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11 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Glaura

De Glaura, partimos pela manhã. Os caminhantes saíram mais cedo. Eles precisavam “ganhar” estrada, pois sua navegação envolvia diversos requisitos - deveriam esconder-se do sol, quando mais forte, precisariam chegar o mais cedo possível para se prepararem e descansar para o dia seguinte.


Já nós, da equipe montada, podíamos aguardar com calma até que preparassem a tropa. O nosso deslocamento se dava a uma velocidade média de 5 a 7 km por hora, enquanto a turma a pé rendia uma média de 4 km/hora. Dessa forma, procurávamos sempre alcançá-los próximo às chegadas. E assim foi, a caminho da pequena cidade de Acuruí, próximo da fazenda do Sr. José Basílio, na qual iríamos pernoitar.


Logo à frente de Glaura, passamos por um aglomerado de chácaras, onde existe um bar. O local chama-se Soares. Pouco mais adiante, há um  cruzeiro que pertence à fazenda Ana de Sá. Ali chegando, encontramos com dois caminhantes retardatários. Eram o Pepe Smith e o André que, atraídos pelo conjunto arquitetônico da fazenda e sua capela, punham-se a fotografar.


Muito próximo dali, à beira do Rio das Velhas que, metros à frente, transporíamos por uma ponte, há uma fazenda que tem infra-estrutura para hospedagem. É a Fazenda Vertentes, do Sr. Paulo e D. Ana - tel.: (31) 32967646. Ali, você pode alugar um chalé ou ficar em um quarto na sede, assistir à ordenha matinal e praticar, assim, um pouco do Turismo Rural, observando a atividade do vaqueiro e sua lida com o gado.


Seguindo, atravessamos o asfalto da rodovia conhecido por Asfalto do Maracujá. Antes de Acuruí, uma parada no mirante (um ponto estratégico de onde se tem boa visão da região), local que trato de “Alto do Vinícius” (em homenagem ao Vinícius da revista Caminhos da Terra, que em certa cavalgada chamou nossa atenção para aquele ponto). Pudemos observar vários atrativos na paisagem. Destaca-se, de um lado, uma grande cachoeira, que pode ser a Chica Dona que, embora em Rio Acima, poderia estar se evidenciando na paisagem por causa de seus mais ou menos 200 metros. Em outra direção, nota-se o Pico do Itabirito. Eu, que conheço aquele pico de perto, não posso deixar de tecer comentários: a Estrada Real que vem e leva ao Rio de Janeiro passa a seus pés. É triste de se ver. Numa leve escalada em seu paredão, percebe-se, ao se chegar ao topo, que o pico, hoje, é apenas uma fina parede, quase um cenário, um biombo. A mineradora MBR já o escavou totalmente. Ele deve ter virado ferro fundido! Possivelmente estamos andando em um veículo cuja chapa e peças de ferro sejam um “pequeno pedaço dos itabiritos de nossas serras”!


A atividade minerária é também responsável por assoreamentos em rios, pelo decantamento da sujeira lavada. O mercado internacional só se interessa pela matéria prima lavada. Enquanto isto, o meio ambiente vem pagando altos tributos! Vale lembrar o dito popular: “Agressão ambiental, Deus perdoa na hora. Os homens, em duas semanas. A natureza não perdoa nunca e ainda dá o troco.” Ainda refletindo sobre o Itabirito, lembro-me, por ali, de um calçamento antigo, feito por escravos, junto à fazenda Cocho d'Água, dos meus amigos Gilberto e Milu, e da estátua de Cristo, que é  monumento da cidade, onde ocorre todo ano uma etapa do campeonato brasileiro de mountain-bike na modalidade Down Hill. O movimento é intenso durante a prova, registrando-se um fluxo turístico que deixa renda na cidade além de promover uma atividade saudável e estimular um transporte alternativo. Ainda “viajando” nas bikes, podemos considerar que, se em cada lote de 5 mil bicicletas geramos uma economia de 6,5 toneladas de poluição atmosférica, a utilização desse meio de transporte é saudável para o planeta! E o esporte é o melhor caminho para desenvolver e incentivar esse recurso. Precisamos de muitas ciclovias!


