Turismo

Estrada Real

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

16 de julho de 1999 - (SxM) - Saída da Fazenda Vera Cruz

© Sérgio Freitas Caeté - Museu Israel Pinheiro - Sérgio Freitas Museu Israel Pinheiro

Os caminhantes, como sempre, saíram mais cedo. Nós, da cavalaria, ficamos mais um pouco de tempo enquanto preparavam nossa tropa.

Observamos o movimento da Fazenda Vera Cruz, que era intenso naquela manhã. Sua equipe de cavaleiros estava despachando os animais para Sete Lagoas, onde ocorreria uma etapa do Campeonato Mineiro de Hipismo Rural. Eram embarcados os cavalos tipo anglo-árabes. A equipe "Solo": Geraldo e Paulo Sérgio (este encontrando-se em segundo lugar no campeonato, na categoria Força Livre). Eles estavam decididos a buscar "canecos"
. A prova, em Sete Lagoas, seria no Rogerão, cuja pista é considerada das mais técnicas. O seu restaurante, o Engenho, é outra prova de sucesso em suas iniciativas. Vive cheio! Muita gente vai de Belo Horizonte até lá, só para almoçar. Acabam passando o dia e curtindo "pesque e pague", leite ao pé da vaca, aula de hipismo, e assistindo ao campeonato.

É uma prova de que o Turismo de Alimentação pode ser consorciado a outras atividades rurais e ser bem sucedido. O Rogerão, em seu Engenho, deve gerar mais de 100 empregos. O restaurante Tripuí, na rodovia dos Inconfidentes, próximo a Ouro Preto, também fatura em esquema integrado alimento/lazer. Pudemos provar o seu tempero na noite da véspera da saída da Expedição, no apoio dado no Parque Itacolomi, quando, por lá, encarregaram-se de nosso jantar.

Ao lado do curral, enquanto o Sr. Neto Sucupira ferrava os animais que já estavam "estropiados" (sentindo dor ao pisar), conferíamos alguns termos da linguagem rural: "tordilho" é cor de cavalo; "trempa" é o mesmo que trempe; 'paquera' são as viseiras do animal; "ligal" é um passador, uma correia...

A cultura tropeira contribuiu muito com a linguagem hegemônica do português falado no Brasil, promovendo a unidade de nossa cultura. É como se as tropas fizessem as vezes dos veículos atuais de comunicação. Levando esse papo, Maurício, Evandro e eu esperávamos para pôr a tropa na estrada.

Já em direção a Barão de Cocais, começamos a cruzar com lenhadores que traziam feixes de lenha para o consumo doméstico. De quando em vez, eram um, dois ou três deles. Conversei com alguns que alegavam estar sempre catando lenha por não ter dinheiro para comprar gás. É questão de sobrevivência. Aí, quem "dança" é o cerrado![1] Por essa e por outras razões, é que devemos implantar o Ecoturismo nessas trilhas. Sua organização vai gerar empregos e renda. Só assim, aquelas pessoas estarão motivadas a poupar o cerrado. Dar educação ambiental para essas pessoas não é o bastante. Elas precisam de emprego e de comida no prato. O Ecoturismo é o braço econômico das questões ambientais. De mais a mais, o discurso da preservação ambiental não é eficiente junto aos pobres. A própria lei ambiental não permite punição quando o crime ocorre por razões de sobrevivência. Do contrário, as gerações futuras não entenderão o significado que já teve, um dia, o termo caeté.

E as mineradoras, que herança deixarão? Nesta região, atuam: Mineração São Pedro; SOCOIMEX; COSIPA; Cia. Siderúrgica Gerdau. A extração mineral precisa perder terreno para o turismo. Afinal, o turismo está hoje entre as maiores economias, responsável por um em cada dez empregos do mundo. Este será o novo Ciclo do Ouro do milênio. As novas minas das nossas Gerais.

