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19 de julho de 1999 - (SxM) - Saída da Fazenda João Congo

© Betho Feliciano Bom Repouso - Carro de Boi - Bairro dos Bentos - Betho Feliciano Carro de Boi - Bairro dos Bentos

Próxima parada: Ipoema. Saímos, como sempre, após os caminhantes. Logo à frente, transpusemos o asfalto da MG-04, em Ponte dos Machados. Em breve, viríamos a atravessar uma ponte de nome curioso – “Ponte da Boceta”. [1] Segundo a lenda, um padre, ao transpô-la, deixou cair sua bolsa com muitas moedas e nunca mais a encontraram. Saindo da ponte, há um calçamento de pedras feito por escravos. A gente vai observar com freqüência nas trilhas ainda preservadas na forma original da Estrada Real, que os calçamentos ocorriam sempre que a trilha atravessava terreno úmido ou propenso à erosão. Era para evitar o comprometimento das rodas dos carros de boi que por ali transitavam e que, sendo de madeira com pinos de ferro, erodiam os terrenos macios que pisoteavam.


A propósito, o carro de boi pode ser uma maneira interessante para reviver “aqueles” tempos nessas trilhas. Adaptando-o com pneus, para transporte de turistas, poderemos criar produtos que seriam verdadeiros safáris – históricos, culturais e aventurescos. A oferta desse tipo de serviço pode atender inclusive às pessoas com idade mais avançada. Podemos e devemos também considerar que há outro mercado ávido por produtos turísticos e que é pouco percebido: trata-se dos deficientes físicos. Há hoje um contingente de 10% da população do Brasil, portadora de alguma deficiência física. O carro de boi atende possivelmente a essa demanda. Adaptar e equipar nossos destinos para receber este turista é mais do que uma oportunidade. Devia ser lei!


Estamos passando agora pela cidade de Bom Jesus. O prefeito José Inocêncio Dumond e João Carlos Mota nos aguardavam. Uma vez mais, uma recepção da população, coordenada pelos cavaleiros da região. Lá estavam eles com farofa, feijão tropeiro, laranjas e alegria. O Clube do Cavalo[2] contava com coordenação do Luiz Carlos e liderança do Sr. Nesito (com seus 70 anos de idade), montando seu ótimo burro. Um dos cavaleiros era o Sr. Sebastião, que está construindo uma pousada naquele local. Ele pretende fazer cavalgadas com grupos de turistas naquela região. Falou-me também da cachaça que produz em seu alambique na fazenda da Serrinha, cerca de 500 litros/mês, e que é bem conceituada na praça.[3] Adverti-o de que cavaleiros-turistas, pouco acostumados com hipismo e nem tão íntimos da cachaça, constituem um risco de acidente quando beberem em exagero. A pinga derruba mais do que os cavalos, alertei.


O conjunto arquitetônico de Bom Jesus transmite-nos muita história, através das fachadas ainda conservadas de suas casas e da igreja matriz de Bom Jesus do Amparo.


Por aqueles caminhos, observamos a realidade precária das fazendinhas, sem qualquer produção além da subsistência, vítimas de uma política agrícola falida. O turismo pode representar uma ajuda para o meio rural. Ali perto nos informaram que havia uma fazenda, Rio São João, com 300 anos, que é tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e que se encontra em estado bastante arruinado. Com suas mais de 100 janelas, deve ter sido uma suntuosa sede. Antigamente, consideravam que quanto maior o número de janelas, mais poderoso era o fazendeiro. Já pensaram no Hotel Fazenda em que poderia se transformar? O nosso fotógrafo, André, solicitou um guia local, o Sr. Wilson, e, no carro da EMATER, foram até lá registrar as imagens que deverão ilustrar este livro.


Juntamente com o grupo do Clube do Cavalo de Bom Jesus encontravam-se, também nos esperando, nossa nova escolta, o vereador Zé do Cachimbo e sua esposa Zélia, o prefeito Jackson Tavares e a primeira-dama Maria Lúcia, de Itabira. Eles cavalgaram conosco durante três dias, dando uma escolta, não a nós, mas ao turismo, que mostraram ser projeto prioritário do Governo Municipal. A TV Cultura de Itabira também prestigiava nosso encontro, divulgando a Expedição Spix & Martius - 1999.


