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Pedro Israel Monteiro - Músico de Belo Horizonte

© Arquivo Pessoal Belo Horizonte - Mestre Pedro, integrante do grupo 'Magnatas do Samba' - Arquivo Pessoal Mestre Pedro, integrante do grupo 'Magnatas do Samba'

Ser Mineiro é...

Unir a família em prol da música.


Dia corrido, encontro marcado, sem atraso para receber Sr. Pedro Israel Monteiro, criador e integrante do "Magnatas do Samba", um dos mais requisitados grupos de samba de raiz da capital mineira. Com um semblante sereno e curioso, à procura da equipe do Descubraminas.com, lá estava um dos representantes da Velha Guarda do Samba de Minas Gerais. No auge de seus 65 anos, Mestre Pedro falou sobre a alegria de viver e da gratidão pelos sonhos realizados.


Por Roberta Almeida

Aposentado como bancário, dono de uma empresa de higienização de caixas d'água, casado há 35 anos com D. Maria da Piedade, pai de dois filhos, avô de uma menina. Pedro Israel Monteiro, ou "Mestre Pedro", busca na música a inspiração para driblar a vida e não deixar o samba morrer. Na labuta diária desde os 10 anos de idade, Mestre Pedro, que vem de família humilde, sempre se inspirou no exemplo que tinha dentro de casa para planejar sua vida e concretizar seus sonhos. Filho de pai pedreiro, se diz arrimo de família. "Meu pai criou todos os 13 filhos com uma colher de pedreiro na mão e proporcionou a cada um o melhor que pode, tivemos o estudo ginasial, e eu como mais velho, o famoso arrimo de família, era quem tinha que dar o exemplo".


Influenciado pelo pai, também sambista, e pela mãe, que sempre apoiava as rodas de samba do marido e nada fazia sem sintonizar a rádio preferida, aos 12 anos, Mestre Pedro passou a se interessar e participar mais ativamente de grupos musicais até descobrir que, definitivamente, tinha facilidade para manusear os instrumentos. No entanto, apesar da ajuda dos pais, foi por méritos próprios que alçou outros voos, investindo na carreira artística e colhendo o que considera os verdadeiros frutos proporcionados pela música: uma família sólida, unida, atenta às necessidades coletivas, ao bem comum e disposta a ajudar aos seus e aos que estiverem por perto.


Ainda criança, observava a intensa vida social do pai, que, mesmo depois de um longo dia de trabalho, arranjava tempo para se dedicar à comunidade. "Meu pai era responsável por formar o time de futebol do bairro, organizar as reuniões e festas comunitárias e promover o batuque na porta de casa nos finais de semana, garantindo a animação das nossas rodas de samba. Para mim, ele foi um exemplo, um negro que venceu na vida". E de tanto admirar a postura do pai, Mestre Pedro não pensou duas vezes e decidiu amineirar de vez o samba. Com atividade intensa no meio musical, entre amigos e parentes fundou o "Samba Nosso", atual "Magnatas do Samba".


Disciplinado, sempre reservou na agenda um espaço para o samba. "Eu tinha horário para tudo, para dormir, estudar, trabalhar e me divertir, é claro! Naquela época, o futebol era minha preferência, cheguei a ser até um atleta profissional aos 15 ou 16 anos, mas na minha casa havia outra paixão, a música, o samba, um gosto do meu pai que atingiu a todos nós." Fã de grandes nomes da música, Mestre Pedro afirma que a admiração por artistas renomados também foi influencia dos pais. "Lá em casa era o dia inteiro ouvindo Ângela Maria, Emilinha Borba, Carmem Miranda, Carlos Galhardo, Silvio Caldas. Minha família, embora humilde, tinha essa veia cultural, antes e depois das partidas de futebol a gente se reunia para bater numa latinha e saudar o samba", relembra.


Dividido entre o futebol e a música, este último teve prioridade, a paixão foi crescendo e da latinha passou para o pandeiro. "Comecei tocando surdo, depois fui para o tamborim e acabei ficando de vez na percussão". Com mais bagagem, o promissor percussionista já possuía novas referências musicais, aproveitava as trocas de informações e se atualizava nos grupos mais jovens, sem deixar de lado o aprendizado com os mais experientes, até descobrir como a música funcionava, o que ela representava para as pessoas.


Família Magnatas do Samba
Criado para animar os eventos que antecediam as partidas de futebol promovidas pela família de Mestre Pedro no bairro Jardim Montanhês, em Belo Horizonte, o grupo Magnatas do Samba foi formado com um conceito de família bem enraizado e logo atingiu a área nobre da capital. "Nessa época, eu trabalhava como bancário e era só acabar o expediente que a gente já pegava os instrumentos para fazer samba. No começo, ganhávamos apenas o que consumíssemos, mas depois fomos ganhando notoriedade e, ainda sem nome, o grupo começou a ser reconhecido".


