel em Medicina - Universidade de Minas Gerais - 1927


Atividades
Médico (Juiz de Fora, 1927-1933)
Médico Reumatologista - Rio de Janeiro - 1933
Docente e Catedrático de Medicina - Rio de Janeiro - 1936-1975
Escritor
Poeta


Trajetória de vida
Em 1924, a visita da caravana paulista (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral), com suas idéias modernistas, à cidade de Belo Horizonte incentivou Pedro Nava e outros escritores a uma renovação das letras e artes na Capital.


Participou do Grupo Estrela e colaborou com a publicação modernista A Revista -1923-1924


Foi correspondente de Mário de Andrade, quando escreveu a maioria de suas poesias - 1925-1944


Casou-se com Antonieta Penido em 1945


Em 1968, Pedro Nava começou a escrever suas memórias, contando suas histórias e as de sua família. Além disso, escreveu alguns poemas para crianças e adolescentes pois, considerava um desafio escrever para essa faixa etária.


No dia 13 de maio de 1984, Pedro Nava suicidou-se com um tiro na cabeça próximo à sua casa, deixando uma "Carta Suicida" onde encomendava seu corpo a seis amigos, entre eles, Carlos Drummond de Andrade e Afonso Arinos.


Principais obras

O Defunto (1924)

Capítulos da História da Medicina no Brasil, na revista Brasil-Médico Cirúrgico (1948-1949)

Publicou suas memórias em Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira-Mar, Galo-das-Trevas, O Círio-Perfeito(1972-1983)


Homenagens / Títulos / Prêmios

1973: Prêmio Luísa Cláudio de Souza do Pen Club

1973: Prêmio Personalidade Global - Setor Literatura da Rede Globo de Televisão e Jornal O Globo

1974: Prêmio de Livro do Ano - Museu de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo pela obra O Círio-Perfeito.


Conto e Poema

O Círio-Perfeito

"O quarto laudo seria dado pelo médico no "levantamento de corpo" do moço Gotardinho. Ele era um oficial de justiça muito trabalhador. De repente ficara esquisito, não falando mais a ninguém, com medo de ir à rua. Vezes saía à noite. E nunca mais cortara os cabelos e nem fizera a barba. Estava nesse lelê há três meses e numa de suas raras saídas não voltou pra casa.

Procuraram no Monte Aprazível inteiro, telegrafaram, telefonaram para toda a Alta raraquarense. Portadores em várias direções.

Aquele talhão de mata uma das cercanias da cidade foi varado em cada sentido. O Egon é que comentou para o Tavares. Sumiço de esquizofrênico é noventa por cento de probabilidade de suicídio. Suicídio de deprimido na maioria é por enforcamento. Ninguém achou o corpo... Pois aposto que passaram aos pés dele na mata sem se aperceberem. Ta em cima, dependurado. Mais umas horas e os urubus é que vão conduzir ao desgraçado.

Foi dito e feito. No terceiro dia uma nuvem negra abatera-se em revoada sobre o arvoredo. Chegou a notícia para a cidade. O corpo estava sendo comido pelos urubus... O Egon, indicado para perito, para lá bateu-se com o delegado. Andaram bastante a pé e ao calor do sol. Seguidos por uma multidão de curiosos entraram na frescura da mata, onde no seu mais profundo pendia numa madeira de lei o corpo do enforcado. Ele pelo visto subira até aquele galho alto com seu rolo de cordas. Amarrara bem o cabo, fizera na ponta um nó corrediço, passara-o no pescoço e deixou-se cair. A laçada anterior suspendia-lhe o queixo e ele parecia um peixe no fio do anzol. Estava hediondo. Era o quarto dia de sua morte e todo ele vibrava e zumbia das nuvens de moscas que se grudavam numa espécie de calda que lhe nascia e empapava os trapos com estava vestido, pingava. Camisa calça pés descalços. Fora-se-lhe toda a forma humana. Pés negros e inchados, ele estufava como um balão de borracha muito cheio. E em torno daquilo havia um clamor sacudido de asas de urubu fedendo os ares eriçados de tanta asa, tanto bico, tanta pata, tanta cauda, tanto pretume. Parecia gravura de Rockwell Kent ou uma cena dos pássaros de Hitchcock. E as aves iam vinham revoavam como a querer lutar por sua presa opima. E foi preciso combater com eles. Os soldados do destacamento foram chamados com suas armas. Com disparos para o alto e gritos eles assustavam um instante os passarões enormes que subiam, iam alto, revoluteavam e voltavam sobre a presa com um bater ceifante de asas um grasnar. Um dos soldados a mando do Macedo desfez-se do boné, da túnica, das perneiras e das botinas. Subiu à árvore, desmanchou os nós da corda em cima e foi deixando escorregar o corpo que de repente pareceu mais gordo ali deitado entre nuvens de moscas e um atroar de asas de urubus. O Egon rasgara um pedaço da própria camisa para amarrar diante de seu nariz sua boca para não engolir não respirar moscas. Tomava suas notas dentro da atmosfera espantosa daquela podridão, protegido por duas praças sacudindo galhos de árvores para espantar os bichos carniceiros que pareciam querer matar também os vivos. Os próprios circunstantes de repente se mexeram para se acercarem como a querer disputar o cadáver das aves. Mas seu objetivo era a corda, a corda de enforcado que é amuleto e talismã contra azar e moléstias. Foi quando o doutor Egon impediu.

- Sargento Hilário! O senhor afasta todo mundo. Essa corda é peça de convicção e pertence à justiça.

Qual justiça nem nada: o que ele queria era apossar-se ele próprio do rolo todo e leva-lo consigo. Seria seu breve para manter-se em forma e encher as algibeiras de gaita... Ousou fazer isto e pô-lo fedendo no terreiro da casa sob os protestos do Tavares. Quando foi depois examina-la encontrou a parte do nó corrediço toda untada das umidades da decomposição. Fazia mal não. Ia ferver e tirar o perigo daquela caldevana pegajosa. Ferveu, deixou no terreiro para secar... Antes não o fizesse: em um dia sua clínica é que secou e deixaram de aparecer os doentes no consultório. Era uma vazante. Acoselhou-se com sua lavadeira.

- Essa corda, doutor, é do morto. Isto é ele reclamando. O senhor tem de levar tudo bem embrulhado, abrir um pouco a cova dele e enterrar a corda também...

Essa agora! Pensava o moço, essa agora! Mas supersticioso fez o que lhe era mandado. Cedinho lusco-fusco da madrugada. E ainda rezou as três ave-marias e padre-nossos do preceito. A clientela imediatamente reafluiu".


Se Eu Soubesse Brincar

"Si eu tivesse seis anos si soubesse brincar
pedia ao Menino Jesus que viesse me dar
seus brinquedos coloridos

E ele dava mesmo dava tudo
dava brinquedos variados de todas as cores
brinquedos sortidos
dava bolas lustrosas pra mim soltar de noite e
mandar todas pro céu com minha reza

Dava bolas dava quitanda dava balas
e havia de ficar melado, todo doce de minha baba.

E dava homenzinhos, arvinhas, bichinhos, casinhas e
em minhas mãos ingênuas eu tirava o mundo novinho,
cheiroso de cola e verniz, das caixas nurembergue
pra recomeçar deslumbrando a brincadeira da
vida

O Menino Jesus dava tudo si eu fosse menino
si soubesse brincar pra brincar com ele".

 

 

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© Divanildo Marques Belo Horizonte - Homenagem a C. Drummond e Pedro Nava - Divanildo Marques Homenagem a C. Drummond e Pedro Nava
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