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10 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Saramenha

Saímos do curral em Saramenha, escoltados por duas motos da Polícia Militar (que viria a nos apoiar, dando segurança nas travessias de asfalto, em diversos trechos da viagem) e acompanhados pelos dois jipes do nosso apoio (um da FUNIVALE, e o outro, da Tropa Serrana).


Nesse momento, algumas pessoas compunham a tropa. Suzana Latini (minha namorada), montando o cavalo Biscoito. Ela, produtora da Lis, já vinha assessorando o projeto desde meu envolvimento com o mesmo. Toni Nogueira, montando o cavalo Bainho, era o nosso câmera e percussionista nas “horas vagas”. Maurício Carvalho, proprietário e responsável pela tropa que procedia de sua fazenda (Novo Horizonte) vinha montando uma de suas mulas e tocando o burro de carga “Margoso”, que estava arreado com a cangalha de carga e broaca (um couro cobrindo a carga). Finalmente, eu, montando Faísca, cavalo que mais utilizei na viagem, e com o qual me encantei por sua presteza, atenção, comodidade...


Os demais cavaleiros iriam se atrasar um pouco e, por isso, decidimos nos encontrar com eles no trevo do contorno de Ouro Preto, para onde atalharíamos tão logo estivessem prontos.


Partimos para a Praça Tiradentes, marco zero da nossa Expedição, para que saíssemos daquele ponto juntamente com os caminhantes. Na praça, há um monumento comemorativo da Inconfidência Mineira. Toda a cidade, porém, é praticamente um monumento à colonização portuguesa. Percebe-se, ali, através de suas ruas e fachadas dos casarios típicos dos séculos 17, 18 e 19, o reflexo da história de Minas e do Brasil. O espírito cultural, social e religioso dessa época pode ser notado em suas matrizes e capelas, havendo muitas obras-primas em pintura e escultura feitas por artesãos de grande talento, destacando-se, entre eles, Aleijadinho e Mestre Athaíde.


Nos roteiros turísticos, encontraremos museus, capelas, monumentos, restaurantes típicos, hotéis e pousadas, e toda uma infra-estrutura eficiente para receber a demanda turística.


É vasta a agenda de festas, sejam elas religiosas, tradicionais, nacionais... O artesanato em pedra sabão e pedras semipreciosas é de múltipla oferta. E lá não teremos apenas revivências do passado. Há, por exemplo, o famoso Festival de Inverno, que congrega avançados professores de arte, música, cinema, vídeo etc., e que é freqüentado por tribos de jovens de todo o Brasil e até de fora. Vale a pena acompanhar algum curso, workshop ou procurar coincidir suas férias com o Festival (pois ocorre nas férias escolares de julho), para assistir às inúmeras performances e conhecer muita gente interessante. Há, também, a Festa do 12, em outubro, que comemora a fundação da Escola de Minas.


Nos relatos dos demais expedicionários, encontraremos outras referências que justificam uma ida a Ouro Preto, onde se chega pela rodovia dos Inconfidentes, estando a 100 km de Belo Horizonte. Mas, sair de lá para a aventura que nos aguardava foi, de fato, emocionante.


Encontramo-nos com o grupo de caminhantes que seguiriam conosco. Estavam entre eles: Raphael Olivé, nosso navegador, e Norma Olivé, restauradora; Dr. Paulo Magno do Bem Filho, médico que cuidaria dos primeiros socorros; Márcio Roberto dos Santos, filósofo e escritor; André Fossati, fotógrafo oficial da Expedição;  Evandro Sathler, Diretor da FUNIVALE, que iria às vezes a pé, outras, a cavalo e/ou de jipe; Pepe Smith, nosso artista plástico e, ainda nas artes plásticas e na literatura, o jornalista e poeta Luiz Pucu; Antônio Ricardo de Melo (Gabiru) e Pepe Quintero, da Lis Produção & Comunicação; finalmente, o músico Douglas Sun. Creio ter omitido o nome de alguém que, mais à frente, virei a lembrar. Era tanta gente naquela praça querendo assistir à nossa saída e, ainda, era tanta a minha responsabilidade na coordenação da partida, que confesso ter ficado meio atordoado. Estavam ali: Sônia Pessoa, nossa assessora de imprensa; Andréa Labruna e Vânia Gomes, psicólogas que operariam na mobilização social nas comunidades em que passaríamos. Os jipes foram conduzidos pelo Helinho (Hélio Rabelo) e Lúcia Nolasco, incumbidos da nossa logística. Marcelo Miranda e Paulo Poloni (da equipe móvel que registraria as imagens em alguns momentos) documentaram, em vídeo, a Expedição, junto com o Feli (Feliciano Coelho).


