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Breves considerações sobre a atividade Tropeira - (SxM)

1. Apresentação
O presente relato vem de encontro ao objetivo previsto  no item 2-4 do Projeto Expedição Spix & Martius - 1999,  idealizado pela FUNIVALE, qual seja, à  medida em que avança a expedição, os pesquisadores estarão coletando informações, investigando, reportando, entrevistando, registrado em áudio, vídeo e fotografia, a expedição propriamente dita bem como sobre a cultura tropeira e esta atividade enquanto produto ecoturístico; e sobre os aspectos sócio-econômico-ambientais comparados à época da Expedição original empreendida por Spix & Martius  entre 1817 e 1820.


Foi conduzida uma série de entrevistas com  tropeiros, mulheres de tropeiros, filhos de tropeiros e gente comum dos lugares por onde a Expedição passou. Grande parte dos tropeiros entrevistados possuíam idade avançada, vários à beira dos noventa e dos cem anos.


As entrevistas não obedeceram a uma metodologia rígida, mas buscou-se um mínimo de rigor científico. Com isso, foi possível visualizar um panorama da atividade tropeira, identificando-se  caminhos a serem perseguidos no aprofundamento da pesquisa sobre essa atividade no eixo Ouro Preto – Diamantina.

           
2. Considerações iniciais

Necessário se faz definir o “tropeiro”. Vejamos a definição proposta pelo nosso dicionarista Aurélio Buarque de Holanda:[1][1]


Tropeiro. S. m. 1. Bras. Condutor de tropa (6); arrieiro. 2. Bras. RS. Indivíduo que compra e vende tropas de gado, de mulas ou de éguas. 3. Bras. V. vivió. 


Complementando a definição, o dicionário define “tropa” como  “caravana  de animais eqüídeos, especialmente os de carga” (ibidem). Na literatura e na prática observa-se que o tropeiro era o indivíduo, geralmente dono dos animais, ou encarregado de conduzir a tropa, composta sobretudo de animais cargueiros (mulas e burros). Não obstante, registramos menção a “comboieiros”, “muladeiros”, “carreiros”, “tocadores” no que concerne à  atividade relacionada aos tropeiros.


Embora ainda se encontrem tropeiros, já não é muito comum encontrar tropas circulando. Uma tropa podia ter de um a vários  lotes de animais (um lote eqüivale a  10 ou  13 animais dependendo da região).


Uma certa dose de intuição e sorte guiou as entrevistas com os tropeiros e demais envolvidos. Os tropeiros entrevistados, residentes ao longo do trajeto da Expedição, além de terem guiado tropas para lugares distantes, muitos circularam também regionalmente, dentro de um raio de no máximo 100 kms. de onde viviam. Em qualquer caso, os tropeiros mais antigos relatam o intercâmbio com tropeiros que vinham de muito longe, como Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. 


Nos ranchos onde o pouso era parte da tradição, ouvia-se todo tipo de estórias, fazendo do tropeiro uma fonte e um difusor de informações e notícias, produto tão valorizado quanto o toicinho e a aguardente que geralmente transportavam. 


Até a virada deste século, as estradas dividiam seu espaço com tropas de cargueiros, carros de boi e carruagens que circulavam em jornadas de toda duração. Com a implantação das ferrovias, as longas jornadas passaram a não se justificar em virtude da chegada do trem a cada vez mais destinos. Com o gradativo aparecimento do transporte automotor, o tropeiro diminui ainda mais seu espectro de circulação. As longas jornadas fazem parte do passado. Assim, até a década de 50, ferrovias e caminhões vão roubando do tropeiro a atividade do transporte de gêneros por todo canto do país. A atividade fica cada vez mais localizada. A partir da década de 50, com a abertura intensa de estradas e instalação do parque automobilístico brasileiro, a atividade tropeira declina de vez, selando sua entrada no folclore nacional. 


Declinada a atividade tropeira das longas jornadas, que levavam semanas e meses, e que faziam do tropeiro um errante das estradas, restou uma atividade mais regionalizada, com jornadas de alguns dias apenas, geralmente ligando o povoado, vila ou sede do município a outros municípios por estradas precárias e em que normalmente não passavam veículos automotores. As maiores distâncias percorridas pelos tropeiros eram aquelas que chegavam,  por exemplo, a uma estação  ferroviária. Tal sorte permitia a chegada e o despacho de mercadorias com mais eficiência, situação que perpetuou a sobrevivência da atividade por mais algum tempo.  


