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Spix e Martius, a Estrada Real e a cultura tropeira

Dificilmente Spix e Martius poderiam imaginar, quando escreveram o seu ligeiro relato sobre a viagem entre a majestosa cidade de Ouro Preto e o Arraial do Tijuco [1], que dois séculos depois a sua incursão pelo interior do Brasil estaria registrada em livro e seria base para novas andanças e pesquisas científicas.

Homens práticos de ciência, os dois pesquisadores abordam rapidamente as ocorrências da sua viagem, preferindo se concentrar nas observações científicas e nas impressões sobre as fazendas e povoados que vão encontrando pelo caminho. Diferentemente de Saint-Hilaire, que se esmera em detalhes e gosta de uma boa história, Spix e Martius são rápidos nas impressões. Estavam sem dúvida mais preocupados com a descrição científica das plantas com que deparavam, do que resultará, anos mais tarde, a monumental Flora Brasiliensis, onde são identificadas 20.000 espécies vegetais, das quais 6.000 eram, na ocasião, desconhecidas. Querem, além disto, relatar o que vêem em termos de solo, rios, relevo e extração do ouro, propiciando-nos notas minuciosas sobre estes aspectos do 'remoto país estranho', como chamam o Brasil.


Num tempo em que a ecologia era inexistente, a percepção possível do país é a de um mundo natural 'agreste e sombrio', que se requer seja desbastado pela mão humana. Tudo é grande no Novo Mundo - as matas, os rios, as distâncias e até mesmo os marimbondos, que os dois naturalistas conhecem dolorosamente ao serem atacados por um enxame entre Itambé e o Arraial do Rio do Peixe. Mal podiam imaginar que as assustadoras matas virgens que encontraram seriam no século posterior substituídas por infinitas plantações de eucalipto e pastagens...


Spix e Martius viajaram pelo Brasil entre 1817 e 1820. Não se limitaram ao litoral do Rio de Janeiro e ao relativamente próximo interior mineiro e paulista. Enveredaram pela Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. Chegaram ao Grande Rio em 1819, depois de muitas dificuldades. A mais séria delas foi a esquistossomose contraída por Spix, que teria sido a causa da sua morte na Europa, sete anos depois.


Na viagem entre Ouro Preto e o Arraial do Tijuco, trajeto que nos interessa mais de perto, Spix e Martius utilizaram uma das vias conhecidas como Estrada Real. O caminho por eles tomado é na realidade uma continuação do antigo Caminho Novo, aberto entre 1698 e 1725 para substituir o velho caminho dos bandeirantes. Aberta cerca de um século antes da viagem de Spix e Martius, a via Vila Rica-Arraial do Tijuco representou o elo entre a maior cidade da Capitania das Minas Gerais e os centros de mineração de ouro e diamante da região do Serro e do próprio Tijuco. Rigidamente controlada pela Coroa portuguesa, a rota, pelo seu papel de via de ligação com o Distrito Diamantino, foi uma das estradas reais mais destacadas do interior da colônia.


Um desvio, no entanto, foi escolhido por Spix e Martius. Como já conheciam o trecho que ligava Ouro Preto a Barão de Cocais por Inficionado [2] e Catas Altas, preferiram tomar o outro caminho, que passava, a oeste, por Santo Antônio do Rio Acima, pela Vila Real de Sabará e por Caeté.


Será justamente o fato de que na sua incursão pelo interior de Minas Gerais os pesquisadores bávaros tenham se utilizado parcialmente da antiga via Vila Rica-Arraial do Tijuco que dará o sentido historiográfico da Expedição Spix e Martius. Já no seu nascedouro ela conjuga dois objetivos fundamentais, o de rememorar a viagem científica dos dois naturalistas e o de refazer o caminho por eles trilhado. A exploração científica por eles empreendida e o caminho de que se utilizaram se tornam, assim, inseparáveis.


A via Vila Rica-Arraial do Tijuco foi uma das rotas de circulação dos tropeiros, os 'agentes econômicos', para usar a insípida terminologia contemporânea, que estão entre os principais das etapas colonial e imperial da história do país. Responsáveis pelo transporte de alimentos, ferramentas, manufaturas e produtos importados para a região mineradora e, no sentido inverso, da produção mineral desta região para os portos do litoral, de onde seguia para o Velho Continente, os tropeiros cumprem uma função decisiva na expansão demográfica e econômica do interior. São eles os condutores dos burros, mulas, cavalos e bovinos que carregam pelos caminhos o ouro, as pedras preciosas e os suprimentos para a área da mineração. Os centros distribuidores de animais - Rio Grande de São Pedro [3] e São Paulo - beneficiam-se a tal ponto que, como chega a observar Sérgio Buarque de Holanda, até que se desenvolva na capitania paulista a lavoura da cana, as suas principais fortunas são de propriedade de tropeiros criadores.