Algumas observações a mais neste caminho, antes de chegar a Barão de Cocais, que outrora se chamou São João do Morro Grande, conforme registro de Spix e Martius, quando se referem às duas torres da igreja que avistavam, ao longe. Creio que estávamos no mesmo ponto do caminho quando percebi a cidade ao longe e sua igreja. Era como voltar nas páginas do tempo. De alguma forma, escrevíamos a história do futuro. Espero que, ao lerem nossa pesquisa, no futuro encontrem um panorama preservado e de maior justiça social como sonhamos. Dali até a nossa chegada, já ao cair da tarde, tivemos, por todo o tempo, a presença de milhares de vaga-lumes que piscavam suas luzinhas à beira da trilha, como que nos sinalizando o caminho. Por volta das 20:00, chegamos à cidade. O som do pisoteio dos animais no calçamento, como sempre, chamava a atenção dos habitantes, que nos olhavam curiosos. Enquanto isso, observávamos as marcas que o tempo havia deixado. Os muros antigos de pedras dão testemunho de época. É curioso o fato de que, se a gente olhar para trás, para as trilhas e serras de onde viemos, percebe-se só escuridão. As luzes da cidade fecham o diafragma de nossos olhos, enquanto, no escuro, nossa visão se adapta, dilatando a pupila. Não tivéssemos vindo daquele escuro que ficou para trás, suporíamos ser muito maior a dificuldade para se deslocar na noite. As comodidades do cotidiano levam o cidadão urbano a esquecer seu próprio potencial. A tecnologia nos traz muitos confortos, mas nos priva, inibe e nos restringe, às vezes, de muitas emoções. Se não ficarmos atentos, podemos até frustrar alguns sentidos. Olfato, memória, visão, instintos sujeitam-se à tecnologia, máquinas e eletrônicos. Que lucro é esse, minha gente? Os milhares de vaga-lumes que iluminaram nosso caminho só puderam ser vistos, pois andávamos por ali, àquela hora da noite. Foi emocionante!

A tropa seguia, e passamos pela capela antiga de São Benedito. Caminhamos em direção à igreja matriz da cidade, a de São João Batista, ainda com os enfeites da festa do santo, ocorrida em 24 de junho.[2]

Os caminhantes do passado, assim como Spix e Martius, sempre se dirigiam primeiramente para a área da igreja matriz. Não só por uma razão de fé, mas é que ali se concentrava o comércio, quase sempre em volta da praça.

É preciso desmistificar o aspecto penitente e místico do peregrino desta rota turística. Primeiro por não ser esta, a meu ver, a real vocação da Estrada Real, mas também pela diversidade de produtos turísticos que podem interessar e constituir-se em panorama de amplas atividades e segmentações.

Observamos que vinha crescendo o interesse da população, a cada cidade que chegávamos. Talvez por sermos "profetas" de um novo tempo e o "milagre" esperado era o turismo. Estou assinalando este aspecto porque acho arriscado comparar o potencial deste caminho à vocação aplicada no turismo místico do caminho de Santiago, na Espanha.[3] É verdade que nos interessa alcançar o mesmo o sucesso de público de lá. É sabido que exportamos muitos 'caminhantes' para aquele país. Entretanto, cada vez que comparamos nosso produto com um estrangeiro, estamos, na verdade, promovendo o paradigma da comparação, ou seja, no caso da Estrada Real, ao compará-la com a rota espanhola, o que fica em evidência é o Caminho de Santiago de Compostela – e não nossas trilhas. Resguardando nossa própria identidade, também é possível a criação de produtos para estes "aventureiros" peregrinos.

É claro que tivemos uma importante influência da Igreja Católica na formação da cultura e construção de nossos caminhos. Houve momentos, porém, no século II, em que ordenar um padre na família era menos por condição de fé e mais por uma solução econômica. É que o ouro esgotado já não produzia empregos e esta era uma 'saída' mesmo que não tão espiritual quanto pareça. Em outros momentos, a Igreja Católica incomodava tanto os interesses da Coroa, que as autoridades lusitanas proibiram as ordens de padres de convento de se fixarem na zona mineira, por levarem para lá grande prejuízo e perturbações.

A presença da Igreja conflitava com propósitos da metrópole. A religião converteu-se, portanto, em instrumento social e politicamente ativo, tendo também sido um dos primeiros núcleos de nacionalismo autêntico no Brasil. Era igualmente preocupante o fato de existirem, conforme indicam registros históricos, padres mineradores, como o Padre Faria. A Coroa temia, ainda, o acolhimento de pessoas, refugiadas das ações fiscais de Portugal, cujas leis do Vaticano lhes conferiam "certas" imunidades diplomáticas. O rei sabia que ocorriam 'acertos' paralelos, lesivos à ordem e ao Tesouro Real. Assim, nasceram as Confrarias. Os cidadãos contratavam um padre para ser o pároco de suas igrejas, e, nelas, quem decidia eram os confrades. Começaram a construir matrizes e capelas, cujo requinte afirmava, muitas vezes, o relevo social daquela comunidade. Nossa arte barroca se desenvolve, valendo-se muitas vezes de arquitetos e artesãos locais. As dificuldades de se trazer da Europa as peças barrocas, tão delicadas, incentivou um movimento em que os artesãos acabaram realizando a criação do Barroco Mineiro, um marco na arte mundial. Muitas vezes, financiado pela iniciativa das Confrarias que bancavam suas Matrizes.

