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Celso Vieira - Escultor de Lagoa Santa

© Maria Lucia Dornas Lagoa Santa - Celso Vieira recebe o Descubraminas em seu ateliê - Maria Lucia Dornas Celso Vieira recebe o Descubraminas em seu ateliê

Ser Mineiro é...

Dar vida a esculturas de madeira.


Conheça no Descubraminas o 5º personagem da série Ser Mineiro é..., o artista popular Celso Vieira e sua habilidade de esculpir. Em seus trabalhos, o escultor apresenta características de sua própria história, como a representação das dificuldades cotidianas e alegrias obtidas nos mínimos detalhes da vida.


Por Roberta Almeida

O céu azul e sem nuvens abria espaço para a magnitude do trabalho executado pelo singelo e peculiar Celso Vieira, que de simples tem apenas o jeito de ser e de levar a vida. Diante da grandeza de sua obra, o crédulo cidadão divide com o mundo seu talento. Do exuberante galpão, localizado na pequena, mas desenvolvida Lagoa Santa, a menos de 40 km de Belo Horizonte, o cheiro da madeira exalava, aguçando a curiosidade dos visitantes.

Na entrada do ateliê, uma espécie de "casa da árvore" dá as boas-vindas ao mundo das esculturas. No entanto, de braços abertos, mesmo, há um Cristo, abençoando o trabalho e a vida de todos que adentram o lugar. Em meio a representações de famosos artistas e personalidades que marcaram gerações, o verdadeiro artista recria a realidade e dá vida aos objetos quase reais.


Quando o dom virou profissão
Aos 24 anos, Celso descobriu que possuía o dom de esculpir, mas passou a se dedicar e tirar o sustento com a venda das esculturas apenas aos 40. Segundo o artesão, hoje com seus 70 anos recém-completados no último dia 23 de setembro, aprendeu o ofício sozinho, movido pela curiosidade e pela necessidade. "Quando decidi começar a trabalhar com esse ofício, eu fazia pequenos cochos de madeira para vender. Aí peguei o gosto, comecei a fazer carrancas, móveis rústicos e bem trabalhados", explica o artista que adora esculpir mensagens e dedicatórias nas peças que faz.

Ao lado da esposa, D. Neuza, dos onze filhos e quinze netos, Celso prioriza sempre a família, tanto que, para ele, sua obra de mais valor foi um pilão para socar tempero feito para a esposa há 45 anos. Segundo ele, como não tinha condições financeiras de comprar um, pegou uma chave de fenda, uma foice e um machado e fez o objeto. Nesse momento, mais que um utilitário de cozinha, Celso enxergou seu futuro: "Neuza, descobri meu dom. Agora, só Deus para me segurar! A partir desse pilão, vi que eu era capaz de fazer qualquer coisa na madeira", relembra orgulhoso.


Mãos à obra!
Para executar seu trabalho, o artista precisa entender bem sua encomenda. Com a ajuda da filha Regina, que imprime a imagem a ser esculpida em vários ângulos, o artesão estuda o material e coloca a mão na massa, começando sempre pelo nariz, para que o traçado seja direcionado. Antigamente, utilizava apenas o machado para começar a obra, mas hoje usa uma pequena motosserra para tirar o excesso; o restante, ele termina com a ajuda do machado, enxó goivo (ferramenta utilizada para fazer gamela), formão goivo e formão chato, mais conhecido como formão de carpinteiro, e marreta.

Segundo Celso, a madeira costuma ser adquirida na própria região de Lagoa Santa, mas às vezes ele consegue algumas vindas do Mato Grosso. Com a documentação em dia, o artista explica que nessa região há árvores condenadas, visto que seu fruto é prejudicial ao gado. "Temos muito cuidado com o meio ambiente. Sempre que uma pessoa precisa derrubar uma árvore, ela deve ter uma licença para fazer isso. E a gente sempre trabalha com a ideia de reciclagem, quer dizer, eu vejo uma madeira que está apodrecendo, prestes a morrer, e tento dar vida a ela", enfatiza.

Além disso, para fazer as esculturas, Celso costuma utilizar cedro, canela, jequitibá e vinhático. Para as demais peças, como mesas e utilitários, as sobras das esculturas são utilizadas, como as cascas da madeira, que D. Neuza transforma em pequenos oratórios. Desse modo, assim que recebe a encomenda, ele escolhe com cuidado a madeira, até porque acredita que sua arte já começa a aparecer nesse momento. Atualmente*, está finalizando uma Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Para esse trabalho, optou pelo cedro. Caso a peça exija uma cor diferente, o artista usa anilina francesa, pois esse tipo de tinta colore sem tirar a beleza da madeira. "Com a anilina francesa você enxerga a madeira por baixo da tinta, preservando a característica do material", explica.


De pai para filho
Cinco dos filhos do artista aprenderam o ofício e hoje cuidam da fabricação dos móveis artesanais, o que possibilita a Celso a dedicação exclusiva às obras de arte. "Graças ao trabalho dos meninos pude me dedicar à arte e sou muito grato a eles por isso. Hoje, apenas com as minhas encomendas, consigo manter nossa casa, mas quase todas as obras do ateliê foram mantidas pelo trabalho deles".

