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Chapada do Norte

Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Chapada do Norte


                                                                                                                                Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico


A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Chapada do Norte ocorre, há mais de 200 anos, na pequena cidade do Vale do Jequitinhonha e tem por origem as homenagens prestadas à Virgem do Rosário pela irmandade de mesmo nome. A celebração engloba variados elementos das culturas mineira e brasileira como os ritos católicos das novenas e das procissões, aliados aos elementos da cultura popular, o Auto de Cristãos e Mouros e o erguimento de Mastro Votivo, bem como as heranças africanas dos tambores e da congada.


A festa é o momento da fé, da religiosidade, da comunhão, do divertimento e da alegria; é também o momento de reencontro dos que moram longe, em outras cidades e estados, e que voltam à Chapada, justamente nesse período, para encontrar parentes e amigos.


Toda essa mobilização resulta na Festa de Nossa Senhora do Rosário de Chapada do Norte, que, da Quinta-Feira do Angu até a Missa da Posse, na segunda-feira seguinte, movimenta o Vale do Jequitinhonha. Contudo, os preparativos para a celebração acontecem muitos meses antes, e praticamente durante todo o ano se vive a festa.


A Festa de Nossa Senhora do Rosário, como tantas outras que ocorrem pelo interior de Minas Gerais e do Brasil, também tem sua ascendência na cultura afro-brasileira e na história de resistência dessa população. Os valores próprios do sincretismo religioso da oralidade, da culinária, da musicalidade são os elos próprios das populações escravas negras, que foram fundamentais na história da formação das Minas Gerais.


Apesar de distante e isolada, a cidade de Chapada do Norte e os festejos de Nossa Senhora do Rosário chamaram a atenção de diversos estudiosos desde a década de 1980. Nos últimos anos, a festa tornou-se objeto de estudo do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), que instaurou o processo de registro, com o intuito de compreender, reconhecer e difundi-la como bem cultural mineiro.


A Festa

O evento tem início numa sexta-feira, primeiro dia da novena. Os irmãos se reúnem em frente à Igreja do Rosário, e, exatamente ao meio-dia, a Banda de Música inicia sua apresentação, enquanto o sino é badalado fervorosamente. Nesse momento, acontece a queima de fogos.


Existe um segundo meio-dia, no último dia de novena. Segundo os fiéis, esse meio-dia marca o fim dos preparativos e anuncia o ápice da Festa de Nossa Senhora do Rosário.


Novenas
O período festivo é marcado pela celebração da novena, espécie de preparação espiritual para a festa. A novena, em geral, é coordenada por pessoas de destaque em Chapada do Norte, e cada uma das celebrações é assumida por diferentes grupos da comunidade - a primeira noite de novena é de responsabilidade da Irmandade do Rosário; nas demais noites, o coordenador convida grupos católicos dos distritos municipais, grupos da própria paróquia ou ainda instituições civis (Escola Estadual Monsenhor Mendes, Sindicato dos Produtores Rurais). Todas essas celebrações ocorrem no interior da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.


Leilões
São eventos de grande importância, que ocorrem durante cinco noites, após a celebração da novena. O Leilão consiste na comercialização de prendas, artigos culinários e pequenos objetos doados por irmãos e outras pessoas da comunidade, arrematados pelo melhor lance. A preparação de pratos e demais prendas exige trabalho intenso de vários ajudantes e trabalhadores pagos.


Contrata-se um leiloeiro para coordenar as atividades e animar o evento. O Leilão é sempre acompanhado por músicas, executadas por membros da Banda Filarmônica Santa Cruz, violeiros, forrozeiros, entre outros.


Os Leilões são fundamentais, já que é por meio deles que os festeiros arrecadam fundos para custear parte dos gastos da organização da Festa do Rosário e ainda obtêm algum lucro, que será distribuído entre a Irmandade e a Paróquia.


Lavagem da igreja

Na manhã de quinta-feira, durante a realização da novena, um grupo formado majoritariamente por mulheres - várias delas oriundas das áreas rurais do município, devotas e pagadoras de promessas - reúne-se para limpar a Igreja do Rosário.


Primeiro o grupo dirige-se à casa dos festeiros para buscar as coroas e os cetros, que serão limpos juntamente com os objetos litúrgicos. Ao chegarem à igreja, algumas pessoas munidas de baldes, garrafas e vasilhas de plástico, dirigem-se ao Rio Capivari, para buscar água que será utilizada na limpeza.
Durante todo o trajeto, os fiéis entoam cantos religiosos e fazem orações.