Os grupos de negros superavam sua dificuldade financeira, ajudando na construção de suas igrejas com a sua mão-de-obra e, às vezes, valendo-se de expedientes, nem sempre tão religiosos, como os "santos-de-pau-oco" e a aplicação de ouro em pó nos seus cabelos, para, desta forma, contrabandear o ouro diretamente das escavações das minas, desviando recursos para suas igrejas. Os negros usavam suas confrarias para se organizar, também, contra a discriminação e sua exploração, sediando ali uma intenção política e não só religiosa.

Isto ocorreu para libertação de muitos escravos que compravam a sua própria alforria sendo que muitas irmandades de pretos mantinham um fundo em ouro para comprar a liberdade de seus confrades.

As Confrarias agrupavam, em suas Irmandades e Ordens Terceiras, a população associada que se submetia a seus estatutos que cuidava da consciência política daquela sociedade, arguindo inclusive o totalitarismo metropolitano.

Este catolicismo de leigos, alheio a conventos e às tradições eclesiásticas, concorreu de muitas formas com o processo social e econômico da produção local, chegando a formas originais no plano cultural e artístico.

(Texto extraído da apostila do SENAC-MG para o curso de Guia Regional de Turismo,
da professora Deolinda Alice dos Santos)

De que existam razões de fé neste caminho, não temos dúvidas. Mas, a par disto, poderemos vivenciar nessa trilha e nas dezenas de vilas, cidades e fazendas que se encontram em seu curso, as informações da construção de um Brasil que revelam ao turista uma herança de experiências que reforçam e valorizam a nossa identidade. Uma herança de uma mistura de raças que tem marcas, às vezes nem tão penitentes, como a gula, que nos acomete ao provarmos as delícias da culinária mineira, com marcas acentuadamente africanas. Portanto, vamos pensar em promover a Estrada Real como um museu vivo de nossa história. Vamos abrir nosso próprio baú. Deixemos Compostela para os espanhóis! Quanto ao segmento turístico ou atividade a que se presta, isto será determinado pela vocação natural ou cultural de cada lugar. Os diagnósticos finais que deverão concluir os registros deste livro vão sinalizar demais amplitudes desse mercado. Os viajantes poderão praticar longas jornadas, a pé, a cavalo, bike, ou como queiram. Ou poderão ficar alguns dias em algum lugar, fazenda, vila, pouso rural, acampamento etc., ou mesmo voltar no mesmo dia para dormir em seu ponto de partida. Esta polivalência é que dará à nossa Estrada Real uma variedade tão grande de se praticar o turismo que alcançará o interesse de todos os viajantes. Nossa história é rica o bastante para interessar viajantes e os mais diversos tipos de turistas.

A Expedição encontra-se agora em Barão de Cocais, um dos pontos procurados pelos turistas que vão visitar o Caraça. No Caraça, existe uma infra-estrutura razoável para o turismo. É um Parque Natural em um terreno onde, outrora, funcionou um célebre educandário. Hoje, com a assessoria da AMDA (Associação Mineira de Defesa do Ambiente), atuante ONG em nosso Estado, há um monitoramento do turismo naquela unidade, buscando preservar, ao máximo, a sustentabilidade ambiental. Pode-se considerar aquela área bem apropriada para o Turismo Ecológico. [4] Os visitantes podem ter, também, outros propósitos em sua estadia. Descansar, fazer caminhadas, observar os lobos cevados que lá freqüentam. É possível levar grupos de estudantes para excursões ecopedagógicas. Enfim, o Caraça não é só para o desfrute do Turismo Ecológico, pois dezenas de outras atividades e esportes radicais ali encontram um cenário perfeito. Mas contem com a orientação da AMDA. Devagar com o andor que o santo é de barro!

