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15 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Sabará

© Sérgio Freitas Sabará - Igreja Nossa Senhora do Carmo - Sérgio Freitas Igreja Nossa Senhora do Carmo

Já com saudades da mordomia do Hotel Del Rio, em Sabará, do Marco Antônio do Clube do Cavalo de Sabará, que nos apoiou, da Rádio Sabará e do repórter Kiko Vieira, que nos promoveu em seu programa, do espaço que a jornalista Fani Melo nos conferiu na Folha de Sabará e do jantar que o prefeito Vander Borges nos ofereceu na véspera, seguimos para Caeté. Demos uma parada na cachaçaria J.P., num local chamado Pompéu, no meio do caminho, entre Sabará e Caeté. Ali existe uma produção de cachaça, filiada à AMPAQ, um de nossos apoios no projeto. Percebíamos o cuidado daquele fabrico até mesmo ao observar a relação do casal proprietário, Sr. José Pinto e Dona Madalena, conosco e entre si. Destilando a vida com aquele bom humor e carinho, toda sua produção é sucesso! A horta ao lado do alambique demonstrava a visão de vanguarda, pois sua plantação sem agrotóxicos é 100% orgânica. O restaurante anexo, de muito bom gosto, com sua adega, reforçava o cenário de competência daquela empresa familiar. É assim que gostaríamos de ver o turismo nestas Minas Gerais: simples e competente. Percebemos que a força de uma idéia conduzida com amor pode se transformar em fórmula lucrativa. Uma receita que nosso grupo gostaria de estimular no caminho que seguíamos, para transformar esta rota um grande destino turístico.


A próxima parada é Caeté. Já aguardavam a nossa tropa e seguiram com ela o Dr. Flávio Filizola e o prefeito Raul Messias e sua esposa, que também são “do ramo”. Junto com eles, os cavaleiros do Clube do Cavalo de Caeté nos acompanhariam até a Fazenda e Haras Vera Cruz de Hipismo Rural. Levaram-nos a conhecer a cidade, contaram-nos sua história e demonstraram o quanto a cultura do tropeirismo encontrava berço naquela cidade que já foi pouso dos tropeiros que iam e vinham de Ouro Preto. Era passagem da farinha e da carne que chegavam por rio, vindas da Bahia e indo para Ouro Preto. Passou, também, o ouro contrabandeado. Manoel Nunes Vieira morou em Caeté, onde construiu igrejas e aqui, também, o seu filho, o “Aleijadinho”, fez seus primeiros ensaios. Com entusiasmo, a Secretária de Esporte, Lazer e Turismo de Caeté, Cássia Castro,  informava-nos sobre a história local.


Ainda estávamos próximos a Belo Horizonte, e a idéia que o Secretário de Turismo de Minas, Antônio Henrique, passou-nos é de que estimulássemos a criação de produtos opcionais de turismo na região metropolitana de Belo Horizonte. Há um projeto, chamado Coração de Minas Gerais, que, conforme nos disse, visa a ampliar o número de operadores em Ecoturismo, gerando emprego e intensificando a economia nas regiões em que consigamos confirmar um fluxo turístico. Aquele município é um “prato cheio” para atender a esses propósitos.


Morro Vermelho, que pertence a Caeté, por onde deixamos de passar, tem a cachoeira do Santo Antônio, que é muito freqüentada. Ali há também um restaurante austríaco, de muito movimento. A igreja matriz da cidade, Nossa Senhora do Bom Sucesso, é magnífica e reflete o esplendor de sua época. A Serra da Piedade também faz parte daquele município, e, em seu topo, existem um observatório e um mosteiro. O Ecoturismo conta com um grande aliado que é o empenho do prefeito para o desenvolvimento ambiental do município de Caeté. É preciso que haja participação da comunidade, mas a vontade política é decisiva. À parte institucional cabe coordenar o processo. O conjunto é importante. Não basta o atrativo. Para que um destino se torne atração, “corre muita água por debaixo da ponte”.


