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Ciclo do Divino

© Sônia Tangari Diamantina - Anjos do Espírito Santo - Festa do Divino - Sônia Tangari Anjos do Espírito Santo - Festa do Divino

A Festa do Divino é realizada em diversas cidades mineiras, onde as comunidades são devotas do Divino Espírito Santo ou o têm como padroeiro. Elas são realizadas em diferentes datas, após os quarenta dias a contar do Domingo de Páscoa, período em que se comemora Pentecostes – a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos.


Este fato histórico religioso é narrado ao longo dos séculos e documentado na obra “Atos dos Apóstolos”, que faz referência ao encontro dos apóstolos com Maria no Cenáculo, ainda temerosos da perseguição política romana. Os apóstolos presenciam um clarão e percebem a descida de línguas de fogo sobre cada um em sinal de alerta. A partir deste momento, sentem vitalidade, coragem, inteligência e raciocínio lógico para saírem pelo mundo, entendendo e falando várias línguas e pregando a filosofia ensinada por Jesus Cristo.


As Festas do Divino realizadas no Brasil são oriundas de Portugal, onde foram iniciadas pela Rainha Santa Isabel, esposa do Rei-poeta D. Diniz, no início do século 5. Tem-se notícia de que para angariar recursos visando a construção de uma capela em homenagem ao Divino, em Alenquer, Portugal, essa rainha teria organizado uma feira junto com a comunidade. Não é de se admirar a imediata aceitação da festa por outras aldeias até que ela viesse a ser legalizada pelo “Código Afonsino”, em Portugal. Assim, o Divino Espírito Santo tornou-se um dos protetores da Coroa Portuguesa.


Escritores portugueses do século 16 já descrevem os festejos do Divino, como Heitor Mendes Pinto em sua obra “Imagem da Vida Cristã”.


Em Portugal, o imperador convidava a nobreza e alguns plebeus que haviam trabalhado em beneficio da Coroa para acompanhá-lo no cortejo do palácio à igreja onde ocorriam os festejos do Divino. Logo após as cerimônias religiosas, o cortejo retornava ao palácio onde havia comida farta, músicas e danças. Aos plebeus eram distribuídas farinha e carne para que tivessem mesa farta nesse dia.


“Tais comilanças havia nas igrejas e enterros. No reinado de D. Manoel e da rainha Isabel, no livro cinco, título V das “Ordenações do Reino”, eram proibidas todas as comezainas, conservando apenas as ligadas à festa de Pentecostes, i.e., do Divino Espírito Santo. Vejamos a pitoresca linguagem das Ordenações do Reino de D. João III, filho de D. Manoel, recompiladas por sua ordem em 1643, e publicadas, em Lisboa, em 1696. Lê-se no livro quinto, título V (106):


“Dos que fazem vigílias em Igreja, ou vodos fora dellas”

 

“1º - E defendemos que não fação vodos de comere de beber nas igrejas nem fóra dellas posto quedigão que o fazem por devoção de alguns Santos,sob  pena de que o axé pedir e receber pagar emdobro de cadea tudo o q. receber para quem oaccusar. Não tolhemos porem os vodos do EspíritoSanto que se fazem na festa de Pentecostes porquesomente estes concedemos e outros alguns não."

 

“2º - Porem nos lugares onde se costumão comer, quando levão os defuntos o poderão fazer sem penaalguá, não comendo dentro do corpo das Igrejas.”

 

Como se vê, a origem de tais costumes e cerimônias é secular. Mas, para serem mantidos, além da tradição, é necessário motivar e sensibilizar a comunidade, o setor privado e o poder público municipal, pois, de outra forma, as gerações que se sucedem não manteriam esses costumes. Os novos párocos e os educadores têm um importante papel nesse contexto, já que são líderes comunitários com grande potencial de sensibilização para a preservação da memória e da cultura regional.


No Brasil, os portugueses nobres continuaram a devoção ao Divino Espírito Santo. Havia, inclusive, uma lei que obrigava as Câmaras Municipais a ajudarem no financiamento da festa, apoiando a Irmandade, que era composta de homens brancos e ricos. Até hoje, os Irmãos do Divino elegem o representante do Imperador, que terá de manter a tradição.


Os festejos têm seu lado religioso erudito - novena, missas, ladainhas e procissões em louvor ao Divino Espírito Santo. A icnografia do Divino é representada por uma custódia dourada, normalmente esculpida em madeira revestida em folha de ouro, e no lugar da hóstia consagrada há uma pomba branca esculpida. A decoração da peça é rica e variada, dependendo da criatividade do artista. As cores oficiais do Divino determinadas pela Igreja Católica são o vermelho e o branco. Com elas se ornamentam as igrejas, ruas e janelas das casas.


As festas têm também o seu lado folclórico – as Folias do Divino, o levantamento do mastro, o espetáculo pirotécnico, a culinária típica exibida na mesa do Imperador - principalmente os doces -, na decoração dos ambientes e das barraquinhas onde se concentram os jogos e brincadeiras populares, o artesanato expresso nos bordados das roupas dos figurantes do Cortejo do Império que ocorre no dia principal da festa.


A criatividade e a originalidade popular para expressar a devoção ao Divino podem ser observadas de região cultural para região cultural, de acordo com seus respectivos processos históricos. A presença de folguedos depende de cada região. Na Região Cultural do Nordeste Mineiro, por exemplo, a Marujada é um dos folguedos preferidos para puxar o Cortejo do Império.