Essa situação de declínio perdura até os dias de hoje. Quanto mais remota e distante da capital mineira e do centros regionais, mais vivo encontra-se o tropeiro. No alto Jequitinhonha, até o final da década de 80, ainda chegavam tropeiros em Diamantina, para negociar suas mercadorias. Atualmente, é possível observar tropas circulando, situação que é  cada vez mais rara, transportando produtos cada vez mais localizados. Por exemplo, entre as roças e a sede da fazenda (ou, no máximo, à sede da vila ou do município). Para tal, não eram (ou são)  utilizados muitos animais, como os lotes (10 a 13 animais) em jornadas mais longas, mas apenas 1, 2 ou 3 animais na lida diária. A indumentária, contudo, segue a mesma tradição, com as cangalhas que sustentam  balaios, jacás e bruacas. Foi-nos possível flagrar, ao longo da Expedição, o transporte de cana-de-açúcar, capim, lenha, mandioca e milho.  



É importante destacar que a atividade tropeira foi e segue sendo, nos locais em que sobrevive, uma atividade essencialmente masculina; assim, não encontramos referências a mulheres “tropeiras”. Quando muito, as mulheres eram passageiras nas tropas. 


3. A atividade tropeira

Após as primeiras entrevistas, foi possível identificar características comuns à realidade tropeira do vale do Rio das Velhas, características essas, que se estenderam  até a travessia da BR 262. Na porção norte do caminho após a BR 262, foram percebidas outras características, que seguiram desta parte do caminho até o município de Morro do Pilar, já no alto da serra do Espinhaço. De Morro do Pilar adiante, a atividade tropeira amplia seu universo, demonstrando características bastante diversas das encontradas até então. Diante desse fato, e por uma questão didática, proceder-se-á à análise do percurso em três blocos: (i) Ouro Preto – BR 262; (ii) BR 262 – Morro do Pilar; e (iii) Morro do Pilar – Diamantina.



3.1.  Ouro Preto – BR 262

Entre Ouro Preto e a BR 262 (primeiro bloco), boa parte das informações levantadas apontam um fluxo de tropas carregadas de lenha e carvão, pelas décadas de 40, 50 e 60, produtos esses largamente utilizados nos fornos da emergente indústria siderúrgica mineira, situação que caracterizou esta região. O carvão, principal combustível utilizado nas  siderúrgicas, garantiu trabalho aos tropeiros, sobretudo na  região da bacia do Rio das Velhas, destacando os municípios de Itabirito e Barão de Cocais como principal destino deste  produto. 


Não obstante, alguns relatos confirmam que,  no começo do século, ainda  passavam  por este trecho  cargueiros com mercadorias diversas,   provenientes de lugares distantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo. 



3.2.  BR 262 – Morro do Pilar

Segundo informações coletadas, a estrada que liga a BR 262 a Ipoema e Sra. do Carmo foi aberta na década de 50 pela siderurgia de Barão de Cocais, com o objetivo de retirar lenha e carvão. Contudo, o transporte já privilegiava o caminhão. O tropeiro transportava a lenha e o carvão somente até o ponto onde os caminhões poderiam carregar.


Salvo o carvão, que foi uma atividade existente por algumas décadas, neste bloco os tropeiros se relacionavam muito mais com Itabira e sobretudo Santa Bárbara, onde chegava o trem. O principal produto transportado com sentido à estação ferroviária eram os produtos da roça, como banana, farinha, toicinho, feijão, milho, café, aguardente etc. e, no sentido inverso, sal, ferramentas, tecidos, ferraduras etc.


No município de Itabira e, em particular, na região dos distritos de Ipoema e Senhora do Carmo, a memória tropeira está bem viva, tendo a Expedição estimulado a criação de um   memorial da cultura tropeira, que deverá se localizar em Ipoema. Tal idéia partiu do Departamento de Turismo da Prefeitura, com ampla receptividade da comunidade, tendo sido igualmente bem recebida pelo chefe do executivo municipal.


