Minas Gerais

O Estado

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Maria José Gomes da Silva - Artesã do Vale do Jequitinhonha

© Roberta Almeida Turmalina - Zezinha recebeu o Descubraminas no seu 'Paraíso das Artes' - Roberta Almeida Zezinha recebeu o Descubraminas no seu 'Paraíso das Artes'

Ser Mineiro é...

Dar vida a objetos de barro.

Em meio a galinhas d'angola, flores, macacos e bonecas de barro, o artesanato de "Zezinha", 44 anos, destaca-se pela proximidade com a realidade. Algumas peças parecem querer ganhar vida, provocando a curiosidade dos visitantes do Paraíso das Artes.



Por Roberta Almeida

Sol a pino e muita história para contar. Foi neste clima caloroso que Maria José Gomes da Silva, a famosa "Zezinha", recebeu a equipe do Descubraminas em sua casa, situada em Campo Buriti, comunidade rural do município de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha. Guardada por dois robustos cães, o belo Paraíso das Artes justifica seu nome. É mesmo o Éden dos artigos artesanais. Pelas mãos de Zezinha, objetos inspirados na natureza, nos animais e nas pessoas ganham forma e, quando finalizados, transmitem vida por meio do olhar.


Na entrada do vasto sítio, cabeças de bonecas inacabadas são reutilizadas como ornamentos de cerca. Mais adiante, um jardim enfeitado com esculturas de barro transforma o ambiente inanimado em habitado. A recepção continua... As galinhas d'angola, as mães com seus filhos, o menino amuado. Do outro lado, uma reunião de inquietos macacos, cumbucas, corujas, cisnes e sapos. A labuta no Paraíso das Artes começa cedo. Às 7h, a artesã já está de pé. Mexe com o artesanato, varre o terreiro, arruma a casa, conserta e muda peças de lugar, mas quando tem encomenda para entregar, madruga! 5h30 está a postos, faça chuva ou faça sol.


De acordo com Zezinha, a paixão pelo artesanato começou na adolescência, mas, no início, mais do que por paixão, Zezinha conta que resolveu conciliar a lida diária no campo e o artesanato ao ver a necessidade de ajudar os pais a criar os irmãos. "Não foi um começo de paixão, foi um começo de necessidade, a gente não tinha muitas escolhas, então tínhamos que fazer o artesanato e ajudar na roça, era o que dava para matar a fome na época, e, com isso, ficou uma coisa que carregamos para a vida toda. Como trabalhávamos em família, tinha que ajudar a criar meus irmãos", afirma.


Com 28 anos dedicados ao manuseio de artigos à base de barro, Zezinha diz que gosta de fazer de tudo: flores, galinhas e animais de estimação, mas é mais conhecida pela produção de bonecas. De tamanhos variados, as peças encantam pela semelhança com a realidade. Segundo a artesã, a maioria das pessoas vai até sua casa para adquirir os produtos e aproveitar para conhecer o Paraíso das Artes. "Há muitas encomendas também, o cliente entra em contato comigo ou com o Ulisses, meu marido, e a gente manda o produto para eles. Já vendemos até para fora do País", explica satisfeita. Zezinha relata que gosta de deixar seus produtos expostos no sítio, pois acredita que as associações das quais faz parte servem mais para mostrar o caminho para as pessoas que desejam ganhar a vida com esse tipo de trabalho. Além disso, com os produtos que faz ao seu redor, fica mais fácil de achar inspiração. "Há momentos em que você nem consegue colocar alguma coisa em prática do jeito que pensou. A cabeça pensa de um jeito, mas as mãos não conseguem acompanhar", reflete.


Para Zezinha, o artesanato é hoje um meio de sobrevivência. Com seu trabalho, construiu sua casa e criou as filhas. "Às vezes você não tem uma opção na vida, não teve a oportunidade de estudar ou de ter um trabalho com carteira assinada, aí vai para o lado do artesanato e a partir daí consegue tirar seu sustento, ou seja, você se sustenta com uma coisa que achou ao redor de sua casa". A artesã ressalta, ainda, que trabalhar com o artesanato foi uma ótima decisão, pois, além de sustentar a família, faz um trabalho que gosta. "Eu acho o artesanato uma coisa boa na vida da pessoa, pelo menos para quem o vive e precisa dele para viver". Sobre a valorização do que faz, Zezinha afirma que aprendeu muito com os próprios visitantes do Paraíso das Artes. "Tem gente que vem aqui comprar peça só para decoração. Aí quando você começa a decorar sua casa, todo mundo segue o exemplo, a comunidade anda junta e todos vendem o principal produto que sustenta várias famílias, que é o artesanato, e vão todos crescendo juntos. Aqui é uma loja ao ar livre", frisa.