Não demorou muito para o nome ser escolhido. Em 1972, depois de várias apresentações, Mestre Pedro batizou a turma de "Samba Nosso", que logo depois, já em 1976, virou "Magnatas do Samba". "Meu irmão decidiu trocar o nome por "Magnatas do Samba" e de magnatas por magnatas estamos até hoje, quer dizer, um grupo familiar, composto por três irmãos e amigos e que hoje ainda tem a minha presença, do meu irmão caçula, Renato, e do meu filho, Felipe Magnatas". Com novas ideias e disposição para aprender e se adequar ao ofício familiar desde cedo, os integrantes mais jovens são inseridos no meio cultural e herdam um "negócio" que é passado de pai para filho.


Além disso, o grupo musical abriga mais que parentes, se é verdade que os amigos são a família que escolhemos, o Magnatas comprova o ditado. Empresário do grupo há seis anos, Washington Luís Teodoro é um exemplo disso. "Além de amigo, Washington é uma pessoa que nos passa uma vibração muito boa. Do Magnatas, é uma das figuras mais expressivas, aprendo muito com ele e o tenho como filho". A união do grupo e a valorização da habilidade que cada um possui são vistos por Mestre Pedro como um diferencial: "Não estou dizendo que não discordamos, mas temos consciência que tudo é em função das melhores energias, sentimentos e respeito, para que possamos passar isso às pessoas que apreciam nosso trabalho", afirma.


Fé no samba
Além de músico, Mestre Pedro já foi jogador de futebol, securitário, bancário, trabalhou em um cartório de registro de imóveis e em uma cerâmica, hoje é empresário, e, ao samba, sempre reservou as tardes e as noites, pois se diz contra a dedicação ao samba em horários marginais. Seja para compor ou se concentrar nos shows, Mestre Pedro se desliga do mundo e aciona o poder do samba para refletir sobre a vida. "Não consigo pensar em nada quando estou em processo musical, seja cantando ou tocando, então eu quero acreditar que este seja um momento onde estou muito leve, em processo de meditação e agradecimento", reflete.


Segundo Mestre Pedro, a busca pelo equilíbrio musical influencia diretamente a vida da pessoa e seus valores, e, para ele, o samba permite isso. "Não me considero como um precursor do samba em Minas Gerais, por exemplo, porque me espelhei em outros mineiros que já faziam isso, até acredito que faço parte da Velha Guarda do Samba aqui de Minas, pois já tenho 45 anos de vivência com o meio, mas tive muitos professores maravilhosos para chegar até aqui e passar adiante o equilíbrio que temos hoje".


Pela consciência social que desenvolveu em casa e foi fortalecida pelo meio musical, Mestre Pedro afirma que acredita nas pessoas e que fica lisonjeado pelo poder que a música tem de fazer com que a vida do outro seja melhor. "Quero acreditar que a música torna as pessoas melhores, pois ela te induz a refletir sobre nossa própria existência. Acho que a música tem uma ligação com o Divino, sou um modesto compositor, mas com minha fé em Deus e nos homens, venci uma série de concursos de samba-enredo", diz orgulhoso.


Renda Extra
A reunião entre amigos e família acabou gerando uma renda extra, mas para Mestre Pedro o mais importante mesmo em todos esses anos foi a música ter alcançado os lares de outras famílias. "Fico muito feliz por meu samba ter ficado conhecido pelas pessoas". O percussionista conta ainda que conheceu pessoas que lhe deram a oportunidade não só de obter uma renda extra, mas de conviver com artistas singulares. "Um dia conheci o Paulinho da Viola, uma pessoa altamente despida de vaidade, que passou a ser para mim uma referência, assim como o João Nogueira, que também me inspirava muito pelas músicas que compunha, pelo timbre de voz. Essas pessoas realmente tinham uma luz diferente, e isto não há dinheiro que pague", relembra.


O samba hoje
Em relação aos rumos do samba nos dias atuais, Mestre Pedro explica que toda riqueza musical passa antes pelo conhecimento e dentre tantas formas de se buscar a informação, uma delas é a retomada do passado, para que se possa analisar o que foi o samba e o que é hoje. "Antes um ritmo predominantemente negro, marginalizado, que surge cercado de muito preconceito, hoje, vejo adeptos de todas as classes sociais. Defendo que o samba deve ser cantado pelo maior número de pessoas possível, pois cada um tem um sentimento, uma forma de pensar, então cada um vai passar e receber a mensagem de maneira única".


Embora esteja mais voltado para o contexto popular, Mestre Pedro acredita que o samba já conquistou um olhar mais requintado. Com 37 anos representando o samba em Minas Gerais, por meio do Magnatas, ele conta que o grupo, independentemente do contexto que está inserido, resiste até hoje. "A filosofia do grupo é se doar à música, levando entretenimento e oferecendo uma contribuição cultural às pessoas". Mais que um mineiro grato pelas surpresas que a vida lhe proporciona, Mestre Pedro demonstra que o verdadeiro desafio do homem é lutar pelos seus ideais. Para ele, o samba foi o caminho para unir a família em prol de um objetivo maior: a alegria de viver e valorizar o que se tem.

 


Matéria realizada em 2013

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© Arquivo Pessoal Belo Horizonte - Arquivo Pessoal
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