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09. Teatro

O teatro em Minas nos séculos 18 e 19
O teatro tem importante papel na formação cultural do povo brasileiro. Teatro e religião sempre caminharam lado a lado no início da história. Seu primeiro propósito em terras tupiniquins foi ajudar os padres jesuítas na catequização dos índios e ensiná-los a doutrina. Foram incorporados ao teatro jesuíta elementos indígenas da flora, da fauna, tradições locais, religiosas, etc.


Durante o século 18, a produção teatral brasileira foi muito escassa. As preocupações principais eram em defender a Colônia, que era atacada no Maranhão, pelos franceses, e em Pernambuco, pelos holandeses. Em São Paulo, os bandeirantes saíam à procura de riquezas, desbravando os sertões e as terras inexploradas do Centro-Oeste. Com a descoberta do ouro na região de Minas Gerais, grande parte da produção cultural da Colônia desloca-se rumo ao Sudeste.


Nos séculos 17 e 18, as apresentações teatrais foram incorporadas aos grandes festejos públicos, principalmente no período áureo do Seiscentismo. Como as festas de Corpus Christi eram fundamentais para a confirmação da fé cristã, a Igreja se empenhava para manter seus dogmas como forma de negação à Reforma. Nesse período que o homem barroco expressava sua vivência com a "teatralidade do mundo", a experiência humana era um mero espetáculo que passa. O estilo barroco traduz a tentativa angustiante de conciliar forças antagônicas: bem e mal, Deus e diabo, céu e terra, pureza e pecado, alegria e tristeza, paganismo e cristianismo, espírito e matéria.


As encenações aconteciam principalmente em datas comemorativas, como Semana Santa, Corpus Christi e aniversários e casamentos de reis e príncipes. O primeiro autor de peças de teatro brasileiro foi o baiano Manuel Botelho de Oliveira.


O primeiro registro de uma intervenção cênica em Vila Rica, atual Ouro Preto, data de 1726, e era uma comédia. Numa carta de Dom João V a Dom Lourenço de Almeida já citava apresentações em ocasiões públicas para os governadores e políticos. Nas primeiras apresentações em solo mineiro, os elementos litúrgicos se confundem com o profano, compondo espetáculos de intenso colorido rítmico, bastante característico do período barroco.


Durante os festejos do Triunfo Eucarístico do ano de 1733, peças do dramaturgo espanhol Calderón de la Barca são encenadas. Tablados são montados na igreja e, possivelmente, os atores vieram de outras capitanias, pois os grupos teatrais de Vila Rica ainda não haviam atingido um grau de profissionalismo, e o governador da província queria para esse evento todas as pompas existentes.


A Procissão de Transladação do Santíssimo foi uma das primeiras manifestações cênicas de Vila Rica e que ainda existem até hoje em várias cidades do interior de Minas. Essa procissão mesclava grupos de dança, conjuntos musicais, carros de triunfo, atores retratando personagens bíblicos, etc. O cenário eram as ruas, praças e igrejas das cidades, que recebiam adornos especiais para a passagem do Santíssimo. As Cavalhadas, que simulam a guerra entre mouros e cristãos, também está presente nesse período e tem bastante força.


Na posse do primeiro bispo da diocese de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz, em 1748, a cidade fervilhou com solenidades do Áureo Trono Episcopal na igreja e principalmente espetáculos de rua.


Havia duas instruções para regulamentar as representações teatrais na Colônia. "A primeira, de 1725, estabelecia o lugar das autoridades nos espetáculos e atos públicos. A seguinte foi o alvará de 1771 que ressaltava a conveniência do teatro como meio de educação política, moral e social dos povos. Depois deste alvará é que se incrementou na Colônia o teatro regular em edifícios apropriados, o que fez com que desaparecessem os tablados de madeira em praça pública". (Jussara Silva Ferreira, jornal Estado de Minas, edição de 12 de setembro de 1981).


A programação das comemorações era publicada em livros, editados em Lisboa. Os moradores das áreas mineradoras já começavam a tomar gosto pelas encenações. Com a popularização do teatro, algumas casas de ópera surgem nas vilas de Minas.


Em 1768, Cláudio Manuel da Costa produz "O Parnasmo Obsequioso", um "drama para se recitar em música". Em 1786, o governador da província Cunha Menezes - apelidado de "Fanfarrão Minésio" nas "Cartas Chilenas" - determinou que os camarotes dos teatros fossem "repartidos às famílias e senhoras mais principais da capital".


O Teatro Municipal de Ouro Preto, conhecido nos séculos 18 e 19 como Casa da Ópera, é considerado por muitos o mais antigo da América do Sul. Com certeza, é o mais antigo do País ainda em funcionamento, e possui o diferencial de ter sido o primeiro teatro onde mulheres, pela primeira vez, pisaram em um palco no Brasil.