E, por falar em água, se não cuidarmos dela, esse ditado perderá o sentido. A própria vida estará ameaçada. Daí minha esperança de que esse setor possa contribuir com a formação de uma consciência ambiental (se correta, ética e cientificamente desenvolvida). Aqui um pouco da idéia para que o Ecoturismo tenha a qualidade devida: primeiro, é preciso identificar o conjunto de fatos que possa despertar interesses de viajantes:


- Recursos culturais, naturais, ambientais, comunitários, patrimônio histórico, festas tradicionais, religiosas, pagãs, artesanato etc.;

-  Infra-estrutura: transportes, equipamentos, lojas, operadores, restaurantes, pousos etc.;

- Serviços públicos de saúde (postos, hospitais), tratamento de água, programa de saneamento básico, serviços de informação  etc..


É preciso qualificação da mão-de-obra compatível com a oferta turística. Exemplo: Curso de acompanhante local ou monitor de turistas. Técnicos para as atividades como canyoning, escalada, rafting, de acordo com as possibilidades da região.


Às vezes, devemos restringir ou inibir o desenvolvimento do Ecoturismo em face à falta de transporte e outros fatores, tais como saneamento básico ou mesmo falta de água. Ou para preservar alguma fragilidade ambiental. O limite pode estar voltado, também, para o cuidado com aspectos culturais.

 

Voltando às águas, é aí que recomendo, à comunidade, ter em seu Conselho de Turismo alguém que participe do comitê da bacia e sub-bacia hidrográfica da região. Só com esta consciência aguçada é que prosperaremos no Ecoturismo. A água é vital e nossas reservas são uma das maiores riquezas de Minas. No mundo já é conhecida a saturação da água, prevendo-se que, até 2025, duas em cada três pessoas do planeta viverão com grandes problemas de água. O ecoturista deve tornar-se um guardião das águas e dos demais recursos naturais. Afinal de contas, esta é a “sua praia”!


Estimular os cidadãos locais a montar suas operadoras e criar os produtos característicos da região é outra meta importante. Disseminar o mercado, gerando empregos, desenvolvimento e consciência. Finalizando essas considerações, para o êxito no processo do desenvolvimento do Ecoturismo é fundamental que o COMTUR (Conselho Municipal de Turismo)  encontre uma fórmula em que todos os agentes envolvidos com o produto turístico venham a contribuir com a comunidade. Um controle fiscal e uma articulação participativa levarão a agência, o guia, o proprietário, o cliente e quem mais faturar no processo a deixar um valor (taxa) para o Fundo Municipal de Turismo. Este recurso seria aplicado conforme consenso do Conselho de Turismo (semelhante ao que acontece em Bonito, no Mato Grosso, e tem dado certo). Com critério, a Estrada Real será um grande produto turístico nacional.
Desenvolvimento sustentável, empregos, investimentos, qualidade de vida, cidadania, saúde, cultura e muito mais frutos viremos colher no futuro.


Seguindo de Caeté, ainda no município, pouco à frente, três fatos nos chamaram a atenção:


- Vimos um papagaio pousado em um coqueiro. Os pássaros aqui são poucos e migratórios. O papagaio deu um tom de alegria. Sua imagem chega a ser folclórica.

- Achei no chão uma carteira de dinheiro. Pertencia ao Toni, nosso câmera. Outras vezes viríamos a encontrar sua carteira no caminho. A última delas foi em Belo Horizonte, depois da Expedição, quando ele a perdeu no meu carro.

- Conhecemos, no caminho, um senhor que se gabava de ser aposentado como trabalhador de circo e em sua carteira de trabalho constava a profissão de “toureiro”. Nem parece Brasil! Perguntei-lhe se, em sua carreira, tinha sofrido algum acidente, e ele respondeu que em uma só cabeçada que recebeu, quebrou umas costelas. A grande lição que nos passou foi ao comentar que isso só ocorreu porque ele “fez pouco caso do garrote, porque ele era novo”. A conclusão é de que não devemos nunca subestimar os desafios. Por mais simples ou manso que o bicho pareça!

