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17 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Barão de Cocais

© Nelson Luiz Trindade Barão de Cocais - Cachoeira da Pedra Pintada - Nelson Luiz Trindade Cachoeira da Pedra Pintada

Os caminhantes saíram às 7:40, e nós, às 9:00. Deixamos o Hotur, hotel em que nos hospedamos, assim que o Toni (nosso câmera) retornou de uma gravação de imagens da cidade e dos expedicionários que haviam seguido a pé. Ele voltou inconformado, pois foi acusado de ser um “mauricinho”,[1] só porque usava roupas limpas. Também não estava trajado a caráter, como “tropeiro”, empoeirado, e sequer usava as tradicionais polainas (perneiras) para proteger as pernas na cavalgada. Seu sapato mocassim fugia ao nosso uniforme padrão e causou estranheza ao grupo. Vejam vocês como o “uso do cachimbo faz a boca torta”! O Toni, que até então vinha se deslocando a cavalo, registrou sua “imagem” como peão e bastou mudar o layout  para causar espanto e surpresa na turma! Efeitos da rotina em que vivíamos já há oito dias! A “lama” tornava-se parte do contexto!


Ainda no hotel, passo a vista nas manchetes de um jornal. Há dias não ouvia rádio, não via televisão ou lia os jornais. Estávamos desligados dos noticiários. Um instante de “a vida como ela é”. Uma manchete me chamou a atenção: “Morreu o ex-governador de São Paulo, Montoro!” Conheci sua filha, a poeta Mônica, que me apresentou um pouco da sua visão sobre a personalidade do seu pai, através de um poema que fizera. Aquela notícia me causou a sensação de uma perda quase pessoal. Afinal, percebia-o através da emoção declamada por Mônica. Desviei os olhos do jornal, para “evitar” qualquer outra informação catastrófica. A gente sabe de cada desastre e de tanta desgraça que chega a se sentir “culpado” e impotente.


Será que a população também não se sente impotente com relação ao fato de o nome de sua cidade ser mudado por decisão de uma pessoa? São tantas as vezes em que políticos e interesses particulares alteram nomes de ruas, cidades etc. É o caso de Barão de Cocais. Outrora Morro Grande, se viu assim intitulada quando da visita do Barão de Cocais, que morava em Cocais, e lhes impôs a mudança. Será que um plebiscito confirmaria a “homenagem”  que este senhor se atribuiu?


Já na saída, encontramos com Jabá, um promotor de rodeios, morador da região, que propôs uma “catira”[2] com um dos burros da tropa. Ofereceu um cavalo “cor de café maduro”, com oito anos, e outros dois animais. O Maurício rejeitou. Jabá explicou a importância de um burro[3] num picadeiro. É que, bem preparado para pular, ninguém pára em cima. O que o povo gosta de ver é o tombo.


Perguntei se o negócio de rodeios era lucrativo, e ele disse que não, mas “mexia com isso por paixão”. Estava sempre viajando com o 'espetáculo', para Divinópolis, Diamantina... A prosa não deu negócio e nos despedimos.


Nosso pouso neste dia seria na Fazenda João Congo, à frente de Cocais, e que fica no distrito de Campo Alegre, município de Bom Jesus do Amparo. Ligando para Dona Cici, Francisca Aparecida da Cruz – (31) 832-2051 – ou seu marido, o simpaticíssimo Sr. José Mota, eles tratam da locação. Recomendo solicitarem a visita do José Mota no “pacote de arrendamento”. Ele é um camaradão e anima a estadia!


Cruzamos, logo na saída da cidade, com um senhor que conduzia uma tropa de burros de carga, carregada de candeias e outros gravetos. Tenho observado que as tropas remanescentes se prestam muitas vezes a uma economia informal e, muitas vezes, também criminosa, que, como esta, contribui para a extração de lenha. Logo a seguir, já ia outro “lenhador” carregando lenha no carrinho de mão. Outro utilitário do transporte de lenha com o qual havíamos cruzado era um fusquinha. O fusquinha é outro “animal” de tropas passadas, quero dizer, frotas do passado, mas que heroicamente sobrevive aos avanços tecnológicos. Valorosa ferramenta e modalidade de transporte que freqüentemente encontraríamos naquele caminho. É como dizem, uma espécie de jipe em extinção.


