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13 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Rio Acima

© Tropa Serrana Nova Lima - Ponte trecho Rio Acima - Honório Bicalho. Trilha Parque Rio das Velhas - Tropa Serrana Ponte trecho Rio Acima - Honório Bicalho. Trilha Parque Rio das Velhas

Saindo de Rio Acima, tomamos uma estradinha de terra, à direita do rio. Os caminhantes seguiram pelo caminho ao lado dos trilhos de trem. Encontramo-nos logo à frente e seguimos até Honório Bicalho, distrito de Nova Lima. Matamos a sede em um boteco na praça. Esperava encontrar meu amigo Paulo Carsalade. Ele é forte criador de cavalos Campolina e está preparando, em sua fazenda, a Boa Vista, uma área destinada a hospedaria de cavalos.[1] Outra atividade que trará visitantes e alocará recursos para desenvolver a região.


Ecoturismo não é um mercado que acena com uma perspectiva de lucro exagerado. Mas a qualidade de vida que se obtém quando se se dedica a essa alternativa é de se considerar como uma nova visão de ganho. Segundo o sociólogo De Masi (1999): ”O trabalho é um instrumento, não é o fim da existência humana”. É mais proveitoso gozar bem do seu tempo.


Logo adiante, encontraríamos com o Vivinho, filho de D. Anita, que seria nosso guia[2] na trilha de transposição de Honório Bicalho[3] para Raposos. O Vivinho já nos aguardava ansioso com sua égua arreada. Partimos depois de uma rápida prosa com sua família e um bom “golo” de água fresca. Os cachorros Baleia e Feroz[4] ficaram loucos para seguir com ele. A Vânia experimentava a sua primeira cavalgada, vindo de Rio Acima e seguindo montada com nossa tropa. Logo ao sair, começamos a identificar trilhas antigas, com muros de pedras. O caminho era cercado de matas e por isso respirávamos um ar da “melhor qualidade”. Tive notícias de que pouco antes avistaram umas capivaras. Até parece outros tempos!


Estávamos passando por um cerrado abandonado. A companhia proprietária da área não roçava ou limpava o terreno, pois seu objetivo era minerar ouro, cuja presença não se confirmou naqueles velhos valos de prospeção por onde passávamos. Nosso guia recomenda o uso de botas ou perneiras para proteger-se de mordidas de cobra, que são muitas nessa região. Ele anuncia que daqui a pouco veremos ruínas de uma antiga casa de pedras. A trilha velha está bem marcada pelos rastros das tropas do passado. Se a história foi escrita pelas patas dos cavalos, por aqui pode-se perceber este significado. Os trilhos se tornam linhas e, no rastro dos tropeiros, identificamos a história de Minas. Assim nos atestam as ruínas de uma casa de pedras e dos muros que a circundam, registrando ter havido ali uma fazenda. Nosso guia disse ter  ouvido contar que ali morreu um padre. Já cismado com esse papo, o Geraldo, olhando um mourão de cerca próximo a este cenário, comenta que o fato daquela peça estar fincada no chão com a raiz virada para cima pode dar muito azar! Superstição do interior. Meia hora de marcha à frente, encontramos uma garrafa amarrada em um tronco de jatobá. Havia um furo feito por broca (uma espécie de trado) e ali gotejava e escorria um sumo que, disseram-nos, transformava-se em vinho natural depois de fermentado.


O caminho que estávamos percorrendo tem ladeiras fortes, porque, nas encostas, a trilha original já erodiu em diversos trechos. A turma dos caminhantes deve ter “penado”. Outro castigo neste caminho deveu-se à presença intensa dos carrapatos. As maiores vítimas foram os da turma a pé, que serviram de “antepasto” a este inseto sanguessuga. Observei que havia por esta região muitos animais (cavalos e éguas) que, segundo o Vivinho, eram levados àquelas pastagens por criadores “piratas” e até por ladrões de cavalos. Eles se valiam daquele terreno, que mais parecia um estoque imobiliário improdutivo de alguma empresa, que, de tão grande que era, não conseguiam vigiá-lo contra estes usuários invasores ou seria antieconômico a manutenção de funcionários em toda a sua extensão. Esses dados que captei e aqui coloco são para tecer a seguinte consideração: quando um criador cuida do seu animal de maneira mais zelosa, levando-o com freqüência a seu próprio curral, a questão de inspeção e higiene ocorre naturalmente. Havendo carrapatos, logo aplica-se carrapaticida. Esse remédio vai eliminar os carrapatos já instalados e interromper o ciclo de outros que pretendam agarrar-se àquele animal. Quando se deixam ao largo os animais, quer por descaso, quer quando esses animais foram roubados e abandonados nesse tipo de campo por um período, até que o real proprietário desista de procurá-los, constrói-se o habitat perfeito para desenvolver e proliferar os carrapatos. Essa é minha tese para justificar a existência e o volume de carrapatos neste trecho. Não tivemos mais este desprazer, antes ou depois, embora os cerrados fossem de formação e flora parecida. Em outras propriedades por onde passamos, havia animais mais bem cuidados; consequentemente, menor infestação.


