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Ciclo Carnavalesco

© Claudinei Luis Belo Horizonte - Os Caricatos - Claudinei  Luis Os Caricatos

Ciclo Carnavalesco - de janeiro a fevereiro 

O carnaval é uma festa profana. Esta grande festa que se realiza hoje no Brasil tem sua origem num festejo popular que acontecia na Europa nos três dias que antecediam o início da Quaresma, ou seja, a Quarta-Feira de Cinzas. Nesse antigo festejo, denominado pelos portugueses de Entrudo, os foliões molhavam uns aos outros com baldes de água, limões-de-cheiro, vinagre, groselha e vinho, sujando-se com farinha, cal, tinta e pó de arroz. Os portugueses trouxeram o Entrudo para o Brasil em 1685. Aqui, desde o início, as autoridades tentaram tomar medidas contra o festejo, pois as brincadeiras acabavam se tornando verdadeiras batalhas com alto grau de violência. Assim, o Entrudo vigorou em Portugal até 1817 e entrou em declínio no Brasil em 1854 por repressão policial, dando lugar ao moderno Carnaval.


Linha do Tempo
1685 – Já no primeiro Entrudo realizado no Brasil, no Rio de Janeiro, proíbe-se o uso de máscaras.

1834 – Já se admite o uso das máscaras de origem francesa no Entrudo, uma vez que a nobreza, que já estava no Brasil, já  as usava na Europa neste festejo.

1840 – Realiza-se o primeiro baile de cunho carnavalesco no Brasil.

1845 -Realiza-se o primeiro Baile de Máscaras no Hotel Itália, Rio de Janeiro, onde os participantes dançaram valsa, xote, habanera e quadrilha.

1846 –Os primeiros “Zé Pereiras” chegam ao Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa do sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes. Com zabumbas, tambores e taróis, eles divertiam a população.

1850 – Ocorrem os primeiros desfiles de Corso no Brasil, só que de carruagens.

1855 – O Entrudo recebe o nome de Carnaval.

1867 – Fundação do “Zé Pereira dos Lacaios”, em Ouro Preto, Minas Gerais, que se mantém até hoje.

1870 – Surge o Maxixe, a primeira dança urbana brasileira, e, também, a primeira tentativa de composição de música carnavalesca - E viva o Zé Pereira.

1879 – Realiza-se o primeiro baile público carnavalesco, ao ar livre, no Teatro Santana, no Rio de Janeiro.

1885 – Surge o primeiro Cordão Carnavalesco. Os cordões carnavalescos são os pioneiros da cantiga no carnaval do Rio.

1888 – Aparecem as fantasias do “Zé Codea”, que, mais tarde, são transformadas em fantasias de capeta.

1892 – Aparecem as serpentinas e confetes vindos da França.

1899 – Surge a primeira marcha-rancho para o cordão Rosa de Ouro, de Chiquinha Gonzaga - a marcha “Oh, Abre Alas”.

1905 – Surge o Afoxé em Salvador, Bahia.

1906 – Surge o lança-perfume de esguicho.

1908 – Surgem os blocos Ranchos Ameno Rosedá.

1911 – Em São Paulo, pela primeira vez, decora-se a Avenida Paulista para o Carnaval.

1917 – Surge o primeiro samba gravado – “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida. O samba de morro tem sua origem na fusão do samba de roda baiana com músicas urbanas do Rio de Janeiro. Surge, também, nos anos 20, na casa da Tia Ciata, Praça Onze (RJ). Na 2ª e 3ª décadas do século 20 aparecem os primeiros sambas compostos por Donga, Sinhô, Caninha e Careca.

1925 – Foi realizada a primeira batalha de confete na Av. Atlântica (RJ).

1926 –Os primeiros turistas estrangeiros chegam no Rio de Janeiro motivados pelo festejo popular.

