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Carta de D. Pedro de Almeida (1719)

“Sobre a sublevação que os negros intentaram fazer a estas Minas.


(...) Verificou-se a minha suspeita com o tempo, porque os negros, não contentes já com roubarem desde os mocambos que tinham em diversas partes e que conservaram sempre; sem embargo do grande cuidado que tenho tido de os extinguir, aspiraram a maior empresa, e ainda que grande, não desproporcionada, se se olhar para a sua multidão, a respeito dos brancos excessiva (...) tendo-se ajustado entre si a maior parte da negraria destas Minas a levantarem-se contra os brancos, trataram de urdir uma sublevação geral induzindo-se uns a outros, e conformando-se todos em partes mui distantes por meio de vários emissários que andavam de umas para outras paragens fazendo esta negociação, e tinham ajustada entre si que a primeira operação dela fosse em quinta-feira de endoenças deste ano, porque achando-se todos os homens brancos ocupados nas Igrejas, tinham tempo para arrombar as casas, tirar as armas delas e investir os brancos, e degolando-os sem remissão alguma.


Alguns dias antes da Semana Santa tiveram os ditos negros diferenças sobre o domínio que pretendiam os de uma nação sobre as mais, e veio a romper-se o segredo na comarca do Rio das Mortes de onde tive aviso desta sublevação com a notícia de terem já os negros da dita comarca nomeado entre si, Rei, Príncipe, e os oficiais militares, e quando eu me persuadia a que poderia isto ser alguma ridicularia de negros, me chegou outro aviso de uma paragem chamada o Forquim, termo desta Vila (...) Sabendo que no morro do Ouro Preto havia também suspeita e que os negros tratavam na mesma matéria, por ser parte onde mineram três para quatro mil negros mui resolutos e por isto era onde se receava maior perigo, passei a Vila Rica e fiz subir duas companhias ao dito morro para dar busca às armas., porém não se acharam, ou por não as haver, ou porque estivessem escondidas em partes ocultas e subterrâneas em que os negros vivem no dito morro(...) Como todas estas prevenções que fizeram antecipadas ao tempo em que os negros determinavam a executar a sua tenção, desbarataram-se-lhes as medidas, e com a prisão de muitos negros e negras culpados e castigos de outros, e se foi extinguindo a sedição, e tornou este país ao sossego em que estava, porém como aos que ficam-se-lhes não podem tirar os pensamentos e os desejos naturais de liberdade (...) sempre este fica exposto a suceder-lhe cada dia o mesmo, porque esta não é a primeira sublevação que os negros intentam, pois já em tempos passados intentaram por outras vezes pô-la em execução, e como lhes dá ousadia a sua mesma multidão, o pouco número dos brancos a seu respeito, e a confiança que estes fazem deles sem os emendar, as repetidas experiências das sua infidelidade (...) e me parece que sobre esta matéria se deve fazer madura reflexão e que Vossa Majestade mande considerar a sua importância e juntamente os meios que poderão aplicar-se para o futuro (...) Vila do Carmo, 20 de abril de 1719. Conde D. Pedro de Almeida”.


Fonte: CAMPOLINA, A.M.P. Escravidão em Minas Gerais.Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura-Arquivo Público Mineiro.1988.

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