Minas Gerais

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Período Imperial

No fim do período colonial a decadência da região mineradora é irreversível. As minas de ouro estão praticamente esgotadas. A pedido da administração portuguesa, o mineralogista José Vieira Couto prepara um  relatório sobre a situação das minas na capitania.  A presença da corte portuguesa no Brasil acabou gerando muitas mudanças. Com uma política econômica mais liberal, as antigas proibições foram suspensas; estradas  puderam ser abertas; a mineração começa a ter o apoio de técnicos como o barão de Eschwege, o Intendente Câmara e Vieira Couto, que foram os responsáveis pelo início da siderurgia em Minas Gerais.


A situação econômica geral da capitania, que nessa época contava com cerca de 433.049 habitantes, era de pobreza generalizada. A população se dividia entre pequenos comerciantes, mineradores, funcionários públicos, fazendeiros, oficiais mecânicos e escravos. “A capitania se acha em estado de pobreza e de miséria ... Toda  (exceto poucas pessoas) é povoada de negociantes, mineiros e fazendeiros falidos, ou quase a falir, conservados por indústria, ou manha; e uma multidão de povo de mulatos, e pretos forros sem ofício e sem aplicação, vadios e com mais vícios, que a este andam unidos”. (Basílio Teixeira de Sá Vedra, 1805).


Em 1808, a Capitania das Minas contava  exclusivamente com uma cidade, Mariana, e treze vilas apenas, apesar das centenas de concentrações populacionais. Essas treze vilas eram:
Em 1711
Vila Rica, hoje Ouro Preto;
Vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabarabuçu, hoje Sabará;



Em 1713
Vila de São João del-Rei, hoje São João del-Rei;

 

Em 1714
Vila da Rainha, hoje Caeté;
Vila do Príncipe, hoje Serro;


Em 1715

Vila de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, hoje Pitangui;


Em 1718

Vila de São José del-Rei, hoje Tiradentes;


Em 1730
Vila das Minas Novas, hoje Minas Novas;


Em 1789

Vila de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecerica;


Em 1790
Vila de Queluz, hoje Conselheiro Lafaiete;


Em 1791

Vila de Barbacena, hoje Barbacena;

Em 1798
Vila da Campanha da Princesa da Beira, hoje Campanha;

Vila de Paracatu do Princípe, hoje Paracatu.


O mapa da Capitania era diferente: não se tinha o Triângulo Mineiro e, ao norte, a divisa era com Pernambuco. Com a criação da capitania de Minas e São Paulo, em 1709, foram definidos os limites com o Rio de Janeiro. Com a separação da capitania de Minas da Capitania de São Paulo, em 1720, são estabelecidos os limites com São Paulo. A fronteira com o Espírito Santo foi estabelecida oficialmente em 1800. O Triângulo  foi incorporado à Capitania em 1816 e a margem norte do Rio São Francisco, que pertencia a Pernambuco, é transferida para Minas em 1824. Ao iniciar o primeiro império no Brasil, a então Província de Minas tinha seu mapa bem distinto da sua configuração no período colonial.


Dois movimentos  que marcaram Minas  no período imperial foram a Sedição Militar de 1833 e a Revolução Liberal de 1842. A Sedição de 1833, para o historiador Francisco Iglesias, foi um movimento sem consistência, resultado das intermináveis lutas  entre os defensores e inimigos da regência. Havia um  grupo que se manifestava favorável a volta de D.Pedro I , que havia abdicado em 1831. Conhecido como Restauração, o movimento não tinha a menor possibilidade de sucesso,  pois não havia  a mínima chance de D.Pedro I retornar ao Brasil. O grupo,  pegando-se a uma causa perdida, acrescentava às suas queixas questões como: aumento de impostos sobre a produção da  aguardente e a proibição do sepultamento nas igrejas.


O movimento foi energicamente abafado pelo vice-presidente Bernardo Pereira de Vasconcelos. O governo da província ganhou o apoio das localidades como Queluz (hoje Conselheiro Lafaiete), Barbacena e São João del-Rei.  A capital, inclusive, foi transferida para São João del-Rei enquanto Ouro Preto estava sob o controle dos revoltosos. Após dois meses, o presidente da província, Manuel Inácio de Melo e Souza, o Barão de Pontal, retorna a Ouro  Preto. Em 1835, o grupo de revoltosos foi anistiado.