Bem, enquanto temos ar puro e a tropa para nosso deslocamento, também alternativo, seguimos, para logo chegarmos a Acuruí. Este lugarejo tem uma igreja antiga que foi conservada depois que o arraial foi submerso nas águas da represa do Rio das Pedras e, como ela era no alto, salvou-se. O arraial foi reconstruído com uma esguia rua, com casas dos dois lados, e ganhou nova igreja na outra extremidade da rua. Pertence a Itabirito. Uma das igrejas abrigou, a partir dos anos 50, a chamada Igreja Católica Brasileira, diferente da Romana, por permitir que pessoas descasadas pudessem se casar novamente.


A vila antiga pode ter sido cenário de uma sedição, no conflito da Guerra dos Emboabas. A igreja Nossa Senhora da Conceição tem traços barrocos. Corre uma lenda que, abaixo da igreja, um chafariz quase seco teria jorrado água na hora em que se precisou para salvá-la de um incêndio.


Na praça local, encontramos um morador, o Professor Maldonado, que contou-nos um pouco sobre sua malfadada experiência quando foi morar em São Paulo. Agradecido pelas dificuldades lá encontradas no terreno da sobrevivência e, acima de tudo, por discordar daquele contexto social, ele admite ter identificado naquele frustrante modo de vida, a razão e o privilégio de reencontrar Acuruí. Hoje, ele considera “perigoso” para todos, terrenos “minados” por uma doutrina de consumo como a Avenida Paulista, Copacabana, Savassi. Ele, como alguns que encontramos no caminho, fazem a história em nossa viagem.


O Bidu é outro personagem interessante que encontramos. Ambientalista nato, artesão de móveis de madeira, faz passeios com turistas na região. Conhece mais de uma dúzia de cachoeiras e lugares fascinantes, ali por perto, como um orquidário natural de que nos falou. Preocupa-se em levar apenas um número limitado de turistas, conforme a conveniência e o suporte de carga do lugar. Com todo esse cuidado e controle, me impressiona por sua correta intuição, não obstante ser de origem e cultura muito simples. É um autêntico “mateiro”. Registro seu exemplo e telefone: (31) 9997-7453.


Próximo dali, chegaríamos à fazenda do Sr. Basílio. Ele é um outro exemplo de que além das serras há outras minas nestas Gerais. Seu conteúdo humano é um grande patrimônio para a gente desfrutar por aqui.


O Sr. Basílio, cuja generosidade me surpreendeu, no dia em que o conheci e a sua família, 6 anos atrás, desprendidamente me cedeu um hectare do seu terreno, para que construísse a palhoça que hoje possuo ali perto. Todos nós pudemos compreender o espírito mineiro daquele nobre anfitrião, que nos hospedou em sua casa simples mas acolhedora, oferecendo-nos um jantar que, embora também simples, foi um verdadeiro banquete.


Saboreamos uma comida típica, o umbigo do cacho de bananas. Tantos eram os elogios ao prato que provei, sem a minha tradicional avaliação para apurar a presença de carne (há muitos anos, em meu regime alimentar, restrinjo-me a comer apenas carne de peixe; mesmo assim, pretendo excluir esse hábito). E não é que o prato era misturado com carne de porco moída?!


Bem, posso registrar que o umbigo da bananeira tem sabor parecido com palmito. Para mim, a Dona Carmen, mulher do Sr. Basílio, fritou uns peixinhos, pois ela conhece o meu hábito alimentar. O pessoal gostou muito da pinga que o Sr. Basílio fabrica, de maneira bem artesanal. Alguns gostaram tanto que tiveram amnésia. Foi o caso do Pepe que, em comentário posterior, chegou a me questionar: “Como, Tullio? Havia pinga lá?”.  Ele nem se lembrava!


O Sr. Basílio vende toda a produção em sua casa. Só vende garrafas e não serve doses. Assim, evita problemas e complementa sua renda. Ele e a família produzem praticamente tudo que consomem. Creio que ele compre, na “rua”, somente o sal, já que o açúcar de rapadura, o autêntico “mascavo” (sem químicos que o embranquecem), ele próprio fabrica. Já não se fazem famílias como antigamente!

 


 

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© Tropa Serrana Ouro Preto - Chegada na Fazenda Glaura - Tropa Serrana Chegada na Fazenda Glaura
© Tropa Serrana Ouro Preto - Acampando em Glaura - Tropa Serrana Acampando em Glaura
© Tropa Serrana Ouro Preto - Igreja da Fazenda Santa Cecília entre Glaura e Acuruí - Tropa Serrana Igreja da Fazenda Santa Cecília entre Glaura e Acuruí