Chegamos à Fazenda e Haras Vera Cruz de Hipismo Rural. Lá dormimos, “acampados” no restaurante e adega da fazenda, que também é produtora de cachaça e com qualidade controlada pela AMPAQ, da qual é filiada. O proprietário da fazenda, Dr. Flávio Filizolla, e sua esposa, Enir, ofereceram um belo jantar, e a Prefeitura nos deu um souvenir – uma peça artesanal feita em bambu com pinturas dos monumentos do município. A carinhosa lembrança é também uma generosa maneira de promover o artesão local. Vocês imaginam que temos 500 mil artesãos em Minas Gerais? Pois é, o turismo contribui enormemente com este mercado, incentivando o comércio e apoiando a cultura e a tradição.


Naquela fazenda, existe uma pista para a prática do hipismo rural e uma equipe local está sempre treinando. De vez em quando, promovem provas hípicas. Uma delas faz parte do calendário oficial da Federação Mineira de Hipismo Rural, valendo pelo campeonato mineiro. Nessas ocasiões, são muitos os que comparecem para competir ou para assistir às provas. Assim, o turismo fatura no segmento esportivo, constituindo mais um interesse que leva visitantes à região, gerando lucros e empregos.


No dia em que chegamos, era aniversário de um dos caminhantes, o Pucu. Às noites, quando cavaleiros, caminhantes e apoio se encontravam havia sempre confraternização. E esta era uma razão especial. Cantamos os “Parabéns” para o companheiro, e ele nos brindou com um poema inspirado nas suas observações e preocupações ambientais com o caminho. Impressionado com o som constante das moto-serras, nos eucaliptos que sufocam a mata nativa de candeia, com as ameaças à fauna e flora que também eram presas dos devastadores incêndios, ele declamou:


Tira a serra dessa serra.
Armadilha é alçapão.
Apaga esta queimada,
dentro do meu coração .

Vale lembrar, aqui, um registro do diário de Spix e Martius, em que diziam


(...) de Caeté para frente em continuação à viagem, tivemos que passar por grandes matas. Parece que este arraial deve o seu nome justamente a isso, pois caeté significa mata espessa.

 

Eles não previam o golpe do “progresso” em cima de nossas matas. A exploração sem visão substituiu aquelas matas por gado, ações minerárias, eucalipto... O assunto “eucalipto” é polêmico. Alguns ambientalistas o consideram necessário, até mesmo para salvar as matas. É o caso de plantá-lo com um manejo adequado, vindo a destiná-lo à indústria de móveis. Porém, a exploração dessa cultura, destinada ao carvão para os fornos de gusa, ocorre às vezes de maneira até criminosa. Abatendo as matas ciliares para seu plantio, não poupam, com freqüência, nem pequenas nascentes, onde tratores limpam indistintamente tudo para o seu cultivo. Assim não dá!


Outra “poluição” que encontramos era “sonora”. À noite, tínhamos que dormir com o “ronco” de alguns expedicionários. Havia sempre um que “solava” como um tenor ou como um trator. E, não raro, uns e outros formavam um “coro”! Mas, nesta noite, caía a primeira chuvinha de nossa viagem e não podíamos “convidá-los” a ir dormir lá fora. Embalados no calor da lareira, que queimou noite adentro, dormimos naquele salão, após afastarmos as mesas nas quais os nossos anfitriões cordialmente nos serviram um belíssimo jantar. De barriga cheia, o dueto Pepe e Humberto entoaram seu show e roncaram ruidosamente noite adentro. Mas nosso cansaço e sono livraram-nos daquela “performance”  e, assim, dormimos profundamente.

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© Sérgio Freitas Sabará - Chafariz - Sérgio Freitas Chafariz