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Lendas da Quaresma

A Procissão das Almas - Congonhas
Conta-se que certa vez, durante a quaresma, um fato muito estranho aconteceu na cidade de Congonhas.


Uma senhora na janela, de madrugada, observava a cidade em silencio. A sua rua, a ladeira do Bom Jesus, estava completamente deserta até certa hora quando ela avistou pessoas que subiam em procissão.


Eram pessoas desconhecidas que ela nem sequer vira algum dia, nem no centro, nem na rua, e muito menos na Igreja. Mas uma dessas pessoas lhe entregou uma vela e pediu para guardar até o outro dia. Ela aceitou e guardou numa gaveta de seu quarto. Quando voltou à janela, a procissão já ia mais adiante. Foi quando ela notou que as pessoas não caminhavam, pois não possuíam pés: elas flutuavam!


E o seu espanto só não foi maior do que quando resolveu olhar a vela guardada: havia se transformado em um pedaço de fêmur humano.


A mula sem cabeça - São João del-Rei
Venâncio voltava tarde do arraial do Rio das Mortes e estava quase a entrar na cidade quando ouviu, não longe, relinchos de alimária. Por uma natural associação de idéias, pensou, incrédulo, nas mulas sem cabeça que dizia-se - às sextas-feiras da quaresma, depois da meia-noite, erravam pelas encruzilhadas, deitando fogo e atacando os que encontravam em seu trajeto.


Aflito para chegar a casa (já havia batido meia-noite e era justamente uma sexta-feira da quaresma) Venâncio caminhava então apressadamente quando, nas proximidades do cruzeiro do Betume, avistou uma tremenda mula sem cabeça, toda em chamas, que corria velozmente em sua direção. Sem possibilidade de fuga, porquanto o animal em poucos segundos já estava a alguns metros de distância, Venâncio não teve outro recurso senão enfrentá-lo e, quando este o atacou, desferiu-lhe com a foice que trazia, e com a qual fora fazer uma roçada num sítio, um golpe tão certeiro e tão firme, que lhe fez voar longe a pata dianteira. O monstro soltou um relincho terrível e desapareceu para as bandas do Rio das Mortes.


Pela manhã, soube Venâncio que, muito cedo, perto do local da sinistra ocorrência, encontraram sobre a relva a mão de uma mulher. Como havia rastro de sangue, foram-no seguindo e, a uns duzentos metros, mais ou menos, deram com uma pobre lavadeira do bairro, caída de bruços numa vala, morta, uma perna partida e a mão direita decepada...


O defunto que diabo levou - São João del-Rei
O coronel Carlota (coronel da antiga Guarda Nacional) era um riquíssimo traficante de escravos, já idoso, calvo e gordo, que residia com a família num sobradão quase centenário, à época, nas proximidades da igreja do Carmo.


A enorme riqueza material desse homem contrastava, porém, com sua imensa miséria moral. Era um indivíduo perverso, de tal maneira perverso, que martirizava os infelizes escravos que lhe pertenciam,não porque cometessem algum delito, mas unicamente para vê-los delirar de sofrimento. Muitos deles fugiam ou se suicidavam, quando lhe caíam nas garras. Aliás, não eram só os desgraçados pretos as vítimas desse tarado satânico - a família também sofria terrivelmente sob seu jugo implacável. Era corrente que a filha mais velha fora por ele próprio envenenada, por apenas recusar um fazendeiro bronco, de idade avançada, enfermiço e autor de muitas mortes, o qual, só pelo seu ouro, o coronel queria para genro.


Prosperavam os negócios do desumano traficante de escravos e preparava-se ele para uma viagem ao sertão, quando o destino lhe mudou o itinerário, mandando-o viajar para o cemitério.


A notícia de sua morte não causou nenhuma tristeza, como era de esperar, dada a antipatia que a cidade em peso lhe votava. Quase ninguém subia as escadas do velho sobrado, para ver a máscara do morto ou levar pêsames à família. A repulsa era evidente.


Ora, nesse dia, um estranho acontecimento se passou, de que só mais tarde se veio a saber.


Foi o caso que, tendo ficado um instante, o cadáver sozinho na sala, quando a esta voltou a primeira pessoa da casa, uma grande surpresa a esperava: o defunto havia desaparecido!


Houve o justificado alarme. A família, aturdida, assombrada, não achava explicação para o fato a não ser a intervenção do sobrenatural. "Era um velho tão mau, que falava tanto de Deus..." - comentavam.


