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04. Estrada Real - O Caminho da Bahia

A abertura do grande caminho que levava, no final do século XVII e no seguinte, do vale do rio das Velhas ao Recôncavo Baiano não pode ainda ser estabelecida com precisão pela pesquisa histórica. Sabe-se que os imigrantes, escravos negros, mercadores e boiadas que vinham do norte da colônia, seja pelo porto de Salvador, seja oriundos das capitanias nordestinas, já antes do século XVIII podiam se utilizar de uma extensa via que nascia na 'cidade da Bahia', seguia o curso do rio Paraguaçu até a Vila de Rio de Contas, para daí atingir as margens do São Francisco. Entre Malhada e Barra do Rio das Velhas (hoje o distrito de Guaicuí, pertencente ao município de Várzea da Palma), o Caminho da Bahia acompanhava a margem direita do São Francisco para seguir, depois, pelo vale do rio das Velhas até a Vila Real do Sabará.


Apesar de a rota estar mais ou menos estabelecida, permanece nebulosa a sua origem - se teria sido obra de exploradores paulistas avançando pelo sul ou, por outra, resultado do avanço de criadores de gado baianos e pernambucanos a partir do nordeste da colônia. O mais provável é que ambas as ondas povoadoras tenham ocorrido simultaneamente.


A história do Caminho da Bahia está intimamente vinculada à ação de pelo menos três grandes personagens da história colonial mineira. Os exploradores e chefes mercenários paulistas Matias Cardoso e Antônio Gonçalves Figueira iniciaram, depois de terminada a campanha contra os índios cariris no Nordeste, o povoamento da enorme zona então conhecida como dos 'currais da Bahia'. Foram dos primeiros criadores de gado a se instalar no sertão mineiro, sendo responsáveis pela fundação das fazendas que mais tarde viriam a ser as cidades de Montes Claros, Jaíba e Bocaiúva.


Já o emboaba Manuel Nunes Viana estava entre os primeiros colonos que chegaram pelo norte à região do alto São Francisco. Há indícios de que tenha vindo como mascate no princípio do século XVIII, tendo logo prosperado e se tornado proprietário de fazendas de gado em Jequitaí e na distante Jacobina, além de lavras de ouro em Caeté e em Catas Altas. Nunes Viana chegou a administrar sesmarias que se estendiam por dez quilômetros ao longo da margem direita do São Francisco.


Pelo Caminho da Bahia formou-se, no final do século XVII, uma das mais amplas redes de circulação de mercadorias para a região das minas. Os criadores de gado dos rios São Francisco e das Velhas puderam então se consolidar como os responsáveis pelas grandes reservas da mercadoria que, juntamente com o escravo negro, as minas gerais mais necessitavam: a carne bovina para a manutenção da população dos arraiais, povoados e vilas mineradoras.


O Caminho da Bahia era ainda o descaminho do ouro. A expressão, que tem hoje um sentido algo alegórico, tinha no século XVIII um significado bem preciso. Pelos descaminhos se evitava o pagamento de quintos, direitos de entrada, direitos de passagem e de todos os outros tributos que pesavam sobre a população envolvida com o conjunto de atividades geradas pela mineração. Eram os caminhos do contrabando.


Pelo menos nas três primeiras décadas do século do ouro, o Caminho da Bahia, hoje o menos conhecido e explorado dos caminhos coloniais da região mineradora, liderou com folga a concorrência com o Caminho Velho e o Caminho Novo na circulação mercantil. Foi somente quando a cidade do Rio de Janeiro se firmou efetivamente como o grande entreposto da capitania das Minas Gerais que o Caminho da Bahia perdeu em significação econômica.


Texto de Márcio Santos - Pesquisador de rotas antigas, autor de Estradas Reais - Introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamnte no Brasil, licenciado em Filosofia, especializado em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira, consultor em Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

 

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