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Relatório de Thomas Jefferson a John Jay, secretário de Estado dos Estados Unidos

Marselha, França, 4-05-1787.

Relatório de Th. Jefferson a John Jay, Secretário de Estado dos Estados Unidos em Filadélfia, sobre sua viagem ao sul da França. (Excertos do original em inglês).


Senhor:

 

4 de maio de 1787.


Na minha viagem a esta parte do país pude colher uma informação que tomarei a liberdade de comunicar ao Congresso. Em outubro próximo passado recebi uma carta datada de Montpellier a 2 de outubro de 1786, anunciando-me que o autor era um estrangeiro, que tinha assunto de muito grande importância para comunicar-me, e desejava que eu lhe indicasse o meio de levar avante o seu intento com segurança. Assim fiz. Pouco depois receba uma carta que passo a transcrever, omitindo apenas as partes formais:

(Transcreve segunda carta de Vendek)


Como àquele tempo me tinham aconselhado experimentar as águas de Aix, escrevi àquele cavalheiro comunicando-lhe a minha intenção e acrescentando que eu me desviaria do meu caminho até Nimes, sob pretexto de ver as antiguidades daquela cidade, se ele quisesse vir encontrar-me ali. Ele veio, e o seguinte é o resumo das informações que me deu.


O Brasil tem tantos habitantes quanto Portugal, que são: 1) portugueses; 2) brancos nativos; 3) escravos pretos e mulatos; 4) índios civilizados e selvagens.


1) Os portugueses são poucos, casados ali pela maior parte; perderam de vista o país em que nasceram, assim como a esperança de tornar a vê-lo, e estão dispostos a tornar-se independentes. 2) Os brancos nativos formam o corpo da nação. 3) Os escravos são tão numerosos como a gente livre. 4) Os índios civilizados não têm energia, e os selvagens não se hão de intrometer. Há 20.000 homens de tropas regulares. A princípio eram portugueses; mas, à medida que foram morrendo, foram substituídos por naturais, de forma que estes compõem presentemente a massa das tropas, e o país pode contar com eles. Os oficiais são em parte portugueses, em parte brasileiros.


Não se pode duvida da sua bravura, e conhecem a formação em parada, mas não a ciência da sua profissão. Não têm inclinação por Portugal, nem ânimo para coisa alguma. O clero é metade português metade brasileiro e não se há de interessar muito. A nobreza é apenas conhecida como tal. Não se distingue do povo em cousa alguma.


Os homens de letras são os que mais desejam uma revolução. O povo não se acha muito sob a influência dos seus padres; a maior parte  sabe ler e escrever, possui armas e está acostumada a servir-se delas para caçar; os escravos tomarão o partido de seus senhores, pois efetivamente, em matéria de revolução, a opinião do país é unânime; mas não há quem seja capaz de conduzir uma revolução, ou quem queria arriscar-se à frente dela, sem o auxílio de alguma nação poderosa, visto que a gente do país pode falhar-lhe. Não há tipografias no Brasil.


Consideram a revolução norte-americana como precursora da deles. Olham os Estados Unidos como o mais capaz de dar-lhes honesto apoio e, por uma variedade de considerações, nutrem a nosso favor as mais fortes suposições. O meu informante é natural do Rio de Janeiro, a presente metrópole, onde ele mora, e que conta 50.000 habitantes. Ele conhece bem São Salvador, a antiga capital, assim como as minas de ouro que se acham no centro do país. Todas estas partes são favoráveis à revolução, e como formam o corpo da nação, as demais partes hão de acompanhá-las.


O quinto real das minas produz 13 milhões de cruzados de meio dólar por ano. O rei tem privilégio exclusivo de lavrar as minas de diamantes e outras pedras preciosas, o que lhe dá cerca de metade daquele rendimento. Apenas o produto destas duas verbas rende-lhe por ano cerca de dez milhões de dólares; mas o resto da produção das minas, que orça por 26 milhões, deve considerar-se para efetuar a revolução.