Baldadas todas as buscas, e a fim de evitar escândalo, colocaram no caixão, para fazer peso, um grosso tronco de bananeira e depois o fecharam. Quando alguém, que chegava, pedia licença para ver o morto, diziam:


- Queria desculpar, mas não é possível.


Está-se decompondo horrivelmente... Tivemos ordem de não abrir mais o caixão.


Á tarde, os funerais foram feitos, com meia dúzia de pessoas, apenas, a acompanhar o corpo.


E dizem que, naquela noite, longe, muito longe da cidade, por uma deserta encruzilhada, passou, a horas mortas, numa carreira louca, um cavaleiro de esporas fosforescentes, alto, magro, anguloso, chispando fogo e levando à garupa de um cavalo fantástico o cadáver do velho coronel, envolto em lúgubre mortalha, que esvoaçava sinistramente ao vento... 


O Sacrilégio
Meia-noite já havia soado, quando um desconhecido bateu à porta da casa de Padre Antônio, lá para as bandas do Tijuco. Vinha buscá-lo. Para que? Só a ele poderia dizer. Via-se estampada no semblante do misterioso indivíduo uma aflição imensa. Despertaram o prestimoso sacerdote, que não tardou a ir ao encontro de quem o procurava.


- Desculpe incomodá-lo, senhor reverendo, mas é tão necessária a sua intervenção!... Trata-se de salvar uma alma. Não podia deixar para amanhã.


- Ora, meu filho, nada tenho que desculpar. Eu me sinto verdadeiramente feliz quando posso socorrer os que precisam de mim. Confissão? Extrema-unção? Onde?


- Igreja de São Francisco de Assis.


Padre Antônio ficou perplexo, sem atinar...


Fazer o que, num templo, àquela hora?


O outro, compreendendo a estranheza, esclareceu:


- Imagine que um pobre pecador comungou sem que se houvesse confessado, momentos antes de morrer. Venho aqui pedir-lhe a grande esmola de retirar a hóstia da boca do cadáver.


- Mas já deve ter-se delido...


- Não. Afianço-lhe que não.


Padre Antônio pensou na intervenção divina.



- Está bem! Vestiu-se, tomou o breviário, colocou o chapéu na cabeça e pôs-se a caminho, acompanhado do desconhecido.


O bom religioso não sabia explicar a causa, mas sentia qualquer coisa de anormal, uma certa inquietação de espírito, que lhe provocava arrepios, de quando em quando...


Um quarto de hora depois, defrontavam a igreja: estava aberta e toda iluminada, como em dia de festa. Entraram. Nenhum vivente. Bem ao centro da nave, sobre a essa, um caixão pobre, coberto de chita preta, ordinária, sem dourados. Caminharam para ele. Padre Antônio levantou-lhe a tampa, descobriu o rosto do defunto, abriu-lhe, a custo, a boca fria e rígida, e extraiu-lhe a hóstia. O desconhecido tinha razão: não se dissolvera, estava perfeita. Depois de guardá-la no altar-mor e rezar por alma do morto, diante do caixão, cada vez mais impressionado, o piedoso sacerdote voltou para casa.


Só na rua, refletiu que não vira o sacristão nem à entrada nem à saída da igreja. Parou, intrigado, e volveu o olhar em direção ao templo: estava fechado e as luzes apagadas.Achou tudo aquilo fantástico, desconcertante... E pôs-se a caminho, de novo, quando ouviu alguém chamá-lo. Era o desconhecido. Esquecera-se de agradecer-lhe.


Até ali, Padre Antônio não havia reparado nas suas feições, mas agora, depois que ele lhe estendera as mãos frias, horrivelmente frias, num aperto angustioso, notou que aquela fisionomia não lhe era estranha. Ele já vira alguém com aqueles mesmos cabelos empastados, aqueles olhos amortecidos, aquela boca repuxada e sem cor... Onde? Quando? Aquele rosto... Ah! - lembrou-se - e quase desmaiou, num pavor, num arrepio de morte: o homem que o fora chamar, o que estava ali à sua frente, não era outro senão o que fazia, momentos antes dentro do caixão - o defunto!...


E Padre Antonio, antes mesmo de voltar a si de seu grande assombro, viu o extranho indíviduo empalidecer ainda mais, tornar-se de súbito vaporoso e desfazer-se, em poucos instantes, como a fumaça ao vento, na solidão da noite...

 


 

 

 

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