Existem várias maneiras para evitar carrapatos, porém, na sua bagagem de primeiros socorros, você deve levar sempre um antialérgico e pomada Fenergam, um antialérgico. Um procedimento interessante é usar roupas claras para identificá-los tão logo “migrem” para seu corpo. Há épocas em que devemos prestar maior atenção, geralmente no frio e em períodos mais secos – junho, julho e agosto, época em que ocorre a reprodução. Um carrapato fêmea produz de 3000 a 5000 carrapatinhos. Os seus filhotes, a que chamamos vulgarmente de “micuim”, transferem-se para as pessoas, atraídos por um cheiro de aminoácido que naturalmente portamos. Eles parecem voar. Estão normalmente “entocados” nas folhagens, prontos para a emboscada. Quando ocorre o “assédio” deles, o volume de filhotes é bem grande. É estratégico que o combatamos tão logo o percebamos. A sentinela deve ser permanente, observando as roupas e o próprio corpo. Caso seja infectado pelo “micuim”, você verá que eles chegam como uma nuvem escura, agarram-se a você ou à sua roupa e dispersam logo por seu corpo. Devemos retirá-los enquanto ainda estão unidos. Agindo rapidamente, melhor. Para isto, recomenda-se que se os espane com um galho de alecrim do campo, facilmente encontrado no cerrado. Outro procedimento eficaz é pegá-los com o uso de fita crepe. A cola da fita, aplicada sobre eles, é um expediente muito funcional, agarrando-os e, assim, retirando-os. Existem, também, medidas de prevenção. Uma delas é tomar vitamina B12 em ampolas, pois você estará, por um tempo, expelindo um cheiro que os afastará (isto não é recomendado pela medicina, portanto, não estou passando receita). Outro repelente natural pode ser feito com o masseramento de poejo, alecrim de horta, malva e, depois, vaporizar em seu corpo e roupa. Finalmente, se acometido por uma centena deste quase microscópico e incômodo carrapatinho, que é muito difícil de “catar” e que não deve permanecer em seu corpo, havendo risco de infecção, coloque uma colher de chá de amoníaco para cada 06 litros de água em uma banheira e afogue-os durante o seu banho. Assim, se desprenderão de você, livrando-o deste enorme incômodo. Evite coçar, pois assim você promove apenas sua mudança de lugar! Passar sua roupa nas chamas de um pequeno fogo os fará caírem mortos; é outra técnica muito utilizada no mato. Mas, atenção com o fogo. Apague-o em seguida! Nessa época de seca, todo cuidado é pouco para se evitar um incêndio. O fogo é o maior carrasco de nossa flora e fauna! É preciso estar atento também ao carrapato “Estrela”, que pode ocasionar a febre maculosa.


Chegamos a Raposos. Fomos acolhidos pelo Clube Racha do Cavalo, que designou um tropeiro antigo, Sr. Primo, que dizia ser filho de “muladeiro” (comerciante de mulas). Com o colar de cincerros colocados em seu cavalo, à nossa frente, assume como madrinheiro. O som dos cincerros e do tropel dos cavalos cria uma percussão intrigante, fazendo com que os populares corressem para conferir a passagem da nossa tropa. As janelas das casas se abriam, sempre com algum curioso a nos observar.


Raposos é um lugar antigo e tem uma catedral (Nossa Senhora da Conceição) que figura como a primeira de Minas. Por ali passaram Fernão Dias, Borba Gato e muitos bandeirantes famosos que seguiam em busca do ouro. Alguns de nosso grupo a pé seguiam à frente com a bandeira do Brasil e a da nossa Expedição. Fomos recebidos por Wanderley, Nozito Rosa, Nem do Caminhão (Nélcio Duarte Alves), no espaço pertencente ao Clube Racha do Cavalo de Raposos, onde soltamos os animais. Com faixas de boas vindas e as presenças do Prefeito Cote (Cleber Solano de Castro) e esposa, do Vice, Carlinhos, dos vereadores Serginho, Lola, Vavá, Adilsom Martins, do Secretário de Obras, Lincoln Alves, da Maria das Graças Pimenta de Castro, de estudiosos do tropeirismo, e juntamente com a turma do Clube do Cavalo, fomos encaminhados a um espaço coberto onde dormiríamos. Mas, antes, jantar, música, forró e muito congraçamento. O Vivinho também entrou na farra e só regressou no outro dia. Feliz e estimulado (ganhou uns trocados) com a nova possibilidade profissional.


