Cultura

Manifestações Culturais Tradicionais

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Corpus Christi no Brasil e em Minas Gerais

O feriado de Corpus Christi é celebrado em todo o Brasil. E, nas Minas Gerais, este dia é repleto de significado e comemorações.


A Igreja Católica Apostólica Romana na América Portuguesa foi marcada, fundamentalmente, pelo espírito tridentino de reafirmação dos valores católicos e normalização dos cultos, do clero das ordens religiosas.


Dentre os livros das leis eclesiásticas, determinadas no sínodo que o Bispo Dom Sebastião Monteiro de Vide realizou na Bahia, em 1707, o segundo livro fazia referências às práticas litúrgicas e religiosas que deveriam ser executadas na Colônia.


A estreita ligação entre o Reino de Portugal e a Igreja de Roma para a defesa de interesses comuns (religiosos, políticos e econômicos) contribuiu significativamente para o enfraquecimento da autoridade papal e o fortalecimento da Monarquia Nacional Portuguesa, principalmente quando foi instituído o Padroado Régio, (direito cedido pela Igreja Católica aos Soberanos Portugueses). Este título assegurou-lhes o pleno exercício do domínio político e religioso sobre os domínios de ultramar.


Os reis portugueses receberam do papa o título de “Grãos-Mestres da Ordem de Cristo”. A Coroa Portuguesa, por sua vez, determinava que o Senado da Câmara e as Câmaras Municipais nas colônias realizassem as várias festas reais, como as dos santos padroeiros do Reino Português (Anjo Custódio, São Francisco de Borja, Santo Antônio de Pádua, Nossa Sra. da Conceição), Corpus Christi, o Orago do “município”,  da Visitação de Santa Isabel, do Patrocínio de Nossa Senhora, entre outros.


Além deste calendário, os Grãos-Mestres da Ordem de Cristo organizavam e ordenavam fazer na Metrópole e nas Colônias  festividades avulsas.Eram comemorados com pompa e música. Eram comuns espetáculos de touros e jogos de argolinhas. Nos nascimentos, casamentos, posses e outros eventos da Família Real, grandes óperas eram apresentadas.


Celebravam-se os funerais dos membros da família real, do governo da capitania e do alto clero, em cerimônias igualmente solenes.


Destas festividades avulsas, destacamos o Te Deum pelo insucesso da Inconfidência Mineira (1792), por ocasião da chegada do corpo de Tiradentes à Vila Rica. A Câmara continuou a promover a procissão de Corpus Christi e outras festas religiosas oficiais até ao fim da Monarquia, em 1889, quando ocorreu a Proclamação da Republica. Com este regime de governo, o Estado separou da Igreja, passando a ser as festas de cunho religioso motivadas e incentivadas pelas autoridades eclesiásticas. Em Minas Gerais, nas áreas de Mineração, as festas religiosas eram financiadas pelas Ordens Terceiras, Irmandades ou Confrarias.


Histórico da Procissão de Corpus Christi em Minas Gerais
No século 18, a celebração de Corpus Christi era a mais importante das festas oficiais. Conforme as Ordenações do Reino, a Procissão de Corpus Christi ficou sob a responsabilidade da Câmara.


Quando se aproximava o dia da Procissão de Corpus Christi, a Câmara expedia editais para a população preparar as suas casas e testadas, como se lê no termo de acórdão de 26 de junho de 1754:“Acordaram que se passasse Edital para o Porteiro publicar, pelas Ruas públicas por onde passa a Procissão de Corpus Christi, para que no dia primeiro de Junho que vem todas as testadas de suas Casas, Ruas estejam compostas varridas e armações em janelas e portas como no País se costuma, com pena de que assim não o fazendo pagarem quatro oitavas para as despesas do Conselho e dez dias de cadeia.”


Outro destes editais, datado de maio de 1795, faz saber:
“(...) aos moradores naquelas ruas por onde he costume passar a Procissão do Corpo de Deus, que no dia quatro do seguinte mês de junho se há de celebrar a dita Festividade na forma do estilo. (...) tenham as respectivas ruas limpas de paus, pedras, e outras imundícies, e que juntamente ornem as frentes de suas casas com tapeçarias na passagem da mesma Procissão, debaixo da pena de quatro oitavas de ouro de condenação pagas da Cadeia, imposta ao que assim não cumprir.” Fonte: Livro de Arrematações do Senado da Câmara de Vila Rica. 1771-1796. Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte.


Além dos preparativos da procissão propriamente dita, ainda haviam os ofícios realizados na Matriz. Era de responsabilidade da Câmara a ornamentação e as apresentações musicais. Para isto era feito um edital para selecionar compositores, orquestra e músicos  para abrilhantar o evento.


O diretor do conjunto musical apresentava uma lista de instrumentistas e cantores, dos quais era o arrematante, devendo fornecer um fiador e assinar um termo de arrematação em cartório. O fiador se obrigava, por sua pessoa e bens, a cumprir integralmente os termos da arrematação, fornecendo os instrumentos e vozes constantes do rol apresentado.“  Texto e transcrições: Kátia Maria Nunes Campos


Toda a Vila era convocada para esta as festividades. As irmandades e juízos de ofício eram convocados para participarem do evento portando suas bandeiras e insígnias.