A figura do tropeiro das Minas Gerais, no entanto, permanecerá sempre a do homem simples, puxando pelos caminhos os animais de carga, pernoitando nos rústicos ranchos que se desenvolviam à beira das estradas reais, fazendo delas as vias mais freqüentadas do território brasileiro no auge da economia mineradora. 'No dia em que pernoitei no rancho Boa Vista da Pampulha, de que falarei adiante, cento e trinta mulas estavam ali reunidas. Diga-se de passagem que o rancho não é dos maiores da região. Por aí se pode fazer uma idéia da prodigiosa quantidade de burros de carga que deviam estar em marcha em toda a extensão da estrada'. É de Saint-Hilaire o comentário.


A Expedição Spix e Martius reunirá estes dois universos, o da Estrada Real e o da cultura tropeira, para construir a sua atividade e o seu simbolismo.


À frente da equipe virão quase sempre os caminhantes, palmilhando o leito das estradas de terra, dos caminhos e das trilhas que formam o conjunto da Estrada Real. O trajeto não é uniforme - em alguns trechos é uma trilha no meio da mata, em outros já se torna um caminho largo, ladeado por fazendas de gado; na maioria dos casos é a própria estrada de terra, principal ou vicinal, que liga as vilas e cidades.


Em um ou dois gloriosos momentos da Expedição revelam-se trechos até então desconhecidos da Estrada. Foi o caso do 'atalho' que nos indicaram no povoado de Mato Grosso, município do Serro, que nos pouparia uns bons quilômetros na MG-10. Subitamente começam a aparecer no caminho alternativo os sinais de que estamos pisando no leito da estrada antiga - uma belíssima sede de fazenda antiga, base de pedra, paredes de adobe, porão, alpendre e vigas de madeira, quarto externo para viajantes. Mais adiante, pequenas casas rurais, também de aparência secular, um povoado com capela e cruzeiro. A dona de uma destas casinhas, que nos serve água, comenta que viu na televisão a notícia da Expedição e que nunca poderia imaginar que ela passaria por ali. Mal sabe ela que o verdadeiro 'espetáculo' está no local onde mora, felizmente preservado do contato urbano para guardar, ao longo dos séculos, um pedaço da história do antigo caminho dos tropeiros.


Durante as caminhadas diárias, que variaram entre 11 e 34 quilômetros, na primeira mensuração das distâncias, cada caminhante se ajeitou como pôde. Algumas mochilas continham equipamentos para esportes de aventura - rapel [4], canyoning [5] -, outras levavam equipamentos fotográficos e médicos. Alguns optaram por carregar pouco, apenas o básico - a água, uma caderneta de anotações, um canivete. A caminhada em nenhum momento configurou uma atividade de trekking [6] selvagem, em que todas as equipagens e suprimentos necessários têm que ser levados às costas, para os acampamentos improvisados no meio da mata ou nas montanhas. Foi, pode-se dizer, um trekking de resistência, em que um dia de caminhada se sucedia inexoravelmente a outro, sem intervalos [7]. Bolhas nos pés em uns, cansaço muscular em outros, os problemas foram curiosamente poucos.


Paulatinamente foi se construindo a ética do caminhante. Utilizo o termo não no sentido vulgar de preceitos morais, mas como um conjunto de formas de agir, pensar e sentir que configuram uma conduta própria. A determinação de 'vencer' o caminho, a contemplação da paisagem natural e humana ao redor, a tolerância e o companheirismo no interior do grupo e, especialmente, uma constante e saudável interação entre o corpo e o espírito, entre músculos, nervos, cérebro e sensibilidade foram os principais elementos desta ética do caminhante. Sem um deles, arrisco dizer, a caminhada teria fracassado.


Num dos primeiros dias da Expedição o nosso biólogo, Humberto Marques, desce do cavalo e segue a pé. Não mais voltará à cavalgada, pois se convenceu de que a observação científica e a fruição da Natureza são enriquecidas no lento e sereno avanço da caminhada. Passa a identificar aves e plantas e forma, com o poeta Luiz Pucú, uma eficiente e operosa dupla de observadores da Natureza.


Atrás, por vezes separados por horas de cavalgada da equipe dos caminhantes, seguem os cavaleiros. Resgatam um pouco da atividade tropeira do passado trazendo, além dos cavalos em que viajam, burros e mulas que vão nus, sem arreios ou cargas. São símbolos vivos do universo tropeiro, na recriação cênica de Evandro Sathler, o idealizador da Expedição.


E os cavaleiros constróem também a sua ética. Mais do que contemplação e vivência interior, fazem do convívio, da sociabilidade e do caloroso contato humano o seu cotidiano. Na curtição coletiva da cachaça, tão cara às paragens mineiras, e do vinho de jabuticaba, perfazem uma outra vertente da Expedição. Se os caminhantes carregam a granola naturista e os cereais industrializados de Primeiro Mundo, os cavaleiros levam a farofa de carne seca. Carregada em imensas latas de manteiga reutilizadas e comida aos bocados com as mãos, a farofa tropeira constitui um dos elementos mais fortes do universo cultural que se quer reconstituir. Num tempo em que não haviam sistemas de conservação e de cozimento rápido de alimentos, a farofa seca significava uma poderosa e constante fonte nutritiva para os que viajavam pelo interior brasileiro.