Além das armas que existem nas mãos do povo, há os arsenais. Os cavalos abundam, mas somente uma parte do terreno permite o emprego de cavalaria. Precisariam de artilharia, munições, navios, marinheiros e oficiais que estimariam receber dos Estados Unidos, ficando entendido que qualquer serviço ou fornecimento seria bem pago.


O trigo custa cerca de 20 libras por quintal (100 litros). Têm carne fresca na maior abundância, a ponto que há lugares em que se matam os bois somente para aproveitar o couro. A pesca da baleia é toda feita por brasileiros, não por portugueses, mas em embarcações muito pequenas, de maneira que os pescadores não sabem manobrar navios grandes.A todo o tempo hão de precisar que lhes forneçamos embarcações, trigo e peixe salgado. Este peixe é um grande artigo, que recebam atualmente de Portugal.


Como Portugal está desprovido de exército e marinha, não poderia tentar uma expedição antes de um ano. Á vista dos meios exigidos por essas forças é provável que nunca Portugal tentasse segunda expedição. Na verdade, interceptada a fonte de sua riqueza, mal poderia tentar o primeiro esforço. A parte sensata da nação está tão persuadida disto que considera a separação inevitável no tempo. Reina entre brasileiros e portugueses ódio implacável. Para acalmá-lo um antigo ministro adotou o meio de nomear brasileiros para alguns empregos públicos; mas os gabinetes que se seguiram voltaram ao antigo costume de conservar a administração nas mãos dos portugueses.


Existem ainda nos empregos públicos alguns nacionais anteriormente nomeados.Se a Espanha os invadisse pelas fronteiras do sul, estão estas tão distantes dos centros principais que não poderia atingi-los, além de um empreendimento espanhol nada ter de formidável.


As minas de ouro acham-se no meio de montanhas inacessíveis a qualquer exército, e o Rio de Janeiro é tido como o porto mais forte do mundo, depois de Gibraltar.


Se a revolução fosse bem sucedida, estabelecer-se ia provavelmente um governo republicano unitário. Durante toda a nossa entrevista tive o cuidado de fazer ver ao meu interlocutor que eu não tinha instruções, nem autoridade, para dizer uma palavra a quem quer que fosse sobre este assunto, e que somente podia comunicar-lhe minhas idéias como simples particular. Disse-lhe que na minha opinião não estávamos presentemente em estado nacional de nos intrometer em uma guerra; que desejávamos particularmente cultivar a amizade de Portugal, com quem entretínhamos um comércio vantajoso. Todavia uma revolução bem sucedida no Brasil não podia deixar de interessar-nos; que as perspectivas do lucro poderiam atrair certo número de indivíduos em seu auxílio, assim como, guiados por motivos mais puros, oficiais nossos, entre os quais não faltavam militares excelentes; que os nossos concidadãos, tendo a faculdade de deixar individualmente o seu próprio país sem consentimento do governo, tem também a liberdade de ir para qualquer outra terra.


Pouco antes de receber a primeira carta do brasileiro, um cavalheiro informou-me que havia em Paris um mexicano que desejava conversar comigo. Em seguida este procurou-me. A informação que colhi dele foi em substância como vou dizer. É natural do México, onde moram os seus pais. Deixou o seu país na idade de 17 anos e mostra ter agora 33 ou 34. Classifica e caracteriza os habitantes do México como se segue: 1º os naturais da velha Espanha, detentores da maior parte dos empregos do governo, e que lhe são firmemente dedicados; 2º o clero igualmente dedicado ao governo; 3º os naturais do México, geralmente dispostos a revoltarem-se, mas sem instrução, sem ânimo e sob domínio dos seus padres; 4º os escravos, mulatos e negros, sendo os primeiros empreendedores e inteligentes, os segundos bravos e de máxima importância, qualquer que seja o lado a que se atirem, mas que ficarão provavelmente com seus senhores; 5º os índios conquistados, que é provável não tomem parte por ninguém covardemente; 6º os índios livres, bravos e formidáveis se interviessem, o que não é provável por se acharem em dissenção.


