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03. Dança

Dança em Minas Gerais


"Existe a tolice de se pensar que a verdadeira dança só pode ser feita no primeiro mundo. Acho que Minas Gerais prova exatamente o contrário."
Maria Clara Salles


"O mineiro tem vocação para dança. Quem vive entre essas montanhas tem apego à tradição e encarna as virtudes mineiras, possui o sentido da harmonia..."
Carlos Leite


A dança é uma das três principais artes cênicas da Antiguidade. De todas as artes, possivelmente, foi a única que não se rendeu em momento algum ao desespero provocado nos meios culturais.


As raízes da dança artística e acadêmica no Brasil ligam-se às tradições russo-européias, que estruturaram a técnica da dança clássica, o que possibilitou sua difusão por vários países. A vinda da família real portuguesa fez com que a dança se tornasse mais presente no País. O século 20 inaugura a permanência definitiva de vários bailarinos e professores - principalmente de nacionalidade russa - para muitas cidades brasileiras, que foram aos poucos formando nossas primeiras gerações de artistas bailarinos.


Em Minas a história da dança clássica começa a ser escrita em março de 1948, quando chega à cidade de Belo Horizonte o jovem bailarino gaúcho Carlos Leite.


Nascido em Porto Alegre, em 1914, filho de industrial e diplomata, descobriu cedo sua vocação pela arte. Atuou como bailarino e coreógrafo em óperas, balés, teatros, cinema e televisão. Foi ele que ensinou a Carmem Miranda os trejeitos que a caracterizariam em todo o mundo. Estudou na Escola de Arte Dramática Martins Pena, foi classificado em teste para o 1° Elenco Nacional de Danças e ficou em primeiro lugar. Mas foi como professor que imprimiu seu nome na história da dança. Deu aula no Palácio das Artes, no Teatro Universitário, no Centro Mineiro de Danças Clássicas e no Studio Tereza Cristina. Nove entre dez bailarinos mineiros estudaram com Carlos Leite. Entre outros, destacam-se: Klauss Vianna, Dulce Beltão, Lina Lapertosa, Décio Otero, Rosana Ziller, Maria Clara Salles e Adelina Maris.


Em Belo Horizonte fundou a Academia de Danças Clássicas, criou o Ballet Minas e foi convidado pelo governador Juscelino Kubitschek para trabalhar no local das obras do futuro Palácio das Artes, onde o pintor Alberto Guignard já lecionava ao ar livre. As condições de trabalho não eram nada boas, mas o professor de dança também se sacrificou por amor à arte.


É importante destacar que, embora Carlos Leite tenha fundado a primeira escola de formação clássica da capital, desde agosto de 1934, a Professora Natália Lessa, mineira de São João da Chapada, dedicou-se ao ensino dessa arte em Belo Horizonte, iniciando muitas de nossas futuras profissionais da dança.


Desde então Minas Gerais sempre foi notícia no cenário da dança. Maria Clara Salles, diretora e fundadora do Centro Mineiro de Danças Clássicas, tem uma explicação para o fato. Ex-aluna de Carlos Leite, ela afirma que "a vocação do mineiro para dançar é algo inacreditável. É o Estado brasileiro que tem a maior produção de dança. Produção altamente especializada em todos os gêneros - o clássico, o moderno e o folclórico -, que encontram aqui um campo onde se plantou uma tradição".


Se a dança Clássica feita em Minas tem suas origens nos pampas, por meio do mestre gaúcho Carlos Leite, pode-se dizer que a dança moderna desenvolvida no Estado recebeu tempero baiano por Carmem Paternostro. Nascida na parte baiana do Vale do Jequitinhonha, Carmem se formou em dança pela Universidade Federal da Bahia e esteve em BH, pela primeira vez, em 1972, durante o IV Festival de Inverno da UFMG.


Com seus quatro primeiros trabalhos realizados em Belo Horizonte, pode-se dizer que Carmem Paternostro fincou quatro pilares na dança mineira: em "Pagu", ela revistou o modernismo por intermédio da personagem Patrícia Galvão; em "Lulu", deu um mergulho no neo-expressionismo, influência que se faria notar em várias produções; em "Gabriela", fez uma releitura fantasiada do Universo das Gerais e, em Triunfo, ela redescobriu Minas mediante sua maior expressão artística, que foi o Barroco no auge econômico da província.


Para a dança mineira, 1990 poderá ser lembrado como o ano em que o Grupo Corpo conquistou a América ou a temporada em que o 1° Ato unificou Minas Gerais com uma turnê ou ainda a época em que perdemos a bailarina Regina Advento para a Trupe da alemã Pina Bausch. Foi também a fase que a companhia do Palácio das Artes assumiu, de uma vez por todas, a relação com a modernidade.


Em 1980, a companhia de dança do Palácio das Artes, então conhecida como Corpo de Baile da Fundação Clóvis Salgado, viveu um dos seus momentos de glória, quando foi escolhida para acompanhar o bailarino russo Mikhail Baryshnikov em sua turnê brasileira.


Pouco a pouco, o Estado se firmou na modernidade da dança. Em 1969, Marilene Martins, cidadã honorária de BH, fundou a Escola Trans'Forma. A partir daí, trouxe à cidade as primeiras informações sobre multimídia. Sua escola foi o núcleo de formação do Grupo Corpo e influenciou o surgimento do Grupo 1° Ato. A dança em Minas passou a evoluir de maneira personalizada e, ao mesmo tempo, heterogênea, sem reproduzir fórmulas e sem nada dever ao que de melhor tem sido feito fora de Minas.


Referências

MENCARELLI, Fernando Antonio et al. Corpos Artísticos do Palácio das Artes: Trajetórias e movimentos. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2006.


SANTOS, Jorge Fernando. BH em cena: teatro, televisão, ópera e dança na Belo Horizonte centenária. Belo Horizonte, Editora, 1995.


CAMINADA, Eliana. História da dança. São Paulo: Editora, 1999.


D'ARAUJO, Antônio Luiz. Arte no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Editora, 2000.


Bibliografia da dança no Brasil.


Fundação Clóvis Salgado.

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