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Carnaval a Cavalo

© Acervo/Prefeitura de Bonfim Bonfim - Carnaval a Cavalo - Acervo/Prefeitura de Bonfim Carnaval a Cavalo

Não há manifestação que represente melhor o povo de Bonfim do que sua maior festa, o Carnaval a Cavalo. Segundo o historiador Antônio de Paiva Moura, essa festa teve início em 1840, um ano após a criação do município. Padre Chiquinho, vindo de Portugal, introduziu as cavalhadas na vila da Rocinha, primeiro nome da cidade, numa tentativa de conquistar o povo daquela terra. O folguedo seguiu a formação de 24 cavaleiros, doze mouros e doze cristãos, a formação francesa de Carlos Magno. Os cristãos sempre ganhavam, e os mouros eram convertidos ao cristianismo.


Conta-se que um bispo proibiu a realização das cavalhadas. Revoltados com a decisão, os cavaleiros bonfinenses continuaram a realizar a festa, sem o consentimento da Igreja Católica. Esse foi um ponto crucial para que as características da cavalhada se modificassem e se transformassem no Carnaval a Cavalo de hoje. A batalha entre mouros e cristãos ficou para trás.


Ninguém mais representava o céu ou o inferno. Diferentemente das fantasias azuis dos cristãos e vermelhas dos mouros, os cavaleiros passaram a correr com fantasias de todas as cores. Usavam também uma máscara de arame fino, que escondia o rosto do cavaleiro. Essa proteção justificava-se para que os corredores não fossem identificados, uma vez que a cavalhada estava proibida. Hoje são usadas pequenas máscaras chamadas dominós, que cobrem apenas os olhos.


As fantasias eram feitas em segredo para que não se descobrisse quem participava da festa proibida. Ricamente bordadas com contas e miçangas, as fantasias são de veludo, assim como o chapéu, ornamentado com penas. Os animais de raça eram emprestados e trocados, também para que não se identificasse o folião. Os cavalos ainda hoje são enfeitados com rosas feitas de papel de seda. Elas são colocadas na cauda, na testa, na cabeça do animal e no peitoral, no qual também vão os guizos. As crianças, que hoje correm em grande número, puderam participar do Carnaval bem antes das mulheres. As amazonas só aparecerem após a metade do século 20, enquanto os pequenos meninos já corriam desde o início dos anos 1900.


Como a festa se tornou pagã, os sinos já não anunciavam mais a chegada dos cavaleiros na praça. A comunicação era feita através de foguetes: o primeiro foguete avisava aos cavaleiros para pegar os cavalos. O segundo era para lavar os animais. O terceiro, era hora de arriar os cavalos. O quarto indicava que era hora do encontro dos cavaleiros na Rua Nova, de onde saíam para conquistar a cidade. Ao chegarem à praça principal, eram recebidos com muitos fogos, um pipocar ensurdecedor saudava a chegada do Carnaval a Cavalo. Assim é até hoje.


Faz parte da festa que os cavaleiros conquistem o povo. Para isso, há uma troca entre o público e os corredores. De tudo já foi utilizado nessa “troca”: primeiro, foram os tiros, que foram proibidos por causa de alguns acidentes. Depois foram as “espadas de fogo”, uma espécie de foguete. Também foram substituídas por não serem seguras. Mais tarde foram flores, folhas e galhos de árvores, sucedidos pelos limões de cera, cujo conteúdo era água-de-cheiro. Logo vieram o lança-perfume, o talco, a farinha de trigo, o papel picado até chegar ao confete e à serpentina, "uma extensão das mãos, dos braços e abraços entre os cavaleiros e o povo".


Outra característica que se modificou foram os lenços brancos. Antes eles eram utilizados para demonstrar que os mouros haviam sido dominados. Hoje, eles são um sinal de despedida. São usados no terceiro dia de corrida, na terça-feira de carnaval, após a batalha de confetes, na qual os cavaleiros descem dos cavalos e se juntam ao povo numa confraternização.


O carnaval de Bonfim começa no sábado, com a chegada do enorme Zé Pereira, em cima de seu cavalo, puxado pela escrava Generosa. Conta-se na cidade que as pessoas não tinham calendários, e não sabiam a data do carnaval. Sabiam que a festa começava quando o Zé Pereira chegava à cidade. No outro dia, todos saíam às ruas para festejar.


No domingo é o dia da primeira corrida. Ao som da Havaneira Bonfinense, composta por Orozimbo Parreiras, os cavaleiros adentram a praça da matriz, entregam a bandeira do Clube Carnavalesco do Carnaval a Cavalo para as autoridades e para a Corporação Musical Padres Trigueiros, que também é responsável pelas marchinhas e pelos dobrados durante a corrida. Os cavaleiros e as amazonas saem em desfile, jogando serpentinas no povo.


No último dia, depois da batalha de confetes, eles sobem mais uma vez nos cavalos, amaram os lenços brancos com o companheiro do lado e partem para a parte final do desfile. O momento é de grande emoção, tanto para o público quanto para os cavaleiros, chegando muitos a ficar com os olhos embargados. Eles desamarram os nós e agitam o lenço, despedindo-se da população. A bandeira é recolhida, os cavaleiros e as amazonas dão mais uma volta e vão embora, mas deixam o recado de que, no próximo ano, estarão de volta para novamente tomar a cidade e reconquistar os bonfinenses e os visitantes.

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