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Um dia de uma bandeira

O dia de uma bandeira

 
5h

Ao som das anhupocas, a bandeira despertou e logo todos já estavam prontos para começar mais um dia de marcha. A noite não foi fácil; uns passaram atormentados pelo ataque de insetos, os mais variados – formigas agressivas, pernilongos, mosquitos, carrapatos, borrachudos –, e outros tão terríveis quanto esses. Mas houve gente que sofreu com inchaços, bolhas e ferimentos adquiridos pelo esforço da caminhada do dia anterior, picadas dos “famintos bichinhos” da mata ou até mesmo lesões por causa de certas plantas espinhentas, que cortavam como navalha ou que provocavam torturantes coceiras. Mas coisas piores podiam acontecer. Poucos dias após a saída da expedição, um escravo foi vítima da picada fatal de uma jararaca, e um dos capelães, o padre Manuel Sant’ana, sofreu o ataque de uma onça.


Não se gasta tempo para desmontar o acampamento e tampouco  se carrega muita coisa, visto que a maioria traz  apenas a roupa do corpo; um ou outro tem uma muda a mais. O sobrinho do bandeirante chefe foi o único que trouxe alguns objetos pessoais, como um pente, duas toalhas, um guardanapo, uma tesoura, três alfinetes e duas colheres.



6h
Três índios batedores já estão há quase um quilômetro à frente da bandeira. Com facões, vão abrindo as picadas e escolhendo as melhores passagens. Atrás, está vindo o todo-poderoso chefe da bandeira, seus parentes, seus agregados, quase todos mamelucos, escravos carregadores de carga e outros índios.



Almoço
As provisões trazidas de Taubaté esgotaram-se havia  mais de 15 dias. O sustento era tirado da própria floresta, que, nesse trecho, para a sorte deles, oferecia bons acepipes, muitos frutos e raízes. Um índio conseguiu caçar uma capivara e um veado. Já havia uma semana que carne vermelha não constava do cardápio, apenas bicho-de-pau, que crescia na taquara ou nas madeiras podres. Outros índios, grandes conhecedores dos segredos da mata, conseguiram coletar muitos frutos e trouxeram também palmito e mel. A travessia de um rio, alguns dias antes , tinha fornecido bons peixes.



14h
O sol está muito forte, e não há indício de nenhuma fonte de água. O solo já tinha sido perscrutado e nada; nenhum sinal , mas a experiência já havia ensinado que algumas folhas ou raízes podem, às vezes, substituí-la. Um mameluco retirou do pé um espinho, algo comum para esses aventureiros que cortavam os sertões descalços.



17h30
A última galinha foi sacrificada. Dela se fez uma canja para o chefe da bandeira que está fraco devido a um ferimento no ombro, causado por uma flechada . O tórax foi protegido por um gibão de couro forrado de algodão. Em razão do  alto preço, as galinhas só eram utilizadas para alimentar os doentes.



18h
Conforme o controle dos dias pelo capelão, estava-se às vésperas da festa de Corpus Christi. Um oratório, então, foi retirado de uma caixa protetora, e ali, no meio da mata espessa, uma breve cerimônia religiosa foi realizada.



18h30
Cada um, à sua maneira, procura se acomodar. Alguns armam redes, outros fazem uma cama de folhas ou barracas improvisadas. O dia foi fatigante. O terreno muito íngrime e perigoso castigou a musculatura, e todos estavam exaustos. Pelos cálculos, no dia seguinte chegariam, por volta das três horas, a um roçado de milho, feijão e mandioca plantado por um grupo que tinha seguido à frente havia mais de um mês para prepará-lo. Essas novas provisões afastariam por algum tempo o temor da fome. Quem sabe, dentro de alguns dias, poderiam finalmente comer uma paçoca, porque ainda haveria dias em que macacos, cobras e sapos seriam os únicos alimentos.



Texto: Maria Lucia Dornas

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