Nessa trilha, um dos grandes atrativos são as sete cachoeiras da Pedra Pintada, onde um grupo da agência de Ecoturismo Terra Nossa estava praticando uma atividade chamada canyoning (descida da cachoeira por cordas com técnica de rapel). A nossa equipe da Lis Produção & Comunicação, motorizada, estava lá para gravar as imagens que seriam editadas no documentário, para demonstrar as práticas ecoturísticas na Estrada Real. Preocupei-me com o fato de a Suzana ter estreado na categoria, ligando na ação sua imagem de expedicionária, mas a coisa correu tão bem que ela quer repetir a cena. O segredo da segurança nestas atividades é o monitoramento. Anteriormente, havia um camping próximo às cachoeiras, e o Helinho comentava que, com empenho, a AMO-TE conseguiu que o IBAMA proibisse acampamentos naquela área. A falta de infra-estrutura já estava trazendo comprometimento sanitário para o local. Este esforço voluntário da AMO-TE é uma das maneiras de luta para construir o setor com apurada qualidade ecoturística. Nosso documentário, com o apoio da agência GAIA de Ecoturismo,  pretende mostrar canoagem no Rio Cipó. Uma escalada na Pedra Branca, em Barão de Cocais, também está programada com a empresa Serras de Minas.


A tropa fez uma parada em outro atrativo muito especial, logo depois da cachoeira, para observarmos as inscrições rupestres na Pedra Pintada. Acredito que outros relatos deverão descrever com mais propriedade o valor e o significado desses registros ali existentes há dez mil anos. O setor é bem conservado, e a UFMG orienta os proprietários a cuidar daquele patrimônio arqueológico. A família proprietária da fazenda cobra uma quantia simbólica e ainda oferece uns bolinhos de feijão feitos na hora, com café. Energia dupla. Comida quente e calor humano. Êta, Minas Gerais! Que lugar de gente cordial!


Não menos receptiva foi a população de Cocais, logo à frente. A cidade é um encanto. Cheia de atrativos: uma bela igreja era parte de um cenário natural preservado daquele tempo passado. Mas todo o lugar parecia ainda ligado a outros tempos. Havia uma calma e tranqüilidade no ar que nos contagiava. Em Cocais, existem três pousadas, bar onde se pode comer e beber. Está apenas a 89 kms de Belo Horizonte, por rodovia. Portanto, insere-se naquele raio de distância da capital que permite aos que não dispõem de mais tempo para se hospedar na região, ir a passeio e voltar no mesmo dia. É o que chamamos excursionismo. Daí entendermos que até a 100 km do pólo emissor compreenda a fronteira turística da região emissora do turista, no caso, Belo Horizonte, portanto, enquadra-se plenamente nesse mapa que consideramos como sendo parte integrada à sua grande região metropolitana turística.


Conversamos com algumas pessoas e ficamos sabendo de outros atrativos na região, como a Cachoeira do Joaquim Carvalho, com alternativa para acampar. A Cachoeira do Macuco, ali perto, tem poço para se nadar e conta, em sua infra-estrutura, com barzinho. A comunidade próxima, também de nome Macuco, tem razoável equipamento, conta com posto médico, ônibus e ainda sempre há quem acompanhe o turista por lá.


Como já estava ficando tarde para chegarmos ao nosso pouso, aceitamos a gentil oferta de um morador de nome João que, em sua moto DT, nos guiou por atalhos que, muitas vezes, eram  marcados por obras de contenção feita por mão-de-obra escrava, confirmando que era uma opção verdadeira das trilhas do passado.


Enquanto encurtávamos o caminho para a Fazenda João Congo, curtíamos o entusiasmo do nosso guia que, muitas vezes, nas descidas, desligava o motor de sua moto preenchendo o silêncio com entusiasmadas declamações de poemas e cantorias sertanejas. As primeiras estrelas surgiam. Se a superstição de ter atendido os pedidos dirigidos às primeiras estrelas da noite se cumprir, o meu desejo era de que muita gente pudesse viver tantas emoções quanto aquelas que a viagem desta Expedição na Estrada Real proporcionou.


Na Fazenda João Congo, teríamos o nosso primeiro dia de folga. À noitinha,  fomos recebidos com muita festividade pelos demais, que já haviam chegado. Distribuímo-nos, uns nos quartos, outros nos sacos de dormir espalhados nas salas. Houve até quem acampasse do lado de fora da casa. Era um casarão antigo de fazenda, que hoje sobrevivia de arrendamentos para turistas. Mas, como na diária combinada não incluímos alimentação e contávamos com o dia de folga, acabamos nos divertindo muito na área da copa e da cozinha da casa. Acreditamos que alternativas simplificadas, como aquela, são fórmulas positivas para o turismo baratear a diária. O Ted estava encarregando-se de inventariar essas moradias, preenchendo um questionário específico, com seus proprietários. Depois, junto com o SENAC-MG e, se possível, com outros agentes, vamos elaborar um amplo projeto para criar infra-estrutura nesta rota. Os chamados Pousos Rurais.