Enquanto algumas pessoas varrem e enceram o interior da igreja, outras se dedicam à limpeza do adro, servindo-se de vassouras improvisadas de galhos e ramos. São montados pequenos fogareiros, com lenha, para esquentar a água em tachos, onde serão mergulhados os objetos de culto. Esses objetos são polidos e permanecem temporariamente expostos, fora da igreja, até secarem.


Terminado o trabalho, no final da tarde, o grupo, acompanhado por grande número de devotos e precedido pelo tambor, dirige-se à casa do Rei-Festeiro, para que se faça a devolução da coroa e do cetro. Em seguida, todos se dirigem à casa da Rainha-Festeira. Ao chegarem lá, dá-se início à distribuição do angu.


Quinta do angu
No momento em que os trabalhadores da lavagem da igreja chegam à casa da Rainha Festeira, um grande número de pessoas já os aguarda. A rainha inicia, então, a distribuição de uma refeição coletiva, que consiste em angu de fubá de milho, acompanhado por molhos diversos - de feijão, abóbora, quiabo, fava, acrescidos de carne de boi, porco ou frango. São servidos também licores de figo, abacaxi e, às vezes, de jenipapo.


A preparação do angu exige grande quantidade de cozinheiros e ajudantes. Alguns deles remunerados, mas a maior parte é de devotos da Virgem do Rosário e pagadores de promessas, que trabalham no quintal da casa da festeira, desde o amanhecer da quinta-feira - picando carnes e legumes, construindo pequenos fogões, preparando o angu, etc. Depois de pronto, o angu é exposto e servido na frente da casa.


Simbolicamente, a refeição é oferecida aos que trabalharam na lavagem da igreja. Entretanto, o angu é servido com fartura a toda e qualquer pessoa que se represente.


Buscada da Santa
No último dia de novena, na manhã de sábado, os fiéis encenam, de acordo com a tradição, a aparição da Virgem do Rosário - uma adaptação local da narrativa recorrente em todo o estado.


Em Chapada do Norte, conta-se que a imagem de Nossa Senhora do Rosário teria sido encontrada no córrego que leva hoje seu nome. De acordo com a história, os brancos teriam levado a santa para o altar, ao som da Banda de Música, mas ela voltou para o local onde tinha sido encontrada. Quando os negros buscaram a santa, ao som de seus tambores, e puseram-na novamente no altar, ela deixou-se ficar.


Em Chapada existem duas imagens da Virgem - nos festejos, a imagem menor de Nossa Senhora do Rosário é guardada previamente em uma pequena lapa de alvenaria, às margens do córrego. Em seguida, os irmãos do Rosário, acompanhados pelo tambor, pela Congada da Misericórdia e por grande número de fiéis, dirigem-se em cortejo ao local a fim de resgatar a santa e levá-la de volta à Igreja do Rosário.


Ao longo da caminhada, irmãos e devotos revezam-se na condução da imagem, enquanto a multidão reza, canta e dança ao som dos batuques.


Mastro a cavalo
Realizado na noite de sábado, após a última celebração da novena, o mastro a cavalo é considerado por muitos como o apogeu da Festa de Nossa Senhora do Rosário.


O evento consiste no levantamento do mastro com a bandeira de Nossa Senhora do Rosário, que ocorre após a encenação da versão local do auto de Cristãos-e-Mouros.


Antes de dar início à encenação, dois grupos distintos de cavaleiros reúnem-se em frente à Igreja do Rosário: cristãos de azul, mouros de vermelho. Todos se encontram montados em cavalos, também adornados com as cores de seus donos, com exceção do rei cristão, que participa de todo o auto a pé.


O motivo da disputa entre os grupos é a imagem da Virgem do Rosário (bandeira), que teria sido roubada pelos mouros. Assiste-se ao diálogo entre embaixadores e reis, seguido por manobras equestres e entrechocar de espadas. Ao final, acompanhados pelo toque de tambores, os mouros convertidos - graças ao poder e a glória da Virgem do Rosário - juntam-se aos cristãos em uma coluna de homens que ergue o mastro com a bandeira da santa.


Encerra-se a representação com um espetáculo pirotécnico, enquanto os participantes, em seus cavalos, realizam uma corrida em torno da Igreja.


Reinado
Em Chapada do Norte denomina-se "reinado" as caminhadas e os cortejos que conduzem os reis festeiros, por diversas ruas da cidade, aos eventos da festa.