Aos cavaleiros pertencia ainda o espaço da festa. Era a sua chegada às vilas e cidades o momento esperado pelas populações locais. Por vezes os moradores se espantavam ao perceber que a Expedição trazia também um grupo de pessoas a pé. Custavam a compreender que se pudesse abrir mão do cavalo e varar quilômetros e quilômetros caminhando sob o sol abrasador. Interagiam de maneira espontânea com os cavaleiros, porque estes, de fato, pertencem ao seu universo real e simbólico. Já para os caminhantes reservavam um olhar inicial desconfiado - são 'loucos', estão 'pagando promessa', são 'pára-quedistas' ou até mesmo 'astronautas', todos estes termos utilizados para designar quem preferiu cumprir a pé os 440 quilômetros da via.


Mas as diferenças se diluíam quando os cavaleiros desciam das montarias e os caminhantes largavam as mochilas. Tornavam-se então uma só equipe, generosamente recebida em incontáveis localidades com jantares rústicos a céu aberto e pousos improvisados em escolas, fazendas e mesmo barracas de campanha do Exército. A chegada da Expedição foi motivo para forrós, marujadas, apresentações de bandas de música, corais e festas.


A esperança das populações, centrada num dos objetivos principais da Expedição, o desenvolvimento de pólos de ecoturismo nas vertentes da Estrada, se revelava quando fazendeiros abriam as portas de suas casas antigas e simples para a equipe, ou quando proprietários de hotéis, pensões e pousadas se apressavam a oferecer gratuitamente as suas instalações para o repouso do grupo. A idéia dos pousos rurais e dos albergues urbanos para ecoturistas constitui-se, ao final da Expedição, numa das efetivas conquistas do projeto.


A passagem da Expedição significou ainda, para as populações locais, um poderoso resgate simbólico. Funcionou como um registro dos valores básicos da vida no campo, nas vilas e nas pequenas cidades do interior mineiro. A hospitalidade, o respeito humano e a tradição, marcas singulares da via Ouro Preto-Diamantina, foram revalorizadas como expressões culturais legítimas e ricas em conteúdo ético.


Em Ipoema a Expedição deixou, no seu rastro, a idéia da criação do Museu do Tropeiro, iniciativa pioneira que terá resultado da exposição de artefatos tropeiros com que a equipe foi recebida na vila. Em São Gonçalo do Rio das Pedras identificou pinturas rupestres até então desconhecidas. Na região de Barão de Cocais registrou a praga do 'deserto verde', representado pelas plantações de eucalipto que secam e empobrecem o solo, espantam pássaros e insetos e degradam o trabalho humano nas carvoarias. Em Itambé do Mato Dentro conheceu um eremita que se isolou há três décadas numa gruta e que, curiosamente, adora receber estranhos e conversar. No Serro chegou a um tropeiro quase centenário.


Como essas, terá a Expedição muitas histórias para contar. A principal delas terá sido, talvez, a de uma das mais poderosas investidas culturais já realizadas no riquíssimo interior do estado cuja história, ainda nos dizeres de Sérgio Buarque de Holanda, 'parece transcender, e cada vez mais, o próprio âmbito colonial e brasileiro'. Foi em busca de um pouco desta transcendência que a Expedição Spix e Martius se fez. Pesquisador de caminhos antigos, autor de Estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil . Licenciado em Filosofia, especialista em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira.


Texto de Márcio Santos -


Texto elaborado como relatório individual para apresentação ao SENAC-MG, apoiador da Expedição Spix e Martius. É expressamente proibida a reprodução, por qualquer meio, sem a prévia e expressa autorização do autor. É vedada qualquer alteração de conteúdo sem o consentimento do autor.


As breves citações históricas deste texto foram baseadas em Márcio Santos, Estradas Reais - Introdução ao Estudo dos Caminhos do Ouro e do Diamante no Brasil, Belo Horizonte: Editora Estrada Real, 2001.


[1]
Diamantina.


[2]
Santa Rita Durão.


[3]
Rio Grande do Sul.


[4]
Descida de grandes alturas com o uso de cordas e equipamentos de escalada.


[5]
Na extensão livre do termo inglês canyon, canyoning significa a descida de cachoeiras com uso de cordas e equipamentos de escalada.


[6]
O termo refere-se à atividade da caminhada realizada como esporte da Natureza.


[7]
Nos 22 dias de caminhada houve apenas dois dias inteiros de descanso, na Fazenda João Congo e em São Gonçalo do Rio das Pedras.

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