Com a justificativa de “livrar nosso adorado monarca da coação em que  o tem posto a oligarquia dominante”,  principia,  em Minas, a Revolução Liberal de 1842. Em 1840, devido os conservadores estarem no poder, os liberais tramam o golpe da maioridade que foi bem sucedido. A partir de então, liberais e conservadores se revezam no poder. Com os interesses políticos contrariados  e contra leis aprovadas pelos conservadores, os liberais paulistas propõem uma reação armada. Minas Gerais manifesta seu apoio aos paulistas. O movimento paulista foi reprimido por Caxias, mas, Minas, devido ter se comprometido com sua palavra aos paulistas, entra em luta. Quinze dos quarenta e dois municípios que a Província possuía na época aderiram ao movimento liberal. “Se para os rebeldes os legalistas são os defensores de uma oligarquia que espezinha as liberdades e vive de ambições, o ministério é infame, corrupto, traidor, para os legalistas os rebeldes pretendem a anarquia e a desordem, constituem oposição desvairada e frenética, são “uma infame horda de anarquistas e canibais sedentos de sangue”, depravados e outras palavras fortes, como se vê na farta documentação deixada pelas facções.” (Francisco Iglesias).
 

As lutas em Minas Gerais tiveram início  tendo como um dos líderes, Teófilo Otoni, que tinha sido eleito em 1838 para a Assembléia Geral. Os revolucionários tiveram a pronta adesão de São João Del-Rei, Queluz (Conselheiro Lafaiete) e outras cidades do sul de Minas, do norte, do leste e de Ouro Preto.


O governo imperial, preocupado com os rumos que iria tomar o movimento, tornou obrigatório o salvo conduto para viagens a Minas. Direcionou para Minas guardas nacionais e unidades do exército, ordenando a prisão dos líderes do Partido Liberal.


A principal vitória dos rebeldes foi em Queluz, no dia 26 de julho. Mas, por erros táticos, os rebeldes começaram a sofrer diversas derrotas. Caxias chegou a Ouro Preto em 06 de agosto para pacificar a Província. Sua fama fez  com que os revolucionários desistissem de atacar Ouro Preto e evacuarem Queluz. 


A última batalha foi em  20 de agosto, em Santa Luzia, que foi vencida, mas com dificuldades, pela Força Legal comandada por Caxias. Terminou assim, depois de 2 dois meses e 10 dias, a revolta de 42. Caxias chega vitorioso a Ouro Preto no dia 10 de setembro,  já com a nova patente de Marechal-de-Campo graduado (hoje General de Divisão). Em 1848 os revoltosos foram julgados e absolvidos.


A economia mineira, durante o império, evidência experiências  expressivas revelando que foi precoce em comparação a outras províncias. 


No campo da siderurgia,  em 1853, segundo o relatório de Jean Monlevade, existia em Minas Gerais 84 oficinas com uma produção anual de 150 mil arrobas de ferro. Os irmãos Mascarenhas inauguraram em 1868 a primeira fábrica de tecidos. E uma  década depois, em várias localidades, como Curvelo, Pitangui e Pará de Minas, funcionavam fábricas  têxteis.
 

Também funcionavam no território mineiro fábricas de laticínios, vinhos, alimentos, louças, cerâmicas. Em 1851, Juiz de Fora foi ligada à Corte pela estrada União-Industria. Nesse  nome, a expectativa de desenvolvimento para a região. Na mesmo lugar, Juiz de Fora, foi instalada em 1889 a Companhia Mineira de Eletricidade,  primeira a operar comercialmente na América do Sul.


O café aparece pela primeira vez na pauta das exportações mineiras no ano de 1819 com uma produção de 9.707 arrobas. Em 1879 esse número alcança 4 milhões de arrobas. Mas, a produção mineira nunca conseguiu igualar a produção paulista e nem alcançou o nível de desenvolvimento econômico que São Paulo atingiu a partir desse período. Os motivos foram vários. A qualidade da famosa terra roxa paulista é sempre apontada como o principal motivo. Fatores econômicos e administrativos foram vitais e fizeram a diferença entre o desenvolvimento mineiro e paulista no século 19  e suas conseqüências para o próximo século.


Com o declínio da mineração, umas das alternativas foram as “fazendas patriarcais mineiras”, com economia de subsistência, tendo, assim, um baixo grau de mercantilização. A mão-de-obra utilizada nas fazendas era a escrava, resultante de um estoque da região mineradora. Como em São Paulo a disponibilidade da mão-de-obra escrava era baixa, a opção recaiu no trabalho livre. Assim, nos cafezais de São Paulo utilizou-se o sistema colono – remuneração. Em Minas, após a abolição, o sistema passa a ser o de meação que, a partir de 1860, sistema que já havia sido abolido em São Paulo desde 1860. “Em São Paulo, a fazenda cafeeira, além de ser em média 3 vezes maior que a mineira,acrescida de uma produtividade 3 vezes maior, atribuía-lhe maior capacidade de acumulação. Essas fazendas tendiam para o monocultivo, fornecendo condições para o desenvolvimento paralelo de uma agricultura mercantil de alimentos. Enquanto isso, em Minas as fazendas tendiam para a auto-suficiência, o que impedia o desenvolvimento da produção mercantil na cultura de alimentos.“ (Dinz, Célio).