Depois de uma volta pela cidade, seguimos para Ipoema. Não poderíamos deixar de dar uma parada na fazenda conhecida por Fazenda da Venda de Cima. Ali, identificamos uma vocação para que se transforme em hospedagem tipo casa rural. Tendo sido ponto de comércio de tropeiros no passado, vemos intensificado o desejo de visitá-la, aliando seu acolhimento e a sua história à arquitetura colonial. Situada bem na beira do caminho, vemos por isso outro aspeto facilitador para o êxito de um Pouso Rural bem sucedido. Ao longe, avistamos outra fazenda, a Fazenda do Cabo de Agosto, citada por Spix e Martius como Cabo d'Agosto.


Logo adiante, um grupo de cavaleiros da comunidade de Turvo, região de Ipoema, juntou-se a nós. Havia uma amazona mirim, de sete anos, a Helena, filha de José Inácio Vieira. Sua adaptação ao cavalo demonstra que, para equitar, não há limite de idade. É preciso orientação, treino e cavalo apropriado. Ela me disse que já nasceu sabendo montar.


Enquanto escrevia estas linhas, recebi um telefonema da Suzana, que me recomendou assistir a um documentário que estava passando no canal GNT, sobre cavalos; Horses era o título, produzido pela National Geographic Television. Extraí o seguinte detalhe da narração:


O mundo era impulsionado pelo cavalo e nenhuma criatura nos ajudou tanto no progresso. Mas, mesmo com sua substituição pelo desenvolvimento tecnológico, hoje existem mais cavalos no mundo do que antigamente. O plantel estimado é de 62 milhões de cavalos. Mesmo que não mais transformando o mundo, ele transforma pessoas.


O Brasil é um dos países de maior plantel, estimado em mais ou menos 6,5 milhões. Outro dado importante de se registrar é o fato de esse setor gerar mais ou menos 250 mil empregos diretos e 1 milhão e 250 mil, indiretos. Bem aventurado mercado! Oferta superior à do setor metalúrgico. Não polui e ainda oferece uma condição excepcional de emprego. Quem lida com cavalos, normalmente, está sedimentado no campo, próximo às suas cidades de origem. Confere, ainda, alguma dignidade, existem parcerias, em hortas, no leite, têm casa para morar, escolas para os filhos dos colonos, água, luz, carteira de trabalho. Não é nenhuma maravilha, mas evita muita miséria, característica do modelo de desenvolvimento concentrado nos grandes centros urbanos onde vive, hoje, 80% da população do mundo. Além das favelas que proliferam, existe a ameaça da evolução da eletrônica, da robótica e da automação, que estarão suprimindo, cada vez mais, a oportunidade de trabalho nas grandes metrópoles.


O Ecoturismo, igualmente, é uma de nossas grandes alternativas, com ofertas mais adequadas de trabalho, oportunidade de qualidade e sustentabilidade. No meio rural, o cavalo ainda é de grande utilidade, às vezes como transporte, às vezes como ferramenta de trabalho. Nos criatórios, é um grande produto comercial. No lazer, sua função é excepcional. No turismo,[4] idem. No esporte, nas terapias etc... etc... etc...


Mas, para alcançar essas metas, nada melhor do que uma bênção como a que consagrou o Diácono Luzardo, na porta da igreja.[5] Na “Bênção dos Animais”, invocou a Deus, para nos dar o ensinamento e a iluminação, a fim sabermos nos relacionar com todas as criaturas e, em especial, com os animais que nos transportaram até ali. Com essas boas-vindas, entramos no município itabirano.


No território de Ipoema, já identificávamos alguns recursos para atividades ecoturísticas. Uma delas é a Cachoeira Alta ou a do Macuco. Com grande potencial para o escoteirismo, campismo, lazer, prática de canyoning, cicloturismo, cavalgadas e muito mais. O que nos garante criar tantos produtos neste atrativo, além da sua vocação natural, é o fato de a área pertencer ao Sr. Onervino, pai de Zé do Cachimbo, e ele já ter designado seu sobrinho, o biólogo Marco Antônio Azevedo, para tocar a demanda. O irmão Rogério é quem cuida da área da cachoeira, já recebendo ali turistas. Estes mostravam-se bastante motivados e bem capacitados. Além disso, há, nas cercanias, as Serras da Garça, a do Naná, as Bandeirinhas, com todo um clima apropriado para o montanhismo, que precisam ser conhecidas por suas belezas incontáveis.