Descemos pela rua Direita, em direção ao córrego do Azedo, no Alto das Cabeças. Era uma longa descida, em que pudemos perceber, talvez, a parte mais antiga de Ouro Preto, com alguns chafarizes (já secos) nunca antes notados por mim. Essa era a entrada e saída principal da cidade, antigamente. Percebemos valores arquitetônicos que guardam marcas daquele tempo colonial. Naquele corredor de entrada, vê-se uma cidade que nasceu com a pujança do ouro que a destacou de todas as metrópoles do mundo àquela época. Chegou a ter, no século XVIII, uma população de 100 mil habitantes –  superior a Nova York. Além das fachadas coloniais, capelas, passos e cruzeiros, existem muitas histórias. Uma delas diz respeito à pavimentação em um de seus quarteirões, que deu ensejo aos primeiros footings. [1] Quem determinou o calçamento foi o Barão Eschwege. [2]


Seguimos até a Ponte do Quartel, de onde nossa rota seguiria rumo a Diamantina, divergindo daquelas que atendiam aos viajantes do percurso Rio de Janeiro/Ouro Preto/Rio de Janeiro.


Até aquela ponte, a das Cabeças, imaginei um produto turístico francamente adequado às pessoas da chamada “melhor idade”. Isso porque caminhamos até ali apenas uns 4 km e sempre em descida. Imagino que esses turistas - hoje um contingente elevado de pessoas que dispõem de recursos e tempo -, poderão ir até a ponte, revivendo tantas histórias no percurso e observando a arquitetura dos tempos da Colônia e do Império. Depois, seriam trazidos por veículo motorizado à Praça Tiradentes, ponto ideal de saída para tal passeio.


Seguindo, nosso grupo chegou ao pé da estradinha de terra da Serra da Pedra de Amolar. Nesse local, encontramos com os demais cavaleiros que haviam saído depois de nós e cortaram caminho até ali. Eram: Ted (Ronildo Machado), nosso turismólogo, montando a égua Mulata; Geraldo Felício, que nos acompanhou ajudando na condução da tropa, foi na mula Black-Jegue (que se feriu no caminho). Assim, Geraldo passou a montar a égua Tesourinha. Havia, ainda, um casal de turistas, clientes da Tropa Serrana, que vieram da Califórnia para passar um dia conosco. Ambos professores de medicina. Suas impressões seriam enriquecedoras para nossa avaliação. Eram o Stephen e a Ann Mathes.


A próxima passagem seria a Trilha do Chafariz, em meio a uma mata de encosta íngreme. Seu nome se dá pela existência de um chafariz datado de 1782, ali instalado para saciar a sede das tropas que passavam, especialmente os Dragões Imperiais, que eram a patrulha montada da Coroa Portuguesa. Nessa trilha, encontramo-nos com os bikers que havíamos convidado a, juntamente com nosso grupo de trekkers e cavaleiros, percorrer aquele trecho. O objetivo era encenar, para a mídia televisiva que nos acompanhava no início da Expedição, e também para registrar imagens em nosso documentário, a possibilidade de coexistência dessas atividades esportivas, compatíveis e recomendáveis ao projeto ecoturístico. Os ciclistas eram liderados por nosso amigo Carlinhos (Carlos Roberto Paulino de Castro Filho).


Neste momento, cabe observar que a Trilha do Chafariz pode ser considerada como produto turístico de variados interesses e atividades. Constituindo-se de sua entrada até Doutor, numa jornada de mais ou menos 15 km, pode-se seguir esse trajeto em uma agradável caminhada. Recomendamos também a cavalgada ou passeio de bicicleta. Sugeriria também, por exemplo, que os ecoturistas com seus equipamentos fossem transportados até a entrada da Trilha. Ali, inclusive, merecia-se a colocação de uma espécie de portal informativo, orientando a todos sobre os cuidados necessários e valores históricos e naturais daquele trecho. Aqueles que não quisessem prosseguir até Glaura, logo à frente, e dali adiante, numa jornada mais longa, por exemplo, até Rio Acima, poderiam regressar de ônibus ou trem para Belo Horizonte. A quem interesse desfrutar somente do percurso até a localidade de Doutor, é possível solicitar ao seu veículo de apoio que o resgate naquela comunidade. Basta que o veículo contorne a Trilha do Chafariz, passando pela estrada que desemboca em Cachoeira do Campo.


