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Sabará

Poetas e Sabará

A Aníbal M. Machado

                                                                              Carlos Drummond de Andrade

 

A dois passos da cidade importante
a cidadezinha está calada, entrevada.
(Atrás daquele morro, com vergonha do trem.)
Só as igrejas
só as torres pontudas das igrejas
não brincam de esconder.


O Rio das Velhas lambe as casas velhas,
casas encardidas onde há velhas nas janelas.
Ruas em pé
pé-de-moleque
Penção de Juaquina Agulha
Quem não subir direito toma vaia...
Bem-feito!


Eu fico cá embaixo
maginando na ponte moderna - moderna por quê?
A água que corre
já viu o Borba.
Não a que corre,
mas a que não pára nunca
de correr.


Ai tempo!
Nem é bom pensar nessas coisas mortas, muito mortas.
Os séculos cheiram a mofo
e a história é cheia de teias de aranha.
Na água suja, barrenta, a canoa deixa um sulco logo apagado.
Quede os bandeirantes?
O Borba sumiu,
Dona Maria Pimenta morreu.


Mas tudo tudo é inexoravelmente colonial:
bancos janelas fachaduras lampiões.
O casario alastra-se na cacunda dos morros,
rebanho dócil pastoreado por igrejas:

a do Carmo - que é toda de pedra,
a Matriz - que é toda de ouro.
Sabará veste com orgulho seus andrajos...
Faz muito bem, cidade teimosa!


Nem Siderúrgica nem Central nem roda manhosa de forde
sacode a modorra de Sabará-buçu.


Pernas morenas de lavadeiras,
tão musculosas que parece foi o Aleijadinho que as esculpiu,
palpitam na água cansada.


O presente vem de mansinho
de repente dá um salto:
cartaz de cinema com fita americana.


E o trem bufando na ponte preta
é um bicho comendo as casas velhas.


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