Nosso primeiro apoio na cidade de Barão de Cocais foi do Odilon da Selaria, que providenciou o capim para os animais. O Prefeito, Dr. Jair Pereira Costa, ofereceu-nos um almoço em um bar da cidade. Alguns preferiram comer no Bar do Tinho, próximo ao hotel.


[1]
Ainda hoje, lia uma pesquisa elaborada pela organização ecologista internacional, a WWF (World Wide Foundation), a respeito da velocidade do desaparecimento da flora e fauna mundiais. Desde 1970, a Terra perdeu 30% da sua riqueza natural.

[2]
Lembrete: as festas religiosas são um bom motivo para visitar as cidades mineiras. As festas de São João têm barraquinhas, dança de quadrilha, muita comida característica da época – pé-de-moleque, arroz-doce, pipoca. "Rola" muito quentão, vinho quente. Tem fogueira, bandeirinhas enfeitando. Músicas típicas com muita sanfona e moda de viola. As pessoas vestidas de caipira, com muita renda, chitão colorido. Namoros e paqueras esquentam esse clima. Temos procissão, velas, promessas, missas ...

[3]
A Espanha, que tem como indústria principal o turismo, transmite-nos, na verdade, uma preocupação nada exemplar. É que ocupa também o 5º lugar de destaque no mundo em ameaça às espécies vegetais. São 985 espécies em risco no momento, perdendo só para Ilhas Maurício, E.U.A., Jamaica e Turquia. Daí a nossa preocupação conquanto a transportar conceitos de outras culturas. Pode vir até com seus comprometimentos ambientais. Entre eles, é claro, o de âmbito cultural. Minas é o berço da arte brasileira. Vamos afirmar, também, nossos valores, de forma genuína, pois temos chance de criar produtos ecoturísticos adaptados às nossas regiões e realidades que são nossos verdadeiros bens de raiz. Vamos observar nas experiências ocorridas fora do Brasil os impactos causados pela indústria do turismo e manter a crítica severa, para evitarmos cometer os mesmos erros. Para mim, o Ecoturismo tem que ter este compromisso. Identificar sempre o limite de carga viável para cada destino. Em Ecoturismo, não cabem explorações 'verticalizadas'. Trata-se de empreendimentos organizados para serem desenvolvidos para pequenos grupos e por pequenas empresas. Vamos celebrar a alforria cultural! Parar de copiar os valores da "Colônia" e criar nossos próprios caminhos!

[4]
O Turismo Ecológico atende a pesquisadores da natureza ou àqueles que queiram admirar o meio ambiente, sua fauna silvestre, hoje tão ameaçados. No Turismo Ecológico, a "viagem" é de natureza científica ou quase científica. O que interessa é o conhecimento, a pesquisa e a experiência de aspectos ecológicos. Já o Ecoturismo tem um sentido mais conceitual. É uma qualidade de turismo em que se observa a integração do visitante com o meio ambiente, com plena harmonia. Respeitando o meio ambiente humano, social, cultural e natural, pode-se praticar diversas atividades, mesmo que não se atenha a observar apenas os aspectos ecológicos. Por exemplo: você pode praticar uma atividade ecoturística como Turismo Equestre. No entanto, você estaria usando o cavalo para passear; entende-se daí, ser uma experiência ligada ao Turismo de Lazer ou de Aventura. Poderia ser de âmbito cultural, se você estivesse numa tropa como antigamente, levando carga, organizada para uma revivência literal do tropeirismo daquela região. Caso você use uma cavalgada para prática de enduro, estaríamos promovendo um movimento no universo do Turismo Esportivo. Assim por diante, estaremos mudando de segmento conforme o interesse do turista. Mas, se na oferta daquele modelo de turismo houver o cuidado de se evitar o impacto de natureza cultural e ambiental, poderemos classificar o segmento ou atividade como Ecoturismo, não necessariamente Turismo Ecológico. Deu para perceber a diferença? Ecoturismo é uma maneira de se praticar várias formas de turismo. É o Turismo Sustentável – o que será incentivado no século 21!

Enviar link

© Henry Yu Caeté - Cachoeira Santo Antonio - Passeio de moto - Henry Yu Cachoeira Santo Antonio - Passeio de moto
© Sérgio Freitas Caeté - Caeté - Sérgio Freitas Caeté