Sabe-se que, na primeira metade do século 18, existia em Vila Rica um teatro conhecido com o nome de "ópera". Em 1768, em um empreendimento particular do contratador dos reais quintos, o coronel João de Souza Lisboa deu início à construção de um novo teatro. A inauguração aconteceu em 6 de junho de 1770, ocasião do aniversário do Rei D. José I. O famoso contratador, João Rodrigues de Macedo, dono da Casa dos Contos, foi quem ficou com a responsabilidade da sua administração no ano de 1790.


Nesse teatro, Dr. Tomás Antônio Gonzaga declamou seus versos, assim como Dr. Cláudio Manuel da Costa. "... Cláudio, este se achou desde cedo estreitamente ligado à história local do teatro, seja como autor ou tradutor, seja como um dos incentivadores da Casa da Ópera, ao tempo de Souza Lisboa." (Affonso Ávila).


Em Sabará também há produção teatral. A cidade ainda preserva o teatro que foi inaugurado em 1819 como parte das comemorações do nascimento da infanta D. Maria da Glória.


Em Diamantina, Chica da Silva pediu ao comendador João Fernandes que fosse construído um edifício em forma de castelo ao pé da serra de São Francisco, com uma capela e uma espaçosa sala em que eram feitas as encenações.


No século 19, a família real portuguesa aporta no Brasil, trazendo costumes diferentes e inovações que agitaram a vida da Colônia. As apresentações voltaram a acontecer de maneira mais intensa.


Ao longo do século 19, tem-se registros de construções de teatros e encenações de óperas e peças em diversas cidades mineiras. Podemos citar as festas em honra do casamento de dom Pedro I em Pitangui, que duraram três noites em 1817. Em 1859, em Juiz de Fora, os primeiros grupos de teatro amadores encenam o drama português "29 ou Honra e Glória". Em 1862, Uberaba organiza a Companhia Dramática uberabense, que tinha como finalidade construir um teatro na cidade. Inicia-se a construção do teatro de Ouro Fino em 1878, mesmo ano em que J.J. Silva registra, em seu Tratado, "um teatro de elegante e sólida construção" em Lavras. Nesse mesmo Tratado, há também referências a teatros em Pouso Alegre, Passos e São João del-Rei. Muzambinho inaugura seu teatro em 1886, assim como Paracatu em 1888. Em Curral del-Rey, que abrigaria a nova capital do Estado, tem uma temporada da Companhia de Zarzuelas Félix Amurrio, em 1895. Nessa data, inicia-se também a construção de um teatro improvisado.  No ano seguinte, em meio às obras da nova capital, inaugura-se o primeiro fonógrafo. Belo Horizonte inauguraria seu primeiro teatro, o Soucasseaux, localizado na Rua da Bahia entre Goiás e Afonso Pena.


No final do século 19 e início do século 20, o teatro perde grande parte de seu público. Essa falta de prestígio deveu-se a alguns fatores. Um deles foi a invenção do fonógrafo. Apesar de não interferir no processo dramático-visual, a nova diversão afastou parte das platéias. Em Ouro Preto, o francês Eduardo Perris instalou um aparelho e cobrava ingressos para a audição de cinco minutos.


Outra invenção que provocou a debandada do público foi o cinema. A linguagem e a técnica narrativa e visual remetiam ao teatro. De fácil aceitação por parte do público, esse encarou o novo divertimento como um "teatro mecanizado".


Alguns teatros foram adaptados para receber os cinematógrafos. Em cidades do interior, as casas de ópera foram demolidas ou tomaram outros fins. Em Diamantina, a lanterna mágica, espécie de precursora do cinema, ocupava o prédio do Teatro Santa Isabel que havia sido construído em 1841.


Mais que a novidade das novas tecnologias de divertimento, a crise econômica também foi responsável pelo declínio da produção teatral. Reconhecidamente o cinema é uma diversão mais barata que as peças.


O Teatro em Minas nos séculos  20 e 21
"O teatro de Belo Horizonte tem o dom de driblar as crises e sobreviver" (Jorge Fernando dos Santos)


A primeira atividade teatral marcante na primeira metade do século 20 foi organizada por Manoel Teixeira (1900-1990), ferroviário e dentista, natural de Conselheiro Lafaiete, que fundou no bairro do Horto o Grêmio Dramático Central do Brasil. No princípio, o Grêmio dividia espaço com o clube de futebol da Central; a convivência durou pouco, como dizia Manoel, "mas uns trabalhando com a inteligência e a sensibilidade, e outros dando pontapés, a coisa não podia mesmo dar certo."


