Minas Gerais

O Estado

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Antônio Luiz de Matos - Tamborzeiro de Minas Novas

© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi

Ser Mineiro é...

Construir tambores para ouvir Deus.

De chapéu de couro, ao som dos tambores e com um grande sorriso no rosto, Mestre Antônio recebe a equipe do Descubraminas para um agradável bate-papo. Descubra a magia dos tambores de Mestre Antônio e seu amor pela construção de instrumentos musicais!


Por Roberta Almeida

Morador da comunidade quilombola de São Benedito do Capivari, na Zona Rural de Minas Novas, Antônio Luiz de Matos, conhecido como Antônio de Bastião ou Mestre Antônio, aprendeu desde cedo a necessidade de preservar a cultura de seus antepassados. Representante das manifestações culturais tradicionais em Minas Gerais, o devoto de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário descobriu o verdadeiro som dos tambores que remetem à cultura dos descendentes de índios e negros que vivem na região.

Com o avô paterno, Mestre Antônio aprendeu o ofício da luteria de tambores e caixas de linha africana. A quem queira aprender, o tamborzeiro orgulhoso do dom que tem passa adiante toda sua sabedoria. "Eu fui agraciado como mestre da área dos tambores, herança dos escravos africanos. Nunca estudei nada. Sou mesmo é um analfabeto, mas nasci com esse dom e gosto de passar esse saber para as pessoas, para conservar a arte de construir e tocar tambores", explica o artista.


Função dos tambores
Muito além da produção de instrumentos musicais, Mestre Antônio acredita que seu ofício tem ligação direta com o Divino. "Eu digo que esses tambores conversam com Deus porque era com eles que os escravos fugiam daquela escravidão, para encontrar Deus". O artista conta, ainda, que constrói os tambores de linha africana, como os denomina, para os grupos de músicas regionais, como o Congado de São Benedito, A Festa do Divino, a Banda de Taquara, os Tamborzeiros da Irmandade do Rosário, entre outros. "Cada tambor terá um tom diferente. O couro usado é sempre diferente, pois isso interfere no som de cada um. É isso que dá o grau", explica.

Para Mestre Antonio, construir instrumentos é um ritual sagrado. Se possível, dedicaria o dia todo ao ofício. O artista tem a habilidade de fazer caixas, tambores, pandeiro, gogô (tudo na linha afro), tamborim, xique-xique e até berimbau. "Aprendi tudo com os meus avós. Até hoje participo das festas religiosas onde a cultura africana dá o tom. Quando meu avô morreu, minha avó foi até minha casa e levou os instrumentos dele para mim. Eu uso até hoje as ferramentas que meu avô Artur fez", afirma.


Sabedoria compartilhada
Engajado no que acredita ser sua missão, o mestre popular constantemente é convidado para ministrar palestras, cursos, oficinas sobre a tradição da fala dos tambores. "Eu participei em Fortaleza de um encontro que contava com mestres do mundo inteiro. Fui para dar uma oficina. Lá, conheci um mestre africano que fez questão de voltar no Brasil pra eu dar uma palestra pra eles sobre nossa cultura afro. Vê se pode?", indaga surpreso. Lisonjeado ao relembrar a valorização de seu trabalho pelos amigos do continente africano, Mestre Antônio explica que tem um compromisso com seus ancestrais de preservar e repassar a tradição da fala dos tambores.

O artista diz, ainda, que perdeu as contas dos certificados que recebeu pela capacitação de pessoas nas artes de luteria e até já aceitou o reconhecimento de sua identidade de Mestre. Em 2014, a equipe do Descubraminas encontrou o luthier em uma oficina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na primeira etapa, ensinou a construir os tambores e na segunda os participantes aprenderam a tocar: "Agora é pra bater e o pau cair a folha", diz o mestre em referência à boa qualidade dos instrumentos. Para esse evento, o artista trouxe árvores do Cerrado para a construção dos instrumentos, e aproveitou para promover o reflorestamento também em Belo Horizonte, dentro da universidade.


Guardião da natureza
Outra marca forte do trabalho de Mestre Antônio é a preocupação com o meio ambiente. Em busca da madeira que melhor reproduzirá o som que cada instrumento precisa, o respeito à natureza está em primeiro lugar. Segundo o artista, a escolha da árvore que vai usar é feita com muito cuidado. "Primeiro, peço licença ao Rei da Mata e analiso o que a natureza permite ser utilizado dentro do Cerrado. Depois, já penso que tem de retornar 100% para a natureza, para dormir tranquilo, pois ela cobra. Aí eu faço meus instrumentos sem prejudicar a natureza, até os cordões que uso são feitos sob medida, para evitar o desperdício", esclarece.

Crente de que as árvores conversam, Mestre Antônio diz que o ser humano perdeu a sensibilidade de escutá-las. Segundo ele, agora as árvores só conversam uma com a outra, em latim, e o vento ajuda nessa comunicação. "Eu tenho amor à terra porque eu vim dela e ela cria os seres humanos". Para Mestre Antônio, o importante mesmo é respeitar o próximo, independente de raça ou credo. Em sua extraordinária luta pela vida, pela dignidade, pela terra e pela alegria de bem viver ao som de seus os tambores, o luthier de 74 anos continua a abrir caminhos na cultura popular. Tamborzeiro por tradição, herança e fé, esse artista popular é um mineiro sábio e generoso que respeita a natureza, os seres humanos e as forças divinais.


Estagiária: Júlia Savassi

 

Matéria realizada em 2015

Enviar link

© Júlia Savassi Minas Novas - Mestre Antônio e o som de seus tambores - Júlia Savassi Mestre Antônio e o som de seus tambores
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi
© Júlia Savassi Minas Novas - Júlia Savassi