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A poética dos caminhos V


Continuação

- XXV -

Hoje é sábado
(nem sabia)
e Conceição do Mato Dentro
festeja a nossa chegada
ao som da filarmônica
Lira e Paz
e da Marujada
do Zé Geraldo.
Danço lá
e danço cá
igual dançava
menino
até o sol
se deitar
e aparecer
o luar
brilhando nas ladeiras
e nos casarões
(residência oficial dos nossos avós).
Nesse dia
o berrante do Maurício
fez solo
do hino nacional
em ritmo de blues.
 
- XXVI -

Arara só passa em bando
e pica-pau da cabeça preta em família
 
O Vale
se mostra
com suas espinhas
no rumo do espaço
onde flutuam
em completo abandono
o homem e o Espinhaço.
 
O caminho
pra Córregos
é feito de ninhos.
As três espécies do arquiteto João Graveto
em exposição.
(Repare, fica perto da Ponte Invisível
do Gondó).
 
A água que passa
por Córregos
tem um brilho que só é encontrado
no olhar
dos namorados.
A delicadeza
ganha o mundo
nessa cidade encantada
e vai pousar
bem ao lado da lareira
da Marilac e do Renato.
Quem caminha
pelas ruas de Córregos
não se impressione
por sentir o corpo levitando
é energia
que vigia
as orquídeas
da Mariazinha
que viveu
um grande amor
e mora numa casa
(ao lado esquerdo de quem desce)
com as paredes estampadas
de chaves
latas de sardinhas
e goiabadas.
Se por essas paragens
uma bruxa
(daquelas que não cremos)
sussurrar convite
para leitura
dum céu estrelado
vá!
E depois volte
pra nos contar...
 
Em Córregos
(ou em Córgo)
o jeito mineiro
de ser
tão humano
(que causa espanto
pra quem chega
repleto de falta de tempo
e com ligeirezas...)
povoa os sentidos
e cativa as paixões
adormecidas.
 
- XXVII -
 
O Geraldo da Tropa
levou três coices
da burra Preta.
Tá com dor nos quartos
e quando anda
parece um pato.
Mas continua inteiro
esse peão-poeta
e companheiro
que além de tocar a tropa
ainda conserta chuveiro.
 
- XXVIII -

A Febre da Estrada
amarga
que nem Gordó
uma folhagem
malcheirosa
dos caminhos.
 
Em casa de mineiro
tem horta
e canteiro.
 
O sintoma
do estado febril
é uma saudade
misturada com brasilidade
e coração latente
que confirma Insurgente
o dia e hora do batizado.
 
A Febre da Estrada
abre as veredas
do tempo de seda
e nos revela
o que ouvimos contar:
- Nosso povo é bom sem base!
 
- XXIX -

Tapera
taperamada
não sei se estou em casa
ou na Estrada.
 
- XXX -

Passeando
no serrado
esperando a lua
cheia de julho
vi os incendiários
colhendo a lenha
depois que fogo rasteiro
se foi.
Vi com esses olhos
desse jeito assim
(gente igual a mim)
entregando a terra
ao cupim.
Vi
olhos
nos olhos
desse meu irmão de perto de Itapanhoacanga
(que tem esposa e três filhas)
num dia findando
ele fazendo pose
de serra elétrica
em punho
rindo
aéreo
enquanto o Toni
filmava
o semblante opaco
desse meu irmão tropeiro
que por falta de trabalho
e dinheiro
conseguiu essa empreita.
 
- O trato foi com o capeta?
- Ou com a fome
que não tem rosto
mas que tem nome?
 
A isca é o dinheiro
na mão do empreiteiro.
 
A lua apontou
azulada
clareando a estrada
e a feição
desse meu irmão
que pegou essa empreitada
por causa da fome
que dói
nos pés de plantas
pássaro, rios e bichos
que ele destrói.

 

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