São Paulo, com uma agricultura  mercantilizada, trabalho assalariado  e  um sistema organizado de exportação  gerou condições  para  a sustentação do processo de acumulação. Em Minas as fazendas praticavam auto-suficiência, o que impedia o desenvolvimento de outras atividades. A mão-de-obra não assalariada, o não interesse pela mão-de-obra imigrante, a falta de um centro comercial exportador para articular a negociação da produção, uma pecuária que  empregava pouca mão-de-obra e era era geograficamente dispersa justificam o atraso da economia mineira no fim do século 19  e princípio do século 20.


Na área da mineração do ouro, o período imperial é marcado pela presença das companhias inglesas que se estabelecem em Minas a partir das décadas de 20 e 30.


Seis companhias mineradoras são formadas na Inglaterra para explorar as jazidas auríferas de Minas Gerais:

- a Imperial Brazilian Mining Company (1824) começa a operar na Mina do Gongo Soco, em Santa Bárbara.  Até os meados da década de 30 foi explorada cerca de uma tonelada de ouro por ano. Em 1856, por problemas de inundação, a mina é abandonada.

- a General Mining Association (1828) explorava 4 minas em São João del-Rei.

- a Saint John Del Rey Mining Company (1830) começou suas atividades em São João del-Rei. Em 1834 transfere as operações para a Mina do Morro Velho, em Nova Lima, tornando-se o investimento inglês mais lucrativo na América Latina, no século 19. Em 1850 atingiu a produção de 1 tonelada e manteve essa produção até 1867. Em 1879 produziu 83% de todo o ouro  explorado em Minas.

 - a Brazilian Company (1832) atuou em Itabira do Campo (Itabirito), explorando o ouro na Mina da Cata Branca. Durante o período teve uma produção de 1.181.300 quilos de ouro.
    
- a National Brazilian Mining Association (1833), em comparação a outras companhias, teve baixa produtividade.

-  a Serra da Candonga Gold Company  (1823) explorara a Mina da Candonga, no Distrito  de São Miguel e Almas, município do Serro.


Apesar das companhias inglesas reduzirem o ritmo da queda do setor aurífero, nunca foi possível  reverter o declínio da mineração. Os ingleses exploraram as melhores minas, mas nunca   alcançaram as altas  expectativas que se  tinha para o setor. Hoje,  questiona-se  a competência técnica, administrativa e até a idoneidade dessas companhias. Um historiador, recentemente, concluiu que o sucesso da exploração na Mina do Morro Velho se deve mais à organização racional dos recursos humanos do que seu avanço tecnológico.


Embora os ingleses não estivessem na ponta da tecnologia da mineração do ouro no século 19, com certeza estavam em um nível acima da mineração exercida pelos mineiros. O atraso era tão grande que as inovações trazidas por eles resultaram em  ganhos de produtividade. As modificações técnicas que trouxeram para o setor foram: a pólvora, amalgamação por mercúrio, ventilação no interior das minas, transporte do minério por vagonetes e caçambas movidas por roda d’água, redução do minério por pilões movidos por força hidráulica.


Na  segunda metade  do século 19, devido o sucesso da Morro Velho, oito novas companhias inglesas são formadas na Inglaterra, mas apenas duas tiveram sucesso comercial e aconteceram casos de companhias organizadas apenas com a intenção de enganar o investidor.


A  atividade mineradora  contribuiu para movimentar a economia local, pois, para sustentar as atividades, eram necessários: madeira para escoramento, carvão, pólvora, tecido de algodão, óleo e velas para a iluminação, couro, tijolos, lenha, cal, sabão, alimentos e  instrumentos como ferragens, brocas, cravos, cabeças de pilão, fornecidos pela fundição dirigida por Jean Monlevade, que foi a mais bem sucedida fábrica de ferro durante o período. A fábrica começou a funcionar em 1827, no Distrito de São Miguel do Piracicaba, então pertencente ao município de Santa Bárbara


O Brasil foi o maior produtor mundial de ouro durante o século 18, com a soma de 60% do ouro minerado no mundo. No século 19, perde a posição pelas  descobertas das minas na Califórnia, Austrália, África do Sul e Alasca. De 1801 a 1850 a produção brasileira foi de 18,6% da produção mundial e de 1851 a  1900 caiu para 1,6%.


John Mawe, John Luccock, Martius, Spix, Pohl, Sir Richard Burton, Saint-Hilaire são alguns dos viajantes estrangeiros que passaram por arraiais, vilas e cidades de  Minas Gerais no século 19. Registraram suas impressões em fantásticos relatos que são hoje preciosos documentos sobre diversos aspectos da  vida na Província. É importante lembrar que durante o período colonial os estrangeiros não tinham permissão de visitar o Brasil.  


Em 1888 Minas Gerais alncançou a marca de 3.040.627 habitantes.


Ainda temos de citar a criação da Escola de Farmácia e da Escola de Minas, na então capital da Província, Ouro Preto.

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