1928 – Aparece a primeira escola de samba - “A Deixa Falar”, no Bairro Estácio de Sá (RJ), criada por Ismael Silva e Nilton Bastos;

1930 – Surgem outras escolas como a “Mangueira” e “Vai Quem Pode”, hoje, Portela. Firma-se a expressão “batucada” como designativo de composição musical e de conjunto de bateria.

1932 – Aparecem os sambas-enredo nas Escolas de Samba. Destaca-se a prática do Corso, passeata carnavalesca de automóveis, a maioria enfeitada, conduzindo famílias e moças fantasiadas, em linha indiana, atirando confetes e serpentinas no público.

1950 – Cria-se, em Salvador, Bahia, o primeiro Trio Elétrico do Osmar e Dodô.

1984- Cria-se o Sambódromo e as Escolas de Samba começam a perder as características populares e folclóricas. Hoje, são manifestações de cultura de massa.

Os ritmos carnavalescos que se destacaram no Brasil foram: lundu, maxixe, quadrilha, polca, marcha-rancho, samba, marchinha, batucada, samba-enredo. Hoje, o ritmo baiano, com o apoio da mídia, também vem se impondo no espaço nacional. Com isto, perderam-se muitas criações populares regionais características.


Bloco do Zé Pereira
Aqui, entre nós, o carnaval de origem européia se abrasileirou. Foi o português José Nogueira Paredes quem primeiramente trouxe para o Rio de Janeiro os famosos bonecões que até hoje caracterizam os Blocos do Zé Pereira que, aos poucos, se alastram por várias cidades do País. Era Paredes quem, desde 1846, animava as folias de rua do Rio, pois percorria a cidade com um pequeno grupo de foliões com seus bumbos, tambores e os famosos bonecões. A marcha francesa, “Les Pompiers de Nanterre”, adaptada pelos foliões com paródias satíricas relativas às situações sócio-políticas da época, tornou-se a música carnavalesca de preferência do bloco carioca até o século 20.

Assim, no Rio de Janeiro, os foliões pulavam e cantavam a seguinte paródia:

E viva o Zé Pereira
Que a ninguém faz mal.
Viva a bebedeira
Nos dias de carnaval.


O musicólogo Mozart de Araújo comenta: “A melodia serve de clima de abertura e encerramento a todas as folganças carnavalescas de rua ou de salão”.


Desde a época de D. Pedro II, o clamor dos clarins e o tropel dos cavalos eram esperados pelo povo que se aglomerava nas ruas do Rio de Janeiro, próximo ao Paço Real, para assistir aos desfiles do conjunto de mascarados com suas enormes carrancas de papelão, dos diabinhos que pulavam e gritavam, dos bonecões, da Morte com sua foice e campainha, bem como dos carros alegóricos - dos quais os foliões lançavam flores, caixinhas de estalos e outros adereços - que compunham e abrilhantavam o animado cortejo carnavalesco. Esse cortejo era comandado pelo “Congresso das Sumidades Carnavalescas” formado pelas classes média e alta do Rio de Janeiro. Os lampiões de gás e os foguetes de bengala iluminavam o corredor da alegria.


Em meio a dados históricos sobre o grande evento popular, o “Entrudo”, têm-se notícias de que, em 1877, o carnaval já era uma manifestação mais expansiva e mais popular.


O Bloco do Zé Pereira – Clube dos Lacaios – de Ouro Preto
“Reportando-nos a Ouro Preto, antiga capital da Província de Minas Gerais, ressalta-se a presença de portugueses nobres e plebeus que ditavam os valores e as atitudes da sociedade. Não era de se reparar, portanto, que tudo que aparecesse de novidade na capital do Reino, Rio de Janeiro, fosse copiado na capital da Província de Minas Gerais. Os Lacaios, empregados do Palácio do Governo, logo organizaram o Zé Pereira de Ouro Preto, denominado Clube dos Lacaios, para concorrer com os Machadinhos, outro grupo carnavalesco da cidade. Com toda pompa, o Clube dos Lacaios abria as comemorações momescas da época. Os clarins ecoavam como ecoam até hoje pelas ruas de Ouro Preto. Até bem pouco tempo, esses músicos vinham montados a cavalo como no Rio de Janeiro.