Perguntei-lhe o número destas diferentes classes, mas não soube responder. Pensa que a primeira é pouco considerável; que a segunda forma a massa da gente livre; que a terceira é igual às primeiras; a quarta a todas três precedentes; e quanto à quinta, não pode fazer idéia do seu número. Pareceu-me que as suas conjecturas não assentavam em base sólida. Disse-me saber de fonte segura que na Cidade do México havia 300.000 habitantes.


Mostrei-me ainda mais cauteloso com ele do que com o brasileiro.Disse-lhe que na minha opinião particular (sem estar autorizado a proferir palavra sobre o assunto) uma revolução bem sucedida no México ainda estava muito distante; que eu receava que primeiro que tudo fosse preciso esclarecer e emancipar intelectualmente o povo; que, quanto a nós, se a Espanha nos desse condições favoráveis ao nosso comércio e aplainasse outras dificuldades, não era provável que abandonássemos vantagens certas e presentes, ainda que pequenas, por outras incertas e futuras por grandes que fossem.


Fui levado a ser cauteloso por saber que este cavalheiro era íntimo da casa do embaixador espanhol e que era então, em Paris, comissário da Espanha para ajustar os limites com a França nos Pirineus. Tinha ares de candura; mas esta podia ser fingida e não pude julgar por mim mesmo o que ele era. Levado pela associação de idéias e pelo desejo de dar ao Congresso uma apreciação geral dos nossos convizinhos do sul, tanto quanto posso, acrescentarei um assunto que, por velho e isolado, não julguei assaz importante para fazer dele menção quando o recebi.


Está lembrado, Senhor, de que, durante a última guerra, os periódicos ingleses davam frequentemente por menores da rebelião do Peru. A idoneidade dos referidos periódicos desacreditava a informação. Mas a verdade é que as insurreições eram tão generalizadas, que o acontecimento ficou muito tempo em destaque. Se o Comodoro Johnson, esperado então naquela costa, tivesse ali tocado e desembarcado 2.000 homens, estava acabado o domínio da Espanha naquele país. Os peruanos precisavam somente de um ponto de união, para formar corpo. Faltando-lhe este, obraram sem harmonia e foram subjugados separadamente, no decorrer do tempo.


Esta conflagração foi liquidada em sangue. Morreram de ambos os lados 200.000 pessoas; mas o material que resta ainda é muito capaz de combustão. Obtive esta informação de pessoa que estava no cenário àquele tempo, e cuja boa fé, inteligência e meios informativos não deixam dúvida sobre os fatos.Observou, todavia, que o número de mortos acima referido se baseia apenas em conjecturas que ele pode colher.


Importuno o Congresso com estes pormenores porque, por mais afastados que estejamos (tanto em condição, como em disposições) de tomar pare ativa nas comoções daquele país, a natureza colocou-o tão perto de nós que os seus movimentos não podem ser indiferentes aos nossos interesses ou à nossa curiosidade.


Consta-me que há outro arresto desta Corte aumentando os direitos sobre o bacalhau estrangeiro e estipendiando o próprio, importado das ilhas francesas; mas, não tendo visto ainda, nada posso dizer de positivo a este respeito. Espero que o efeito desta política fique anulado na prática, pois me consta que, nos bancos da Terra Nova, passamos o nosso peixe para os pesqueiros franceses, gozando eles do incentivo, ao invés de nós pagarmos direitos. (...)


Tenciono seguir amanhã para Bordéus (pelo canal do Languedoc), Nantes, Lorient e Paris.Tenho a honra de ser, com os sentimentos da mais perfeita estima e consideração, senhor, seu mais obediente e humilde servo.


TH. Jerfferson


Fonte: Autos de Devassa da Inconfidência Mineira. Vol.8. Câmara dos Deputados.Brasília.1977.

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