Nessa região, complementando, ficou bem caracterizada a atividade dos tocadores de gado e dos “muladeiros”. Aqueles se dedicavam a levar gado para os frigoríficos localizados em Belo Horizonte, em jornadas não muito longas. Estes eram tropeiros que se dedicavam a circular as roças, comprando burros e mulas. Uma vez que se juntaram de 250 a 300 animais, esses eram tocados até o interior de São Paulo, em viagens que levavam 30 a 40 dias. Lá, os animais eram vendidos para tração nas fazendas de café e na emergente indústria paulista. 


Vários tropeiros entrevistados foram muladeiros ou costumavam abastecer com burros e mulas os muladeiros que por lá se apresentavam,  transformando os animais em ativo bastante valorizado. Pelas informações obtidas, milhares e milhares de burros e mulas teriam partido de região de Ipoema e Sra. do Carmo, no primeiro quartel deste século, tornando a região um exportador de muares. 


Os entrevistados confirmaram ter sido tal atividade bastante lucrativa e de fácil desempenho, uma vez que, sem carga, os animais viajavam mais rápido. Nos primeiros dias de viagem, os animais eram inquietos, pois haviam sido juntados há pouco, sem tempo para se acostumarem entre si. Na segunda semana, os animais já estavam mais tranqüilos, e a viagem rendia até 7 léguas num dia (40 kms).


Em Senhora do Carmo, a Expedição recebeu a cópia de uma caderneta de anotações do tropeiro João Martins da Costa. Este tropeiro radicou-se na região, relatando sua atividade comercial entre os anos de 1860 e 1870. Tal documento foi encontrado casualmente pelo agrônomo Carlos Humberto de Oliveira Cruz, sexta geração de descendentes do Sr. João Martins Costa. Entre as informações relatadas na caderneta, encontram-se os gêneros transportados e os locais a que se destinavam, os preços praticados na época e para quem se transportavam as mercadorias. Naquela época, pelo que se extrai do documento citado, escravos eram transportados em tropas e entregues aos fregueses, geralmente fazendeiros. 


3.3.  Morro do Pilar – Diamantina

Morro do Pilar é um município de importância histórica para Minas e o Brasil, uma vez que ali nasceu a siderurgia nacional no começo do século 19. Antes disso, porém, todo ferro consumido na mineração e, principalmente no distrito diamantino, era importado da Inglaterra, e transportado por tropeiros desde o Rio de Janeiro. Curiosamente, Morro do Pilar era caminho dessas caravanas que transportavam ferro. 


Das entrevistas se extrai somente a memória de um passado que remonta ao início deste século. O principal produto transportado era o café, toicinho e panelas de pedra. Os destinos principais eram Conceição do Mato Dentro e Serro. Raro eram os tropeiros residentes na região, que se aventuraram em viagens mais  longas. 


Ainda é possível observar tropeiros transportando sempre-vivas e botões coletados nos campos, dentre outros.


Nas regiões remotas do Alto Jequitinhonha, a atividade tropeira sobrevive mais intensamente. Esta região deve ser objeto de um aprofundamento na pesquisa. 


4. Conclusão

Os 21 dias da Expedição deixaram uma convicção: há muito por se descobrir sobre os tropeiros. E o pouco descoberto nos revela uma  certeza histórica: o tropeiro foi uma das personagens mais importantes na construção da nação brasileira e, nestes 500 anos de Brasil, tal importância não nos parece ser reconhecida à altura que merecia. 


Assim, as informações obtidas e resumidamente relatadas nos direcionam ao aprofundamento da questão tropeira, sugerindo a continuação da pesquisa como  importante colaboração no resgate da cultura mineira e deste personagem singular, ícone dos caminhos, mensageiro pela  Estrada Real. Selva!

 

Texto de Evandro Bastos Sathler - advogado ambientalista e consultor em Ecoturismo; diretor do Conselho deliberativo da FUNIVALE (Universidade Livre, Experimental e Comunitária do Vale do Jequitinhonha).

 

[2][1] HOLLANDA, A. B. de et alii. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977. 

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© Maria Lucia Dornas Itabira - Distrito de Ipoema - Museu do Tropeiro - Maria Lucia Dornas Museu do Tropeiro