Ao observarem o pai, os filhos aprenderam o ofício. Celso conta que nunca parou para fazer um passo a passo para auxiliá-los. Orgulhoso, o artista diz que "os meninos são como ele, sentam e se dedicam ao trabalho, deixando a inspiração conduzi-los". Segundo Celso, sem o apoio da família seu trabalho não existiria. "Cada um aqui tem uma função e uma habilidade. Mesmo diante das adversidades, não vejo problemas, pois sei que estamos juntos", reflete.


Inspiração
Ligado às questões espirituais, Celso acredita que sua inspiração vem de Deus. O artesão afirma que quando escolhe uma tora de árvore para fazer uma escultura, não aproveita a forma que a madeira já tem. "Gosto de pegar a tora bruta e fazer nela aquilo que eu quero. Quando pego a escultura para fazer, já a enxergo pronta por dentro. Acredito que essa ligação religiosa conduz meu trabalho. Costumo falar que empresto minhas mãos e alguém faz por mim", divaga.

Uma prova disso é o Cristo de seis metros de altura que adorna a entrada do ateliê. Para esse feito, o artesão fez até promessa. Um dia, passando por Pedro Leopoldo, enxergou uma enorme árvore seca e resolveu comprá-la. Inspirado, disse à esposa: "Quando a semente dessa árvore germinou na terra, veio morar um Cristo dentro dela e eu vou descobrir isso". Prometeu, então, que se conseguisse esculpir aquela fisionomia que havia enxergado dentro da árvore, nunca mais cortaria o cabelo. Não deu outra! A exuberante imagem está lá, para quem desejar conferir, bem como a esmiuçada madeixa de Celso, há 12 anos sem ver tesoura e que, segundo ele, "nunca mais verá".

Outro trabalho importante para Celso é a escultura de Peter W. Lund. Responsável por descobertas importantes para o desenvolvimento da paleontologia brasileira, o naturalista dinamarquês não poderia deixar de ser homenageado. Em uma das mãos, a escultura do paleontólogo segura o primeiro crânio que encontrou na região; na outra, ampara um pequi, fruto de sua admiração. De acordo com Celso, a escultura de 2,44 m foi doada ao governo da Dinamarca e, em breve, será exposta em um museu de Copenhague. "Atualmente, este museu está em reforma, mas, assim que for finalizada a obra, eu e Neuza vamos até lá para a inauguração com tudo pago pelo príncipe e pela princesa", destaca.


Ouro Preto e o artista
E as histórias não param por aí. Certa vez, o artesão resolveu apresentar seu trabalho na antiga Vila Rica. Em praça pública esculpiu um Tiradentes de 2,40 m de altura, exposto para todos que desejassem conhecer seu trabalho. A ousadia lhe rendeu o apelido de "Aleijadinho"; alguns até acreditavam que ele era a própria reencarnação do mais famoso escultor mineiro. Assim, desde a experiência na cidade histórica, Celso tem o sonho de se mudar para Ouro Preto com a família e construir um museu para expor seu trabalho e o trabalho de outros artistas.

O artesão aposta no turismo local para manter seu negócio sem ter que vender as obras de arte. "Penso que as coisas que faço não deveriam ser vendidas, pois elas pertencem ao mundo". Para o artista que parece prever o próprio destino, o projeto é nítido em sua cabeça: "Já visualizei meu museu, aí eu cobraria a entrada para que as pessoas visitassem a Galeria de Arte", reflete animado.


Verdadeiro valor das obras
Entre as dificuldades enfrentadas pelo artista está a precificação das peças. Em algumas, como as que são vendidas para fora do País, ele até consegue um valor considerável. No entanto, devido à carga sentimental que coloca nos trabalhos, várias vezes preferiu perder a venda. "Eu tenho aqui uma canoa, por exemplo, muito bem feita e cheia de detalhes, que representa o sofrimento das pessoas que precisavam atravessar os rios para sobreviver. Duas pessoas já ficaram interessadas nessa peça, um deles se dispôs a pagar 600 mil dólares pela peça e mais 10 mil dólares só por causa da dedicatória que escrevi para a Neuza, mas até hoje não senti de vendê-la", explica.

Assim, com o carinho da família e as surpresas de cada novo trabalho, o artista tem muito mais a mostrar ao mundo. Com dedicação e prazer em trabalhar utilizando as mãos, o artista recria a vida e a própria realidade por meio de suas esculturas. Para Celso Vieira, o luxo da vida está nos mínimos detalhes, como o auxílio e aprendizado diário com o próximo. "A gente não precisa de muito para viver, a gente consegue viver com muito pouco e ainda pode ajudar e aprender uns com os outros", conclui ao pensar nas palavras que resumem sua vida.


*Essa peça estava sendo esculpida em Setembro de 2014.

 


Matéria realizada em 2014

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© Maria Lucia Dornas Lagoa Santa - Maria Lucia Dornas
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