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Aspectos Históricos do Artesanato Típico Mineiro

© Divanildo Marques Pirapora - Carranca - Divanildo Marques Carranca

Desde o século 18, trabalhadores que utilizam as mãos e algum instrumento como extensão dos dedos para confeccionar peças de uso decorativo e utilitário se fazem presentes nas áreas colonizadas de Minas Gerais. Oficinas caseiras exibiam mestres, oficiais e aprendizes nas mais diversas atividades: produção de mobiliário doméstico, joalheria sacra ou profana, instrumentos musicais, de trabalho e de transporte, objetos de lazer, etc.


Na maestria de confeccionar objetos, utilizando recursos naturais da terra e materiais importados, a criatividade do mineiro sempre foi ímpar. Nas variadas regiões culturais mineiras, de acordo com o processo histórico de cada uma, sobressaem-se variados objetos artesanais típicos. Quem conhece a história da nossa colonização é capaz de entender melhor a mensagem de cada um desses objetos, suas respectivas utilidades e suas características peculiares, as quais traduzem o jeito de ser e a cultura da comunidade de origem.


Como “o artesanato está correlacionado com os recursos naturais existentes e decorre, necessariamente, da relação entre o homem e o meio, reflete o sistema de vida adotado pelos moradores do lugar ou região, é certo que se manifeste no estado em múltiplos padrões e variedades técnicas, ainda que se trate de objetos feitos com emprego do mesmo material e que tenha igual destinação”. (Saul Martins)


A economia de Minas, no setor de transformação, era eficaz. A sociedade mineira, escravista, não excluía do cenário social grupos de produtores independentes e trabalhadores livres. Pela necessidade, o mineiro criou e recriou suas peças com arte e beleza. No século 18, o processo de produção artesanal do mineiro foi enriquecido, principalmente pela criatividade de mulatos, cafusos e mamelucos. E, “embora se considerem notáveis as experiências portuguesas transculturadas e sincréticas, a cerâmica, a tecelagem e cestaria receberam influência indígena marcante, perceptível ainda em nossos dias”. (Saul Martins)


No século 19, imigrantes e seus descendentes – italianos, alemães, judeus, sírio-libaneses, turcos, ciganos, ingleses, franceses e espanhóis -, marcam, também, a história da cultura mineira, através de objetos artesanais, culinária típica, usos e costumes.  


Ao se observar objetos artesanais, é preciso saber distinguir as peças que são artesanatos típicos regionais das obras artesanais do artista popular. Na primeira, todos detêm a técnica do fazer e mantêm características próprias do processo histórico da comunidade. Na segunda, o artista popular, além de dominar a técnica do fazer da comunidade, impregna características pessoais em sua obra. Exprime, nas peças, os seus sentimentos, valores e conceitos de vida. Na maioria das vezes, são escultores, joalheiros e bordadeiras que fazem peças individuais.


Assim, o processo histórico de Minas Gerais é constituído de fatos significativos que marcaram a trajetória das nossas atividades artesanais:


1719 - O Governador das Minas expulsa os ourives e demais pessoas que se dedicavam a quaisquer tipos de trabalhos ligados à área de fundição mineral. Têm-se notícias da perseguição a ferreiros pelos dragões.  O poder público da época atribui a esses profissionais as falsificações de moedas de ouro e  os acusa de cunhá-las sem recolher o quinto (imposto) para a Coroa Portuguesa.


1727 - Ocorre o recolhimento de todas as ferramentas e todas as oficinas são fechadas


1766 - D. José I, através de Carta Régia de 30 de julho, manda destruir as oficinas de ourives e declara a profissão fora da lei.


1785 - Através do Alvará de 05/01, de D. Maria I, ficam proibidas no Brasil as fábricas e manufaturas de lã, algodão, linho, seda, ouro, prata, etc, por serem consideradas lesivas aos interesses portugueses. Justificava-se que o Brasil precisava produzir riquezas minerais e agrícolas, e que só os colonos as deveriam produzir. A Colônia não precisava nem de artistas, nem de fabricantes. Abria-se exceção apenas para a tecelagem de panos grossos e que fossem destinados a vestir escravos.