Fomos parar no grupo escolar, onde nos ofereceram um lanche e fizeram uma exposição de objetos do tempo do tropeirismo na região. Uma senhora da comunidade, muito fina, a D. Geni, nos apresentou algumas daquelas antigüidades. Havia trempes para os tropeiros cozinharem; roupas de cama “daqueles tempos”; um leque de 1903; uma fivela de 1913; pilão; chaleira de ferro de 80 anos. Ela é sogra do ex-prefeito de Bom Jesus, João Mota, que é irmão do Zé Mota, dono da fazenda João Congo, e que nos acompanhou a cavalo até ali.


Continuando a apresentação das peças do tempo das tropas, Dona Geni nos apresentou bordados de crivo do norte, com 150 anos de idade, que pertenceram à sua avó. Curiosos eram os travesseiros em formato de longos tubos, uma raridade. Depois, ela nos levou a ver mais material de tropa: cincerros, cangalhas, retranca, peitoral do burro de guia. Para o cavalo madrinheiro havia um peitoral cheio de cincerros e guizos. Tudo muito bem areado. O burro de guia tinha uma focinheira para que ele não parasse para pastar e, na mostra, havia uma delas. Tinha estribos, alguns com as insígnias do Império gravadas em peças de prata; o candeeiro que iluminava o rancho.


Dona Geni era filha de tropeiro e apresentava tudo com muita intimidade. Na mostra, havia uma caixa curiosa, um tipo diferente de baú. Era uma mala para o enxoval de casamento, que tinha, mais ou menos, 90 x 40 cm, e 40 cm de profundidade, própria para ser embarcada na cangalha, que é colocada no lombo do burro. Logo a seguir, tinha um suporte para coador de café, que era utilizado em viagens, “espetado” no chão de terra pela comitiva que ia à frente para preparar o rancho da tropa.


A intenção daquela comunidade era enriquecer nossa experiência com essas informações. Soubemos, através da funcionária do Departamento de Turismo da Prefeitura de Itabira, a também promoter Malu (Maria Luiza Sampaio Sakani), da intenção de criarem um memorial do tropeiro, naquela região. Esta ação já está encontrando o apoio do SENAC-MG, segundo nos informou Dr. Sebastião, seu Diretor. O envolvimento da comunidade com o tropeirismo é grande. Fui apresentado a um grupo que promove cavalgadas na região. Tal grupo é da comunidade vizinha, de Turvos. A equipe era liderada pelo Êdo, de quem ficaríamos amigos.


Santo Afonso da Aliança – assim se chamava Ipoema antigamente. É mais um lugar em que a população não foi consultada para a alteração do nome da cidade. Em caso de uma enquête, será que seus moradores não gostariam de reaver o antigo nome?


Ainda naquela recepção, quero registrar as novidades da culinária, petiscos que provei pela primeira vez na minha vida. A comida foi organizada pela comunidade de Turvo. Conheci o “cubu”, a “broinha de rapadura”, “rosquinha de nata”... E, se quiserem saber o gosto, é fácil. Dêem um “pulo” até lá. Ou fiquem com “água na boca”, porque posso garantir que vocês vão adorar!


Encontramos mais um companheiro entusiasmado com as notícias de nossa viagem. É o Nélio, presidente do Clube do Cavalo de Itabira. O papo na roda era só sobre tropas. Muitos tropeiros saudosos, lembrando das “comitivas”. Suas viagens, às vezes, mantinha-os um ano e meio fora de casa. Dormindo ao relento, para “economizar uns trocados”, mas sempre se distraindo com modas de viola e prosa, ao lado das fogueiras. Em uma das histórias, um tropeiro nos contava que a carga que ele levava era de toucinho, carne, feijão, em grande quantidade. Iam até Santa Bárbara, onde despachavam tudo de trem. Chegavam a levar 200 burros carregados! Nas “rodinhas” que se formavam para nos prestigiar, não faltavam dos mais simples cidadãos aos mais ilustres. Acabei por conhecer o pai do Zé do Cachimbo, o Sr. Antônio Adelson, administrador da cidade e ex-prefeito de Itabira. Todos se desdobravam na hospitalidade. A jornalista Eleni Cássia, do Jornal de Itabira, a Dona Dudu da comunidade do Turvo, e muita gente boa.


