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A poética dos caminhos III

- XII -

Um tiê-sangue
saúda quem caminha
_ Spix! Spix! ....
Que o Bom Jesus do Amparo
nos acuda!
Mas se alguma moléstia
nos aflige
uso do aprendizado
que me passou
meu pai
que aprendeu com a mãe dele:
pra gripe
chá de folhas de contra-ervas
secada na sombra
de dentro de casa.
Espinheira Santa
cura gastrite
e as inflamações de dentro.
Para acalmar
quem precisar
chá de cidreira
antes e depois
dos sonos.
(Ensinamentos de Célia Conceição Pinto
e Maria Jorge Santos
conversa de beira de estrada).

- XIV -

O caminhante que chega
já sabe que tem poesia
no ar.
É o astral de Ipoema onde canta o pássaro
e onde qualquer filme
vira cinema.
E pra quem quer se cuidar
é só se receitar
com a Nazinha
que faz cubu
à moda banto.
O doce é um espanto!
Às vezes parece bolo
às vezes um gosto de pão
(daqueles que os deuses comem)
É o cubu de Ipoema
Que cura qualquer jururu.
Corpo cansado
eu mesmo já provei
e confirmo: comeu passou.
Só não mata saudade
da cidade
que tem poesia
na flor da pele.

- XV -

Acabei de saber
que Sinhá Virgininha
Santa Bárbara
e um punhado de Chimangos
foram degustados
no café da manhã
da Pousada da Maria Isabel
e do Roberto
que enxerga pelo coração
aberto
em afeto.
Os Expedicionários
pousados em Senhora do Carmo
famintos das delícias
não pouparam nem Ventania
aquele biscoitinho
que tanto faz comer
como amarrar na cintura.
De Itabira
o poeta Carlos mandou as mulheres
com seus poemas
na ponta da língua.
Como se fosse pouco
saiu com a Serenata
(vinte vozes)
para um passeio
na praça
cantando o Pedra Azul
e uma vontade expedicionária
caminha na veia.
Quem toca nessas pedras
volta pra ficar
diz a lenda
dessas águas
onde se esconde
uma onça que um dia
foi rio
que foi Nossa
e hoje é apenas
Senhora do Carmo.

- XVI -

Em Itambé
as velhas muralhas
do Caminho Real
estão enfeitadas
com as flores mutantes
do assa-peixe.
(Que elevam as nossas almas
caminhantes
principalmente nas subidas).
As hastes longas de taquara
dançam no caminho
em coreografia
com a trilha sonora
do vento
que vai
mato-ralo-a-dentro
contando estórias
que nem Deus duvida.
(A Serra da Lapa parece
um muçulmano rezando).
Estória da taquara
que forra os tetos
das casas mineiras.
Dura uma vida
quando colhida na lua minguante
nos meses sem R
e de sete em sete anos.
Se assim não for feito
a taquara esfarela.
'É um trabalho
que o sujeito não pode ter
olho grande.
Se não perde a freguesia,
se desmoraliza
quando não espera o tempo
que a Natureza
já nos ensinou'.
Foi o que nos contou
o Paulo da Rocha trançador de taquara
e seu único discípulo
e feliz da vida
Cláudio Duarte.
Contaram que a taquara
anda escassa
pela devassa
que queima
mata e trapaça.
Nesse chão colorido
brota taquara
que vai até o céu
pedir ajuda a N.Sra. do Rosário
pra poder parar
a destruição
desse chão, sô...

- XVII -

Quem atravessa o Rio Tanque
pela Ponte do Quebra Ossos
nem desconfia
que vai dar num lugar
falado Virgem dos Coitos
e escrito Vargem dos Coutos.
Pois foi lá
que eu e o Humberto
conhecemos o Barbatimão
um vegetal
um tanto animal
meio mineral
e com nome de pirata.
É antes de tudo
uma planta valente
que saiu viva
de tantas queimadas.
Talvez seja por isso
essa pele marcada
tão cicatrizada.
O barbatimão do cerrado
tem cor das pedras
a forma das sombras
e as fendas
por onde escapamos
dos pés-de-boi da Coroa.
Por dentro tem a cor do entardecer
por esses vales e montanhas
e mais um encarnado
que singra o olhar
de quem espia
decifrando.
Me contou uma menina
que passava na Ponte
que o Barbatimão
cura as feridas
- Menos as do coração.

- XVIII -

Pergunte ao João de Barro
ou ao João Graveto
se eles conhecem a casa nova
do Domingos.
O endereço
é uma gruta decorada
no Alto do Rio dos Peixes
bem na Boca do Espinhaço.
Ele não ergueu parede
não pregou trinco ou tramela.
Pra ele o mundo inteiro é uma janela
com suas cidades de pedra
divididas pelas embaúbas
gigantes
cor de prata.
Indague ao Domingos
sobre as pedras do Caminho
e se a embolada que canta
espanta essa tristeza
que emana da Serra
com seu chão de ferro
e aço.
Pergunte
mas aguce os ouvidos
pois o homem fala
pelos cotovelos
e outros desconhecidos
sentidos.
Parece uma aposta
contra o silêncio
que ecoa do reino dos gaviões.
Domingos
tem medo
da cidade
mas espera
um casal
que prometeu
de pés juntos
levá-lo para o Rio de Janeiro.
Pra quê, Domingos,
pra quê?

 

 

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