No caminho de Cocais até esta parada, passamos por um fazendeiro, o Sr. Mário Trindade Sírio, de cuja fazenda centenária se dispôs a ceder um pedaço de terreno, para que implantássemos algum projeto comunitário voltado para o turismo. Andréa e Vânia fizeram esse registro e realmente existe a chance do SENAC-MG ajudar a criar um Albergue Rural, onde se hospedarão turistas, aventureiros e alberguistas da Estrada Real. Ali, terão chance de serem acompanhados por guias e operadores com mão-de-obra capacitada para a região. A meta será estabelecer uma escola prática, criando um incentivo financeiro através da implantação de produtos ecoturísticos e estimulando os operadores locais, que contribuirão com uma taxa destinada para a  comunidade de Cocais. Na correta concepção, o profissional/acompanhante local de turistas deve ter sua diplomação restrita à região em que atua. Cada ecossistema tem sua realidade própria e diversa. O ideal é capacitar esta mão-de-obra por núcleo ou pólo que venhamos estabelecer.  Estaremos irradiando as informações para constituir um mercado útil a toda a população da região. Outros núcleos, com características próprias, pretendemos criar no caminho. Seriam: Rio Acima, Ipoema/Senhora do Carmo, Morro do Pilar e Serro.


No dia seguinte, sairíamos de Sabará, deixando para trás uma cidade com uma riqueza de história que recomendo a todos um pulo até lá. Estando próximo de Belo Horizonte, você pode ir a Sabará facilmente de carro, trem ou ônibus. Há uma infra-estrutura completa, cheia de restaurantes, hotéis, monumentos, chafarizes, igrejas barrocas, teatro antigo, rica em histórias e tradições, e um calendário super festivo. Agora, por exemplo, está acontecendo o Festival da Cachaça. Vale conferir o Guia, que vem junto com este livro, para mais informações sobre o potencial turístico de Sabará.


Embarcamos, rumo a Caeté. Poderíamos ter ido por Morro Vermelho, que é um caminho mais apropriado para a tropa e também usado no passado. Nosso dilema se dava porque a antiga estrada por que passaram Spix e Martius recebeu um asfalto, sem um acostamento seguro, podendo oferecer algum risco diante do fluxo eventual de trânsito rodoviário. Ponderamos então sobre transpor aquele trecho em veículos motorizados. A tropa foi levada de caminhão. Ajudaram-nos neste embarque o caminhão da prefeitura de Caeté e o caminhão de transporte cedido gentilmente pelo Nem do Caminhão, que veio de Raposos só para “dar uma mãozinha”.  Reitero aqui o agradecimento a ele que, numa iniciativa particular e desinteressada, solidarizou-se conosco, voluntariamente. Registro aqui seu telefone (31) 9970-8720, caso alguém precise transportar animais na região de Raposos/Belo Horizonte/Nova Lima/Rio Acima e adjacências.


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[1] Apelido dado a quem anda “arrumadinho”, bem vestido. Antigamente, de forma também pejorativa, chamavam a pessoa de “almofadinha”.

[2] Catira: troca.

[3] Os burros e mulas, os muares em geral, também têm características diferentes dos cavalos, na ação tropeira. Eles são mais resistentes e rústicos para manutenção, porém, sua velocidade de deslocamento é mais lenta e sua comodidade é menor. Há também que se considerar sua menor docilidade. Neste sentido, meu amigo Jorge Aguiar recomenda que o burro seja filho de égua Mangalarga, adquirindo, neste cruzamento, uma índole mais social. Para quem não conhece o Jorge, ele é aquele cavaleiro que cruzou o Brasil a cavalo, batendo o recorde mundial de jornada a longa distância. Por sua façanha de ter cavalgado na mesma tropa (2 cavalos), em que alcançou 25 mil kms, mereceu o destaque do livro Guinness. Ele conta que, no início, tentou levar a carga em lombo de burros, mas estes não lhe conferiam o aparelhamento necessário, sendo por isso obrigado a dispensá-los. Seu comentário: “O burro é como trator. Não se pode acelerar. Ele é mais lento.”. Por estas razões – segurança, conforto e agilidade – é que o Turismo Eqüestre recomenda os cavalos.

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© Nelson Luiz Trindade Barão de Cocais - Formação de Cristais - Pedra lascada - Nelson Luiz Trindade Formação de Cristais - Pedra lascada
© Nelson Luiz Trindade Barão de Cocais - Cachoeira da Pedra Pintada - Nelson Luiz Trindade Cachoeira da Pedra Pintada
© Nelson Luiz Trindade Barão de Cocais - Pintura Rupestre - Nelson Luiz Trindade Pintura Rupestre
© Henry Yu Barão de Cocais - Sítio Arqueológico da Pedra Pintada - Henry Yu Sítio Arqueológico da Pedra Pintada
© Henry Yu Barão de Cocais - Capela de N. Sra. Do Socorro - Henry Yu Capela de N. Sra. Do Socorro