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A poética dos caminhos II

-VII -

Até
capim
nas Gerais
tem nome
de santo.
Quando não é João
é José
e com extensa folha
a serviço da fé.
(princípio ativo da folha em qualquer lugar).
O capim de São José
tem perfume doce
e lava as dores
reumáticas.
Quando feito banho
deixa a pessoa de um jeito tão satisfeito
que o olhar
brilha a noite inteira.
De dia
a pele perfuma
o odor da sedução.
Cura as alergias
e as saudades
das noites frias.
Foi o que contaram
no passo-a-passo do tempo
Dona Geralda e Seu Olavo
lá pras bandas de Cocais
indo pra João Congo
da terra encarnada (às vezes roxa)
e arco íris matinal
pintado sob o azul e branco
do céu
e das casas
desse real caminho
tão surreal
que um pássaro do livro vermelho
aparece para um recital
(meio escondido no eucaliptal).
Um caminhão
carregado de gente
(tudo parente – mãe, pai, filho, cunhado e irmão)
levanta a poeira
e cala o curió.
São os carvoeiros
que chegam para a derrubada.
sem semblantes
no nevoeiro.
Todos geriqueiros
e se parecem tristes
é porque têm saudades
dos tempos da semeadura
dos cuidados
e da euforia da colheita.
Hoje, nessa manhã
fog-neon-mineira
os parentes alimentam os fornos
que transformam árvores em carvão.
(energia para desenvolver numseioquê).
(Acho que foi a partir desse dia
que Dom Pepe, Caminhante da Expedição e nascido em
Diamantina, começou a cantar até nas subidas das ladeiras).
Ê lasqueira!

- VIII -

Bem à nossa frente
o Caraça dorme
sob um lençol
de nuvens.
O Morro do Perdão
nos ampara.

- IX -

Catinguelê correu pela Mata
foi encontrar tatu peba
na Serra da Pedra Pintada
onde seu José é um rei
e seca seu café
num largo encantado
que dá prum lajeado
todo pintado
pelos artistas
que viveram por cá
dez mil anos
no abandono das manhãs ensolaradas
e onde a água escorre prateada
das pedras lambidas de limo.
É mais um tom de verde
no vale viçoso
que exala perfume
da Mãe Natureza.
Um cheiro que alimenta
cativa
há meio século
o José Sérgio Reis
que sabe que não é dono de nada
e cuida da saúde da família
com as ervas do mato.
(A farmácia é o ramo!)
Quando vai para a cidade
fica de um jeito agoniado
e logo volta
pra fazer valer
a frase do Márcio Roberto:
_ É, parece que a paz cura!...

- X -

Os coqueiros
cocais
enfeitam a paisagem
sofrida
onde os cupins esculpem
castelos
na terra colorida
que um dia se pensou
inesgotável.
Coqueiro Indaiá
tem pose de rei
e mata a fome
das crianças
que fazem dos caminhos seus quintais.
Essas crianças
Rosa, Rita e Rosane
decifraram a charada do Piedade
em ritmo de rap
_ Sabe por que o homem
não come o que é do lobo?
Por que se comer a fruta do lobo
o homem pode morrer
feito um bobo.
Antes que você pergunte
vou lhe dizendo
por isso se junte
nesse pensamento:
se a fruta
não faz mal ao lobo
é porque um está para a outra
na razão direta do paladar.
Por isso
o que é do lobo
o homem não come
se comer
some
envenenado
pela gula
que também mata
cavalo e mula.
O Caminho Real
aparece nas pedras do chão
e nas ruínas das pontes
de cantaria

- XI -

Um tiê preto
canta no alto do ingazeiro
florido
por inteiro.
Na Ponte dos Machados
um melro responde
afinado.
Três saíras sete cores
assanhadas
estão pousadas
no pé de pau de colher.
Lá longe
passa um godero
de canto afinado
sob o olhar afiado
do gavião cabôco.
Parece que João Congo
virou pássaro
e veio fazer quilombo
por essas terras
semeada de estórias
que o som da 262
não deixa escutar.
Me ampare
Bom Jesus
me ampare
do desmate
da erosão...
E a passarada
não liga pra nada
e canta
nem se espanta
com o galo rouco
que sai da garganta
anunciando o café.
Aqui descascamos
as nossas alegrias
e tristezas
ao redor da fogueira.
João Congo
andou por lá
cantou, dançou
bebeu cachaça
com caminheiros
e tropeiros.
Todos sonhadores
aventureiros
(Não é mesmo mestre Tullio?!)

- XII -

Andar
é usar as pernas
pra espiar
os detalhes
das artes
em exposição
da Natureza.
E apenas saber
que a riqueza das Gerais
é o seu povo.
Por isso, vá
pelos caminhos
onde eu possa
te encontrar
pelas veredas
onde eu possa
me mostrar.
me encantas
me fascina
e tantas vezes
até me revoltar:
Tire a serra
dessa Serra
armadilha e alçapão
apague essa queimada
dentro do meu coração

 

 

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