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06. Estrada Real - Projetos Contemporâneos

A redescoberta moderna dos caminhos reais tem ensejado uma série de projetos e ações voltados para a proteção e a recuperação do seu patrimônio cultural, a sua exploração econômica e a reafirmação da sua importância histórica no contexto da sociedade e da economia coloniais.

 

Uma das vertentes em que têm trabalhado governos e empresários interessados na Estrada Real é a possibilidade de que a recuperação e a valorização dos caminhos reais como patrimônio cultural possa ser a alavanca para o seu desenvolvimento econômico, que passaria especialmente pelo turismo e pelas economias a ele associadas. Nessa perspectiva têm atuado, de forma não necessariamente integrada, órgãos e agências governamentais como a Secretaria de Turismo de Minas Gerais, o SENAC-MG e a EMBRATUR.

 

A criação do Programa de Incentivo ao Desenvolvimento do Potencial Turístico da Estrada Real, por meio da lei n. 13.173/99, regulamentada pelo Decreto n. 41205/00, ambos do governo do estado de Minas Gerais, representou um esforço, no âmbito da normatização legal, de estimular o turismo na área mineira dos caminhos reais.

 

É imprescindível, sem embargo, não perder de vista o enfoque municipal. Sem o envolvimento das comunidades residentes ao longo e no entorno das antigas vias muito pouco se fará. O primeiro e decisivo passo é atuar na proteção e na recuperação do patrimônio cultural, ação que pode ser empreendida por cada município na sua jurisdição. Os municípios cortados pelas estradas reais podem e devem investir na pesquisa e na documentação do seu patrimônio e nas ações legais para impedir a sua destruição, bem como no fomento à operação turística, ação que combina o poder público e a iniciativa privada. A esses atores se somam as organizações não governamentais, cujo papel é fundamental no sentido de despertar a mobilizar a comunidade para a importância das estradas reais e do seu entorno.

 

Foi essa a finalidade da criação da Sociedade Estrada Real, organização do Terceiro Setor voltada para a pesquisa histórica, a proteção do patrimônio cultural e a valorização econômica, nos limites do desenvolvimento sustentável, dos antigos caminhos reais.

 

O meio acadêmico começa, paulatinamente, a redescobrir os caminhos terrestres como tema importante na análise histórica da formação da economia e da sociedade coloniais. Um pouco explorado nas primeiras décadas do século XX, por historiadores como Capistrano de Abreu, Daniel de Carvalho e Urbino Vianna, o tema dos caminhos foi posteriormente esquecido, provavelmente por influência de uma perspectiva de investigação histórica que privilegiou os grandes processos econômicos.

 

A iniciativa da publicação do livro Estradas Reais - Introdução ao Estudo dos Caminhos do Ouro e do Diamante no Brasil, de autoria do autor deste artigo, insere-se nesse esforço contemporâneo de reconstituir historicamente a formação e a expansão dos caminhos reais.

 

Paralelamente a esses projetos, grupos de pesquisadores e agentes culturais e sociais têm promovido expedições ao longo das estradas reais, um movimento que, de certa forma, baliza e orienta a ação das instituições públicas e privadas envolvidas com a questão. Em julho de 1999 uma equipe multidisciplinar percorreu, em 21 dias de viagem, um grupo a pé e outro a cavalo, os 440 quilômetros que separam Diamantina de Ouro Preto. A viagem foi denominada Expedição Spix e Martius, uma homenagem aos dois grandes naturalistas europeus que fizeram o mesmo trajeto em 1818 e nos legaram, em Viagem pelo Brasil, páginas inestimáveis de impressões pessoais e dados. Em novembro do mesmo ano ocorre a primeira fase da Expedição Estrada Real, quando foram percorridos a pé, em sete dias, 180 quilômetros entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora. Em abril de 2000 realiza-se a segunda fase, entre Juiz de Fora e Ouro Preto, quando são percorridos, também a pé, 300 quilômetros em 14 dias.

 

Além de coletar informações, dados, documentos e imagens de natureza histórica, arquitetônica, ambiental e cultural, essas expedições contribuem decisivamente para a formação de uma cultura favorável à preservação do patrimônio material e imaterial nas comunidades do interior brasileiro.

 

O futuro dos antigos caminhos reais brasileiros é, não obstante esse conjunto de projetos e ações, incerto. Há que se lidar com a tendência predatória de muitos dos agentes econômicos e entidades governamentais que atuam nas regiões cortadas pelas estradas reais. Fazendões coloniais são destruídos ou largados à ação corrosiva do tempo, dos elementos naturais e do homem, dragas de garimpo corrompem o ecossistema nas zonas diamantíferas, terrenos erodidos podem ser vistos às margens dos caminhos, matas nativas são substituídas pela monotonia agressiva dos eucaliptais e das pastagens, igrejas e capelas seculares são 'reformadas' ou mesmo demolidas, para dar lugar a insípidos templos modernos. A consciência de preservação do patrimônio cultural e natural é, ainda, novidade no Brasil.

 

Somente um grande esforço coletivo, descentralizado e democraticamente organizado, que envolva as comunidades das regiões cortadas pelas estradas antigas, poderá salvar o que restou dos caminhos de penetração e ocupação econômica do interior brasileiro. A iniciativa das expedições de pesquisa e dos projetos governamentais, privados e comunitários que se seguiram representou um passo decisivo. Espera-se, a partir daí, que caminhos reais se tornem paulatinamente referência cultural para o povo brasileiro, cuja formação dependeu da ação secular de bandeirantes, escravos índios e negros, mercadores, tropeiros e aventureiros na abertura de picadas, trilhas e estradas no imenso interior brasileiro. O tema dos caminhos transcende a história, a economia, a geografia da ocupação do espaço. Está na base da própria cultura brasileira.

 

Texto de Márcio Santos - Pesquisador de rotas antigas, autor de Estradas Reais - Introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamnte no Brasil, licenciado em Filosofia, especializado em Formação Política e Econômica da Sociedade Brasileira, consultor em Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

 

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