É desde 1867, que, a duras penas, com luxo ou simplicidade, o Clube dos Lacaios sai às ruas animando a comunidade ouropretana, tendo parado apenas em épocas de guerras mundiais. Entre os tocadores e participantes do Clube, sempre estiveram pessoas ilustres, cidadãos que perpetuaram o gosto pelo Zé Pereira ao longo de gerações, como o Sr. Teófilo Fortes e irmãos, Sr. Salvador dos Santos, a família do Sr. Humberto Cabral, Sr. Geraldo Pinto da Rocha, a família Chaves, Sr. José Francisco Gomes Sobrinho, Sr. Joel Salles, a família do Sr. Baiano e tantos outros que se dedicaram à preservação do Clube até os nossos dias.

Em 1834, aparecem, no Brasil, as máscaras carnavalescas de influência francesa, feitas de papel machê. Os tradicionais bonecões - o Catitão e a Baiana - que eram, então, feitos de papel machê, hoje são confeccionados em fibra de vidro para aliviar o peso. Até bem pouco tempo, também figuravam no bloco os Cabeções em formato de animais e personagens cômicos.

O estandarte, nas cores preta e amarela com o símbolo e nome do clube, vem à frente das caixas. Destaca-se o falecido Tuniquinho, figura típica cuja coreografia que deixou boas lembranças nas gerações dos anos de 50 a 80.

Entremeando as fileiras das caixas, estão as lanternas confeccionadas com bambu, papel celofane colorido e velas ostentadas por um cabo de 1,5 m de altura, proporcionando bonita iluminação.

Finalmente, garbosos e imponentes, vêm os tocadores de taróis, caixas, surdos e bumbos, entoando marchas cadenciadas. E o curioso é o toque das marchas para as ladeiras mais íngremes, facilitando a coreografia dos cariás e bonecões, e também o descanso de ritmo para os acompanhantes do cortejo. O cortejo conta também com as brincadeiras dos cariás, homens vestidos de capeta que tiram fogo das pedras com suas lanças e correm atrás das crianças. São brincadeiras que apareceram no Brasil por volta de 1888, mais especificamente no Rio de Janeiro, com o nome de Zé Codeia, que Ouro Preto  mantém.

Com muita animação, O Zé Pereira do Clube dos Lacaios preserva e canta, ainda hoje, nas ruas de Ouro Preto, a sua famosa paródia:

E viva, viva o Zé Pereira
Que bate a bunda na poeira.
E viva, viva o cariá
Que bate a bunda no fubá.

Até os anos 50, além do Zé Pereira do Clube dos Lacaios, desfilavam pelas ruas de Ouro Preto os Cordões, alas de damas e cavalheiros com coloridas roupas de cetim e ornatos de flores de papel crepom, fazendo belas coreografias ao ritmo de marchinhas. Vê-los passar era a alegria de todos. Hoje, os Cordões são relembrados pelo grupo Banjo de Prata.

Os moradores mais antigos de Ouro Preto descrevem, ainda, as brincadeiras com os limões-de-cheiro, frutas feitas de esprimasete que continham águas de cheiro em seu interior - flor de laranjeira, jasmim, sândalo e outras frangâncias da época - para serem lançadas nas pessoas durante o carnaval. As frutas eram moldadas em formas de bronze mediante um processo semelhante ao que se fabrica os ovos de páscoa. Depois de secas, injetava-se nas frutas as águas de cheiro. 

A decoração das roupas e adereços femininos, bem como das ruas e dos salões era de papel crepom colorido e de folhagens.” (Salvador Gentil dos Santos, Presidente do Clube dos Lacaios de 2002 a 2004). 

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