Foram 30 km de Rio Acima até ali. A turma dos caminhantes, que ainda chegava, estava naturalmente cansada. Só pensavam num bom banho, comida e cama. Não faltaram, como sempre, iniciativas cordiais como a do Sr. Aloisio Dias, carpinteiro e trabalhador na escola local, que nos ofereceu sua casa para complementar nossa hospedagem. São muito gentis esses mineiros. A Rádio Raposos FM deu a maior cobertura.


Naquela região, poderemos aplicar várias modalidades de Ecoturismo. Um lazer potencial é ir até o ribeirão da Prata e banhar-se em suas águas claríssimas. A Prefeitura está procurando um empresário que aceite construir um balneário por lá.


Uma caminhada histórica, afora a que fizéramos, chegando de Honório Bicalho, deve ser a de se desbravar o leito de um antigo trilho de bonde que, no passado, fazia a linha Nova Lima/Raposos. Infelizmente, encontra-se totalmente desmontada, sem dormentes e trilhos, sendo por isso difícil a sua reativação, mas, a pé, e em rota provavelmente plana, pode-se caminhar no leito da antiga e estreita rota do bonde.


Outra possibilidade para se incrementar o turismo que existe na cidade é a reconstituição da linha ferroviária para passageiros. Lembro aqui o projeto “Trem Bão”, cujo roteiro pelo Circuito do Ouro inclui a passagem por Raposos. Como rota antiga, muito usada por passageiros e excursionistas, creio não ser difícil reativar esta “artéria ferroviária”, que proporcionará uma freqüência intensa de turistas na região (incluindo Rio Acima, que também recebia, por trem, muitos visitantes que vinham de Belo Horizonte, até bem pouco tempo atrás, para desfrutar das cachoeiras da região).


Entre os segmentos vocacionados no município, destaca-se o Turismo Eqüestre, dada a prática de cavalgadas na região. A Festa do Cavalo de Raposos vem crescendo a cada ano. Também em Nova Lima, já é uma tradição. As cavalhadas na região, promovidas pelo meu amigo Bené – “Cabeça Leve” –, já são famosas. Constituem, sem dúvida, um atrativo no segmento do Turismo Cultural. Sendo próximo de Belo Horizonte, é possível receber o turista que, por um só dia, poderá desfrutar de um ou de vários recursos culturais e de lazer da região.



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[1] Só espero que ele sobreviva às tensões da Bolsa de Valores onde trabalha e realmente se dê conta de de que às vezes devemos descartar a Bolsa pela vida.

[2] A profissionalização do acompanhante local ou monitor, junto aos turistas, precisa ser oficializada com urgência, não só por questões de mercado, mas pela competência assegurada por esta mão-de-obra local, que se baseia em seus conhecimentos adquiridos no dia-a-dia, na realidade de cada lugar. Este profissional é fundamental ao Ecoturismo. Muito útil à comunidade e ao meio ambiente, ele é um incentivador do mercado, conscientizador e fiscal anti-degradação.

[3] Honório Bicalho era filho de Maurício Bicalho, engenheiro-chefe da construção de Belo Horizonte, edificada há 100 anos para ser a capital de Minas Gerais.

[4] Os cachorros do Vivinho são do tipo que em minha infância classificávamos de Boiadeiro ou Cabeçudo. Estas raças (ouvi dizer e passo o recibo igualmente) cruzaram com o Mastif Inglês, dando origem ao Fila Brasileiro. Este cruzamento teria ocorrido nesta região de Nova Lima. A presença dos ingleses da Saint John Del Rey Mining Co., hoje Cia. Morro Velho, com sede em Nova Lima e ligações em Raposos, Honório Bicalho, Rio Acima, dão lastro e origem a esta tese. O Fila gerado nesta região e desenvolvido a seguir passou a ser conhecido como Fila Brasileiro. Depois, os paulistas enxertaram uma nova raça à mistura (provavelmente o Dog Alemão), dotando o resultado de maior estatura e “visual”. Ocorre então uma nova linhagem que denominaram Fila Paulista. Engraçado é que igual expediente aplicou-se ao cavalo Mangalarga Mineiro em que os paulistas reintroduziram o sangue da raça Andaluz, incorporando ao fruto final maior altura e melhor aparência. Houve prejuízo na cadência, perdendo um pouco da marcha, que tornou-se mais áspera no então chamado Mangalarga Paulista.

 

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