Os reis, trajados representativamente, são buscados em sua residência por um número elevado de pessoas, que forma seu séquito: o Caixa¹, o Corta-Vento², o Pontão³, a Bandeira4, além dos tamborzeiros.


Durante a caminhada, os reis ocupam posição de destaque, precedidos por crianças vestidas de forma representativa. O cortejo do reinado conta ainda com a participação da Banda de Música e da Congada da Misericórdia, além dos devotos e dos irmãos do Rosário, que vão atrás dos reis - completando sua corte.


São dois os Reinados da Festa do Rosário: o reinado de domingo, que leva os dois reis-festeiros para a missa. No reinado da segunda-feira, os "reis velhos", que promoveram a festa naquele ano, e os eleitos "reis novos", que coordenarão a festa do ano seguinte, são levados até a igreja para a abertura do cofre e o recolhimento de anuais.


Missa da Festa
A missa do domingo, após a novena, é a mais importante da Festa do Rosário e também de realização obrigatória. É, por tais motivos, denominada Missa da Festa.


Seguindo os moldes da liturgia canônica da Igreja Católica, a missa pode ser conduzida pelo pároco local, ou mesmo por um padre ou bispo especialmente convidado. Na igreja, os festeiros, o rei e a rainha ocupam lugar de honra durante a celebração - dois tronos postos à lateral do celebrante, próximos ao altar-mor.


Distribuição do doce
No domingo à tarde, em frente à casa do festeiro, é promovida a distribuição dos doces. As crianças formam a maior parte do público, mas os doces são servidos, fartamente, a todos os presentes.


É comum as pessoas irem à distribuição munidas de vasilhas e outros recipientes, para transportar quantidade maior de doces para sua residência. São servidos doces variados, especialmente de mamão, fava, batata-doce, laranja e cidra.


Os doces são preparados por trabalhadores voluntários-devotos e pagadores de promessa - e também por cozinheiros remunerados, que iniciam o preparo com várias semanas de antecedência.


Coroação
Ao final da tarde de domingo, após percorrem diversas ruas, os devotos em procissão retornam ao Largo do Rosário para a coroação de Nossa Senhora.
Em frente à igreja, encontra-se montado um palco, sobre o qual está a imagem da Virgem do Rosário - a imagem maior, que ocupa o retábulo-mor e só é retirada dali para esse evento. Várias meninas, de diferentes idades, vestidas de anjo, cantam hinos e coroam Nossa Senhora, segundo a tradição católica.
A coroação é o último evento religioso do "Domingo da Festa".


Busca do cofre / recolhimento de anuais
Na segunda-feira pela manhã, os festeiros atuais, chamados reis velhos, e os festeiros eleitos, os reis novos, são buscados em sua residência e levados em cortejo de reinado para a Igreja do Rosário, onde são aguardados pelos membros da Mesa Diretora da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.


Antes de iniciar a contabilidade dos lucros da festa e os Anuais da Irmandade, um grupo de irmãos, escoltado pelo Caixa, pelo Corta-Vento, pelo Pontão e pelo Bandeira, dirige-se à casa do tesoureiro para buscar o Cofre da Irmandade e levá-lo à igreja, onde são aguardados pelos reis e pela Mesa Diretora.


Ao retornarem, o cofre é aberto na presença de todos os reis e dos irmãos, e é realizada a prestação de contas do último exercício financeiro. Findada a etapa, dá-se início ao recebimento dos anuais - pagamento da quantia anual efetuado por cada irmão do Rosário - e doação de esmolas. O Caixa permanece à porta da Igreja do Rosário e anuncia, batendo na caixa, com número de toques equivalentes à soma recebida em dinheiro.


Essa atividade prolonga-se por todo o dia, e somente ao fim da tarde, na presença dos irmãos e de grande número de pessoas, é anunciada a arrecadação total.


A Igreja do Rosário é, então, reorganizada para a celebração da missa e da Cerimônia de Posse dos Novos Festeiros.


Divertimento noturno
A partir da quinta-feira da Festa (Quinta do Angu), ocorre uma programação de shows e variados espetáculos noturnos promovidos pela Prefeitura, que se inicia findados os eventos religiosos.


São contratos músicos de expressão nacional, que se apresentam em um palco montado na Praça da Igreja Matriz de Santa Cruz. É montado nesse local grande número de barraquinhas de comidas e bebidas, por onde circulam número expressivo de pessoas.


Existem ainda, em outros pontos da cidade, locais de divertimento, como o forró no Mercado da cidade, um parque de diversão, entre outros.