Eram convidados alguns “homens bons” (brancos ricos mineradores e políticos) da elite de Vilas para carregar as varas do Pálio.Os carregadores do Pálio carregavam-no de ponto a ponto da cidade (determinado pela Câmara) quando eram trocados por outros.Este costume ainda é comum. Hoje, homens  de boa índole que tem representatividade nas paróquias são convocados e se apresentam de terno e gravata, para carregar as varas do Pálio. 


No século 18, a Câmara comparecia com todos os componentes, seguindo os costumes portugueses. O estandarte real, era honra conferida apenas a alguém da governança da Vila, que já tivesse sido oficial da Câmara.Um dos componentes mais notáveis da procissão de Corpus Christi, nas principais vilas, era a estátua cavaleira de São Jorge. Os membros da elite da Vila compareciam agrupados em um piquete de cavalaria, armados com seus mosquetões, que eram  disparados como fogos, na chegada da procissão à Igreja.


Uma das mais antigas procissões de Lisboa, é a do Corpus Christi. Portugal foi um dos primeiros países a aderir à solenidade e em Lisboa, já se fazia a procissão no reinado de D. João I (1385-1433), sendo já conhecida pela pompa e pela imponência que manteve ao longo dos séculos, conjugando-se o manto real das majestades com as fardas das altas patentes do exército e da armada, ao mesmo tempo em que o povo se juntava para ver a imagem de São Jorge”.


Sempre em Junho, a festa tinha o seu início no Castelo de São Jorge, onde a imagem do santo era colocada sobre um cavalo e percorria as ruas da cidade guardada pelo seu pajem e pelo seu escudeiro, o ”homem de ferro', que segurava o estandarte de São Jorge, o padroeiro da cidade e defensor da fé cristã. Geralmente, o escudeiro era um soldado da cavalaria, designado para vestir a pesada armadura e para zelar pelo ouro e  pedras preciosas que revestiam o chapéu e os trajes de São Jorge. Os criados do Paço ajudavam no transporte do santo, ao mesmo tempo em que trombetas e tambores eram tocados, acompanhando a procissão.(...) formando-se a procissão, no qual o rei e os infantes tomavam uma das varas (geralmente a primeira da direita), sendo as restantes destinadas ao Presidente do Senado da Câmara à antiga nobreza”. Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/



Uma das mais importantes imagens de São Jorge cavaleiro é o de Vila Rica, que foi encomendado pelo governo da Capitania,  ao Mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. “O selim, estribos de prata e capa cerimonial de São Jorge ou do “anjo” que o acompanhava encontram-se hoje no acervo do Museu da Inconfidência e alguns destes elementos datam de 1869, a julgar pelo registro em ata da sessão da Câmara de 18 de março, em que a Câmara decide mandar fazer novos paramentos e proceder ao conserto dos arreios da estátua de São Jorge. Entretanto, pouco tempo depois, em 22 de maio de 1871, decide em sessão suprimir a estátua da procissão, alegando a impossibilidade de preparativos decentes, para o que resolve escrever cartas aos pais das “virgens e anjos” que acompanhavam a estátua, comunicando o fato. Tal decisão provavelmente se deve ao fato de que a Assembléia Legislativa restringiu excessivamente as verbas que a Câmara poderia despender com as despesas da festa.”


Glossário
Naveta -  peça cinzelada em prata ou cobre, em forma de um barco, em que se guarda a pedra de incenso.

Ostensório – Custódia  onde se ostenta a hóstia  consagrada.

Turíbulo – peça cinzelada em prata que se coloca o carvão aceso com o incenso para incensar o Santíssimo Sacramento.


Bibliografia

1 Termo de acórdão de vereação de 26 de junho de 1754. In: Livro de Acórdãos da Câmara de Vila Rica. 1751-1754, vol. 062, fl, 172v. Arquivo Público Municipal de Ouro Preto.


2 LOPES, Antônio Francisco. Câmara e Cadeia de Vila Rica. In: Anuário do Museu da Inconfidência. 1952. Ministério da Educação e Saúde. Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional p. 202

3 LOPES, Antônio Francisco. Op. cit.p. 200

4 LOPES, Antônio Francisco. Op.cit. p. 200

5 A Câmara de Vila Rica, por ter sido agraciada por D. João V com o título de Senado, seus vereadores tinham imunidade equivalente à nobreza de armas e tinham o direito de empunhar o estandarte do Rei nas celebrações oficiais, sendo obrigatoriamente saudados e reverenciados como se personificassem o próprio Monarca.

6 OLIVEIRA. Tarquínio J. B. de. A música oficial em Vila Rica. Ouro Preto, 1978. Mimeografado. Arquivo Público Municipal de Ouro Preto.(Sem numeração de página).

7 ROMEIRO,Adriana. Dicionário Histórico das Minas Gerais.2.ed.revista -Belo Horizonte: Autêntica,2004

8-BOTELHO, Ângela Vianna. Dicionário Histórico Brasil e Colônia e Império.4 ed.Belo Horizonte: Autêntica,2003.

Enviar link