Aqui, farei um comentário sobre a importância e utilidade do Ecoturismo na conservação e fiscalização de valores culturais e ambientais. Na condição de guia, passando por ali com a Tropa Serrana, anos atrás, percebi três ameaças iminentes naquela área:


o chafariz se encontrava desmontado, com evidente risco de ser roubado e aparente intenção de remanejamento; um desbaste na mata da encosta ameaçava a própria integridade daquela trilha, colocando-a em risco pela ação de erosão; os rastros dos pneus das motos, reflexo da prática do trail naquele trajeto, vinham comprometendo o calçamento ainda remanescente da mão-de-obra dos escravos e, ainda, “escavando” outros trechos (principalmente pelo uso indevido do pneu chamado “garra-cross”, lamentavelmente não substituído no Brasil pelo “pneu-verde”, utilizado e recomendado na Europa e EUA, que é um de perfil menos áspero e que, embora fabricado em São Paulo, não é utilizado aqui).


Assim, procurei alertar tanto o prefeito de Ouro Preto à época, quanto o IEF-MG, acreditando ter contribuído com a decisão da reconstituição do chafariz. Conseguimos a interrupção daquela devastação da mata e, ainda, mobilizamos diversos setores, para que não mais colocassem a Trilha do Chafariz nas atividades competitivas das provas de motocicletas que ali ocorriam.


Devemos considerar como dever de quem opera o Ecoturismo resguardar a manutenção dos atrativos e fomentar a consciência ambiental. É como conservar a “galinha dos ovos de ouro”. O  Ecoturismo é, de maneira prática, um importante aliado das questões ambientais, tornando-se ferramenta concreta e braço econômico para o desenvolvimento sustentável.


Algumas horas se passaram e já estávamos num lugarejo chamado Doutor, que tem como atrativo a Igreja Nossa Senhora da Conceição. Esperavam-nos o pessoal do Clube do Cavalo de Cachoeira do Campo e o Rodrigo, do Restaurante Tripuí, que nos ofereceu uma “galinhada” no bar do Sr. Zé Lopes. Percebi logo que essa viagem seria um “mergulho” gastronômico!


Dali seguimos para Glaura, onde dormiríamos, passando por Bandeirinha, localidade citada por Spix e Martius, em sua Viagem pelo Brasil : “(...) alcançando o cume, vimos primeiro um núcleo de pobres palhoças, Bandeirinhas (...)”. Hoje, existem alguns sítios e um pequeno comércio que serve de apoio aos viajantes contemporâneos.


O sol se punha quando alcançamos Glaura. Fomos recebidos com serenata e muita cordialidade. O coral da cidade ofereceu-nos as boas vindas com uma bela serenata em frente à antiga matriz de Santo Antônio e no bar do Domingos, na mesma praça. Acomodaram-nos na Associação Comunitária. Ficamos hospedados em um grande salão, onde dispusemos nossos sleeping bags (sacos de dormir), e que tomou, dessa forma, características de um albergue. Essa é uma modalidade de hospedagem que muito bem se aplica à Estrada Real. O público que viaja numa proposta “simplificada”, está geralmente em pequeno grupo e disposto a certa informalidade. Dessa maneira, ficando em albergues, acampamentos ou em Pousos Rurais ou até mesmo em Pousadas, pequenos hotéis (pensões, por exemplo), os turistas terão sua estadia a preços bastante acessíveis. Isso implica em encontrarmos saídas mais “criativas” para um Brasil que só é rico em suas reservas e opções de destino. O negócio é estimular a simplicidade,  não confundindo, é claro, com precariedade!
 

Na sede da Associação, serviram-nos um delicioso jantar. Já conhecia, naquela localidade, Aparecida e Antônio Márcio, que foram nossos “embaixadores” naquela recepção. Quem precisar de alguma informação lá, é só ligar (31) 3553-7136. Na cidade, existe alguma infra-estrutura (pousada e bar). Devo agradecer, ainda, o apoio de D. Aílza, D. Maria e D. Lourdes.

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[2] O Barão foi pioneiro da siderurgia em escala industrial no Brasil. Produziu também prata e chumbo. Teve contato com Spix e Martius, que o citam em seu livro. Escreveu sobre folclore, costumes, danças e culinária mineiras. Na região que se tornou o Triângulo Mineiro, zoneou o território indígena, criticando frontalmente as autoridades mineiras por maus tratos aos índios. Em seus trabalhos, identificou a Serra do Espinhaço e o pico do Itabirito. Em 1821, levantou o mapa de Minas, localizando vilas, cidades e arraiais, corrigindo falhas anteriores (referentes à latitude e à altitude). Instalou um haras no antigo quartel em Cachoeira do Campo (hoje Colégio Dom Bosco, à beira da rodovia dos Inconfidentes), provavelmente o primeiro do Brasil. Importou três garanhões Andaluza e 70 excelentes éguas. Produzia 55 potros ao ano. Daí surgiram as raças Campolina e, posteriormente, a Mangalarga, peculiares marchadores de Minas Gerais.

[1] Footing :  hábito de as pessoas passearem em ruas ou praças, a fim de se encontrar, flertar, namorar.

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