Nos seus 12 anos de atividades, teve como sócio-honorário e principal incentivador.o ator Procópio Ferreira. Em 1947, Manoel Teixeira fundou com seus companheiros o Ideal Clube Teatro Escola de Santa Tereza onde tiveram a oportunidade de realizar festas e cursos de teatro e encenar peças amadoras. Henriette Morineau, Dulcina de Moraes e Procópio Ferreira, os grandes nomes do teatro brasileiro da época, estiveram presentes em apresentações do grupo.


Em depoimento, Manoel certa vez disse, "sem pleonasmo e sem redundância, eu posso dizer que sou homem mais velho e mais antigo do teatro mineiro".


Outra experiência marcante foi o Teatro do Estudante fundado em 1947 pelo aluno de Direito Luiz Gonzaga Ribeiro de Oliveira (1907-1991), que enfrentava problemas para organizar um elenco permanente. "O estudante só atuava bem durante os primeiros períodos do curso. Depois vinha o entusiasmo da formatura e era um eterno renovar de elencos."


No ano de 1948, João Cocco, Palmira Barbosa, Armando Panetti e Otávio Cardoso fundaram a Escola Mineira de Artes Dramáticas, a 3ª escola teatral do Brasil. Dois anos depois, Luis Gonzaga assumiu a direção da Escola.


Outra iniciativa foi a F. Andrade natural de Ouro Preto, que, aos 22 anos, já morando na capital, formou o Grupo Troupe que depois passou a se chamar Conjunto F. Andrade. O nome mudou novamente após a parceria com J. Souza - F. Andrade e J. Souza, depois da morte do último voltou a se chamar F. Andrade. Nas montagens das peças, F. Andrade priorizava autores nacionais principalmente mineiros; ele próprio chegou a escrever varias peças. Apresentavam-se na colônia portuguesa, colônia italiana, cines Brasil, Glória e Democrata.


Existiu em Belo Horizonte um outro Teatro do Estudante, criado pelo belorizontino, filho de italianos, João Cheschiatti. Quando adolescente, requisitou o Teatro Municipal para promover um espetáculo que teria a renda revertida para a igreja de São Sebastião no Barro Preto.


Mais tarde João dirigiu um grupo teatral fundado pelo Sesiminas, com o objetivo de fazer espetáculos com operários para operários e seus familiares. João Cheschiatti também atuou na companhia de Madame Morineau, ao lado de Fernando Torres e Fernanda Montenegro.


Falecido em 1987, Cheschiatti é o único ator mineiro que tem um teatro em Belo Horizonte com o seu nome. Na década de 80, seu nome foi dado a um troféu da Associação Mineira de Críticos de Teatro, que premiava os melhores profissionais do ano.


Uma das experiências mais bem-sucedidas foi o Teatro Universitário, fundado em 1952 por Jota Dângelo, João Marschner e Carlos Kroeber. Seu currículo aprovado pelo Conselho Federal de Educação em 1982 só foi reconhecido como escola pelo Ministério da Educação em 1989. A escola saiu de cena em 1994.


Na década de 80, surgiram o Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado para formação técnica nas áreas de música, dança e teatro; a Oficina de Teatro fundada e dirigida por Pedro Paulo Cava e o Núcleo de Estudos Teatrais (Net).


Em 1972, surgiu no Rio de Janeiro a Campanha das Kombis com a idéia de democratizar o acesso ao teatro e aumentar o número de espectadores no mês de dezembro. Um ano depois, a Campanha se iniciou em outros Estados, incluindo Minas Gerais.


Depois de alguns anos, a parceria do governo com os produtores foi reduzida devido aos recursos orçamentários, até o governo Collor determinar o fim da parceria.


Os únicos Estados que não interrroperam a Campanha foram São Paulo e Minas Gerais. A partir de 1983, a Campanha no Estado passou a ser realizada sob a responsabilidade da AMPARC, hoje SINPARC/MG, e passou por algumas modificações, como a alteração do nome para Campanha de Popularização do Teatro. Outras alterações foram postos fixos de vendas e não mais as kombis, e a data da campanha passou a ser janeiro e fevereiro.


"Se até os meados dos anos 80 os teatros eram fechados ou demolidos, a partir de 1990 as coisas se invertem a favor daqueles que amam a artes" (Jorge Fernando dos Santos).


Em 1999, a campanha mineira incluiu espetáculos de dança; Minas é único Estado do País onde isso acontece.


Em razão do grande sucesso da Campanha, mais de um milhão de pessoas assistiram às peças nos últimos dez anos, que hoje também acontece em Juiz de Fora e Ipatinga.

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© Maria Lucia Dornas Nova Lima - Teatro Municipal Manoel Franzen de Lima - Maria Lucia Dornas Teatro Municipal Manoel Franzen de Lima
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