Fomos dormir na pousada da Gina Leandro e do Reinaldo Vieira. Há quem trate o lugar como Termas do Rei! Acho o nome sugestivo, pois percebemos um reinado de bom gosto e competência receptiva. A Gina nos levou para conhecer a represa, a área de camping, sua infra-estrutura e falou-nos sobre os projetos que irão realizar na área de turismo.


Além do bom gosto, vimos cuidados especiais com a arquitetura. Os chalés são convenientemente separados, com cuidadoso distanciamento para respeitar a privacidade dos usuários. As áreas também não se comunicam. Os banheiros das “termas” são enormes e têm, inclusive, unidades para deficientes físicos. Estão preparados para crescer. Para reservas, ligue: (31) 3334-5336 / 3833-9117.


Naquela manhã, ouvimos da Malu um estímulo muito grande. Ela nos disse que nossa presença valorizava a auto-estima dos moradores. Eles tinham esperança de que, com o turismo, se tornariam úteis depois de tanto tempo em que seus valores culturais e oportunidades de emprego, comércio etc., tinham perdido a importância para outras rotas industriais e minerárias. Nossa passagem reabilitava perspectivas de desenvolvimento para a região. Confesso que essas declarações eram comoventes e nos estimulavam a ir até as últimas conseqüências no planejamento que idealizamos para o desenvolvimento do turismo na Estrada Real. Houve gente que nos apelidou de “Cavaleiros da Esperança”. É muita responsabilidade! Mas aceitamos o desafio!


Dizendo de responsabilidade, acabamos por passar pelo posto de reciclagem de lixo de Ipoema. Nota-se uma preocupação de desenvolvimento com qualidade ambiental. A questão de saneamento e meio ambiente sustentável inspira nossa conversa. Encontravam-se entre nós o biólogo Eduardo Mota Dias, o Dr. Felipe Maia, médico substituto do Dr. Paulo Magno (que teve que voltar para Belo Horizonte) e que seguiria caminhando conosco. Criticamos a possibilidade de a agricultura admitir trabalhar com sementes transgênicas, sem uma avaliação profunda dos riscos que não haviam sido completamente avaliados. Afinal, eram empresas de pesticidas, como a RANDUP, que estavam desenvolvendo e colocando estas sementes no mercado brasileiro. Seu cultivo poderá comprometer a saúde, a agricultura, e o mercado pode sofrer uma espécie de controle dominador. Isto porque, no futuro, podemos ficar condicionados ou dependentes de suas sementes estéreis de laboratório

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[1] Boceta: espécie de saco pequeno, no qual se carregava, comumente, fumo, rapé e moedas.

[2] Constatamos que, em cada localidade, esses grupos ligados ao do cavalo podiam se tornar um agente de grande ajuda para organizar o Ecoturismo na região. Dele fazem parte todos aqueles que apreciam cavalos, indistintamente de poder aquisitivo ou classe social, até porque tem cavalo de todo preço e raça. O cuidado e preparo com o animal pode habilitar seu proprietário a acompanhar grupos de cavalgadas e brincadeiras. Pelo potencial mobilizador destes grupos, que sempre se fizeram presentes em nosso caminho, com eficiente apoio, é que devemos manter o entrosamento que será importante para coordenar nossa missão de envolver e incentivar as comunidades para o Ecoturismo.

[3] O Governo de Minas Gerais tem projeto para exportar a cachaça artesanal, padronizar os 120 milhões de litros produzidos em nosso Estado com a qualidade que dominamos e colocar a produção no mercado é uma meta prioritária da EMATER. Nesta competição, estaremos gerando mais renda em Minas Gerais. O projeto pretende, até, orientar na correção do solo para obter melhores espécies de cana. “Vai dar caldo”!

[4] Segundo a OMT (Organização Mundial de Turismo), o Turismo Eqüestre está entre as atividades que mais crescem no mundo.

[5] Após este registro, em 23 de outubro de 1999, o Diácono Luzardo de Fonseca Teixeira foi ordenado sacerdote. A comunidade celebrou o fato com muita festa.

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