Processo Produtivo
Em cada cerâmica é possível testemunhar o modo de vida local. No barreio da Associação das Artesãs, a matéria-prima é recolhida, socada e peneirada, depois é colocada para secar nos locais de produção, a partir daí, esse barro é usado no processo de modelagem da peça. Segundo Zezinha, a tinta para decoração e pintura das cerâmicas também é retirada do próprio barro, e é obtida por meio da queima da argila que depois é misturada com água. Ao fim desse procedimento, o artigo é colocado no forno a lenha para manter a estrutura e segurar a cor.


Para se obter o fruto desse longo e delicado processo de coleta da matéria-prima até sua decoração e queima é preciso muita dedicação e paciência. "Eu faço coisas variadas, então o tempo vai depender do tamanho da peça. Mas, como trabalho sozinha, até que eu dê conta de modelar, pintar e vender o material, já tem mais produto encomendo", revela. Ainda de acordo com a Zezinha, uma boneca de 90 centímetros, por exemplo, demora em média oito dias para ser produzida.


Associação dos Artesãos
Na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo são armazenadas e expostas em um vasto galpão peças de 48 associados das comunidades de Campo Buriti, Coqueiro Campo e Campo Alegre. A região vive do cultivo de eucalipto e da lavoura de subsistência e os habitantes apostam na comercialização do artesanato para ajudar no sustento das famílias. O artesanato é variado, na associação são expostas flores, mosaicos, casinhas, bonecas e imagens com variações de cores naturais, utilitários de cozinha e ornamentos, tudo feito à base de barro queimado. Segundo os artesãos, existe no local uma imensa dificuldade de comercialização, além da falta de transporte para participação em feiras, perdendo-se, assim, muitos convites para exposição do trabalho. Eles queixam-se, ainda, que, às vezes, passam até meses sem vender uma peça.


Exemplo da cultura e da tradição mineira, as comunidades de Coqueiro Campo, que pertence ao município de Minas Novas, e Campo Buriti, que pertence a Turmalina, além de dividirem o mesmo território, se destacam pelo trabalho em equipe. Juntos pelo bem comum, os artesãos se reúnem com frequência para discutir sobre as novas perspectivas de negócio, estipular preços das mercadorias e analisar a possibilidade de participação em feiras. "Em minhas peças, não uso nem Minas Novas nem Turmalina, assino Zezinha - Vale do Jequitinhonha/Minas Gerais, pois acredito que as duas comunidades andam juntas, nossa igreja e associação são as mesmas, tanto Minas Novas é interessante para nós quanto Turmalina, eu digo que uma é mãe e a outra é pai, a gente precisa das duas", afirma.


Turismo solidário
Devido ao clima seco e árido e a constante falta de chuva, o artesanato se tornou o meio de renda mais eficaz das comunidades rurais do Vale do Jequitinhonha. "Acredito que o artesanato do Vale, principalmente o que faço aqui no Paraíso das Artes, já virou arte, pois aqui a gente vive o artesanato. Você pode ver quantas peças têm espalhadas por aqui, às vezes eu produzo algumas coisas só para enfeitar a casa", diz Zezinha. Em busca de novas saídas para driblar o desemprego e divulgar a cultura local, os artesãos oferecem espaços para os visitantes em suas próprias casas, no intuito de difundir o turismo solidário.


No meio da mata fechada, A Pousada das Artes realmente se destaca pela beleza da espontânea decoração. Enfeites rústicos e peculiares conduzem o turista para um dos pontos altos da viagem de base comunitária, que é poder vivenciar o dia a dia das pessoas. "Quando o pessoal do turismo agenda visita, a gente divide entre as famílias da região. Sempre recebo muitas pessoas aqui", afirma a artesã. Recentemente implementado nas comunidades de Coqueiro Campo e Campo Buriti, o programa de turismo solidário preparou os moradores para receber os visitantes em suas casas. Ao se hospedarem nos receptivos familiares, os turistas têm a possibilidade de participar de oficinas de artesanato e aprender os costumes da população local.

 


Matéria realizada em 2013

 

Enviar link

© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida
© Roberta Almeida Turmalina - Roberta Almeida