Normalmente, após a Páscoa, as folias do Divino Espírito Santo já saem para fazer as visitas aos devotos. Além de levar as bênçãos do Divino para as famílias e crianças, principalmente para terem boa memória, elas angariam donativos para os festejos. As músicas cantadas nas folias do Divino são muito apreciadas pelos violeiros, cantadores e cantores de fama nacional, algumas, inclusive, foram gravadas por Sérgio Reis. A música tradicional cantada em qualquer roda de viola  é Chico Mineiro, que morreu numa festa do Divino nas terras de Goiás, estado que também mantém essa tradição.


No dia principal da festa, é comum a distribuição de carne de boi para os pobres em várias cidades e arraiais. Cada região guarda suas crendices e sapiências por este ato de fé cristão. Em Diamantina e região, é tradicional, também, a distribuição do bolo de arroz pelo imperador,  após a missa do Divino realizada às cinco horas da manhã.


Uma missa principal com muita pompa é celebrada, geralmente, às 10 horas. Um cortejo com vários figurantes é organizado para buscar o Imperador e a Imperatriz para assistirem à missa.


Assim, o Cortejo do Império é definido junto à família do Imperador, que geralmente faz convites àqueles que podem confeccionar seus próprios trajes. O número de figurantes do cortejo varia conforme a cidade, mas é comum que se apresentem na seguinte ordem:- O Imperador abre o cortejo acompanhado de sua senhora e de membros da família, carregando a Bandeira do Divino que ficou sob sua guarda por um ano.


- Em seguida, outro figurante carrega uma Bíblia para simbolizar a verdade da espiritualidade cristã.


- Para retratar os aspectos espirituais da Festa de Pentecostes, seguem os figurantes que portam os símbolos das virtudes Teologais: o que porta a cruz, simbolizando a Fé, normalmente veste-se de branco; o que porta a âncora, simbolizando a Esperança, veste-se de verde; e o que porta o coração, simbolizando a caridade, veste-se de vermelho.


- Na seqüência, outro figurante, vestido de vermelho, porta um estandarte com uma chama cuja simbologia é a “Chama Eterna”, que significa o espírito de fé.


- Depois, surgem jovens ou crianças vestidos a caráter, carregando cestinhas com vários “divininhos” - pombinhas douradas com um lacinho de fita vermelha amarrado numa argolinha - para serem distribuídos após a missa. Todos prendem o divininho na lapela no dia da festa ou, então, o colocam na carteira para obterem sorte e dinheiro.


- Um figurante portando um estandarte em Língua de Fogo abre o quadro dos Doze Apóstolos, simbolizando a Descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, que, cheios de medo, tornaram-se corajosos e sábios para saírem a serviço de Deus.


- Em seguida, surgem os figurantes que representam os Dons do Espírito Santo. Eles portam, individualmente, estandartes ou faixas individuais com as seguintes palavras: Entendimento, Ciência, Sabedoria, Conselho, Fortaleza, Temor a Deus e Piedade. A boa apresentação deste grupo depende da criatividade do organizador do cortejo de cada ano.


- Logo atrás, da mesma forma, vêm os figurantes que portam estandartes ou faixas individuais com palavras que significam os Frutos do Divino Espírito Santo: Castidade, Brandura, Bondade, Modéstia, Fé, Paciência, Caridade, Benignidade, Longanimidade, Gozo, Paz e Humildade.


- Outro figurante carrega o Estandarte do Divino, peça muito ornamentada cuja apresentação também se difere de ano para ano, dependendo da criatividade do organizador.


- Encerrando o lado erudito da festa, ou seja, o cortejo litúrgico, às vezes aparecem os coroinhas portando o turíbulo, a naveta e outros objetos utilizados nos ofícios sacros. Podem aparecer também anjinhos ou anjos maiores.


Iniciando o lado folclórico do cortejo, surgem:


- Participantes que representam figuras típicas ou pessoas ilustres da cidade e outros que portam os produtos naturais da terra. Os demais figurantes de caráter popular variam de cidade para cidade.


- Finalmente, vem a Imperatriz com seu séqüito. Em algumas cidades ela surge cercada de varas ornamentadas com flores e fitas em quadra, em outras, ela vem sob um palium – grande sombrinha decorada portada por um amo. Os figurantes que antecedem a Imperatriz também variam de cidade para cidade. Mas, em geral, uma banda de música e os demais fiéis é que fecham o cortejo.


Música cantada por foliões do Divino


Os devotos do divino
Vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino
Ser bem-vinda, ser louvada.

Deus vos salve este devoto
Pela esmola em vosso nome,
Dando água a quem tem sede,
Dando pão a quem tem fome.

A bandeira acredita
Que a semente seja tanta,
Que esta mesa seja farta,
Que esta casa seja santa,
 
Que o perdão seja sagrado,
Que a fé seja infinita,
Que o homem seja livre,
Que a justiça sobreviva.

Assim como os três Reis Magos
Que seguiram a estrela guia,
A bandeira segue em frente
Atrás de melhores dias.

No estandarte vai escrito
Que Ele voltará de novo,
E o Rei será Bendito,
Ele nascerá de novo.

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© Oscar Eduardo Mendes dos Santos Diamantina - Rainha do Tijuco - Oscar Eduardo Mendes dos Santos Rainha do Tijuco
© Oscar Eduardo Mendes dos Santos Diamantina - Marujo na Festa do Divino - Oscar Eduardo Mendes dos Santos Marujo na Festa do Divino