1808 - O Príncipe D. João autoriza a atividade industrial caseira de qualquer natureza e, através de Carta Régia, anula os alvarás proibitivos de sua mãe, relacionados à industrialização no Brasil.


1813 - D.João VI baixa provisão para amparar e fomentar o artesanato no Brasil.


1825 - Notícias de que havia criação do bicho da seda e de abelhas em Ouro Preto, para industrialização do fio de seda e de cera, respectivamente.


1938 - Constituição Estadual diz que o trabalho manual tem direito à solicitude e proteção especial do Estado.


1953 - D.Helena Antipoff, na Fazenda do Rosário, em Ibirité, dá grande impulso ao artesanato como disciplina obrigatória ministrada por artesãos nos cursos destinados à professoras do interior que vinham se especializar no Instituto Superior de Educação Rural. Essa escola  fundada por D.Helena Antipoff, hoje, infelizmente, não existe mais.


1965 – O artesanato é implantado nas cadeias públicas através da lei nº 4080.


1964-1966 - Campanha intensiva, com apoio governamental, para abertura de pequenos empreendimentos destinados à comercialização do artesanato.


1979 – Mapeamento e Planejamento do Artesanato Mineiro é realizado pela Fundação João Pinheiro e Secretaria de Estado do Planejamento e Coordenação Geral.


Inúmeros outros fatos históricos também marcam a valorização e a desvalorização da produção artesanal em Minas, uma trajetória de altos e baixos, ainda hoje com ameaças de extinção. As atividades artesanais no Estado ainda estão comprometidas devido às intervenções dos atravessadores que exploram, abusivamente, a mão-de-obra do artesão.


Walter Sebastião, no Caderno de Cultura do “Estado de Minas”, de 07/07/2002, apresenta um breve quadro da situação, quando afirma que: “um dos pilares da tradição cultural de Minas Gerais – o artesanato – está ruindo. Descaracterizado e sem criatividade, o setor vive um momento de impasse, segundo conhecedores do assunto. O número de artesãos até cresceu, mas a qualidade caiu. Na origem do problema estaria desde migrações de populações rurais para a cidade, abandonando hábitos tradicionais, até o avanço da sociedade de consumo impondo novos padrões culturais. Há quem considere que a crise é apenas uma passagem entre velhos e novos tempos do artesanato. Mas há também quem considere que a perda é irreversível. Se todos concordam com o que seria a fonte dos problemas, há divergências sobre quais seriam as respostas para a situação. Uns defendem a volta às práticas tradicionais, ensinando, inclusive aos artesãos, a importância e o valor do que eles fazem; outros argumentam que só novas perspectivas que apóiem, qualifiquem renovem a linguagem artesanal e dêem ao profissional chances de trabalho podem significar um futuro melhor”.


Apesar dessa realidade, os vários projetos existentes que visam o resgate do artesanato típico regional ainda fazem dele uma boa alternativa de trabalho e renda para várias comunidades carentes. São bons exemplos os trabalhos desenvolvidos pela Emater-MG, pelo Salão do Encontro, em Betim, bem como os de diversas outras instituições que utilizam inclusive recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador -FAT em prol da produção artesanal.


Mesmo com a evolução técnica, industrial e científica, e com a propaganda acirrada da cultura de massa para o consumo desregrado de objetos, os quais geram um alto índice de poluição ambiental, encontram-se, nesta terra, em pleno século 21, artesãos que ainda mantêm sua genialidade, produzindo objetos que retratam a história e a cultura de seu povo.


Contudo, enquanto cidadãos, é preciso orientar esses artesãos quanto à necessidade de:

· se organizarem em associações ou cooperativas, para que, juntos, possam produzir e vender, obtendo renda digna para sua manutenção;

· não se deixarem ser explorados por atravessadores;

· exigirem do poder público os seus direitos de produção e escoamento dos produtos;

· criarem oficinas para passar às novas gerações o modo do fazer;

· levarem avante os inúmeros estudos e planejamentos que propõem uma exploração econômica mais digna do artesanato regional.


Com estas e outras medidas, torna-se mais fácil preservar uma das maiores tradições deste maravilhoso Estado.

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