Feira de Mascates
Os primeiros mascates chegam à cidade aproximadamente 15 dias antes do período festivo e instalam suas barracas livremente. Nos dias que antecedem à festa, a Prefeitura realiza a demarcação dos locais licenciados para a feira.


Durante a festa, além de ocupar os espaços delimitados, os mascates organizam-se de acordo com o produto ou o serviço que comercializam. O número de mascates aumenta consideravelmente a partir da quinta-feira da festa (Quinta do Angu), quando as ruas da cidade ficam tomadas por barracas dos mais variados produtos - peças de vestuário ou roupas de cama, mesa e banho, sapatos, bijuterias, utensílios de cozinha, panelas, tachos, colheres de pau, objetos decorativos e artesanato.


Recentemente observou-se o surgimento de setores dedicados ao comércio de eletrônicos, MP3 players, pequenos receptores de rádio, câmeras fotográficas, acessórios para telefones celulares e mídias, CDs, DVDs, pen drives, entre outros. Há também prestadores de serviço, pessoas que consertam panelas de pressão e amolam facas e tesouras, etc.


Tamborzeiros
Os tamborzeiros apresentam-se apenas na Festa do Rosário e participam praticamente de todos os eventos em que há algum tipo de cortejo ou acompanhamento, ocupando lugar de destaque, adiante dos demais componentes. Eles são responsáveis por definir alguns trajetos e determinar o ritmo dos cortejos.


O tambor é composto de um número restrito de homens, em geral de cinco a dez, que batem os tambores - instrumentos rústicos, de três tamanhos diferentes, formados por pedaços de troncos ocados, cobertos em uma das aberturas por couro esticado de animal.


O grupo possui divisões e hierarquia. O capitão do tambor é responsável por liderar os demais tamborzeiros, escolhendo o repertório e dirigindo o grupo. A participação no tambor é condicionada à aceitação do pretendente pelos atuais participantes.


Além dos tamborzeiros, acompanham o grupo alguns homens e mulheres que dançam e cantam as músicas que são jogadas no tambor - alguns deles equilibram garrafas na cabeça enquanto dançam. Crianças participam, manejando instrumentos menores. Entretanto, nem todos os participantes da roda do tambor são tamborzeiros, porque é necessário ser reconhecido e aceito pelo grupo.


Os tamborzeiros chamam de "brincar o tambor" aquilo que fazem na festa, conduzir os cortejos tocando, cantando e consumindo bebidas alcoólicas, em geral, cachaça e licores.


Congada
Em meados da década de 1980, pesquisadores de Campinas chegaram à Chapada do Norte em busca de manifestações artísticas de cultura popular. Orientados pelo pároco local, visitaram a comunidade rural de Córrego da Misericórdia, cujos moradores mantinham tradições de cantigas e danças.


Esses moradores, que dançavam e cantavam em situações cotidianas, não atribuíam às suas danças o nome Congada. Assim denominados pelos pesquisadores, os congadeiros iniciaram apresentações públicas, sendo a mais importante a participação na Festa do Rosário.


Registrado em cartório de Minas Novas como Associação Beneficente Congado de Córrego da Misericórdia, o grupo contava, inicialmente, com cerca de 50 pessoas - a maioria da mesma família e moradores de Misericórdia. A Congada era liderada por Eva Alves Machado Luis, a Eva Congadeira, que faleceu em 2010. Atualmente, há a participação de novos integrantes, moradores da sede de Chapada.


As mulheres são maioria, ficando a cargo delas as cantigas e as danças. Aos homens compete o timbre grave dessas cantigas, além de ditar o ritmo com instrumentos musicais.


A Congada da Chapada do Norte, bastante reconhecida no cenário cultural, participa de inúmeros festivais, festas e eventos ligados à cultura e já foi tema de matérias em jornais e de vários estudos.


Finalizados os festejos, os novos festeiros, recém-empossados, retomam o ciclo de preparação para a festa do ano seguinte. E a população inicia os trabalhos, que findarão em uma Festa do Rosário.


Notas
¹ O Caixa é aquele que toca o instrumento caixa, um tambor, durante a Festa do Rosário.
² Corta-Vento é um agente, em vestes militares, que faz movimentos com uma espada, cortando o ar e afastando o mal.
³ Pontão é aquele que carrega uma vara e vai à frente do cortejo, e com ela realiza movimentos com o intuito de eliminar o mal e proteger os reis festeiros.
4 O bandeira é aquele que carrega o mastro com a bandeira da Irmandade, durante os cortejos.

 

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